O Paulo conta à Maria que o marido dela anda a pular a cerca. O gajo, que é amigo do casal, ouviu telefonemas e conversas que não devia. E o seu interesse na matéria é evidente, já que a Maria, apesar de já não ir para nova, é um estrondo. O Paulo é, portanto, para além de amigo da onça, um alternadíssimo pulha. Não olha a meios para se afiambrar à mulher do próximo. O que diz o infiel apanhado quando é encostado à parede? “Querida, o que ele fez é inaceitável. Não tinha o direito de ouvir as minhas conversas e ainda por cima contar-te. Por isso, vais-me desculpar, mas não te vou dizer nada sobre esse assunto e, se não te importas, continuaremos a viver juntos como se nada se tivesse passado. É a única atitude formalmente correcta. Boa noite.”
O que faz a Maria se não for parva?

Nascido em Maio de 2006 (reforçado por duas vezes até chegar aos sete bloggers que agora aqui escrevem), o Arrastão chegou hoje aos três milhões de visitantes (mais de cinco milhões e meio de páginas vistas). Tem mais de 4.200 vistas diárias em média (8.400 page views). Foram aqui publicados quase 5.300 posts e mais de 101.900 comentários. A todos os que nos visitam, obrigadinhos. (A ilustração é do Pedro Vieira, claro).
9 comentários 9 Fev 10 em Sem categoria
Cavaco Silva só pode dissolver o Parlamento no princípio de Abril, passados no mínimo seis meses das eleições (Artigo 172.º da CRP). Mais um mês e meio a dois meses para as eleições, estamos em finais de Maio, princípios de Junho. Isto se fosse tudo rápido. E depois a formação de governo. Quem ficaria dono e senhor da situação nos próximos quatro ou cinco meses? Pois, ele mesmo.
É que vou já a correr manifestar-me com a malta do PSD e do CDS para entregar o país ao senhor Silva enquanto não pode haver eleições. Temos que estar todos juntos, não é? Não é altura para dividir as hostes, pois não? Isto é política, não é o “Live Aid”. Quero Sócrates bem longe. Mas pela mão do povo e nunca para entregar o poder ao Presidente. O que eles querem sei eu: para nos safarmos, como queremos, de Sócrates, juntarmos os trapinhos por um dia numa união nacional que acabe a prestar vassalagem ao Nosso Senhor de Boliqueime e à promessa de um governo de tecnocratas que ponha isto tudo na ordem. Não é o sectarismo que me move. É mesmo contrariando a cegueira do sectarismo do momento que não me meto em atalhos guiado por quem sei exactamente onde me quer levar, só porque é inimigo do meu inimigo. Em tempos de crise, a esquerda já experimentou várias vezes estas estranhas convergências. Correu sempre muito mal.
23 comentários 9 Fev 10 em Sem categoriasó espero que o Represas não apareça para cantar.
1 comentário 9 Fev 10 em Sem categoria“Nao é possivel – e, como socialista, não me parece útil – varrer para debaixo do tapete as questões que tais escutas suscitam: é preciso esclarecer se era, ou não, por instruções governamentais que a PT estava a negociar a compra da TVI à PRISA.
Acresce que o que foi publicado – e até hoje não foi desmentido – reforça dúvidas sobre a actuação das mais altas instâncias do Ministério Público.”
Ana Gomes
Claro que, na realidade, já tudo está bastante claro. Mas o facto de ainda haver alguém no PS que não está cego, surdo e mudo já não é mau. O blogue oficioso Câmara Corporativa já deixou o aviso à ‘”socialista’, ou outra coisa qualquer”: “As mordomias de Estrasburgo estão a fazer mal a Ana Gomes.” O estilo é revelador dos monstrinhos que o socratismo criou.
11 comentários 9 Fev 10 em Sem categoriaComo ficou evidente no conjunto dos posts publicados no Arrastão, independentemente das dúvidas (e de algumas certezas) que temos sobre a forma como o país ficou a saber dos jogos de bastidores de Sócrates para silenciar jornalistas, os que escrevem neste blogue têm uma posição clara sobre estes acontecimentos: eles são de uma enorme gravidade, suficiente para pôr em causa a continuidade de José Sócrates no seu cargo. Trata-se de um caso extremo de convergência entre o poder político e o poder económico para limitar a liberdade de imprensa. Põe em causa o Estado Democrático.
No entanto, os bloggers que assinam este post (sendo uma iniciativa de bloggers, é isto que faz sentido) não se associam a esta manifestação organizada por outros bloggers.
1 – Porque sendo organizada por quem é, afasta-nos dos seus protagonistas o entendimento que temos do que é a liberdade de imprensa: blogues como o Blasfémias, Insurgente ou 31 da Armada acreditam que ela se resume ao poder do proprietário de cada órgão de comunicação social determinar o que lá se escreve e diz. Para nós, corresponde ao poder dos jornalistas, e só deles, decidirem o que escrevem nos jornais onde trabalham, com garantias de autonomia face ao poder político, sim, mas também económico. E a um verdadeiro pluralismo político que não se limite ao centrão ideológico.
2 – Porque é organizada por quem, pedindo a cabeça de Sócrates, concordou com ele no essencial, incluindo, como se viu, na tentativa de condicionamento autoritário de protestos e lutas dos trabalhadores. Pior: foram muitas vezes os mais entusiastas na defesa da cultura autoritária do primeiro-ministro.
3 – Porque não fazemos coro com apelos velados à presidencialização do regime e ao reforço do poder político de Cavaco Silva. Contra Sócrates, que criou um ambiente insalubre na nossa democracia, estaremos de certeza. De braço dado com Cavaco Silva, que nesta matéria nunca se distinguiu no seu modo de agir do actual primeiro-ministro, não nos verão de certeza. Com diferenças entre nós, não nos esquecemos de qual é o nosso campo político.
