«O Estado laico tem vindo a afastar a Igreja da vida pública. A Igreja reagiu canonizando, no domingo passado, 498 mortos da Guerra Civil. Porém, um dos aspectos mais salientes desta luta é a intromissão dos judeus. Sempre prontos a encontrar uma brecha por onde possam entrar e dividir, os líderes judeus de toda a Europa - no mesma semana da canonização dos mortos pela Santa Sé - reuniram-se em Madrid para lembrarem os mortos da Inquisição espanhola e, segundo eles, celebrarem o reavivar da vida judaica em Espanha (vivem em Espanha 15 mil judeus). (...)
Foi na Península Ibérica que os judeus foram melhor acolhidos e tratados ao longo de toda a sua longa história, por entre os múltiplos povos e lugares em que viveram. É claro que, mesmo aqui, acabaram por dar motivos para serem expulsos, primeiro de Espanha (1492), e depois de Portugal (1521). Mas isso foi o que eles fizeram em todos os países que os receberam durante a sua história de milénios. E que voltam agora a fazer em Espanha, mais de cinco séculos depois. Está-lhes literalmente na massa do sangue.»
O leitor Pedro Lino Pinto enviou-me (e eu agradeço muito) este quadro que ele próprio se deu ao trabalho de fazer. Uma relação entre número de alunos (número de exames) e posição no ranking (nota nos exames) de escolas privadas e públicas. O que observamos é que as escolas privadas não têm resultados muito diferentes das públicas, que a diferença entre médias é maior em escolas com menos alunos e que só nessas, onde a selecção social, económica e académica é naturalmente maior, algumas escolas privadas se destacam. Um dado: a média das escolas privadas é de 10,75, a das públicas de 10,05.
20 mil escutas por anos: Polícia Judiciária, Polícia de Segurança Pública, Guarda Nacional Republicana, Polícia Judiciária Militar, Direcção-Geral de Contribuições e Impostos, Alfândegas, Tribunais, Departamento Central de Investigação e Acção Penal, os Departamentos de Investigação e Acção Penal e, se o governo conseguir, serviços de informação, Afinal de contas, quando falo ao telefone, quantos funcionários do Estado me podem estar a ouvir?
Todos têm o direito a não falar da sua vida privada. Sou o primeiro a aplaudir. Mas para isso é preciso que a mantenham reservada nos bons e nos maus momentos. Porque pela imprensa se nasce, pela imprensa se morre.
Acaba hoje o Doclisboa. Cerca de 30 mil bilhetes vendidos. Sobretudo para os filmes políticos. O Doclisboa foi apenas uma pequena sombra da impressionante produção de documentários actual. Não é difícil perceber porquê. De tanto nos querer entreter, o cinema "mainstream" de ficção aborrece. Infelizmente, a realidade parece ter-se tornado mais variada e surpreendente. Mas não é só o cinema. É o jornalismo. A fuga de leitores e espectadores da imprensa e da televisão para blogues e documentários resulta do mesmo cansaço: de tanto querer entreter, o jornalismo já só se consegue repetir.
Para se perceber o estado da arte vale a pena olhar para os Estados Unidos. E para o exemplo da Brave New Films, uma produtora dirigida por um ex-barão de Hollywood que se dedica a "documentários instantâneos" sobre a actualidade política. Num artigo publicado este mês na edição portuguesa do 'Le Monde Diplomatique' descreve-se o segredo: fazer muito barato e usar a Internet para promover e distribuir os filmes.
Em todo o mundo milhares de pessoas com uma câmara na mão e milhões de "bloggers" nos seus computadores mostram-nos uma realidade muitíssimo mais variada, profunda e contraditória do que encontramos nas salas de cinema e em frente à televisão. Seja para falar de política ou de qualquer outra coisa. Uns são excelentes outros são péssimos. Mas é nesta 'rede' que podemos hoje encontrar a mais impressionante resposta à ética do entretenimento. É cíclico: quando a anestesia parece geral há sempre uma reacção.
Seguindo a sugestão de um artigo que li na Internet, fiz este nteressante exercício: escrever, no Google News, em inglês, francês e alemão, "manifestação" e "Lisboa". Oito notícias sobre o protesto sindical de dia 18, em contraste com quase mil artigos sobre o resultado da cimeira, grande parte deles falando de "sucesso". Parece que se não houver violência 200 mil pessoas não chegam a ser notícia.Os eurojornalistas, que têm sobre a construção europeia o mesmo sentido crítico que os profissionais da 'Vida Soviética' emprestavam às suas prosas, incorporaram o espírito da coisa: a Europa é demasiado importante para ser deixada nas mãos dos europeus. Por isso, a opinião pública ou as organizações sociais são irrelevantes nesta matéria.
