Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
por Daniel Oliveira
Por causa de conversas no Facebook a TAP resolveu enviar nove pilotos da empresa para um “curso de ética” sem que um processo disciplinar tivesse ainda tido lugar. O sindicato garante que os comentários destes funcionários “não constituíram a violação de qualquer dever laboral”.

Durante o último século tememos a omnipresença do Estado. Que vigiaria cada um dos nossos passos e trataria da nossa reeducação de cada vez que nos desviássemos do caminho certo. E boas razões tivemos para os nossos temores. As tiranias, muito dadas a eufemismos que escondam a banalidade da repressão, deram e dão e às seus prisões o bondoso nome de “campos de reeducação”.

No próximo século o Big Brother será outro. É na empresa que se decidem todos os pormenores das nossas vidas: as horas que nos restam para viver, se podemos ou não ter filhos, a roupa que vestimos, as opiniões que podemos ter. E também elas trataram dos seus eufemismos. Os trabalhadores são colaboradores. Um despedimento é uma dispensa de serviços. Vários despedimentos são uma reestruturação. Uma punição é um “curso de ética”. Em inglês soa melhor: “corporate crew resource management”, disse fonte oficial da TAP à Lusa. O 1984 e a sua novilíngua aí estão. Em 2010.

Em stereo com o Expresso Online.

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

47 comentários:
Alfredo
De facto os nossos conceitos de ética andam longe. Um colaborador de uma empresa utilizar facebooks ou outro mecanismo qualquer para denegrir a empresa na qual trabalha considero, no mínimo e causando-lhe um prejuízo na imagem, uma ausência total de ética. Já diz o ditado: não mordas na mão que te dá de comer.

Dada a impossiblidade de lhe impor um processo disciplinar e a ausência de escrúpulos, carácter e ética, parece-me bastante razoável ajuda-los, dando-lhes a formação que, pelos vistos, os pais não lhe deram.

deixado a 25/1/10 às 13:02
link | responder a comentário

Ana
De facto, desde que li o Orwell, já lá vão quase 20 anos (bolas!, o recurso cada vez mais frequente a este indicadorzinho cronológico começa a assustar-me!...) que percebo que o Big Brother está cada vez mais perto. Como diz um amigo meu, "estás a ver, Ana, eles estão por trás desta luzinha (a luz de presença da TV), anda tudo a controlar-nos!...". E não, não se trata de um louco... A verdade é que este é apenas mais um exemplo do reverso da medalha das novas tecnologias, não consigo deixar de associar as questões que o Daniel levanta e com as quais estou inteiramente de acordo, com a facilidade com que se esvai a nossa privacidade com as nets, os facebooks, os multibancos, os dados supostamente confidenciais que fornecemos a empresas e serviços... Fiz anos há dias e quase perdi o sangue quando abri a minha caixa de correio e vi inocentes mensagens de parabéns de tudo e mais qualquer coisa. Não gosto. Não quero. E muito menos gosto de me sentir... limitada e controlada por quem me emprega. Mais uma vez o Daniel tem razão, desde a postura (esta já ouvi pessoalmente), à atitude e às vestimentas, o trabalho cerca a nossa vida por todos os lados e sobretudo limita-nos, absorve-nos mais do que seria desejável e controla-nos de uma forma assustadora. E pronto, é definivamente segunda-feira!

deixado a 25/1/10 às 13:21
link | responder a comentário

Alfredo, quem dá de comer ao trabalhador é o seu trabalho.

deixado a 25/1/10 às 13:27
link | responder a comentário

José Bastos
“a TAP impôs, arbitrariamente e sem justificação, a nove dos seus pilotos a frequência de um ‘curso de ética’, com elevados custos para a companhia, tendo como objectivo humilhá-los”.

Podia ser um sketch dos Monty Python, o "Humiliate-a-Pilot-Arbitrarily Sketch".

deixado a 25/1/10 às 13:30
link | responder a comentário

Anónimo
Se quem dá de comer ao trabalhador é o seu trabalho, ele pode muito bem ir comer para outra empresa, incluindo uma sua. E concordo consigo.

Só não concordo é na crítica balofa que faz aos empresários. Você é livre de se casar com quem quiser, tal como um empresário é livre de valorizar o trabalho de cada um como quiser.

Algo difícil será estabelecer o meio termo, mas parece-me perfeitamente natural que o empresário imponha determinadas condições. Não difamar o nome da empresa parece-me uma condição perfeitamente legítima a exigir a um empregado. Talvez uma das mais básicas!

Você, por outro lado, é pago por dizer merda e maldizer. Mas se o mundo fosse só feito de pessoas como você, não havia sequer motivo para trabalhar.

deixado a 25/1/10 às 13:45
link | responder a comentário

Natália Santos
Considerar os pilotos da TAP vitímas neste caso, é estar completamente a leste do que é a vida nas empresas, pelo menos nas de capitais privados, que são as que conheço. Ai de quem seja apanhado a dizer mal da empresa, pode ser motivo para processo disciplinar ou pior. Além disso, se há alguém que não precisa de ser defendido são os pilotos da TAP, pelas razões que todos conhecemos. Com o mundo do trabalho de pernas para o ar, francamente, vamos defender quem precisa: jovens trabalhadores em geral, jovens licenciados sem emprego, pessoas com 20 anos de casa a ganharem 500 euros. etc.,etc.

deixado a 25/1/10 às 14:31
link | responder a comentário

Antonio Cunha
E o pior de tudo é o motivo de tanto berreiro.

Então o sr piloto e a srª sua esposa que viajavam de borla queriam ser colocados em executiva pois achavam que tinham esse "direito"

Se fosse comigo iam mas era no porão junto com a carga

deixado a 25/1/10 às 14:32
link | responder a comentário

Ana
Natália, apesar de perceber e apoiar a defesa dos grupos mais frágeis, não posso deixar de acentuar que os abusos e as intromissões não são toleráveis em qualquer classe ou grupo profissional, por mais "privilegiado" que possa parecer...
E Alfredo, não consigo aceitar a limitação à liberdade de expressão, esteja ou não de acordo com o que foi dito... e não me parece que o facto de os funcionários emitirem comentários menos agradáveis ou polidos seja mais grave do que a TAP chegar ao facebook desses funcionários, não há mais nada que a preocupe?...

deixado a 25/1/10 às 15:01
link | responder a comentário

a facilidade com que se esvai a nossa privacidade com as nets, os facebooks, os multibancos,

Não se esvai privacidade nenhuma, as pessoas é que gostam de entrar nessas redes e depois queixam-se.
Se a senhora deitar para o lixo, como eu faço, esses convites vai ver que ninguém a incomoda.

deixado a 25/1/10 às 16:40
link | responder a comentário

Alfredo
Daniel, se assim é, porque razão falam mal da empresa? Podem, pura e simplesmente, ir trabalhar para outro lado... ou, já agora, visto que os trabalhadores não precisam da empresa onde trabalham, isso dá-lhes o direito de denegri-la, insultar e por aí fora...

Se assim é, são masoquistas? Aceitam trabalhar numa empresa de que não gostam!!!

Mas, onde raio está a lógica do seu argumento? Acho que estamos no reino da, desculpe-me a expressão, cretinice dos argumentos.

deixado a 25/1/10 às 17:33
link | responder a comentário

Comentar post

pesquisa
 
TV Arrastão
Inquérito
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador