Estabelecer uma correlação directa, como a imprensa faz todos os anos, entre os resultados nos exames do secundário e a excelência educativa já é um passo arriscado. Fazê-lo, juntando na mesma listagem, e sem nenhuma ponderação, escolas onde os alunos provêm de ambientes familiares de baixo capital cultural e económico com as escolas onde estudam os filhos da elite é uma lamentável mistificação que não acrescenta nenhum esclarecimento sobre o trabalho das escolas e os níveis de aprendizagem dos alunos. É um poderoso instrumento de marketing das escolas privadas e pouco mais. Mas, curiosamente, se há critério que uma leitura mais atenta dos rankings nos permite é vislumbrar a força do meio social nos resultados escolares. Este mapa distrital dos resultados, descoberto através do País Relativo, chama-nos a atenção para a verdadeira dicotomia. Mais do que escolas privadas e públicas, existe um fosso entre os bons resultados dos alunos das escolas do litoral e os das escolas do interior.
Peguemos no exemplo do Colégio São João de Brito. Este estabelecimento, que há mais de seis anos que não sai dos cinco primeiros lugares do ranking, pertence à Companhia de Jesus. A Companhia de Jesus tem mais dois colégios e afirma que a qualidade educativa e formação de professores são idênticas em todas as escolas. A diferença é que o Instituto Nun´Álvares, em Santo Tirso, e o Colégio da Imaculada Conceição, em Cernache, Coimbra, têm um contrato de associação com o Estado que os obriga a aceitar alunos de todos os estratos sociais. Se a única diferença é o meio social e a localização mais periférica, vale a pena comparar os seus resultados. O Colégio São João de Brito aparece em quarto lugar no ranking, o Colégio da Imaculada Conceição em 75.º e o Instituto Nun´Álvares em 161.º lugar. Não se pense que é um resultado fortuito. É assim desde sempre. O ano passado o São João de Brito ficou em 3.º, o Nun´Álvares ficou em 177.º e a Imaculada Conceição em 91º.
No dia em que todos os colégios da Companhia de Jesus tiverem os mesmos resultados escolares que o selecto São João de Brito, com quem partilham o projecto educativo e métodos de ensino, estou disposto a discutir as vantagens das escolas privadas e a sua suposta excelência. Até lá, mudem o disco e procurem as causas para o insucesso escolar nacional noutro lado que não o habitual chavão do facilitismo e experimentalismo das escolas públicas.
Ora aí está. Quando uma escola privada tem bons resultados a explicação é a excelência do projecto educativo. Quando tem maus resultados com o mesmo projecto educativo, mas sem a vantagem competitiva de poder escolher os seus alunos, é o meio social que a impede de melhorar a posição no ranking. É verdade. Noutro meio social o Colégio da Imaculada Conceição teria outros resultados, como teriam as escolas públicas obrigadas a receber todo o tipo de alunos. As mesmas que, de Castelo Branco à Golegã, tiveram melhores resultados que o colégio da Companhia de Jesus, mas cujos docentes e alunos não se livram do estigma criado por uma comunicação social ávida de apresentar as “melhores escolas” e um batalhão de colunistas sempre prontos para louvar o mérito das escolas privadas contra o facilitismo do sistema público.
Nota: o título deste post foi alterado, tornando mais perceptível a sua ligação ao post seguinte.
Ora aí está. Quando uma escola privada tem bons resultados a explicação é a excelência do projecto educativo. Quando tem maus resultados com o mesmo projecto educativo, mas sem a vantagem competitiva de poder escolher os seus alunos, é o meio social que a impede de melhorar a posição no ranking. É verdade. Noutro meio social o Colégio da Imaculada Conceição teria outros resultados, como teriam as escolas públicas obrigadas a receber todo o tipo de alunos. As mesmas que, de Castelo Branco à Golegã, tiveram melhores resultados que o colégio da Companhia de Jesus, mas cujos docentes e alunos não se livram do estigma criado por uma comunicação social ávida de apresentar as “melhores escolas” e um batalhão de colunistas sempre prontos para louvar o mérito das escolas privadas contra o facilitismo do sistema público.
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Ora aí está. Quando uma escola privada tem bons resultados a explicação é a excelência do projecto educativo. Quando tem maus resultados com o mesmo projecto educativo, mas sem a vantagem competitiva de poder escolher os seus alunos, é o meio social que a impede de melhorar a posição no ranking. É verdade. Noutro meio social o Colégio da Imaculada Conceição teria outros resultados, como teriam as escolas públicas obrigadas a receber todo o tipo de alunos. As mesmas que, de Castelo Branco à Golegã, tiveram melhores resultados que o colégio da Companhia de Jesus, mas cujos docentes e alunos não se livram do estigma criado por uma comunicação social ávida de apresentar as “melhores escolas” e um batalhão de colunistas sempre prontos para louvar o mérito das escolas privadas contra o facilitismo do sistema público.
