Decidiu Manuel Villaverde Cabral (MVC) criticar a crónica de Rui Tavares (RT), por sinal bem esgalhada, sobre o "accordo ortográfico" renegado por Vasco Graça Moura no seu feudo cultural de Belém. Fez bem, a discussão terá de ser feita, ou, para o caso, refeita, porque andou-se vinte anos com o acordo pendurado, com poucas vozes discordantes (diga-se que VGM tem sido um incansável herói da luta anti-acordo, alma lírica de uma luta perdida à partida) e apenas agora, que o dito VGM foi alçado a uma posição de pequeno poder, todos os opositores do acordo começaram a... opor-se; ter-se-ão lembrado demasiado tarde, mas que diabo, isso é um pormenor.
Adiante. Vamos passar por cima da elaboração qualificativa do tom do texto de Rui Tavares; se MVC não compreendeu a jocosidade da crónica de RT ("pretensamente" é o advérbio escolhido), é pena; o texto é bastante divertido, no tom faceto e na, de algum modo trabalhosa, transcrição para português anterior ao acordo de 1911. De certo modo, esta seriedade de MVC - na qual é acompanhado pela maioria do detractores do AO, VGM à cabeça - é uma das principais razões para a minha simpatia tender para a criação de um acordo. Não necessariamente este, mas um acordo que permita uma aproximação entre as diferentes variedades linguísticas da língua portuguesa. No fundo, trata-se de uma questão estética. Careta é o termo brasileiro que me ocorre ao lembrar-me desta gente séria, mas isso sou eu, que, independentemente da regra linguística em vigor, escrevo, bem ou mal, como quero e me apetece, o que, não tenhamos ilusões, corresponde a afirmar que escrevo conforme me ensinaram, pelo antigo acordo, aquele que foi assinado em 1911 e revisto em 1945.
- Texto escrito segundo um antiquíssimo Acordo Ortográfico -.

Há umas semanas entrei num estabelecimento comercial de Lisboa e, ao longe, vi uma figura conhecida da nossa praça. Saí imediatamente. Quem me conhece sabe que sou uma pessoa tolerante no trato pessoal. Não confundo as minhas divergências políticas ou outras com falta de civilidade. Mas, como toda a gente com espinha, tenho os meus limites. Parafraseando Pinheiro de Azevedo: "Não gosto de ser roubado. É uma coisa que me chateia."
A pessoa em causa era Dias Loureiro. Pois andava ele por uma das principais avenidas de Lisboa na maior das calmas. De regresso a casa, não pude deixar de pensar: um dos principais envolvidos na maior fraude financeira de que há memória Portugal, que custou milhares de milhões de euros aos contribuintes e teve um papel decisivo nas enormes dificuldades que os cidadãos estão a viver, poderia, num outro qualquer país, andar calmamente na rua sem, pelo menos, se arriscar a ouvir das boas? Pensando nisto, não sabia responder se a nossa suavidade resulta de uma especial civilidade ou de alguma falta de coragem. Sabendo que eu preferi sair da loja a dizer-lhe o que penso, e porque não me tenho como cobarde, apostei na primeira. Não gosto de peixeiradas em locais públicos. Não serei o único. Olhando, nesse mesmo dia, para dois automobilistas que se insultavam por coisa nenhuma, apostei na segunda.
Que Dias Loureiro ande pela rua, como se nada a fosse, não me chega a irritar. Tenho uma remota (muito remota) esperança que venha a ter um encontro com a justiça. Isto apesar de saber que Madoff está preso e a esmagadora maioria dos senhores da SLN e BPN não só estão muitíssimo bem como são, em catadupa, nomeados para empresas, comissões e cargos públicos.
O que me incomoda, depois de ter ouvido Dias Loureiro a mentir descaradamente na comissão de inquérito ao BPN (os documentos conhecidos provam as mentiras sem margem para dúvidas) e de todos sabermos até que ponto foi responsável por muitos negócios ruinosos na SLN, seja um dos principais conselheiros políticos do nosso primeiro-ministro. E que, segundo uma notícia do "Correio da Manhã", represente empresários angolanos na compra de órgãos de comunicação social. Entre eles, quem sabe, pode estar parte da RTP. Assim como o senhor Rendeiro continua a viver muitíssimo bem e também ele trata da sua vida. E nada disto parece provocar especial incómodo. Neste País, tudo se recicla e negócios são negócios. Cada um sabe dos seus.
Fico a pensar se esta não é a nossa sina. Se não temos a justiça que merecemos. Como a nossa indignação é sempre difusa - contra "os políticos" e "os poderosos" -, os espertos passam entre dos pingos da chuva. Dias Loureiro andará por aí. E, quem sabe, quando passar algum tempo, até venha a ter de novo um cargo público ou na banca nacional. Os seus amigos políticos não o deixam cair, isso parece evidente. E os portugueses não se importam.
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Açores, Madeira, Lisboa, Porto, Sines, Torres Vedras, Loures, Amadora, Vila Real, Ovar, Figueira da Foz e Cascais decidiram mostrar o dedo a Pedro Passos Coelho e vão dar tolerância de ponto no dia 21 de Fevereiro. E ainda faltam 12 dias para o Carnaval. Este ano, os caretos vão andar para as bandas de São Bento.
Adenda: os bancos, incluindo o Banco de Portugal irão estar encerrados na terça-feira de Carnaval. E Marcelo Rebelo de Sousa diz que o Governo "perdeu [a batalha] a nível nacional, regional e local". Terá aprendido a lição, o pobre - ganha pouco, coitado - político Coelho?
Enquanto se espera que os contornos da negociação com a Grécia fiquem mais claros, vale a pena espreitar aquilo a que se dedicam os respeitáveis mercados financeiros.
O Deutsche Bank, sempre empreendedor, tem uma nova oportunidade de negócio para os seus clientes: o db Kompass Life 3. Trata-se, no fundo, de um jogo de apostas com apólices de seguro. Se o reformado morre mais cedo, ganha o investidor. Se vive mais tempo, fica a ganhar o banco. Para o jogo de apostas ser realmente emocionante os segurados têm entre 70 e 90 anos.
Quando os investidores perceberam os contornos deste produto, sentiram-se ultrajados. É que as tabelas de longevidade não são atualizadas e ainda ninguém recebeu um chavo. Os velhos não há maneira de morrerem. Um escândalo! Foi apresentada uma queixa. A provedoria da banca alemã, talvez distraída em relação às suas funções, concentrou-se noutro tema: achou este negócio "um macabro jogo de contas". Um advogado que representa trinta investidores neste fundo aproveitou a deixa para que os seus clientes recebam de volta o dinheiro que ali não rende: o fundo "é contrário aos bons costumes e, portanto, nulo". Tivesse o retorno esperado e quer-me cá parecer que os costumes destes investidores aguentavam bem todas as contrariedades.
Claro que na Alemanha e fora dela este negócio está a causar grande indignação. Mas o que julgam que andam a fazer o mercado nos últimos anos? Apostas de vida ou de morte. Primeiro foi com empresas e Estados. Agora com pessoas. Este mórbido jogo até é pedagógico. Fica muito mais claro o ambiente moral em que se move este casino. E o que são exatamente os "mercados financeiros", sobre os quais continuamos a falar cheios de imperativos éticos de bons pagadores. Os mercados não são ninguém. São a ganância à solta. Não sejam piegas. Deixem o mercado funcionar sem entraves. A começar pelos velhos americanos, que, seguramente por serem inimigos da livre inicativa, teimam em não morrer.
Se as maiores empresas alemãs, incluindo o Deutsche Bank, ganharam tanto com o trabalho escravo nos campos de concentração nazis, imaginem o que podiam ter ganho com estas estimulantes apostas. Como dizia o imperador Vespasiano, o dinheiro não tem cheiro. E quem defende a liberdade absoluta do capitalismo financeiro não deve sentir nojo de nada. Deixem que seja a ganância do mercado a determinar a política dos Estados e verão como ainda seremos capazes de grandes feitos.
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Bem lembrado aqui pela Shiznogud, o assunto das indemnizações que a Alemanha nunca pagou à Grécia e que agora volta a ser trazido à baila por deputados gregos.
E este texto de Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias:
"A agência de rating Moody's baixa a nota da Grécia; as taxas de juro explodem; o país declara falência; a população revolta-se; o exército toma o poder, declara-se o estado de urgência e um general é entronizado ditador; a Moody's, arrependida pelas consequências, pede desculpa... "Alto!", grita-me um leitor, que prossegue: "Então, você começa por dizer que vai recapitular e, depois de duas patacoadas que todos conhecemos, lança-se para um futuro de ficção científica?!" Perdão, volto a escrever: então, recapitulemos. Só estou a falar de passado e vou repetir-me, agora com pormenores. A Moody's, fundada em 1909, não viu chegar a crise bolsista de 1929. Admoestada pelo Tesouro americano por essa falta de atenção, decidiu mostrar serviço e deu nota negativa à Grécia, em 1931. A moeda nacional (dracma) desfez-se, os capitais fugiram, as taxas de juros subiram em flecha, o povo, com a corda na garganta, saiu à rua, o Governo de Elefthérios Venizelos (nada a ver com o Venizelos, atual ministro das Finanças) caiu, a República, também, o país tornou-se ingovernável e, em 1936, o general Metaxas fechou o Parlamento e declarou um Estado fascista. Perante a sua linda obra, a Moody's declarou, nesse ano, que ia deixar de dar nota às dívidas públicas. Mais tarde voltou a dar, mas eu hoje só vim aqui para dizer que nem sempre as tragédias se repetem em farsa, como dizia o outro. Às vezes, repetem-se simplesmente."
António José Seguro explicou a sua difícil situação: não concorda com partes do memorando do troika mas quer cumpri-lo, porque foi o PS que o negociou. Passos Coelho agradeceu e repetiu que tinha sido o PS a negociá-lo. Lembro-me do PSD ter-se vangloriado do seu importantíssimo papel na negociação. Mas adiante.
Aceitemos, até porque não temos razão para não o fazer, o momento de sinceridade de Seguro. Que de facto discorda de partes importantes do memorando e que, quando ele foi assinado, já tinha essa posição. Aceitemos também que o quer realmente cumprir e que não está apenas à espera do melhor momento para mudar de posição. Aceitando as duas coisas e elogiando a sinceridade, só posso dizer uma coisa: esta posição é insustentável. Parece uma aposta dupla em que se ganha sempre mas, na realidade, é uma desistência que acabará numa derrota certa.
Uma coisa é um comentador ou um jornalista resumir assim a difícil posição em que o PS se colocou - refém do governo por vários anos. Outra, bem diferente, é o líder do PS aceitá-la e, perante ela, não fazer escolhas. Aceitando esta posição, os socialistas estão condenados a não fazer rigorosamente nada nos próximos anos. A esperar apenas uns disparates do governo - e como eles se sucedem -, mas a ficar calados em relação a todas as questões estratégicas. O PS não pode apoiar ativamente as decisões do governo decorrentes do memorando porque o seu líder discorda delas. O PS não se pode opor ativamente essas medidas porque assinou o documento. Resta-lhe a "abstenção violenta". Ou seja, resta-lhe surfar na espuma dos dias. E se isso, em tempos de acalmia, chegava, agora é o mesmo que nada. E tem um preço para todos nós: com o maior partido da oposição manietado, Passos Coelho fará tudo o que entender sem receio das consequências políticas. É isso mesmo que está a acontecer neste momento. O PS, esse, voltará para o governo quando o País já estiver em ruínas.
Por mais compreensível que seja a sua difícil situação (como estou simpático, hoje), o Partido Socialista tem de fazer uma escolha. Primeira opção: assume o memorando como responsabilidade sua e apoia sem reservas nem desabafos todas as medidas (e não mais do que elas) decorrentes do acordo que assinou. Será, com Passos Coelho, responsável por todas as consequências da austeridade que apoia. A segunda opção: tem uma liderança que corta, sem apelo nem agravo, com as decisões tomadas por José Sócrates. É legítimo. O próprio Passos Coelho representa, política e ideologicamente, um PSD sem qualquer ligação com os seus anteriores líderes. Este corte tem riscos para o PS: perda de confiança de parte do eleitorado e clivagens internas graves. Continuar a apoiar este desastroso memorando terá, como se vê pela desgraçada situação do PASOK grego, exatamente o mesmo resultado.
Resumindo: Seguro não pode continuar, num momento desta gravidade, em cima do muro a berrar violentos "nins". Porque perante a brutal clareza deste governo discursos confusos são iguais ao silêncio. A escolha que tem de fazer será sempre difícil e traumática. Mas quem herda erros cometidos em momentos decisivos da história de um País paga sempre um preço. Ou Seguro quer que o PS seja uma alternativa, e para isso tem de ter uma alternativa à austeridade, ou Seguro quer ser um parceiro do governo na austeridade. Se não quer nem uma coisa nem outra deve passar a pasta a quem saiba para onde ir.
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«Nós tivemos com os chineses uma relação milenária [SIC], através de Macau.» - Manuela Ferreira Leite.
Alguém que precisa de explicadores do seu discurso, pouco ou nada percebe de história e mal sabe falar é pago precisamente para falar num programa televisivo. Uma das luminárias que nos assombram. Será que era também a ela que o Coelho se referia quando falava das "tradições antigas" que têm de desaparecer?

Tenho acompanhado com interesse a polémica instalada a propósito ato censório ocorrido na Antena 1. Rui Pêgo, João Barreiros e Luís Marinho estiveram hoje no Parlamento a prestar esclarecimentos à Comissão de Ética, Cidadania e Comunicação e, pelo que pude ler até ao momento, parece que a conversa de corredor se vai transformar em caixinha. As três comadres casamenteiras corroboram a mesma versão da história. E, na perspetiva de que a culpa não morra solteira, encontraram em Ricardo Alexandre o noivo que tanta falta lhes fazia.
João Barreiros, ex-diretor de informação, deu este fim de semana uma entrevista ao Diário de Notícias que me confundiu e suscitou algumas interrogações. Ora, se a decisão de acabar com a rubrica «Este Tempo» foi dele e dentro da sua esfera de competências, por que se demitiu? Afinal, que leitura podemos fazer da sua demissão? Significa ela que ele está a ser o bode expiatório de alguém ou a penitenciar-se por uma má decisão?
Luís Marinho era, até há bem pouco tempo, vogal do Conselho de Administração da RTP. Em janeiro deste ano transitou para o cargo de diretor-geral de conteúdos da rádio e televisão. De um dia para o outro, ao membro do conselho de administração que não podia interferir nos conteúdos da televisão e rádio públicas foi oferecido o poder do lápis azul.
