
© rabiscos vieira
José Sócrates parece não ter percebido nada do que se passou ontem no CCB e o que levou uma sala em peso a vaiá-lo. Ao mandar dizer que chegou às 21h10 ao CCB, ficando 20 minutos à espera do seu homólogo cabo-verdiano, José Sócrates assume que viveu despreocupadamente com a decisão de não iniciar a ópera sem a sua presença. Se estava no CCB, sabia que as portas continuavam abertas e as luzes acesas. Se estava no CCB, sabia que os organizadores estavam à sua espera para dar início à ópera. Se estava no CCB, sabia que mil pessoas, que tinham pago o seu bilhete, continuavam sem saber por que raio o espectáculo não começava. Sabia, mas nada fez para que a ópera tivesse início.
A questão nunca foi o seu atraso. É fazer mil pessoas esperar 30 minutos pela chegada de José Sócrates para que se inicie um espectáculo, tratando os espectadores como figurantes do primeiro-ministro. É a (falta de) urbanidade que está em causa. Da administração do CCB, que parece julgar que vivemos numa monarquia, e de um primeiro-ministro que reage com naturalidade à ideia de que mil pessoas estejam meia hora à sua espera para que se inicie uma ópera. Compreende-se as vaia e entende-se a indignação. Lá por a ópera se chamar Crioulo não é caso para tratar espectadores como escravos coloniais à espera do senhor.
PS: mesmo sendo verdade, a forma com o primeiro-ministro não hesita em cometer a indelicadeza diplomática de responsabilizar o primeiro-ministro cabo-verdiano pelo incidente é todo um programa.