Terça-feira, 21 de Outubro de 2008
por Pedro Sales



Em Portugal não existem trabalhadores, há colaboradores. Ninguém é despedido, há ajustamentos às necessidades de produção. As empresas não fecham a porta, deslocalizam a produção. Não existe perda do poder de compra, há contenção salarial. É populista e demagógico lembrar as crescentes disparidades salariais, devendo antes realçar-se que o mérito deve ser premiado e os gestores têm que estar identificados com os interesses da empresa. Que são os mesmos dos trabalhadores. Desculpem, dos colaboradores.

A escolha semântica não é neutra. As palavras têm valor e significado. São uma peça central na disputa do campo das ideias políticas. Fala-se muito do politicamente correcto e do predomínio da esquerda na imprensa, mas nunca se lê uma linha sobre o economicamente correcto que tomou conta do discurso político e jornalístico sobre a economia. E, curiosamente, o economicamente correcto é o mais poderoso motor da assimetria ideológica que normaliza a crise e constitui, ela própria, uma das causas do atraso de um país que não encontra outro modelo de desenvolvimento que não o dos baixos salários. Ele reproduz-se partindo da premissa de que a economia é uma ciência exacta imune à contaminação ideológica e que o discurso "mainstream", que ouvimos e lemos todos os dias, é politicamente neutro. Não é.

Peguemos no exemplo das mistificações sobre a  reduzida taxa de produtividade nacional, constantemente alardeada como a prova provada que os trabalhadores portugueses são pouco trabalhadores e produtivos, quando a única coisa que se pode ler desse indicador é que a economia nacional tem um baixo valor  acrescentado. A discrepância não é inocente, como se percebe, servindo para justificar anos e anos de degradação de poder de compra dos trabalhadores. A forma como os aumentos salariais para a função pública foram retratados na generalidade da imprensa, blogosfera e colunas de opinião constitui um dos melhores exemplos dessa assimetria ideológica. Entre as acusações de eleitoralismo até a"o dinheiro que abunda para salários escasseia para despesas reprodutivas", de Vital Moreira, o tom geral foi a condenação do despesismo. Pouco importa que, nos últimos oito anos, os mesmos trabalhadores tenham perdido 9,4% de poder de compra e que, contando com menos 51 486 trabalhadores, a produtividade da função pública tenha aumentado mais de 7% desde 2005. Também é indiferente que exista margem orçamental. O que importa é que se quebrou a mensagem de austeridade que vinha sendo transmitida ao país. Pelos trabalhadores, claro. E depois fica tudo muito espantado quando surge um estudo que indica que Portugal é um dos países industrializados com maiores desigualdades na distribuição dos rendimentos. Pois.

por Pedro Sales
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44 comentários:
Minhoto
É pá até tem alguma razão! Pedro Sales fez copy paste de algum lado?
Agora uma perguntinha ao Daniel Oliveira.
O senhor é trabalhador da Sic e do Expresso ou colaborador?

deixado a 21/10/08 às 19:59
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Antónimo
duvido muito do estudo mas ainda agora se divulgou que os colaboradores portugueses são dos que menos colaboram semanalmente nas suas empresas, que dizer disso, quando não é de todo a visão que tenho?

deixado a 21/10/08 às 20:04
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Excelente Sales. Era vê-los nos prós e prós ontem e na 2ª feira passada. Loas ao nosso PM.

deixado a 21/10/08 às 20:18
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Antónimo
É óbvio que Daniel Oliveira é colaborador dos órgãos em causa. Já Mário Crespo é um trabalhador da SIC-Notícias. Se há quem não perceba a diferença entre uma e outra figura, peça a alguém que lhe explique como se tivesse quatro anos. É que eu só colaboro aqui com uns comentários, os pedros e o Daniel é que são os trabalhadores do Arrastão.

deixado a 21/10/08 às 20:28
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Excelente post que deve começar a ser lido após a segunda frase.
Porquê?
Porque presumo que deve ser mais consistente.
Ora vejamos:

Em Portugal não existem trabalhadores, há colaboradores. Ninguém é despedido, há ajustamentos às necessidades de produção.

Há aqui uma mistura excelente de inverdades, verdades que se presumem mentiras e mentiras que podem ser verdades.

Ora temos que pensar no seguinte.
O maior empregador é o Estado e se considerarmos que as autarquias podem equivaler-se ao mesmo em termos de emprego, então o número é assustador.

É no entanto verdade que estes funcionários públicos não são trabalhadores e muito menos colaboradores, são o que são e não é menos verdade que não podem ser despedidos.

Portanto não sei o que diz o post a seguir.
Só sei que as premissas estão erradas.

deixado a 21/10/08 às 20:47
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Minhoto, a resposta já lhe foi dada: sou colaborador do Expresso, os jornalistas que lá trabalham é que são trabalhadores. A diferença? Eu não cumpro qualquer horário, não respondo a nenhuma hierarquia e não tenho nenhuma obrigação para com a empresa a não ser a de prestar um serviço específico: fornecer um artigo por semana sobre aquilo que eu entender escrever. E a empresa não tem nenhuma obrigação para comigo a não ser pagar-me por esse artigo. Tudo o resto, será mera cortesia de parte a parte.

Mas o que são os "colaboradores" na novilíngua de que fala o Pedro? São pessoas que têm todas as obrigações para com a empresa mas empresa não tem qualquer obrigação para com elas.

deixado a 21/10/08 às 21:12
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Péssimo. A única coisa que concordo é que o termo "colaboradores" é ridículo.

O que acontece em Portugal é que a diferenciação salarial é mínima. Devia ser era muito maior.

Acha por acaso justo que um administrativo com 10 anos de casa ganhe mais de € 1000 e um jurista com 10 anos de casa ganhe € 1750 ? Isto no mínimo é ofensivo.

Aliás, meter juristas, economistas e engenheiros em qualquer circunstância a ganhar menos de € 2500/3000 por mês é ofensivo.

Acha justo um director de serviços ganhar 2500/3000 ? Devia ganhar no mínimo 5000 !

Alguém ganha demasiado ? Sim. Mas não são os administradores. São os administrativos do sector público. À conta dos quais os técnicos superiores do Estado ganham escandalosamente mal.

deixado a 21/10/08 às 21:58
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Manuel Leão
Quo vadis, Vital?

Pode-se mudar de partido e de opção política. É inteiramente legítimo, embora muitas vezes haja oportunismo nisso.

Mas, ler de Vital Moreira uma coisa destas: - « o dinheiro que abunda para salários escasseia para despesas reprodutivas», depois de anos a fio ter havido uma enorme perda de poder de compra, é simplesmente vergonhoso. Aqui é mais um posicionamento de política social, do que uma opção partidária. Mas ele é que sabe onde quer chegar, ao escrever estas coisas. Se está a correr para ministro, é bom que saiba que antes do Vital está o Vitalino.

deixado a 21/10/08 às 22:45
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Excelente!

deixado a 21/10/08 às 23:02
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Minhoto
Daniel é um modo legítimo e liberal de fazer pela vidinha.

deixado a 21/10/08 às 23:20
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