Ainda assim, como consideramos que a defesa da liberdade de imprensa é uma luta de cidadania central para a nossa democracia, e porque condenamos de forma clara o inaceitável comportamento do primeiro-ministro, que terá de ter repercussões políticas, pensamos que devem ser conhecidas todas as posições públicas que se oponham ao silenciamento do problema, deixando aqui, por isso, um link para o anúncio à iniciativa. Organizada, curiosamente, por alguns dos bloggers que mais atacaram o direito de manifestação de professores, funcionários públicos e restantes trabalhadores, e que de forma mais despudorada se insurgiram contra um verdadeiro pluralismo de opinião na imprensa portuguesa. Registamos com agrado a evolução.
Daniel Oliveira, João Rodrigues, Pedro Sales, Pedro Vieira, Rui Bebiano e Sérgio Lavos.
Embora tema que esta iniciativa seja apropriada pelos carentes de uma tutela presidencialista, estou demasiado próximo do texto da manifestação para subscrever este post (não obstante a pertinência que encontro nalgumas questões que levanta). Lamentavelmente, a minha (não) posição tem mais a ver com a quotidiana dificuldade em escolher o salgado certo do que com o arrojo da dissidência – com os demais arrastões armados em democratas nem é provável que consiga ser saneado.
Bruno Sena Martins
77 comentários 8 Fev 10 em Sem categoria“Portugal dificilmente vai deixar de ser um país anémico, enquanto nos jornais moderados e, pasme-se, nos económicos, houver espaço para quem detesta as regras mais básicas do funcionamento dos mercados, e clama por aquilo que o mata.”
Insurgente, 12 de Setembro de 2008
“Depois, senhores da SONAE, que deixam que o seu dinheiro dê voz a radicais, não se queixem, nos momentos da verdade, que o país está enviesado, entregue à extrema esquerda, e que encontram resistência na mentalidade dos portugueses para promover a mudança.”
Insurgente, 22 de Setembro de 2008
“É a liberdade de expressão, acima de qualquer conflito partidário, que está em causa. Apelamos, por tudo isto, aos órgãos de soberania para que cumpram os deveres constitucionais que lhes foram confiados e para que não hesitem, em nome de uma aparente estabilidade, na defesa intransigente da Liberdade.”
Insurgente, 8 de Fevereiro de 2010

Vital Moreira rejubila porque “até Marrocos” já iniciou as obras da sua primeira linha do TGV. Para quem dedica tanta atenção aos planos ferroviários saharianos, parece ter-lhe escapado a admissão, este sábado ao Expresso, de que o governo admite privatizar e desmantelar a CP. O resultado não será difícil de antever. Acelerar ainda mais o encerramento das linhas tradicionalmente deficitárias, uma medida intimamente correlacionada com o progressivo despovoamento do interior. Curiosamente, o próprio ministério das Finanças admite que a absurda ligação Lisboa-Porto – ao contrário do Alfa e Intercidades que são os serviços mais lucrativos da CP – venha a ser deficitária. Não há problema: paga-se com os impostos dos contribuintes que vão ficar sem a enésima linha de comboio regional.
Bem vistas as coisas, a analogia com regimes como o marroquino até é capaz de não ser uma ideia tão absurda assim.
7 comentários 8 Fev 10 em Sem categoria
… o que não falta para aí são companhias de aviação com viagens para Portugal. Deixem lá o México, Irão, EUA e demais paragens e regressem, pessoal.
15 comentários 8 Fev 10 em Sem categoriaSerá que conseguem que Sócrates caia agora, neste momento exacto, quando não podem ser marcadas eleições e o PSD ainda está sem líder, para que seja Cavaco Silva a determinar a política e a distribuir o jogo na direita? Muito mais importante: será que conseguem que isso aconteça antes que Passos Coelho chegue à liderança do PSD?
O tempo é apertado. Sócrates já morreu. A direita já está a trabalhar na luta interna: se, à falta de um homem do Presidente para o PSD, é Cavaco Silva que toma as rédeas da coisa ainda antes da escolha interna do partido. O país pode estar a discutir a crise e a liberdade de imprensa. O debate deles agora é outro.
28 comentários 8 Fev 10 em Sem categoria“Em nome da liberdade de opinião, os jornalistas defendem o seu direito de maldizer os políticos até ao insulto. Mas ficam sempre muito revoltados quando os visados resolvem emitir opinião sobre eles…”
Vital Moreira
Estará Vital Moreira distraído? Viverá noutro planeta? Saberá que Sócrates tentou, usando o poder do Estado em empresas, correr com jornalistas? E que isso não se enquadra numa mera “opinião” sobre os jornalistas? Alguém vai um destes dias contar a Vital Moreira o que se está a passar por cá?
11 comentários 8 Fev 10 em Sem categoria
O euro vai acabar? Não sabemos: estamos perante uma incerteza radical, conceito que teima em não entrar na cabeça da maioria dos economistas, convencidos de que podem atribuir probabilidades a tudo. Qual é o problema do euro, tal como foi instituído? Ser parte de uma utopia monetarista geradora de desemprego e desigualdades.
O euro é uma moeda única sem um orçamento central com peso, sem fiscalidade unificada e sem dívida pública europeia. Isto quando se sabe que, num contexto de integração monetária, o peso do orçamento da UE no PIB deveria ser, pelo menos, o dobro dos actuais 1%. Esta trajectória liberal é inédita e leva ao desastre que começa nas periferias: Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha. O acrónimo lê-se “pigs” (porcos…), em inglês. Há preconceitos que não desaparecem. Os mercados financeiros ainda liberalizados guiam-se por eles e aprofundam-nos.
