
Leiam o que Jorge Costa escreveu sobre
Champalimaud para saberem como se constrói uma fortuna antes e depois do 25 de Abril. Uma pequena parte de uma investigação colectiva que será lançada em livro na próxima semana: “Os Donos de Portugal”. Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas são os autores. Podem ler um capítulo do livro na
Vírus e um resumo de outro capítulo na
Visão. Da história à economia política, passando pelo jornalismo: interdisciplinar como se quer. Podemos esperar um contributo para um retrato histórico do capitalismo português sem romances de mercado, mas antes com muito poder e muitas redes sociais à mistura e o vício de uma certa forma de acumulação. Não é defeito, é feitio. O dinheiro, por muito concentrado que esteja e por muitas, e pouco republicanas, capacidades que tenha de se transformar em poder político, ainda não determina a memória.
A memória também é necessária para superar um Estado dependente dos
especuladores e da lumpemburguesia, o Estado das parcerias público-privadas (PPP) que estamos fartos de denunciar neste e
noutros espaços. De facto, através da análise detalhada da circulação de pessoal entre a esfera política e a esfera dos negócios, do seu entrelaçamento, podemos traçar as cumplicidades que originaram ruinosas privatizações ou a onerosa moda das opacas PPP de que os grupos privados rentistas tanto gostam. Os nomes estão lá todos e as apertadas redes sociais também. O PSD leva a melhor, mas o PS não se sai nada mal. Saberemos então por onde andaram e andam ex-ministros da economia e das finanças que renasceram como moralistas das finanças públicas, como oráculos de horário nobre. O bloco central dos interesses tem muitos nomes e muita sordidez intelectual e moral.
Isto não é um problema de falhas de mercado ou de falta de mercados. Na realidade, julgo que a intensificação das pressões concorrenciais à escala internacional fez com que as grandes empresas, os grandes grupos privados reconstituídos, intensificassem a busca de influência no inevitável processo politico nacional de estruturação das “regras do jogo” nos novos mercados. Assim se obtêm condições mais vantajosas para os negócios. Só nos maus manuais de economia é que os mercados brotam como cogumelos, prescindindo de um processo de criação política sempre contestado e contingente nas suas regras. Não é de admirar que o processo político de expansão dos mercados ou a entrada das empresas privadas em áreas onde os mercados concorrenciais não passam, apesar da enganadora retórica dominante, de uma ficção, tenha originado um incremento generalizado do investimento das empresas e dos capitalistas no processo político, traduzido, entre outros, na captura de pessoal que por aí andou e que tem agendas bem recheadas e conhecimentos úteis. Esta é a inevitável realidade da
neoliberalização do Estado.
As políticas socialistas, que não são as deste PS sem s, de combate às desigualdades, de reforço dos contrapoderes laborais dentro e fora das empresas, de reafirmação do controlo público directo de sectores estratégicos, de combate à fraude e evasão fiscais, por exemplo, através da abolição do sigilo bancário ou de apropriação pública das mais-valias fundiárias obtidas graças a investimentos de toda comunidade, desenham linhas mais fortes entre o que pode ser comprado e vendido e o que é de todos e deve estar ao serviço de todos. Há alternativa?