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Alguém acredita que seria possível, em Portugal, um julgamento como o que está a acontecer em França sobre a venda ilegal de armas a Angola, que deixou suspensas as relações das empresas francesas com a galinha dos ovos de ouro africana?
uma história com muita graça, contada aqui, neste post, e que envolve o deus ex-machina director do avante e a historiadora irene pimentel. é importante ler a caixa de comentários em questão; quanto ao avante desta semana é escusado procurá-lo online - parece que sofreu um apagão. aceitam-se inscrições para este processo de moscovo dos pequenitos.
RJ Matson, «St. Louis Post-Dispatch», via notas ao café
A blogosfera liberal tem passado as últimas semanas a tentar explicar-nos os perigos da intervenção política para regular os mercados de capitais. Sem a acção perniciosa do Estado, dizem-nos, os agentes do mercado financeiro serão os primeiros a retirar as devidas ilações e a corrigir os eventuais excessos. O problema, claro, é a maldita realidade. A forma como, em plena crise financeira, as acções da Volkswagen triplicaram de valor em 2 dias, através de um mecanismo especulativo que já tinha sido descrito pelo Lutz e que é hoje noticiado pelo Jornal de Negócios, é o melhor exemplo de como os mercados continuam a funcionar como se nada tivesse acontecido.
RJ Matson, «St. Louis Post-Dispatch», via notas ao café
A blogosfera liberal tem passado as últimas semanas a tentar explicar-nos os perigos da intervenção política para regular os mercados de capitais. Sem a acção perniciosa do Estado, dizem-nos, os agentes do mercado financeiro serão os primeiros a retirar as devidas ilações e a corrigir os eventuais excessos. O problema, claro, é a maldita realidade. A forma como, em plena crise financeira, as acções da Volkswagen triplicaram de valor em 2 dias, através de um mecanismo especulativo que já tinha sido descrito pelo Lutz e que é hoje noticiado pelo Jornal de Negócios, é o melhor exemplo de como os mercados continuam a funcionar como se nada tivesse acontecido.
RJ Matson, «St. Louis Post-Dispatch», via notas ao café
A blogosfera liberal tem passado as últimas semanas a tentar explicar-nos os perigos da intervenção política para regular os mercados de capitais. Sem a acção perniciosa do Estado, dizem-nos, os agentes do mercado financeiro serão os primeiros a retirar as devidas ilações e a corrigir os eventuais excessos. O problema, claro, é a maldita realidade. A forma como, em plena crise financeira, as acções da Volkswagen triplicaram de valor em 2 dias, através de um mecanismo especulativo que já tinha sido descrito pelo Lutz e que é hoje noticiado pelo Jornal de Negócios, é o melhor exemplo de como os mercados continuam a funcionar como se nada tivesse acontecido.
Se a hierarquia está preocupada com a situação dos militares usa os canais próprios ou dá aos militares capacidade negocial organizada (que existe em vários países) no que à sua situação laboral diz respeito. Não ameaça. Curiosamente, quando a arraia-miúda militar usa os meios normais de protesto em democracia a repressão interna sente-se logo. Mas quando oficiais superiores usam um porta-voz para transmitir uma chantagem digna de uma República das Bananas já tudo parece normalíssimo. Num país civilizado estes dois senhores teriam de explicar muito bem do que estão a falar. Aqui será apenas uma boca. Devia ficar claro: a democracia não é refém de ninguém. Mesmo que essas pessoas tenham razão. E quem não sabe isso não pode servir na carreira militar.
Nos jornais, António Frazão aparece apenas como um simples militante do PNR na linha de Sintra. Mas, na realidade, em Setembro de 2007, era anunciado como o responsável fundador do núcleo de Sintra do PNR. Aqui isso é confirmado. O papel deste amigo próximo de Mário Machado no partido, em Sintra, confirma-se mais uma vez aqui, já que é ele a organizar uma visita de Pinto Coelho ao concelho.