A minha crónica no i pode ser lida e comentada aqui
Sem comentários 8 Fev 10 em Sem categoria
Imagem: elemento da instalação “Anunciação, Afeganistão”, Pedro Penilo
Uma justiça enredada no seu próprio novelo, dependente de guerras mesquinhas por pequenos poderes. Jornalistas com pouca autonomia e proletarizados. Empresas de comunicação social frágeis, nas mãos de grupos que se dedicam a outros negócios, e que quase sempre dependem de alguma forma do governo que está ou do que há de vir. Um Estado tomado pela pequena e grande corrupção. Crise económica e descrença total dos cidadãos em praticamente todas as instituições. Está criado o caldo para a desgraça.
O fenómeno da judicalização da política e de uma democracia marcada pelo ritmo dos escândalos criam uma sensação de um eminente Apocalipse. Este clima de fim dos tempos não é exclusivamente português. A corrupção ainda menos. Mas como, em Portugal, o populismo mais radical não tem tido espaço para furar o quadro partidário, são muitas vezes os jornalistas e colunistas que ocupam este lugar, trocando a informação enquadrada pela gritaria permanente. Quem, na sua ingenuidade, julgue que disto nascerá algum movimento de cidadania “regenerador” engana-se. Este ambiente de “Fórum TSF” contínuo cria desespero, descrença e desistência. É sintoma do problema, mas seguramente não faz parte solução.
Em toda a nossa história tivemos 35 anos de imprensa sem censura. A nossa comunicação social tem todos os problemas que se podem encontrar nos EUA e no resto da Europa. Mas sem os anos de maturação de regras e consensos deontológicos para a construção de uma imprensa minimamente independente das pressões políticas e económicas e capaz de se autoregular. A nossa comunicação social é tão relevante para a vida pública como a de qualquer democracia. Mas é incrivelmente mais frágil na autonomia das empresas e dos seus profissionais.
Como muitos temiam, com o caso Casa Pia (e aqui é indiferente o que se pense sobre o decorrer e desfecho provável do processo judicial propriamente dito), o país perdeu a inocência. Várias fronteiras foram ultrapassadas pelos jornalistas sem que estes tivessem os instrumentos necessários para aprender com os erros e abusos. Ultrapassadas essas fronteiras, sabíamos que nada voltaria a ser como antes. Apercebemo-nos também de como a nossa justiça está bloqueada e refém de todas as pressões.
Continuar a ler no link em baixo
Continue a ler ‘Não matar a liberdade à nascença’

As médias são enganadoras. Segundo um estudo sobre pobreza, da autoria do economista Nuno Alves do Banco de Portugal, a Madeira tem a mais elevada taxa do país. A Madeira não é um jardim: é uma região muito desigual. Para além disso, calcula-se que o offshore da Madeira representa cerca de 20% do PIB da região, o que, dada a natureza da maioria das actividades que aí se desenvolvem, faz com que a diferença de rendimentos, face ao resto do país, esteja claramente sobrestimada.
É verdade que tem ocorrido um processo convergência a nível dos rendimentos, o que só ilustra as virtudes macroeconómicas das transferências regionais, independentemente das escolhas – as péssimas, as más e as boas – que presidem ao seu uso na região. Num contexto de crise profunda, que tem como consequência inevitável um aumento do défice orçamental que aliás contraria a espiral económica descendente, as finanças regionais, dado o peso da Madeira, são um detalhe, complexo, mas um detalhe. Não deve servir de base para crises políticas artificiais.
Aproveito para apresentar um dos mais importantes economistas do século passado, que me parece cada vez mais relevante para este – o sueco Gunnar Myrdal: se queremos travar as perniciosas tendências para o crescimento das desigualdades regionais e sociais, ou seja, contrariar a lógica da causalidade cumulativa associada às forças de mercado, temos, entre muitas outras reformas, de criar e de reforçar os mecanismos de redistribuição nacionais e supranacionais.
No caso de uma “região” do sul da Europa, que dá pelo nome de Portugal, a moeda é europeia e os capitais especulativos circulam por aí sem impedimentos e prontos a causar todos os estragos, mas o orçamento da União tem um peso residual e não há regulação financeira robusta a essa escala. Este e outros desequilíbrios institucionais pagam-se muito caros.
8 comentários 7 Fev 10 em Sem categoriaO que é feito do “interesse estratégico” que, ainda há coisa de nove meses, a PT antevia nos conteúdos noticiosos, levando mesmo Zenal Baiva a explicar a sua gloriosa visão na Grande Entrevista da RTP? Gorada a hipótese Media Capital não havia mais nenhum grupo estratégico para a PT, ou o interesse era meramente circunstancial?
5 comentários 7 Fev 10 em Sem categoria
Não é achado de maior reconhecer que José Sócrates beneficia da fortuna histórica de suceder ao governo liderado por Santana Lopes. Ainda assim, creio que que este “dado genealógico” não tem sido suficientemente valorizado quando tentamos perceber, por exemplo, porque é que sucessivas evidências de embriaguez autoritária jamais resultam numa indignação generalizada da opinião pública. Veja-se a cavalgante perda de sensibilidade em relação ao que seja o respeito pela liberdade e pelo pluralismo de opinião enquanto bastião da democracia. Não fosse assim e a demissão de José Sócrates em resultado da sua “relação tempestuosa” com os media seria, naturalmente, a questão do dia. Não é.