Pelo que tem vindo a público, a oferenda assentou-lhe que nem uma luva. Ainda a cadeira do novo cargo não estava quente e já Luís Marinho experimentava o brinquedo novo na Antena 1. Há, no entanto, duas questões a montante que não consigo ver esclarecidas. Sendo o cargo que ocupa de nomeação, pergunto: Quem o convidou? E qual a lei que formaliza o cargo que exerce? Em janeiro, o diretor-geral afirmava que falaria quando tivesse coisas para anunciar. Sem o querer apressar, parece-me que a altura é esta.
João Barreiros confirmou no DN que Luís Marinho manifestou o seu desagrado com o conteúdo da crónica de Pedro Rosa Mendes numa conversa de corredor. E, pergunto eu, é normal que um diretor-geral ande pelos corredores com conversas desta natureza? Pior, é normal que conversas de corredor condicionem, influenciem ou determinem a ação de um diretor de informação? Impõe-se pois outra pergunta: qual a fronteira que
delimita o poder de interferência do diretor-geral na autonomia dos diretores de informação?
Tudo isto me faz lembrar um outro episódio ocorrido na Agência Lusa há menos de um ano. Uma jornalista, Sofia Branco, foi demitida do seu cargo de editora por se ter recusado a escrever, por indicação de um assessor do então primeiro-ministro, uma notícia onde deveria atribuir uma frase a José Sócrates 24 horas antes dela ser proferida. Não foi a primeira nem a última vez que o poder político tentou interferir na informação. A tentação parece ser demasiado grande para quem convive mal com a democracia. No entanto, na Lusa como na RDP, o conselho de redação fez a diferença, o que só prova que onde há jardinismo também há jornalistas sérios e muito dignos. Lamentavelmente, dos mexilhões não reza a história.
De toda esta cegada uma coisa parece certa: enquanto ouvinte da Antena 1 não mais vou poder ouvir os cinco cronistas da rubrica «Este tempo», assim como deixei de poder ouvir o Ricardo Alexandre nas manhãs informativas.
Possivelmente Luís Marinho e as suas comadres casamenteiras já terão pensado numa nova rubrica de substituição. Algo como «Este governo», com um naipe de comentadores tão variado quanto contido, capaz devolver a paz aos corredores da rádio pública. Segunda-feira: Miguel Relvas; terça-feira: Miguel Relvas; quarta-feira: Miguel Relvas; quinta-feira: Miguel Relvas; sexta-feira: Miguel Relvas.
Pedro Passos Coelho precisa de ter um discurso. E que esse discurso seja coerente. E a coerência do seu discurso é esta: sacrifícios e austeridade. Tinha, por isso, de acabar com a tolerância de ponto do Carnaval. Que existe desde que eu me lembro de existir. Se Pedro Passos Coelho conhecesse mais empresas para além das do seu amigo Ângelo Correia e o País para lá dos jantares da carne assada do PSD saberia que o problema da nossa produtividade nada tem a ver com as horas que trabalhamos. Nem com os feriados. Tem a ver com características da nossa economia, com o mau funcionamento do Estado e com a má organização das empresas.
Deixo aqui claro que não sou grande entusiasta de tolerâncias de ponto. Acho que os direitos dos trabalhadores devem estar previamente estipulados e que os agentes económicos devem saber com segurança e previsibilidade com que linhas se cosem. Nem uns nem outros devem depender de decisões casuísticas, ano a ano, de cada governo. Mas o mundo real não se move por o que eu acho. E uma decisão destas, que afeta a economia local de tantos concelhos, tem de ser ponderada pelos seus resultados e não pela frase de efeito que dela se pode tirar. O ar de pai tirano de quem está a pôr os meninos preguiçosos na ordem, que o primeiro-ministro decidiu usar para falar deste assunto, não acrescenta um cêntimo à nossa economia.
Os resultados desta decisão só podem ser dois. Um: os privados e o poder local não acatam a decisão e tudo fica mais ou menos na mesma. Passos Coelho fez-nos perder tempo, criou irritação e confusão e será desautorizado pelo País inteiro. Outro: o país vai mesmo trabalhar na terça-feira, as câmaras municipais perdem milhões do investimento que fizeram, o comércio local e a hotelaria têm mais um rombo e a nossa depauperada economia fica a perder. Apenas para o primeiro-ministro ser coerente.
Nesta matéria, concordo com o que ouvi da boca de António Capucho: se o governo quer acabar com esta tolerância de ponto avisa com a mesma antecedência com que ela começa a ser preparada por esse país fora: um ano. E autarquias, hotelaria, restauração e cidadãos preparam-se para esta alteração. É assim, e não para os telejornais, que se governa um País. Querem uma prova que estas coisas precisam de tempo? O ministro da Educação do governo que tomou esta decisão não consegue abrir as escolas no Carnaval. Diz que é uma pausa letiva normal. Mas não é isso. É apenas porque, em grande escala, vinte dias não chegam para mudar "velhas tradições".
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É este o gesto que as palavras do licenciado aos 37 anos me merecem. O incompetente que foi arranjando trabalho em empresas do seu padrinho político, Ângelo Correia. O eterno estudante que passou metade da vida como jovem jotinha no parlamento e que chegou a primeiro-ministro à conta da lambe-botice das bases do PSD. O medíocre que comprova o Princípio de Peter - "Num sistema hierárquico, todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência" - na pior altura possível para o país: quando chega à liderança do Governo. A paciência esgotou-se. É caso para dizer (como se diz aqui): ó sr. primeiro-ministro, o senhor é, manifestamente, uma besta.
Confirma-se: o que seria a boa solução há um ano, será agora a única solução possível, com todas as implicações que isso terá. Um ano perdido a acelerar contra a parede, com milhões de euros a mais pagos em juros aos nossos credores, a economia de pantanas e os portugueses muito mais pobres.
*Post reformulado. Sócrates nunca defendeu a reestruturação. Defendeu que as dívidas são "para se ir pagando". Obrigado aos comentadores que me chamaram a atenção para isso.
Vasco Graça Moura impôs aos serviços do CCB a suspensão da aplicação do Acordo Ortográfico. A sua "coragem" mereceu aplausos excitados de jornalistas mais impressionáveis. Não me vou dedicar aqui ao apaixonante combate da Resistência Ortográfica Nacional. O Acordo Ortográfico é uma norma sem sanção. Cumpre quem quer.Nenhuma editora, nenhum jornal e nenhum particular é obrigado a segui-lo. Nem este acordo, nem as sucessivas reformas ortográficas do século XX que, nas últimas décadas, aceitámos como se fossem uma dádiva da natureza.Apenas se espera que quem é nomeado pelo Estado não obrigue as instituições que dirige por via dessa nomeação a não cumprir os acordos internacionais que o Estado assina. Não é pedir muito.
