Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010
por João Rodrigues


Leiam o que Jorge Costa escreveu sobre Champalimaud para saberem como se constrói uma fortuna antes e depois do 25 de Abril. Uma pequena parte de uma investigação colectiva que será lançada em livro na próxima semana: “Os Donos de Portugal”. Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas são os autores. Podem ler um capítulo do livro na Vírus e um resumo de outro capítulo na Visão. Da história à economia política, passando pelo jornalismo: interdisciplinar como se quer. Podemos esperar um contributo para um retrato histórico do capitalismo português sem romances de mercado, mas antes com muito poder e muitas redes sociais à mistura e o vício de uma certa forma de acumulação. Não é defeito, é feitio. O dinheiro, por muito concentrado que esteja e por muitas, e pouco republicanas, capacidades que tenha de se transformar em poder político, ainda não determina a memória.

A memória também é necessária para superar um Estado dependente dos especuladores e da lumpemburguesia, o Estado das parcerias público-privadas (PPP) que estamos fartos de denunciar neste e noutros espaços. De facto, através da análise detalhada da circulação de pessoal entre a esfera política e a esfera dos negócios, do seu entrelaçamento, podemos traçar as cumplicidades que originaram ruinosas privatizações ou a onerosa moda das opacas PPP de que os grupos privados rentistas tanto gostam. Os nomes estão lá todos e as apertadas redes sociais também. O PSD leva a melhor, mas o PS não se sai nada mal. Saberemos então por onde andaram e andam ex-ministros da economia e das finanças que renasceram como moralistas das finanças públicas, como oráculos de horário nobre. O bloco central dos interesses tem muitos nomes e muita sordidez intelectual e moral.

Isto não é um problema de falhas de mercado ou de falta de mercados. Na realidade, julgo que a intensificação das pressões concorrenciais à escala internacional fez com que as grandes empresas, os grandes grupos privados reconstituídos, intensificassem a busca de influência no inevitável processo politico nacional de estruturação das “regras do jogo” nos novos mercados. Assim se obtêm condições mais vantajosas para os negócios. Só nos maus manuais de economia é que os mercados brotam como cogumelos, prescindindo de um processo de criação política sempre contestado e contingente nas suas regras. Não é de admirar que o processo político de expansão dos mercados ou a entrada das empresas privadas em áreas onde os mercados concorrenciais não passam, apesar da enganadora retórica dominante, de uma ficção, tenha originado um incremento generalizado do investimento das empresas e dos capitalistas no processo político, traduzido, entre outros, na captura de pessoal que por aí andou e que tem agendas bem recheadas e conhecimentos úteis. Esta é a inevitável realidade da neoliberalização do Estado.

As políticas socialistas, que não são as deste PS sem s, de combate às desigualdades, de reforço dos contrapoderes laborais dentro e fora das empresas, de reafirmação do controlo público directo de sectores estratégicos, de combate à fraude e evasão fiscais, por exemplo, através da abolição do sigilo bancário ou de apropriação pública das mais-valias fundiárias obtidas graças a investimentos de toda comunidade, desenham linhas mais fortes entre o que pode ser comprado e vendido e o que é de todos e deve estar ao serviço de todos. Há alternativa?

por João Rodrigues
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47 comentários:
Obra de carácter persecutório, claramente. Desses ilustres aí expostos, deveriam focar-se no criminoso José Eduardo dos Santos, pois esse é um poder económico sugado do trabalho do povo angolano.

Gosto, sem dúvida. O Estado decidiu vender (no caso da Galp, por exemplo), e o criminoso é o gajo que compra.

Olhem, eu tenho uma quezília pessoal com o Dr.Francisco Louçã (originada em pleno debate universitário), mas dar-lhe-ia uma ajuda se ele planeasse escrever um livro sobre os offshores e sobre os bandalhos que lá escondem o dinheiro.

deixado a 14/10/10 às 16:26
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Já agora, para onde vai o lucro do livro? Para o bolso dos escritores, portanto capitalistas no ramo da literatura, ou o livro vai ser comercializado para o break-even?

deixado a 14/10/10 às 16:28
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MP
Caro Tiago Silva, o problema é que não foi um coice, foi um roubo.
Já tentou fazer as contas ao numero de pessoas a quem todos esses Senhores dão emprego ? Já viu a incalculável contribuição desses Senhores para o desenvolvimento do País ao longo de décadas ?
Algum desses Senhores deve dinheito a alguém ? Pena é que sejam tão poucos esses Senhores.
Isto não se trata de Direita ou Esquerda, trata-se de ser ou não empreendedor.
Cumprimentos.

deixado a 14/10/10 às 16:39
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MP
Tenho a certeza absoluta que esta "obra" foi escrita com a maior das isenções, por gente de elevado caracter, isenta.
A onde chega a miséria humana...

deixado a 14/10/10 às 15:09
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" Estado das parcerias público-privadas (PPP) que estamos fartos de denunciar neste e noutros espaços (...) "

Caro João, por acaso conhece um economista chamado João Rodrigues que também escreve aqui no arrastão e que tem uma posição diametralmente oposta à sua? É um economista autor um manifesto onde se defende que o Estado deve continuar com investimentos públicos com particular destaque para o TGV baseado nestas parcerias Público-Privadas.

deixado a 14/10/10 às 17:49
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Tiago Silva
Oh MP, mas que mania que quando se faz oposição a uma ideologia em particular, toda a gente que se insere nesse campo ideológico é exactamente o contrário de todos os valores morais da humanidade...

Arre, eu sou de esquerda mas reconheço que existe gente muita gente inteligente e trabalhadora que não pensa da mesma maneira que eu...

E quanto ao livro, só um tanso é que não sabe ainda que este país anda há a décadas a ser governado por um grupo muito restrito de puppet masters, alguns levaram com um coiçe no 25 de Abril,voltando uns aninhos mais tarde, outros souberam amigar-se com o novo sistema e sairam a ganhar...

deixado a 14/10/10 às 15:54
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Paulo Oliveira
MP,

De facto tem toda a razão! Eu quando vi quem eram os autores, fiquei completamente louco para lêr o livro. Pessoas do mais imparcial que existe, de alto valor moral, enfim.. uns verdadeiros empreendedores... uns criadores de riqueza!!!!

deixado a 14/10/10 às 17:11
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MP
Exactamente, uns verdadeiros criadores de riqueza...
Se a demagogia pagasse impostos, estavamos safos.

deixado a 14/10/10 às 17:40
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Portela Menos 1
Pessoas do mais imparcial e alto valor moral são aqueles que todos os dias nos massacram, através dos "media" com a inevitabilidade dos sacrifíciose, dos OE e a PQosP.
Já para não falar das pessoas do mais imparcial e alto valor moral que nos tem governado nos últimos 35 (+48) anos !
Mas há quem goste.

deixado a 14/10/10 às 18:00
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Pedro Lourenço
Então são estes que temos de mandar prender?

Não é isso que se faz a quem rouba?

deixado a 14/10/10 às 18:34
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