É claro que nem tudo deve à bitola legada por Santana Lopes. Sócrates beneficia também dos seus contemporâneos mais relevantes: o descalabro do principal partido da oposição, por um lado, e, por outro, um jornalismo que nunca conseguiu cumprir o corajoso papel de denúncia sem levantar sérias questões de deontologia ou sem dar ar de senda persecutória: Jornal de Sexta, linha editorial de José Manuel Fernandes, affair Mário Crespo, escutas no Sol, etc.
Ainda assim, o facto é que em pouco tempo Santana Lopes conseguiu juntar à incompetência governativa – enquanto tecnocrata, gestor e líder de governo, já não falo como decisor político – uma manifesta tentação autoritária bem sublinhada pelo caso da saída de Marcelo da TVI. Em contraste com Santana Lopes, Sócrates mostra uma óbvia competência governativa – enquanto tecnocrata, gestor e líder de governo -, tem os seus principais adversários públicos fundados em linhas deontológicas problemáticas, tem o principal partido da oposição convertido em anedota e, com tudo isto, a opinião pública portuguesa parece mais que disposta a perdoar-lhe os pecadilhos autoritários.
Nesta perda de sensibilidade jaz a semente de uma berlusconização em curso: na lealdade ao menor dos males, conforme historicamente definido por Santana Lopes, nenhuma forma de autocracia germina sem a disponibilidade prévia dos governados. Ou seja, a presente complacência com os sucessivos sinais exteriores de autoritarismo representa uma perda de sensibilidade democrática, mais: é um memorando do modo como os princípios democráticos dos governados tantas vezes têm capitulado perante as circunstâncias.
Publicado também em Avatares de um Desejo.
13 comentários 7 Fev 10 em Sem categoriaSócrates lamenta “jornalismo de buraco de fechadura”
Uma ideia: que por estes dias José Sócrates deixe de fazer considerações éticas sobre jornalismo e jornalistas. Que deixe as críticas ao “Sol” a quem tenha alguma autoridade moral para falar do assunto. Porque já todos percebemos que a sua alternativa ao que temos é bem pouco recomendável numa democracia.
29 comentários 7 Fev 10 em Sem categoriaDepois de mais uma ida a Alvalade para garantir que não tenho apenas bons momentos na minha vida, vi o resumo do Benfica. Fiquei satisfeito com a evolução. Ali já se joga à Porto. Com a preciosa ajuda de um 12º elemento.
49 comentários 7 Fev 10 em Sem categoria
“Os mercados ficaram enervados com a perspectiva de uma vaga de protestos sindicais contra as medidas de austeridade em Espanha, Portugal e Grécia.”
Os “mercados”, e sobretudo muitos dos que escrevem sobre os ditos, coitados, enervam-se com sindicatos, partidos de esquerda e toda a tralha da democracia: uma fonte de perturbação, rigidez e fricção. A expressão rigidez, aplicada às relações laborais, por exemplo, é todo um manual de intoxicação ideológica, que muito contribui para esta crise.
A utopia dos “mercados”, na ausência de contrapoderes fortes, tende a trabalhar para a limitação e erosão da democracia. Por isso, a minha única esperança é que tenham muito, mas mesmo muito, com que se enervar. Ontem parece que houve uma manifestação concorrida em Lisboa. O desafio, como o Nuno Teles argumenta, é enervar à escala europeia. Enervar para reformar.
Por outro lado, sabemos, pelos estudos na área dos determinantes sociais da saúde, que certas formas de instituir os mercados com vista à sua expansão, e a injustiça social que assim é gerada, fazem mesmo mal aos nervos, à saúde, das pessoas propriamente ditas…
9 comentários 6 Fev 10 em Sem categoriapoetrymustbeontv, um projecto a ganhar corpo em São Mamede de Infesta
2 comentários 6 Fev 10 em Sem categoria
Dito isto, temos que conceder que não tivemos nenhuma novidade com o que se soube sobre o caso Face Oculta. Apenas se confirma, da pior das maneiras, é verdade (e isso está longe de ser um pormenor), que em praticamente todos os domínios José Sócrates é homem errado no lugar errado à hora errada. O seu comportamento nesta crise financeira e económica também mostram que estamos em fim de festa. Não seria mau que os militantes do Partido Socialista começassem já a pensar num novo líder. Se não querem afundar-se com este. E se não querem experimentar aquilo pelo qual o PSD passou nos últimos anos. Talvez alguém de esquerda e com um perfil ético um pouco mais adequado ao cargo, digo eu que não tenho nada a ver com isso.
61 comentários 6 Fev 10 em Sem categoriaMais um bocadinho e o Benfica exige que, na próxima terça-feira, no Estádio de Alvalade, os sportinguistas fiquem nos lugares reservados aos visitantes.
23 comentários 6 Fev 10 em Sem categoriaAquilo que terá levado Nas Nuvens até às nomeações para os Óscares – a consciência social, o interesse pelo espírito do tempo, no caso a crise económica – será o menos interessante no filme, principalmente porque Jason Reitman mostra pouca vontade de intervir na sociedade. Se o que convenceu os membros da Academia de Hollywood foi antes a riqueza das personagens, o desempenho dos três actores nomeados para os Óscares(George Clooney, belíssima Vera Farmiga, excelente Anna Kendrick) e a inegável sagacidade que o realizador mostra na direcção de actores – confirmação do que foi mostrado em Juno – tanto melhor. Mas o filme vai um pouco mais longe, no modo como mostra os espaços vazios da modernidade, os não-lugares de que Marc Augé fala, pontos de passagem entre lugares – os aeroportos, os hotéis, os aviões. E, sobretudo, as empresas que dispensam funcionários e se vão esvaziando de vida, esses novos não-lugares criados pelo esvaziamento das sucessivas bolhas de optimismo que o crescimento económico foi produzindo – a carga política do filme que realmente interessa. Neste ponto, há cenas exemplares – a sala com cadeiras vazias empilhadas onde Natalie espera, o escritório onde apenas resistem três ou quatro secretárias, e sobretudo a sequência do primeiro despedimento real remoto, que tem lugar, para cúmulo, em Detroit, uma das cidades americanas onde se sente mais intensamente o efeito da recessão americana. A montagem paralela, que vai mostrando o rosto de Ryan Bingham, Natalie e do homem que está a ser despedido, no ecrã e fora dele, e que acaba por estar na sala ao lado, a olhar para o monitor, é brilhante. A desumanização do capitalismo nunca terá sido tão bem filmada, e já se fizeram muitas obras panfletárias que podem comprovar a minha afirmação, podemos ter a certeza disso. Vale mais aquele plano, do desempregado a chorar no monitor que é espreitado por quem acabou de despedir, do que qualquer manifesto de Michael Moore, por exemplo. O cinema como transcendência da realidade representada.