Seguindo esta linha, Luís Amado já explicou que este tratado é demasiado complicado para ser referendado. Vital Moreira foi mais claro: "Já experimentaram lê-lo? E acham que algum cidadão comum consegue passar da segunda página?" Sobre a União Europeia, os euro-entusiastas ainda dirão um dia uma coisa de semelhante à que ouvi de um amigo comunista, mais dotado de ironia do que é comum pelas suas bandas: "O socialismo era perfeito. O problema eram mesmo as pessoas".
Na semana em que a lei da Memória Histórica é votada em Espanha, o Vaticano beatificou 498 "mártires" católicos da guerra civil. Isto, enquanto mantém todos os sinais da sua cumplicidade e simpatia pela ditadura franquista. Para o Vaticano nem todas as vidas têm o mesmo valor. Nas cerimónias não houve uma palavra sobre as vitimas da ditadura que a Igreja apoiou activamente nem de arrependimento pelos crimes de que foram cúmplices. Não lhes chega o esquecimento? Precisam mesmo de exibir a sua falta de vergonha?
“These Girls”, de Tahani Tached (trailer aqui), ganhou o prémio da Competição Internacional e ainda estou a tentar perceber porquê. É sobre um grupo de raparigas que vive na rua no Cairo. Sendo as raparigas muçulmanas numa sociedade profundamente machista o documentário tinha tudo para ser interessante. Mas a realizadora não consegue criar nenhuma empatia ou proximidade com as raparigas. A filmagem é banal, não se segue nenhuma narrativa e todos os momentos interessantes perdem-se sem qualquer seguimento. Vi mais de 30 filmes no doclisboa e definitivamente não consigo perceber este prémio. “The Father’s Music”, “Santiago”, “Ironeaters” ou mesmo “Jesus Camp”, os quatros em estilos muito diferentes, estão a léguas deste filme. Já o prémio para Investigação ("Three Comrades”) parece-me inteiramente merecido.
Nos dias a seguir ao furacão Katrina a inter-ajuda foi fundamental quando todas as obrigações de um Estado que se quis mínimo falharam. Um casal de ex-toxicodependentes acolhe no seu quintal um grupo de desalojados. Um grupo difícil, onde os problemas de alcoolismo e droga desafiam a possibilidade uma vida em grupo. A generosidade confrontada com o pior (e o melhor) da natureza humana. “Kamp Katrina”, de David Redmon e Ashley Sabin, acompanha o nascimento e a morte do projecto. A esperança, o optimismo e a decepção.
Conhecemos as imagens dos trabalhadores do Bangladesh que desfazem petroleiros para lhes aproveitar o ferro através das fotografias de Sebastião Salgado. Mas “Ironeaters” mostra-nos muitíssimo mais. A organização social daquele trabalho, a hierarquia, os moradores locais que ficam com os trabalhos melhores e exploram os migrantes até ao limite. Os donos das empresas e como se vêem como pais de uma grande família enquanto os migrantes regressam a casa sem sequer receberem a miséria que lhes foi prometida.
“Ironeaters”, de Shaheen Dill-Riaz’s, é uma viagem impressionante a uma espécie de capitalismo puro. Os códigos, os papeis e os discursos são semelhantes aos que conhecemos, mas sem a patine de civilização que acrescentámos à exploração. Não me leiam mal: a patine faz alguma diferença. Pelo menos faz diferença na prática e na vida das pessoas. Mas a diferença é pouca. “Quando tens fome, comes qualquer coisa. Até ferro.” Diz um trabalhador. “Ironeaters” é provavelmente o melhor documentário que vi no Doc.
“Hot House”, de Shimon Dotan, não é um retrato das dezenas de milhar de presos palestinianos nas prisões israelitas. Todas as famílias da Palestina tiveram, têm ou irão ter um preso entre os seus. Nem é o melhor retrato de prisões onde se tortura e se mantêm presas pessoas, sem qualquer acusações, durante anos. Não é, porque se passa em duas prisões de alta segurança israelitas, onde estão apenas pessoas que participaram em atentados suicidas (cúmplices ou terroristas que o tentaram sem sucesso) e dirigentes políticos. Por ali estar ou gente perigosa a cúpula da sociedade palestiniana, as prisões são as melhores. Ou seja, o filme não é nem podia ser sobre as condições prisionais em Israel. Não podia ser porque o documentário, feito por um israelita, conta com a colaboração das autoridades.