O Secretário para as Nomeações na Cultura, Francisco José Viegas - o mesmo que disse que Mega Ferreira continuaria mas foi obrigado, pelo partido do senhor Graça Moura, a meter a viola no saco - já explicou que o CCB "não está sob administração direta ou indireta" do Estado. Ou seja, que o ex-secretário de Estado da Segurança Social, ex-secretário de Estado dos Retornados, ex-diretor da RTP2, ex-administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, ex-presidente da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Fernando Pessoa, ex-presidente da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, ex-comissário-geral de Portugal para a Exposição Universal de Sevilha, ex-eurodeputado e intrépido opositor de intelectuais subsidiodependentes que construíram a sua carreira às custas dos dinheiros públicos pode fazer o que lhe der na gana. Fica uma dúvida: a nomeação pública é apenas uma forma de premiar os militantes mais fiéis ou tem algum objetivo? Se não tem, compreende-se que a alternância no governo tenha de ser acompanhada pela alternância partidária nas nomeações. Se tem, o mínimo dos mínimos é que o nomeado não se dedique a boicotar os acordos assinados pelo Estado.
Vasco Graça Moura recusa-se a aceitar trabalhar em instituições que apliquem o acordo ortográfico? Tem boa solução:recusa nomeações públicas. Isso, tendo em conta o seu estatuto de nomeado crónico, é que seria uma prova de coragem. Assim, soa apenas a prepotência.
Pode-se, claro, defender que os imperativos de consciência de Graça Moura estão acima de qualquer papel assinado pelo Estado que o nomeou. Respeito. Com uma condição: o seu direito à indignação é extensível a todos os que trabalham na instituição. Qualquer funcionário do CCB que queira escrever com a nova grafia em documentos oficiais deve ter a liberdade de o fazer. Pode ser assim ou o CCB passou a ser um instrumento dos caprichos do senhor Graça Moura?
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Já foi mais do que desmontada a ideia de que acabar com feriados contribui para resolver algum problema da nossa economia. Em muitos casos, é o seu contrário: pense-se por exemplo nos ataques às economias locais que esta medida tem. A verdade é que para o extremismo liberal isso não é o essencial. O essencial é a performance de quem ofende porque pode estar na ofensiva. De quem pune porque visa instituir uma agenda neoconservadora. De quem procura rasurar a alegria, a festa e a criatividade comunitária porque o extremismo liberal é também um ataque à diversidade da vida social. Em 1993, quando Cavaco decidiu suprimir a tradicional tolerância de ponto, o gesto acabou por lhe sair caro. Os tempos são outros, mas não é crível que Pedrito permaneça intocado. Torres Vedras já deu o mote e prepara uma manifestação. O Presidente do Carnavel de Ovar atinge o primeiro ministro com uma suprema desconsideração. Os sindicatos prometem "uma resposta adequada". Ou muito me engano ou este entrudo vai ter pouco de quarta-feira de cinzas.
«Um "default" é acidente. Dois já é uma crise sistémica. Quem o diz é Matthew Lynn, presidente executivo da Strategy Economics, sublinhando que Portugal voltará a ter um importante papel no palco mundial. Mas pela negativa. Ao Negócios, diz que o incumprimento português é inevitável. "É apenas uma questão de tempo". (...)
“A Grécia já estoirou – e o seu incumprimento está já descontado pelo mercado. Mas Portugal está precisamente na mesma posição (…). Está também a resvalar para um inevitável ‘default’ das suas dívidas – e quando isso acontecer, vai ter um efeito devastador para a moeda única e infligir danos ao sistema bancário europeu, que poderão revelar-se catastróficos”, escreve Lynn, autor de dois livros de economia: "The Billion-Dollar Battle: Merck v. Glaxo and Birds of Prey: Boeing v.Airbus" e Bust: Greece, the Euro and the Sovereign Debt Crisis.
O analista e consultor britânico compara a situação de Atenas e de Lisboa, destacando que “Portugal - um dos países mais pobres da União Europeia, com um PIB per capita de apenas 21.000 dólares, significativamente abaixo dos 26.000 dólares da Grécia – fixou metas de redução do seu défice de 4,5% em 2012 e de 3% em 2013”.
“Então e como está a sair-se?”, questiona-se. E responde: “Quase tão bem como a Grécia – ou seja, nada bem. Prevê-se que a economia grega registe uma contracção de 6% este ano e Portugal não fica muito atrás – o Citigroup estima que a economia ‘encolha’ 5,7% em 2012 e mais 3% em 2013”. (...)
“O resultado qual será?”, pergunta. E volta a responder: “Os objectivos de redução do défice não vão ser cumpridos. No início deste mês, o governo reviu em alta a previsão do défice, de 4,5% para 5,9% do PIB este ano. Se a experiência grega for válida, esta meta continuará a ser revista em alta. A economia encolhe, cada vez mais pessoas transitarão para a economia subterrânea para sobreviverem e o défice continuará a crescer”.
“Em resposta, a União Europeia exige mais e mais austeridade – o que significa, muito simplesmente, que a economia continuará a contrair-se ainda mais. É um círculo vicioso. Se alguém souber como sair dele, então está a guardar o segredo para si próprio”, comenta Lynn. (...)
“E isso é importante”, sublinha. Isto porque, adianta, a crise grega poderia até ser vista como um caso especial. “Mas não a de Portugal. Não houve ‘manipulação’ nos números [Portugal] não registou défices excessivos – com efeito, quando caminhávamos para a crise de 2008, o País apresentava défices de menos de 3% do PIB, bem dentro das regras impostas pela Zona Euro. Não era irresponsável*. O problema, muito simplesmente, é que Portugal não conseguiu competir no seio de uma moeda única com economias muito mais fortes. Agora, o País está a mergulhar numa depressão em toda a escala – tão má como o que se testemunhou nos anos 30 [Grande Depressão] – devido à união monetária”.
“Vai ser tão grave como na Grécia. E talvez até pior”, vaticina.»
No Jornal de Negócios. Sublinhados meus. * Este senhor analista está evidentemente errado. Portugal andou claramente a viver acima das suas possibilidades, como não se cansam de afirmar as cabeças bem pensantes deste país.
Uma vez mais, iremos assistir ao financiamento da banca pelo Estado. O mesmo Estado que está a despojar os contribuintes de parte dos serviços que lhe compete assegurar - na Saúde, na Segurança Social e na Educação -, aumentando no mesmo passo impostos. Os bancos portugueses, cujos rendimentos vêm em parte do dinheiro que lá depositamos, tiveram prejuízo em 2011, mas rapidamente anunciaram que irão recapitalizar-se recorrendo ao fundo do Estado destinado a esse efeito. O Governo que anda a privatizar empresas lucrativas - no caso da EDP e da REN, não foram privatizações, mas sim transferências de bens do Estado português para o Estado chinês - financia ao mesmo tempo os prejuízos de empresas privadas. O nosso capitalismo continua a ser sui generis: não existe verdadeira concorrência em muitos sectores, as leis da oferta e da procura não funcionam, e, se por acaso há prejuízos, resultado das decisões dos gestores que estão à frente dos bancos, o Estado chega-se à frente e dá uma esmolinha. De milhões. Que, vá lá, sejamos demagógicos, saem do nosso bolso.
Na Irlanda, foi esta receita que levou à crise de financiamento e depois económica. Na Islândia, o contraponto a este tipo de política, foi uma posição de força irmanada do poder do povo que acabou com o regabofe do financiamento da banca pelos impostos dos contribuintes privados. Várias instituições que se tinham envolvido durante anos em jogadas financeiras altamente especulativas foram deixadas falir, os seus responsáveis foram ou estão a ser julgados, e o primeiro-ministro que deixou o país ir à bancarrota também foi incriminado pelas decisões tomadas. Ah, e o pagamento da dívida islandesa aos seus credores está suspenso, até que o país recupere. E está a recuperar, com um crescimento da economia que já chegou aos 3%. Por cá, Passos Coelho promete continuar com a austeridade, "custe o que custar". Aos bancos, claro está, não irá custar assim tanto. Com uma condução destas, alguém achará ainda que o desastre é evitável?