11 comentários 5 Fev 10 em Cinema“O presidente do JP Morgan, Jamie Dimon, vai receber um bónus de 16 milhões de dólares, o equivalente a 11,7 milhões de euros, através de um pacote de acções e opções sobre acções.
Apesar da compensação dos banqueiros de Wall Street continuar a ser o alvo preferencial das críticas da opinião pública, Jamie Dimon prepara-se para receber uma “generosa” recompensa depois do JP Morgan ter apresentado lucros de 11,7 mil milhões de dólares em 2009 e de ter devolvido 25 mil milhões relativos aos fundos de ajuda estatais concedidos para superar a crise.
Em 2007, Dimon encaixou 27,8 milhões de dólares em dinheiro, juntamente com acções e opções sobre acções. Já no ano passado, o responsável recebeu uma compensação de 19,7 milhões de dólares.”
Económico
“Portugal has been in political crisis since the Maoist-Trotskyist Bloco won 10pc of the vote last year. This is rapidly turning into a market crisis as well as investors digest a revised budget deficit of 9.3pc of GDP for 2009, much higher than thought. A €500m debt auction failed on Wednesday. The yield spread on 10-year Portuguese bonds has risen to 155 basis points over German bunds.”
Do Telegraph.
Ler jornais é saber mais.
53 comentários 5 Fev 10 em Sem categoria
Há quase trinta anos que por motivos familiares visito regularmente a Madeira. Apesar de em 1981, quando pela primeira vez desembarquei no Aeroporto de Santa Catarina, ainda se sentir na rua alguma relutância em relação ao “cubano” que chegava do Continente – eu era nitidamente um deles – salvo raríssimas excepções fui sempre bem tratado. E ainda que me desagrade a degradação da natureza e da paisagem urbana suscitadas ao longo destas três décadas pelo crescimento do asfalto e do betão, nunca deixei de me sentir bem na ilha. Gosto da Madeira, gosto da generalidade dos madeirenses, e, não fora detestar andar de avião e sofrer de uma certa “insulofobia”, talvez nem me importasse de passar por lá bastante mais tempo.
Nunca fui ao Porto Santo mas conheço bem toda a ilha da Madeira. Sei por isso que, se retirarmos algumas áreas onde reside a população mais pobre e desamparada, por toda a parte se respira um ambiente de prosperidade: vias rápidas e eficazes, cidades organizadas, um serviço de saúde exemplar, excelentes instalações escolares, transportes públicos eficazes, um óptimo parque automóvel, pessoas geralmente bem vestidas, muitas lojas de artigos de luxo, bons hotéis e bons restaurantes. Uma prosperidade bem visível na vida e nas atitudes de muitas famílias. Como não se vê, nesta dimensão, em parte alguma do resto de Portugal. Hoje mesmo no Público Manuel Carvalho apresenta dados irrefutáveis: o rendimento per capita na Madeira é de 128 por cento da média nacional, e enquanto o rendimento nacional ronda os 76 por cento da média europeia, os madeirenses beneficiam de 97 por cento. Como lembra o subdirector do jornal, “no país mais desigual da Europa, só Lisboa está acima”. Desta forma percebe-se que a maioria das pessoas continue a eleger e a adular o aparente arquitecto deste pequeno paraíso.
Só que ao mesmo tempo – não escrevo novidade alguma, mas convém relembrar – não existe no arquipélago, para além de um turismo de massas sazonal (o antigo, regular e “de qualidade”, tem vindo a regredir), actividade económica que aparentemente pague uma situação que nenhuma outra região do país mantém. Não existe uma única indústria (não conta, naturalmente, a produção semi-artesanal de vimes e de bordados), o campo vive quase em regime de monocultura (a videira ou a bananeira ocupam a paisagem cultivada visível), não existe criação de gado significativa ou actividades derivadas, o comércio tradicional definha a olhos vistos. E, pior, não se pensa, não se fala, numa alternativa a este deserto económico. Há, sim, um consumo de bens elevado, condicionado pelo Governo Regional que é o principal empregador e o grande padrinho, e por uma política de subsídios que torna tudo – educação, saúde, transportes – muito mais barato do que em qualquer outra parte do país. Nestas condições, como não apelar em período de crise, à escala nacional, à contenção de quem se encontra em melhores condições para a aplicar? Justamente porque beneficiou da solidariedade forçada de quem manteve o cinto apertado enquanto a partir do palácio rosa da Quinta Vigia se abriam os cordões “à grande e à madeirense”. A ser aplicada, a solidariedade não pode ter sentido único, por muito que o senhor que se sabe vocifere e estrebuche ou se faça passar por engraçadinho. Para o bem de todos, incluindo naturalmente os madeirenses.