Desde que não seja visto como um retrato do preso comum palestiniano e o tratamento comum que lhe é dado (ouvi muitos relatos na Palestina), “Hot House” é um interessante filme sobre como militantes da Fatha e do Hamas fazem toda a sua formação política e académica entre grades e tornam-se ali verdadeiros quadros. Como se organizam numa autêntica estrutura partidária na prisão. São, nos seus respectivos partidos, um elemento fundamental nas decisões políticas. No começo de guerra civil entre Fatha e Hamas tiveram, aliás, um papel central na tentativa de tréguas. As filmagens acontecem nas vésperas de eleições que dão a vitória ao Hamas.
O Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL) é muitas vezes motivo de gozo por causa da suposta ingenuidade dos anos quentes pós-revolução. “As operações SAAL”, de João Dias, é um inteligente e raro trabalho de investigação sobre a generosidade e o esforço que muitos depositaram naqueles anos. Por decisão do secretário de Estado Nuno Portas avançou-se com um projecto: construir casas para as centenas de milhares de pessoas que viviam em barracas quando a ditadura chegou ao fim. Os arquitectos faziam os projectos com as a participação das populações, os moradores construíam e o Estado pagava os materiais.
Uma coisa aparentemente clara leva o debate para quase todo o lado. No Porto, em Lisboa, em Setúbal e no Algarve as coisas vão seguir caminhos um pouco diferentes, dependendo do meio, das populações, dos arquitectos e das suas convicções ideológicas. Os equívocos entre o que queriam os arquitectos e o que esperavam as populações, os limites da participação, o papel de intelectuais e técnicos num processo deste género.
“As operações SAAL” tem muitos momentos de humor (como um morador que nos mostra uma casa completamente alterada e diz: as janelas não eram de alumínio, o chão não era assim, isto não estava com alcatifa, mas o resto é como o original, tudo do arquitecto Siza Vieira»), momentos desconcertantes e de enorme clarividência (“já chega de participação, agora queríamos as casas”). O melhor é mesmo quando um morador se vira para um arquitecto que queria saber das aspirações populares e explica: «o senhor arquitecto faça como se fosse para si que de certeza que eu vou gostar». Mas as coisas não são tão simples e a prova é como os moradores transformaram o espaço que passou a ser seu. E as reacções à necessidade de auto-construção: foi o senhor arquitecto que construiu a sua casa? E o oposto: um enorme orgulho com que no Algarve mostram o que fizeram com as suas próprias mãos.
Por mal que se diga do SAAL, na maior parte dos casos os resultados foram bem melhores dos que os inenarráveis projectos de realojamento dos anos 80 e 90. E foi dos poucos momentos em que os arquitectos se confrontaram de forma mais directa com o seu trabalho. E dali poderia ter nascido muita coisa interessante se os ajustes de contas não tivessem pesado mais.
“As operações SAAL” permite discutir arquitectura, democracia participativa e cidade (no Porto o SAAL acabou por ir mais longe na discussão do próprio urbanismo). Mas para isso é preciso ver um mesmo o filme que tem a coragem de não ficar nem na propaganda nem no burlesco. Excelente.
Aqui vão os filmes do doclisnoa sobre os quais não cheguei a falar.
Não há trailer do filme no YouTube. Aqui fica uma recordação. Podemos ver um excerto disto no “El Caso Pinochet”. passa no filme.
Já vimos alguns testemunhos de tortura. E a da ditadura chilena, tantas vezes olhada com brandura (ou até simpatia) pela direita europeia, era especialmente bárbara. O que vemos no filme “El Caso Pinochet”, de Patricio Guzmán, é uma revisitação aos dias pedido de deportação feito pelo juiz Baltazar Garzón quando o ditador visitava Londres e fazia compras.
O filme começa por acompanhar o trabalho de advogados no Chile e das vitimas e o muro de indiferença que encontraram, num regime que julgava ser possível construir a democracia escondendo o rasto de sangue e deixando impune a besta. Depois a oportunidade. E é enquanto Pinochet espera, perante a indignação dos seus amigos ingleses, por uma decisão que as vitimas contam as atrocidades. É um murro no estômago. E entre estes relatos vemos a senhora Thatcher visitar o seu amigo de sempre e mostrar-se indignada por ele estar confinado a uma casa (uma mansão de luxo nos arredores de Londres). As duas coisas em sequência provocam náusea. Vemos como Pinochet engana todo o Mundo e como começam as tímidas tentativas de fazer justiça no Chile. Pinochet acabará por morrer impune.