O Acordo Ortográfico, com todos os defeitos que certamente tem, foi aprovado pelo anterior Governo e começou a ser aplicado em todas as comunicações de serviços ligados ao aparelho de Estado. Incluindo o CCB. A ordem de Vasco Graça Moura não é corajosa; é prepotente, o estéril gesto de um velho marreta lutando contra a mudança. Vasco Graça Moura não é o CCB, é apenas quem actualmente o dirige. Se quer realmente fazer a diferença, que convença o seu primeiro-ministro a tomar a decisão de rasgar o Acordo. Isto não passa de fogo-de-artifício, e um sintoma da desorientação que tomou conta deste Governo.
A ministra da Justiça enviou para o Procurador Geral da República os contratos de Parecerias Público-Privadas que permitiram leoninos arrendamento que esmifram os dinheiros públicos e que foram assinados no governo anterior. Tem direito ao meu aplauso de pé. É assim mesmo, na justiça, que se tem responsabilizar quem usa o Estado para negócios menos claros. Espero que a PGR e os tribunais não demorem tanto tempo a chegar a uma conclusão que, quando lá chegarem, de nada sirva.
Apenas lamento uma coisa: que estas decisões sejam sempre um pouco seletivas. Ou seja, que se limitem sempre ao governo anterior quando o governo anterior é de um partido diferente. As PPP começaram na fase final do consulado de Cavaco Silva para construir uma ponte sobre o Tejo. Sabe-se que o acordo então assinado foi de tal forma vergonhoso que teve de ser renegociado várias vezes. O seu promotor, o então ministro das Obras Públicas Joaquim Ferreira do Amaral, acabou sentado na presidência do Conselho de Administração da Lusoponte.Continuaram de forma desenfreada no governo de António Guterres. Para cumprir o défice, o Estado, em vez de se endividar para investir, entregava a construção e exploração de uma obra pública a um privado e ainda o compensava por possíveis perdas durante décadas. Ou seja, endividava-se muitíssimo mais, escondia a despesa, dava espaço para todo o género de negócios pouco claros e promovia um espírito rentista e parasitário nas maiores empresas nacionais. Ao mesmo tempo que promovia o endividamento dos seus parceiros privados, com custos para o País. O governo de Durão Barroso continuou o esquema com o mesmo empenho. E o de Sócrates também.
As PPP, em vez de serem a exceção, transformaram-se na regra para todo o tipo de investimento, fossem eles obras ou, como é este caso, simples arrendamentos. Foram e são um dos principais factores de opacidade dos negócios do Estado e de mau endividamento público, privado e externo. São, em geral, um cancro para as contas públicas e para a economia.
Apesar da decisão de Paula Teixeira da Cruz ser correta, parece-me que devemos exigir muito mais. Da mesma forma que a ministra renegociou muitos contratos, tendo, segundo a própria, poupado seis milhões de euros ao erário público, é inaceitável que o Estado não faça o mesmo com tudo o resto. Que não reveja de fio a pavio todos os contratos deste género que governos do PS e do PSD assinaram, os renegoceie com determinação e, no caso muito provável de ali encontrar sinais de um comportamento danoso para o Estado por parte dos que deviam ter defendido os seus interesses, recorra à justiça. Sejam os responsáveis de que partido forem. Estaríamos então perante uma mudança radical do comportamento do Estado, com enormes ganhos para os seus cofres e a possibilidade de pedir menos sacrifícios aos portugueses. Com esta seletividade, a coisa soa mais a "spin" para passar culpas.
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O acordo ortográfico é uma decisão burocrata que descaracteriza a língua em que aprendi a respirar consoante os verbos. Acatarei como quem cicatriza uma ferida, certo da maleabilidade das próteses em que assentámos a origem. Mas não posso deixar de me comover com o gesto de Vasco Graça Moura. Enormíssimos tomates.
A direcção de informação da RDP demitiu-se em bloco, depois das severas críticas feitas pela comissão de trabalhadores, na sequência do saneamento do jornalista Pedro Rosa Mendes do programa que mantinha na Antena 1. Continua toda a gente ou a assobiar para o ar ou a lavar as mãos como Pilatos, mas é cada vez mais evidente que o afastamento de Rosa Mendes por causa das críticas feitas à peça de propaganda em Angola no programa de Fátima Campos Ferreira teve origem no ubíquo ministro Miguel Relvas, conhecido em certos círculos como Goebbels do Portugal dos Pequeninos - há competências de assessores sem espinha que são muito bem aproveitadas. Agora só resta que, ou o todo-poderoso Luís Marinho, director-geral da RTP, ou o próprio Relvas, se demitam ou sejam demitidos. Os tempos de António Ferro* há muito que já lá vão.
*Diz um comentador que comparar o gabarito intelectual de um António Ferro com esta nulidade aparatchik é absurdo. Tem toda a razão. É a velha história da tragédia que se repete enquanto farsa.
Agora também vou andar por aqui, um novo blogue ecuménico, com um único credo, o Benfica: Catedral da Luz.
Demonstração de como fazer uma antena tdt barata e em poucos minutos, provavelmente nem terá de comprar material, já que só precisa de um pouco de cabo coaxial também vulgarmente chamado de cabo de antena, uma ficha tv "macho" na maioria das tv's e fita-cola de "ferramentas" só é necessário uma tesoura e uma fita métrica.
Os trabalhadores dos transportes estão hoje em greve. Socorrem-se de um instrumento existente em todas as democracias (ainda assim, a quantidade de greves em Portugal é, em média, metade do que acontece no resto da Europa) para defender os seus direitos e os direitos dos utentes. Muitos ficarão irritados com um dia sem transportes. Mas provavelmente bem menos do que com o prejuízo que o Estado se prepara para lhes garantir. Os trabalhadores dos transportes juntam a sua voz à voz daqueles que servem. Tendo a greve como arma são mais eficazes do que qualquer protesto (e muitos têm existido) dos utentes.
Esta greve é, antes de mais, contra o Plano Estratégico de Transportes. Um plano que tem como principal objetivoencerrar carreiras e linhas fundamentais para as populações e privatizar percursos mais lucrativos. Ou seja, esta greve defende, primeiro de tudo, os utentes. Hoje não têm transportes. Se a greve falhar serão muitos os que não os terão todos os dias do ano. Se sou solidário com qualquer greve justa, com esta sou-o por muito mais razões. Como utente, antes de tudo.
O espírito da criminosa política de transportes que este governo está a aplicar já se faz sentir no bolso dos cidadãos. E só agora começou. O aumento absurdo dos bilhetes e passes e a redução drástica (e é apenas a primeira) dos descontos para crianças e idosos é socialmente irresponsável.
Aos cortes nos salários e remunerações, ao aumento de impostos e do preço de bens e serviços essenciais, junta-se mais um encargo incomportável para a maioria dos cidadãos. Como de costume, as vítimas são os cidadãos com menor folga financeira, que são, como se sabe, em Portugal, os que mais usam os transportes públicos. Para uma família que tenha várias crianças a cargo trata-se de um autêntico assalto.