Publicado originalmente em A Terceira Noite
37 comentários 5 Fev 10 em Actualidade, Política, PortugalA Região Autónoma da Madeira emerge do recente sururu como o símbolo maior de uma deriva despesista que ameaça as contas do Estado. Explica o governo que a Madeira deverá ficar obrigada à austeridade dos demais, não apenas pelos montantes em jogo, mas também pelo sublinhado que importa fazer à consciência colectiva: os sacrifícios devem ser partilhados por todos. É inegável que Madeira e (sobretudo) a figura do seu dirigente máximo servem bem o simbolismo dos propósitos governativos, sem que ninguém defenda Alberto João com genuína convicção, onde uns verão o uso de um bode expiatório, outros percebem a justa criação de um caso exemplar, .
Mas se é para entrar no campo da moralização e das medidas simbólicas teremos que passar a entender a Madeira num sentido mais lato, como uma geografia simbólica, se quiserem. Ou seja, cabe-nos perceber que “arquipélago da Madeira” tem muito mais ilhas do que aquelas que ficaram à vista na discussão das lei das finanças regionais. A Mota-Engil, por exemplo.
A cartografia do arquipélago pode começar ser feita a partir dos relatórios do Tribunal de Contas.
5 comentários 5 Fev 10 em Sem categoriaContinua a série “Guerra Fria”. No 16º episódio, a fase de distenção posterior a 1970.
Episódios anteriores:
1: Camaradas 1917-1945 ; 2: o Cortina de Ferro 1945-1947; 3: Plano Marshall 1947-1952; 4: Berlim 1948-1949; 5: Coreia 1949-1953; 6: Reds 1947-1953; 7: Depois de Estaline 1953-1956; 8: Sputnik 1949-1961; 9: O Muro 1958-1963: 10: Cuba 1959-1962; 11: Vietname 1954-1968, 12: M.A.D. 1960-1972: 13: Make Love Not War 60’s; 14: Red Spring 60’s; 15: China 1949-1972.
Qual é o grau de devastação económica, tão assimetricamente distribuída, que a especulação sem freios e a proliferação financeira, geradoras de opacidade e de incerteza acrescidas, têm de causar para se começar a pensar em reformas substanciais – à escala nacional, europeia e mundial – da finança de mercado? Qual é o limite para a liberalização financeira, geradora de sucessivos pânicos e crises por todo o mundo desde os anos setenta? Lembram-se de como esta última crise começou em 2007-2008?
Em vez de andar a tentar distanciar-se da Grécia e a curvar-se perante os “mercados”, prometendo reduções do défice que não vai conseguir cumprir sem um “cataclismo” (Silva Lopes), míopes iniciativas votadas ao fracasso, o governo deve pensar numa solução política à altura das circunstâncias. Não sei se resulta, mas estamos num momento de escolhas trágicas em contexto de incerteza radical. Tempo da política a sério.
É então necessário tentar construir uma aliança, envolvendo as periferias europeias e países como a França, com um duplo objectivo: criar o mais rapidamente possível um fundo obrigacionista europeu para financiar situações de emergência e garantir que o BCE intervém nos mercados com todo o poder de um banco central. Isto significa pressionar a Alemanha, claro. Depois podemos começar a pensar em reconfigurar e limitar o alcance dos mercados financeiros antes que seja tarde de mais para a UE. Se calhar já é tarde de mais: inspirado em José Medeiros Ferreira, é caso para dizer que também os Almunias desta Europa andam à solta e sem rumo. Os mercados financeiros contaminam a política.
[Publicado, em simultâneo, no Ladrões de Bicicletas]
10 comentários 5 Fev 10 em Sem categoria
Para defender a liberdade de expressão não se hesita em violar os direitos civis. Não quero a pata do governo na comunicação social. Não quero a pata dos jornalistas nos nossos telefones. É assim tão dificil perceber isto? Não prefiro Big Brother dos jornalistas ao Big Brother de Sócrates. Pelo menos em relação ao segundo, posso correr com ele. Hoje, o “Sol” não defende a liberdade de imprensa. Ofende-a.
Ler texto sobre o mesmo assunto no Expresso Online.
43 comentários 5 Fev 10 em Sem categoria
Na Coreia do Norte, a súbita e brutal valorização monetária com a impossibilidade das pessoas trocarem a totalidade das economias que mantinham em casa pela nova moeda foi mais uma gota o oceano de incompetência e loucura que há décadas lança o país na miséria e na fome. Os relatos imprecisos que chegam de um país fechado ao mundo são de gente a morrer de fome.
Numa qualquer democracia, tal seria impossível sem que nada acontecesse. Não que as democracias estejam, como tão bem sabemos, imunes à incompetência. Muito menos estão imunes à insensibilidade e repressão social. Mas há sempre um limite. Quando a coisa ultrapassa o tolerável os governos caem. Mesmo nas ditaduras é isso que acontece. Não caem pelo voto, caem pelas armas ou na rua.
Mas a Coreia do Norte é mais do que uma ditadura. É um regime totalitário apenas comparável às piores que conhecemos no século XX. Os limites para o “Querido Líder” medem-se pela dimensão do terror que consiga espalhar à sua volta. Que haja quem possa olhar para esta abjecção como um aliado contra o poder hegemónico do Império Americano apenas diz de algum desnorte que por aí anda.
Se o poder corrompe, se o poder absoluto corrompe absolutamente, a tirania eloquente o tirano.
Para a esquerda que acredita que a igualdade é possível sem democracia e liberdade, a Coreia da Norte é um lembrete em forma de caricatura: zero de liberdade, zero de igualdade. Mas também para a direita que suspira por líderes iluminados e que no fundo acredita que a cedência à pressão da rua e do voto é sinal de fraqueza, a Coreia do Norte mostra como só a vontade popular pode impedir a arbitrariedade. Um governo com medo do povo é a única alternativa a um povo com medo do governo.