“El Caso de Pinochet” é um excelente documento sobre a memória, a transição para a democracia e a injustiça. Uma vitima resume o que lhe sobra no meio de tanta revolta, dirigindo-se aos que a torturaram ou mandaram torturar: os nossos filhos poderão dizer quem fomos e sentirão orgulho, os vossos não.
É uma nova casa toda florida. E no meio das flores está o maradona. O maradona é o Zé dos Plásticos da blogosfera nacional. Ninguém sabe ao certo quem ele é (eu já o vi e tenho uns comentários a fazer sobre a altura dele que ficam para quando ele me voltar a destratar) mas todos o lêem. O maradona esceve bem como ó... Não vale a pena. Eu não sou o maradona. Nem quando era miúdo dizia asneiras. Um queque, portanto. Um queque de esquerda. Já o maradona é um pintas de direita. Um pintas que esceve bem como ó... Também não consigo zangar-me com o maradona. Já tentei e não consigo. Ele é que fica a perder. Vão lá e zanguem-se vocês. Eu não consigo. É que o gajo escreve bem como ó...
É uma nova casa toda florida. E no meio das flores está o maradona. O maradona é o Zé dos Plásticos da blogosfera nacional. Ninguém sabe ao certo quem ele é (eu já o vi e tenho uns comentários a fazer sobre a altura dele que ficam para quando ele me voltar a destratar) mas todos o lêem. O maradona esceve bem como ó... Não vale a pena. Eu não sou o maradona. Nem quando era miúdo dizia asneiras. Um queque, portanto. Um queque de esquerda. Já o maradona é um pintas de direita. Um pintas que esceve bem como ó... Também não consigo zangar-me com o maradona. Já tentei e não consigo. Ele é que fica a perder. Vão lá e zanguem-se vocês. Eu não consigo. É que o gajo escreve bem como ó...
«Estamos perante uma concentração do sector financeiro nas mãos de uns quantos, ainda por cima sem a garantia de que fique nas mãos do capital nacional» Jerónimo de Sousa a propósito da fusão BCP com o BPI
«Os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar aquilo que não possuem. (...) As demarcações e os antagonismos nacionais entre os povos desaparecem cada vez mais com o desenvolvimento da burguesia, com a liberdade do comércio e o mercado mundial, com a uniformidade da produção industrial e as condições de existência que lhes correspondem.» Manifesto do Partido Comunista
Não interessa, portanto, o conteúdo desse projecto nem como ele acontecerá. Para meu grande espanto, para Ana Gomes, cabe aos europeus o papel de claque.
A violência no Iraque e a impossibilidade de impor a ordem num Estado desfeito. E como a segurança interna iraquiana é uma peça central para a retirada americana.
Como a guerra do Iraque reforçou o poder do irão na região. Uma viagem pelos corredores da política iraniana, aos erros da Administração Americana neste dossier e aos perigos de uma escalada de conflito com o Irão.
Em 1968, uma professora dividiu uma classe de brancos em meninos de olhos azuis e meninos de olhos castanhos. Assim lhes ensinou o que é a discriminação.
Confesso que não conhecia esta pérola de Martin Amis (que descubro agora ter sido já bastante citada), transcrita num artigo do Rui Tavares, dita numa entrevista há já algum tempo. Há quem, recordando o terror nazi, esteja atento (e bem) aos sentimentos anti-semitas contra os judeus. Mas muitas vezes se esquecem que as vitimas podem mudar repetindo-se o sentimento e se colocam na primeira linha do caminho para o horror. A islamafobia não choca porque já parece natural. Pelo menos tolerável. Também parecia, nos anos 30, o ódio aos judeus. Como muito bem ilustram estas palavras do senhor Amis, a islamofobia é o anti-semitismo do século XXI. Está lá tudo: o ódio e a bestialização do outro. E exultação do "politicamente incorrecto", tão na moda, não é mais do que a quebra de todas as fronteiras morais. Estas palavras do senhor Amis, como as alarvidades do senhor Watson, estão para lá do tolerável. E só a demonstração sem contemplações da nossa repugnância pode impedir que das palavras se passem aos actos.
Presidente da Câmara de Setúbal, presidente da Câmara da Marinha Grande e deputada Luísa Mesquita. Três casos de recentes de pessoas que, vá-se lá saber porquê, estavam convencidas que tinham sido eleitas.