Menos transportes públicos a um preço exorbitante. É este o extraordinário programa do governo para resolver o crónico subfinanciamento das empresas públicas de transportes (que, aqui e em todas as regiões urbanas da Europa, precisam de financiamento público). Julgam que irão poupar dinheiro, mas vão gastar mais. O preço será pago, mais uma vez, pela competitividade da nossa economia o que, como se sabe, tem efeitos diretos e imediatos nas receitas do Estado. Menos dinheiro disponível para as famílias, menos poupança, menor capacidade de consumo, mais caos nas cidades, menor produtividade, mais custos com o trabalho sem qualquer vantagem para o trabalhador ou para o empregador. Nada se salva neste disparate.
Não preciso de muitos argumentos: olhem para os países mais desenvolvidos e mais subdesenvolvidos da Europa e comparem os seus sistemas de transportes. É um dos mais infalíveis indicadores do grau de desenvolvimento e organização de uma sociedade. E este é um dos muitos problemas da cegueira política e económica do governo:aposta no subdesenvolvimento para garantir a nossa competitividade. Falhará, como é evidente. O País sairá das mãos de Passos Coelho mais pobre, mais atrasado e menos competitivo. Todos os seus problemas estruturais se agravarão.
O governo julga que está, através da redução da despesa pública em transportes, a retirar menos dinheiro à economia. Está a fazer o oposto: está, num instrumento fundamental para o bom funcionamento das cidades e do País, a retirar-lhe dinheiro e competitividade. Porque a despesa pública em transportes é, ao contrário das milhares de rotundas que povoam o País e dos milhares de boys que povoam o Estado, um investimento com retorno. Coisa difícil de perceber para quem acha que despesa pública é, sempre e em qualquer circunstância, desperdício.
Da mesma forma que o governo de Cavaco Silva confundiu modernidade com imensas autoestradas e muitos carros em circulação, destruindo a nossa já raquítica rede ferroviária, Passos Coelho confunde racionalização do Estado com o enfraquecimento dos instrumentos estratégicos que este dispõe. E um deles é, sem qualquer dúvida, a rede de transportes. O preço que pagaremos por este crime é de tal forma elevado que esta greve só pode merecer o nosso apoio. Mesmo que custe. E todos sabemos, por experiência própria, que custa muito. Viver quotidianamente com uma rede de transportes do Terceiro Mundo custará muito mais.
Ainda assim, no meio de tanta tragédia, nem tudo são más notícias. Pelo menos foi feito um investimento em transportes pelo Estado. Pelo Banco de Portugal. Num carrinho de golfe (e restante equipamento, no valor de cinco mil euros) para os seus empregados. Menos mal. Esses, hoje, têm como ir para o trabalho.
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"Vamos cumprir, custe o que custar." Pedro Passos Coelho
Quando escrevo sobre o governo angolano e a sua corrupção desavergonhada, que tem como principais vítimas os próprios angolanos, há sempre alguém que me acusa de racismo. Quando digo que não quero a importação, para Portugal, dos modos de agir da elite económica angolana, sou xenófobo. Recentemente, houve mesmo um angolano que me chamou "racista" e "descendente de negreiros". Como é o caso, a acusação vem de quem confunde a cor da pele de alguém com a história colonial do País onde vive.
Quando escrevo sobre o criminoso comportamento do Estado de Israel para com o seu vizinho palestiniano, impedindo-o de ter um Estado próprio e tratando-o como uma raça sub-humana, não escapa: há sempre alguém que me acusa de antissemitismo e me compara com a mais reles escória que a humanidade conheceu ou com o fundamentalismo islâmico, que tem tanto a ver comigo, ateu até à medula, como qualquer fundamentalismo religioso. A acusação costuma vir de quem confunde muitos milhões de fieis de uma determinada religião com o comportamento de uns grupos minoritários e radicais.
Quando escrevo sobre o comportamento europeu, incluindo o português, em relação aos imigrantes (e como os europeus vão, se a crise se agudizar e muitos tiverem de partir, pagar cara a sua arrogância), passo a ser um esquerdista politicamente correto, sempre pronto a carregar o fardo do homem branco, um militante anti-ocidental e um racista ao contrário.
Quando escrevo sobre o comportamento imperial dos Estados Unidos nas últimas décadas há sempre alguém que me acusa de ser anti-americano primário com saudades dos abjectos regimes do leste europeu. A acusação costuma vir de quem muda as suas exigências morais conforme a potência que está em causa.
Quando critico a falta de democracia no Irão, a ditadura cubana, os abusos do caudilhismo chavista ou a exploração dos trabalhadores na China há sempre alguém que me acusa de ser um idiota útil do imperialismo americano e, claro está, de algum tipo de racismo latente. A acusação costuma vir de quem acha que os americanos são, pela sua natureza, a origem de todos os males no planeta. E não se importa de apoiar regimes criminosos, desde que estejam do lado contrário da barricada.
Quando escrevo sobre o comportamento irresponsável do governo alemão nesta crise europeia e a sua aparente falta de memória sobre as condições que permitiram mais de meio século de paz na Europa há sempre alguém que me acusa de chauvinismo. Geralmente, as mesmas pessoas que fazem generalizações depreciativas sobre os gregos ou os portugueses.
Apesar da dificuldade em ser, ao mesmo tempo, antissemita e anti-germanófilo, capacho dos americanos e anti-americano, politicamente correto e racista, ateu e islamista, quero ver se consigo, de uma vez por todas, pôr um ponto final nesta forma de debater.
Não tenho nada contra nenhum povo, cultura ou religião. Nem a favor. Os povos são a sua história (cheia de contradições) e as suas circunstâncias. Não são homogéneos. Não há uma cultura ocidental, não há uma rua árabe, não há um sonho americano, não há um sentimento judeu, não há um racismo alemão, não há um atraso africano e por aí adiante. As sociedades são, todas elas, conflituais e contraditórias. Cabem nelas muitos povos, muitas culturas e muitos confrontos.
As criticas que faço ou são a governos concretos, que determinam políticas de Estados, ou a hegemonias que, em determinado momento, dominam o sentir maioritário de um povo. Não acho que o expansionismo ou o trabalho estejam inscritos no DNA dos alemães. Não acho que os judeus sejam vilões ou heróis para todo o sempre. Não acho que os povos do sul da Europa sejam vítimas das potências europeias ou incorrigíveis preguiçosos. Assim como não acho que os portugueses sejam especialmente tolerantes ou especialmente desorganizados. Resumindo: não acho que aqueles que hoje são vítimas das circunstâncias não passem a ser, se para isso tiverem oportunidade, os piores dos carrascos das desgraças alheias. E vice-versa.
Os debates sobre a natureza dos povos (que às vezes até se socorrem de argumentos biológicos, climáticos ou de outra qualquer patranha) ou a superioridade ou inferioridade das suas culturas não me dizem nada. Não dou para esse peditório.