A fome dos coreanos recorda-nos porque vamos a votos, porque temos oposição, porque precisamos de parlamentos, de partidos, de sindicatos, de manifestações, de greves, de jornais livres, de confrontos sociais e de crises políticas. A sanidade de um líder, por mais iluminado e competente que fosse, nunca resiste à bebedeira do poder. Sem tudo o que parece que tanta gente hoje olimpicamente despreza ficaremos sempre nas mãos de loucos. Sempre.
51 comentários 4 Fev 10 em Sem categoriaÉ favor comparar o vídeo acima com este que o Braga pôs no seu site (canto inferior direito) e depois ler o texto do pmramires no Shakira Kurosawa.
27 comentários 4 Fev 10 em Desporto
“Face à grande crise do capitalismo neoliberal, não tenho a menor dúvida que os cidadãos de esquerda devem defender políticas federais e articular a sua luta à escala europeia. Que fique bem claro: hoje, na UE, ou nos salvamos todos ou nos perdemos todos.” (9 de Abril e 17 de Julho de 2009)
“Em suma, a menos que ocorra um milagre na Alemanha, o agravamento da crise ecónomica e financeira acabará por fazer saltar a faísca detonadora de uma crise política na UE no próximo ano. A interacção das várias crises conduzirá ao desmoronar da Zona Euro por insustentabilidade social, financeira e política.” (17 de Julho de 2009)
“Assim, a manutenção de Portugal na Zona Euro (enquanto esta durar) implica a decisão política, ainda que implícita, de sofrer um prolongado período de grande desemprego. E isto sem que o sacrifício valha a pena porque o nível de vida apenas subirá sustentadamente com o aumento da produtividade e os processos sociais que permitiriam esse aumento, através do investimento e da inovação tecnológica, são prejudicados pelas políticas de austeridade.” (19 de Julho de 2009)
“Recordo que a minha previsão não é uma opção política, é uma antevisão racional do fim da actual Zona Euro, gostemos ou não. É possível que após a implosão se venha a constituir uma outra com muito menos membros, ficando (por hipótese) os restantes ligados àquela através de câmbios ajustáveis, mas não quero ir tão longe na previsão.” (19 de Julho de 2009).
Excertos de postes que o Jorge Bateira escreveu no Ladrões de Bicicletas: o europeísmo crítico há muito que alerta o europeísmo feliz, que disse sempre sim a tudo. Bons alunos ou como diz João Pinto e Castro: “Ou ‘tás caladinho, ou levas no focinho” . A utopia monetarista, na ausência de reformas profundas, acaba sempre mal. Sempre.
12 comentários 4 Fev 10 em Sem categoria
Há décadas que Alberto João Jardim se mantém, através da chantagem, imune a todas as crises: o seu jogo não tem riscos e sai sempre a ganhar. Qualquer pessoa que conheça bem a Madeira saber que ali se tem conseguido manter um nível de vida impensável na maior parte do país. Tal não resulta de uma boa gestão dos dinheiros públicos – esbanja-se sem qualquer rigor e ao sabor de ciclos eleitorais – ou de uma vibrante vida económica. É pago pelo país. Mais injusto: é pago pelas regiões mais deprimidas do país.
Como PSD e CDS viabilizaram o Orçamento sem exigir nada de relevante em troca, José Sócrates precisava de um novo drama para alimentar a ideia de que governa a custo e assim ir justificado os resultados que não vai conseguir. O desemprego está descontrolado, não há solução paras as finanças públicas e até já nas suas hostes se começa a sentir o fim de festa. Por isso, José Sócrates precisa de vencer todos os combates ou impor a ideia de que cada derrota sua é um perigo para o país.
Alberto João Jardim cumpria bem o papel do elemento destabilizador. Quem, na opinião pública fora da Madeira, iria tomar o seu partido quando, no meio da crise que se abateu sobre o país, ele exige mais e mais dinheiro?
É provável que José Sócrates não esperasse a desorientação do PS, que talvez se comece a aperceber do suicídio político desta estratégia sem futuro e se preparava para negociar com a oposição uma solução menos má. Vieram então as ameaças de demissão reais ou nem por isso de Teixeira dos Santos e José Sócrates. Por causa de meia décima do PIB.
Excelente oportunidade para Cavaco Silva mostrar, em ano de presidenciais, que no fim será ele que desempata cada crise. Terá sido isso que deixou claro no último Conselho de Estado? Ou foi apenas para inglês ver?
Ganhe Jardim ou Sócrates (que agora só se pode valer de um improvável veto presidencial), este Carnaval antecipado apenas nos mostra uma coisa: que o Governo sabe que aí vem um naufrágio. Só ainda não sabe como sair dele. E agarra-se a cada bóia que encontra. Desta vez foi a ganância de Alberto João Jardim. Qual será a próxima?
Em stereo com Expresso Online.
29 comentários 4 Fev 10 em Sem categoria 
“É verdade que podemos não morrer da doença mas sim da cura. Mas é um risco que temos de assumir.” Pedro Carvalho acaba por alinhar certinho pela cartilha do FMI depois de descrever alguns elementos da desgraçada conjuntura (mas não da estrutura que lhe subjaz…). É assim mesmo no quadro que foi criado: cortar os salários elevadíssimos da esmagadora maioria dos portugueses e aumentar ainda mais os regressivos impostos indirectos, caso do IVA. Isto significa um regresso à depressão, claro. Confiemos na economia da purga. O único mecanismo para a primeira “proposta” é o aumento do desemprego. Quanto ao IVA, o facto deste já ter um dos maiores pesos no total dos impostos a nível da UE é um pormenor num país com um nível de desigualdade económica que é outro pormenor. A interacção perversa entre a deflação e a dívida também é mais um pormenor na sociopatia do FMI e da Comissão. Sobre este último ponto, dou a palavra a Miguel Madeira, que expõe o problema numa penada: “Uma analogia – imagine-se alguém com um ordenado de 1000 euros por mês, com uma dívida de 50.000 euros; suponha-se, num exemplo extremo, que o seu ordenado baixava para 500 euros e os preços também baixavam para metade – a sua dívida não iria baixar para 25.000 euros por isso, continuaria a ser 50.000 euros, logo passaria a ter muito mais dificuldade em pagar a sua dívida, mesmo que o salário real se tenha mantido igual. E o que vale para um indivíduo, vale também para um Estado, só que em ponto maior.” Solução? O Jorge Bateira lembra a táctica e a estratégia possíveis aqui, a partir de um cenário realista: o euro pode acabar e isto é um problema tanto para os credores como para os devedores. Será que o provérbio se confirma no euro? O que nasce torto…
Nota: montagem roubada a um excelente post de Luís Rainha.
1 comentário 4 Fev 10 em Sem categoriaA partir de hoje as minhas crónicas diárias no Expresso Online estarão num blogue alojado no site: Antes pelo contrário. Brevemente o link para o blogue passará a estar no topo do Arrastão, junto aos dos restantes bloggers da casa.
2 comentários 4 Fev 10 em Sem categoria“[N]o 1º Trimestre de 2009, 1.577.100 trabalhadores por conta de outrem, ou seja, 40,6% do total de trabalhadores tinham um salário liquido inferior a 600 euros por mês. Apenas 483,1 mil, ou seja, 12,4% do total, recebiam um salário liquido mensal superior a 1.200 euros por mês. Os que recebiam mais de 1.800 euros por mês eram apenas 3,8% do total.”
Vale a pena ler este estudo de Eugénio Rosa sobre os salários em Portugal. Isto tem sido um regabofe salarial, claro. Enfim, eu e o Nuno Teles escrevemos um artigo no Le Monde diplomatique – edição portuguesa do mês passado a responder aos economistas-2012, os que insistem na estratégia do choque e do pavor para fazer com que sejam os trabalhadores a pagar a crise. A parte mais relevante para esta discussão está aqui.
32 comentários 3 Fev 10 em Sem categoriaA Holanda proibiu a pornografia com animais. Mais interessante: 80 por cento da coisa era produzida no país.
24 comentários 3 Fev 10 em Sem categoriaPS quer publicar na Internet rendimentos dos cidadãos
O mesmo partido que rejeitou no Parlamento o levantamento do sigilo bancário, recusando que a administração fiscal compare o saldo bancário com as declarações dos contribuintes, apresenta agora um projecto de lei para divulgar na net os rendimentos de todos os cidadãos. Dizem os deputados do PS que é para combater a corrupção, uma maneira simpática de reconhecer que estão à espera que, depois de cada um espiolhar o salário do vizinho do lado ou da colega do escritório, vá a correr fazer queixa às autoridades do Megane da Maria ou das férias do António na Tunísia. Ora aí está a medida eficaz do PS contra a corrupção: armar um país de coscuvilheiros com poder de bufos. Lacão tem razão. Isto é uma calhandrice. Que seja fomentada pelo seu próprio partido só acrescenta ridículo ao ridículo da proposta.
27 comentários 3 Fev 10 em Sem categoriaExistisse em Portugal uma direita digna desse nome e estaríamos a debater o défice, o endividamento público, o peso do Estado na economia e o papel dos privados no combate ao desemprego. Estaríamos a discutir o conselho do FMI para reduzirmos os salários dos nossos trabalhadores para aumentar a competitividade.
Fossem os partidos à esquerda do PS vistos como verdadeiras alternativas de poder e o país estaria a discutir se queremos o modelo sueco, finlandês e dinamarquês, que aposta em mais receitas fiscais e mais despesa pública, ou o modelo romeno, búlgaro e lituano, que prefere um Estado magro nas receitas e nos gastos. Estaríamos a discutir políticas públicas de emprego e a discutir se o nosso problema é termos salários demasiado altos para as nossas possibilidades ou termos a sociedade mais desigual de toda Europa em que apenas alguns vivem muito acima das nossas possibilidades.
Estivesse o PS interessado em governar e estaria a explicar porque reduz o investimento público quando fez dele o seu cavalo de batalha e como podem as grandes obras criar emprego agora.
Houvesse políticos neste país e cidadãos interessados na política e o debate sobre o Orçamento do Estado seria o momento alto da democracia parlamentar.
Houvesse jornalismo empenhado nessa democracia e estaria o país a tentar compreender o que está por de trás dos números do Orçamento do Estado, para além de frases feitas em economês e as verdades lapidares que disfarçam cartilhas ideológicas.
Como nada disto se passa, resta o escândalo e as conversas de restaurante. Sem líder e sem norte, a direita põe as suas esperanças em Mário Crespo, como as pôs em José Manuel Fernandes ou Manuela Moura Guedes. Sem compostura e sem ideias, o PS entretém-se a tentar calar jornalistas e colunistas. Sem horizonte de poder, o resto da esquerda não consegue fazer passar o seu discurso no meio do burburinho da espuma dos dias.
O que é relevante é nota de rodapé. O que é acessório está no centro do debate. É este o nosso défice democrático. Porque falta o confronto político com alternativas claras, sobra a arrogância infantil de José Sócrates e o nulo absoluto em que se transformou o PSD.
Publicado em stereo no Expresso Online.
48 comentários 3 Fev 10 em Sem categoria