E é por ser profundamente antirracista que critico, sem pedir desculpas, o Estado de Israel. E é por não achar nada sobre "os americanos" que não tenho de fazer introitos idiotas sobre o seu magnifico cinema para criticar o seu comportamento imperial. E é por não gostar deste jogo de espelhos que critico a ditadura castrista sem ter de gastar dez parágrafos a falar do estúpido embargo americano. E é por assumir que sempre fui coerentemente anticolonialista, e por isso inconfundível com quinhentos anos de exploração, que não meço palavras para falar do regime cleptocrático que governa Angola. E é por ser um cidadão do Mundo que nenhum argumento em defesa de soberanias nacionais alguma vez me impedirá de criticar qualquer ofensa aos direitos humanos por parte de qualquer Estado. E é por ser europeísta que responsabilizo o governo alemão (este, com rostos e nomes) pela desgraça de um projeto que tinha de ser democrático e incluir todos os povos. Estou, isso posso garantir, cada vez mais cansado da desonestidade intelectual de tantos debates, que nos querem obrigar a ignorar as nossas convicções pelo medo de estereótipos e chantagens.
Sim, estou zangado com Alemanha. Com o seu Estado e com o seu governo. E isto não muda um milímetro do que penso dos alemães: gosto muito de uns, não gosto nada de outros e a maioria deles nem conheço. Passa-se, aliás, exatamente o mesmo com os portugueses. E se nunca me faltaram críticas aos mitos lusotropicalistas, que nos vendem uma falsa tolerância histórica do colonialismo português, ou ao patrioteirismo vazio com que tantos políticos adoram pavonear-se, também desprezo esta autoflagelação nacional que uma certa elite gosta de vender para continuar a ver o povo de cabeça baixa. Talvez seja reação, mas por estes tempos sou mesmo um patriota. Como sempre, tudo depende das circunstâncias.
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"Gostaria de ver os arautos dos "mercados" que moralizam que "as dívidas são para pagar" (no caso da Grécia, com a perda da própria soberania) moralizarem igualmente acerca do pagamento da dívida de 7,1 mil milhões de dólares que, a título de reparações de guerra, a Alemanha foi condenada a pagar à Grécia na Conferência de Paris de 1946.
Segundo cálculos divulgados pelo jornal económico francês "Les Echos", a Alemanha deverá à Grécia em resultado de obrigações decorrentes da brutal ocupação do país na II Guerra Mundial 575 mil milhões de euros a valores actuais (a dívida grega aos "mercados", entre os quais avultam gestoras de activos, fundos soberanos, banco central e bancos comerciais alemães, é de 350 mil milhões).
A Grécia tem inutilmente tentado cobrar essa dívida desde o fim da II Guerra. Fê-lo em 1945, 1946, 1947, 1964, 1965, 1966, 1974, 1987 e, após a reunificação, em 1995. Ao contrário de outros países do Eixo, a Alemanha nunca pagou. Estes dados e outros, amplamente documentados, constam de uma petição em curso na Net reclamando o pagamento da dívida alemã à Grécia.
Talvez seja a altura de a Grécia exigir que um comissário grego assuma a soberania orçamental alemã de modo a que a Alemanha dê, como a sra. Merkel exige à Grécia, "prioridade absoluta ao pagamento da dívida."
Confesso que há coisas que não esperava assistir na minha vida. 65 anos passados do fim da II Guerra, do perdão europeu e americano ao criminoso expansionismo alemão, de todas as concessões para garantir a paz, da construção do que viria a ser uma União Europeia baseada na boa relação e solidariedade entre os europeus, do enorme apoio que a Alemanha recebeu da Europa para a sua reunificação e da ajuda que o euro significou para a sua economia, a proposta de uma segunda "ocupação" de Atenas, através do sequestro da sua soberania orçamental por Berlim, é mais do que um insulto à memória coletiva da Europa. É um ato hostil contra um país da União.
Na Grécia, segundo sondagem recentes do semanário Epikaira, os partidos contra o acordo com a troika representam já quase 40% dos votos. Os dissidentes de esquerda do PASOK têm 13% e os comunistas do KKE e a esquerda do Syriza (o BE lá do burgo) 12,5% cada um. A direita fica abaixo da soma destes partidos (Nova Democracia com 30,5% e os extremistas do Laos com 6%) e os antes poderosos socialistas com uns humilhantes 12% (arriscam-se a transformar-se na quinta força política). A reação à loucura de Bruxelas já se sente na Grécia e o governo de "tecnocratas" começa a ter pouca margem de manobra. E isto explica a frase do ministro das finanças grego, Evangelos Venizelos: "quem põe um povo perante um dilema entre a ajuda financeira e a dignidade nacional ignora as lições da históricas fundamentais". Ponham muitas aspas em "ajuda" e têm a verdade nua e crua do que está em causa.
E não, não me venham de novo com a falta de paciência dos alemães para o mau comportamento do Sul. Socorro-me das palavras de Anatole Kaletsky no "The Times": "A verdadeira causa do desastre do euro não é a França, a Itália ou a Grécia. É a Alemanha. O problema fundamental não reside na eficiência da economia alemã, embora tenha contribuído para a divergência dos resultados económicos, mas no comportamento dos políticos e banqueiros centrais alemães. O Governo alemão não se limitou a vetar permanentemente as únicas políticas que podiam ter colocado a crise do euro sob controlo - garantias coletivas europeias para dívidas nacionais e intervenção em grande escala do Banco Central Europeu. Para piorar a situação, a Alemanha tem sido responsável por quase todas as políticas erradas postas em prática pela Zona Euro, que vão desde subidas loucas da taxa de juros no ano passado pelo BCE até exigências excessivas de austeridade e perdas bancárias que agora ameaçam a Grécia com uma bancarrota caótica."
O melhor retrato da cimeira de ontem é este: enquanto, nos salões, os governantes continuam cegos ao que se passa na Europa, Bruxelas estava paralisada por uma greve geral, o que obrigou os chefes de Estado a deslocarem-se para a cimeira de helicóptero e a usarem bases militares. O caos que a medíocre classe política europeia está a criar na Europa poderá vir a ter um preço bem mais alto do que se imagina.
À peregrina ideia dos alemães aconteceu o que tinha de aconteceu: morreu. Foi até aprovado um pacote pelo emprego e até ouvimos umas frases redondas sobre o crescimento. E segue, através do "pacto orçamental", a imposição de défices burocráticos à custa da ruina das economias que só garantem um ainda maior desequilíbrio nas contas públicas (que, vejam bem, dependem da saúde económica dos países).
Casar a austeridade com o crescimento, é o que se defende. Parece que vai demorar algum tempo até que se perceba que austeridade e crescimento, em plena crise económica, é um matrimónio sem futuro. Mais esta aspirina, sem as medidas que são defendidas por Kaletsky no "The Times", terá o mesmo efeito que as medidas decididas nas anteriores cimeiras. Está, portanto, tudo na mesma. Ficamos à espera de saber qual a sentença para os gregos. Provavelmente ficarão mais tempo ligados à máquina, sem a esperança de sobreviver a esta criminosa "cura".
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Perdoarás o moralismo, Sérgio, mas se alguma coisa a blogosfera parecia trazer de fresco à discussão futebolística não seria certamente a clubite larvar sobre árbitros e arbitragens. Rebater-te seria convocar a tua desrazão para uma razoabilidade que pareces ter abjurado, seria, sobretudo, encetar um jogo que não me merece - e que, a meu ver, não te merece. Para facciosismos insanos, para especialistas do habitus arbitral, há painéis de sobra numa TV perto de si.
Falemos de futebol se é disso que se trata. Por exemplo, fala-me do sumptuoso Aimar que eu respondo-te com a utopia de um regresso:
"Que razões há para postular que já existe o futuro?"
Jorge Luis Borges, Outras Inquirições.
Por apenas 6 votos, o Arrastão venceu as forças do lado negro obscurantista representado pelos saudosistas monárquicos do 31 da Armada. Ganhámos na categoria "Actualidade Política - colectivos" na votação promovida pelo blogue Aventar. Estamos todos de parabéns. Obrigado pela preferência.
Ninguém pode negar o que, em 25 anos de liderança, Manuel Carvalho da Silva fez pelo sindicalismo português e pela CGTP. Não conseguiu estancar o refluxo que o sindicalismo vive em Portugal, semelhante ao que conhecem muitos países do Ocidente. Especialmente grave num País onde, depois de meio século de ditadura, os sindicatos livres se implantaram tardiamente. Mas deu à organização com mais filiados em Portugal um outro papel político.Credibilizou a CGTP e garantiu-lhe, com todos os constrangimentos inevitáveis, algum grau de autonomia e decapacidade agregadora. Uma organização com dezenas de uniões e federações e centenas de sindicatos não vive do seu líder. Mas, pelo menos na imagem pública da Intersindical, Carvalho da Silva conseguiu muito mais do que, há duas décadas, poderíamos esperar.
Esperemos que o novo coordenador, muito mais dependente da direção do PCP, muito mais marcado na sua imagem e muito menos consensual na central, consiga aproveitar este legado. Espero que Arménio Carlos saiba que a "unidade na ação" depende mais de práticas quotidianas do que de apelos públicos. Tem como primeira tarefa conseguir o consenso dentro de casa. Acredito sinceramente que se consiga moldar à enorme responsabilidade que tem pela frente. Perante a violência do ataque que os trabalhadores portugueses estão a sofrer, o vergonhoso colaboracionismo de João Proença e a fragilidade dos restantes movimentos sociais, não me posso dar ao luxo de ser pessimista nesta matéria.
Eletricista e sindicalista, Carvalho da Silva não descurou, nos anos em que liderou a CGTP, a sua formação académica e ideológica. Não se trata de um pormenor biográfico. Também foi esse seu empenhamento pessoal, a que não parecia obrigado, em garantir que o seu peso intelectual e político não dependeria exclusivamente do lugar que ocupava, que lhe valeu uma crescente simpatia, mesmo fora dos círculos sindicais. Isso, a heterodoxia e abertura do seus discurso e um sentido tático muito apurado.
Da sua clarividência táctica foi exemplo o encontro que teve com os senhores da troika, para lhes dizer, olhos nos olhos, aquilo que defendia e aquilo que não aceitava. Ao contrário do que alguns pensavam, esse gesto deu-lhe mais, e não menos, autoridade para se opor ao que veio depois. Carvalho da Silva percebeu que entre a capitulação e a cegueira há um espaço de luta que procura maiorias sociais. Penso que não exagero se disser que é hoje o ativista político à esquerda mais respeitado em Portugal. Por os que, como eu, se consideram próximos da sua tradição política, e por outros bem mais distantes do seu percurso.
Depois de 25 anos de liderança da CGTP e tantos outros de sindicalismo, Carvalho da Silva entrará numa outra fase da sua vida pessoal, pública e política. Caberá apenas a ele decidir o que fazer com a sua vida. No entanto, quem leu as suas entrevistas com atenção terá percebido que não tenciona desperdiçar este património. Faz bem. A esquerda, no estado comatoso em que se encontra, não pode desperdiçar a sua experiência e o seu capital de simpatia. Sem messianismos ou cultos de personalidade (dispensam-se sempre, e Carvalho da Silva nem sequer tem, felizmente, esse perfil), o seu espaço de influência ultrapassa largamente a organização de que é militante e é transversal a todos os partidos e movimentos sociais de esquerda. Não me recordo de mais nenhum ator político capaz de recolher apoios e simpatias em franjas importantes do PCP, do BE e do PS, em abstencionistas e descontentes, em sindicatos tradicionais e movimentos mais ou menos espontâneos de contestação.
Não sei o que Carvalho da Silva quer fazer depois de terminada esta longa fase da sua vida. Acredito que não tencione reformar-se da vida pública ou procurar um refúgio confortável. Não sei se esperará por umas eleições presidenciais, o que me pareceria pouco e demasiado distante para o estado de emergência em que nos encontramos. Sei que, seja qual for o papel que reserve para si próprio, não deve desperdiçar a sua capacidade de construir pontes entre todos os que convictamente olham para o caminho deste país com indignação e desespero.
Repito: a esquerda não precisa de messianismos nem de homens providenciais. Isso é mais apanágio da direita portuguesa e nem ela hoje os encontra. Mas precisa da experiência e da militância cidadã deste homem. Não por ele. Mas pelas experiências e pela cidadania que ele pode mobilizar. E pela tolerância, espírito unitário e inteligência política que tem demonstrado. Como cidadão, espero que a política possa vir a contar com ele.
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Dá-me um certo gozo ver os adeptos portistas queixando-se da arbitragem no jogo que deixou o FC Porto a cinco pontos do 1.º lugar.O André Azevedo Alves, por exemplo, até colou a etiqueta "double standards" no seu curto comentário à derrota. Só que a memória não é curta para todos, e por coincidência o resultado da primeira volta no FCP-Gil Vicente foi também 3-1. Com uma arbitragem também polémica, mas que estranhamente Vítor Pereira - e o resto da turba portista - não considerou "vergonhosa". Até o Público, como sempre, entra no bailinho: na crónica da partida da primeira volta, fala-se de "um encosto de Vilela" aproveitado por Hulk que o árbitro "considerou" penalty (caso não se tenha percebido, sim, estamos a falar daquele belo salto de carpa de Hulk dentro da área). Mas nem sequer é mencionado o vermelho que ficou por mostrar a Otamendi quando provocou o penalty marcado pelo Gil. Pudera. Já em relação a esta "polémica partida", o inefável Bruno Prata chama a título um estrondoso "FC Porto tinha perdido até com uma arbitragem competente" e continua por ali fora, "esquecendo-se" de dar o mesmo benefício da dúvida a Bruno Paixão que o seu colega tinha dado a Rui Silva na primeira volta. Para Prata - e para o resto da amnésica falange azul e branca - há, para além de qualquer dúvida razoável, dois penalties por assinalar a favor do FCP e um fora-de-jogo que Paixão não "anulou" - o sacana. Tanta clareza é certamente louvável. É pena que tal clarividência apenas surja de tempos a tempos, quando valores mais altos se levantam.
"Vergonhosa", disse ele. A arbitragem. A indignação que o assaltou na primeira volta é capaz de ter sido mais discreta - tentei a sério, mas não encontro em lado algum ecos de tal coisa. Devem ser os tais double standards do André Azevedo Alves. Há quem diga que deveremos ser racionais na análise destas coisas. Concordo. Bruno Paixão é, e sempre foi, um péssimo árbitro - mesmo que em tempos o sr. Pinto de Costa o tenha querido para arbitrar um jogo do clube que dirige. Mas tem de haver limites para a tolice. Caramba, o FC Porto não tinha qualque remate à baliza aos 53 minutos do jogo de ontem, quando o Gil Vicente marca o seu terceiro golo. Assim, nem a boa vontade dos árbitros ajuda. Mas enfim, estou em crer que Vítor Pereira é um grande treinador, ainda que incompreendido. Renovem-lhe o contrato. Já.
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