Ferreira Leite foi ontem à SIC Notícias garantir que nunca se pronunciou contra o aumento do salário mínimo. O seu ponto é outro, diz. Com a crise que para aí vai, as empresas só conseguem aumentar os salários mais baixos do país em 24 euros se forem apoiadas pelo Estado. Isso mesmo. A mesma Manuela Ferreira Leite que nos diz que o país está de tanga e que não há dinheiro para nada quer pôr o Estado a pagar uma parte dos salários das empresas privadas, repetindo e aceitando a inaceitável chantagem da associação das pequenas e médias empresas. É para defender o emprego diz Manuela Ferreira Leite. Se assim é, não se percebe a timidez da proposta e o que impede o PSD de defender que o Estado suporte todos os salários das empresas privadas. Isso e colocar o salário mínimo nos 200 euros. Acabava logo o desemprego...
Acusada de fraude fiscal num processo originado por uma investigação das finanças, a filha do homem mais rico do país adoptou uma original estratégia de defesa. Reconheceu a evasão fiscal ao pagamento das mais valias resultantes da venda de um palacete, assumindo que “normal era que o preço declarado fosse inferior ao real”. Tão normal que Paula Amorim parece não ter encontado nenhum problema em assinar um contrato de promessa de compra e venda no valor de 1,160 milhão de euros e declarar apenas 461 mil.
Como explicou no acto de impugnação interposto no Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra, “a SISA, além de gozar de uma generalizada rejeição social (cuja expressão maior se traduzia numa evasão fiscal socialmente aceite), é um acto que percorre transversalmente toda a sociedade”. Era mesmo isso que faltava entre nós. Alguém que desse um corajoso murro na mesa de um sistema fiscal estranhamente assente na cobrança de impostos. Uma revolução na jurisprudência seguida de perto pelo advogado de Filomena Pinto da Costa, a outra arguida no processo, e que indica que “não pode vingar um processo-crime por fraude fiscal quando em casa estão tributos que eram objecto de uma generalizada rejeição social por serem injustos”.
Finalmente alguém com coragem e visão para nos explicar os assaltos às bombas de gasolina. Deve ser o resultado do “objecto de uma generalizada rejeição social por serem injustos” os preços cobrados. E os juros da banca? Boicote-se o seu pagamento e assuma-se a rejeição social “que percorre transversalmente toda a sociedade”. É pá, se a moda pega isto ainda pode ser engraçado. Não sei é se o Américo Amorim vai achar piada.
Segundo um estudo recente da Public Religion Research, os jovens americanos católicos, protestantes e evangélicos defendem posições mais liberais nos costumes, mais diplomáticas nas relações internacionais, mais tolerantes na religião e mais estatistas em questões sociais do que os religiosos mais velhos. E estão muito mais do lado democrata do que estavam os jovens religiosos estavam há quatro anos.
O Bibliotecário de Babel, do José Mário Silva e que está agregado no Santa Aliança, é o único blogue português no concurso internacional de blogues, os prémios BOBs. Concorre na categoria "blogues em português". Para o prémio do público pode votar aqui. Em 8500 nomeações em todas as categorias, imagino mais uns blogues com direito a lá estar na excelente blogosfera portuguesa. A lingua provavelmente não facilita. Mas sendo apenas um, a representação está muito bem entregue ao Bibliotecário.
Nos Estados Unidos e no Reino Unido há o excelente hábito dos jornais declararem o seu apoio aos candidatos. Aqui, o mito da neutralidade, mais do que garantir independência, esconde muitas vezes cumplicidades, simpatias e antipatias não explicitadas. Ao contrário do parece prevalecer na nossa imprensa, é a transparência que favorece a credibilidade. Mas para chegarmos a este ponto não basta que mude a cultura dos jornais. É preciso que mude a cultura dos leitores. Uma cultura democrática que aceite que profissionalismo e neutralidade não são sinónimos. E que clareza e o rigor fazem um excelente par.
Em baixo, roubado ao Mas Certamente que Sim!, fica imagem com link para o google map com os apoios de jornais dados a Obama e McCain com ligação aos respectivos editoriais.
Com atraso, soube que morreu um antigo camarada, o Acácio Barradas. Por vezes colérico, sempre competente e de um rigor deontológico à prova de bala, intransigente quando a regra parece favorecer a facilidade, nunca desmereceu a sua carteira profissional: a que, entre milhares, tinha o número 89. Conheci-o no principio da minha carreira como jornalista, no "Diário de Lisboa". A última vez que o encontrei, há dois anos, foi numa livraria. Uma conversa rápida. Sentia por ele um misto de admiração e medo (aquele que se sente com vinte anos perante um jornalista que admiramos e cujo o julgamento severo pode destruir sem remédio a nossa auto-estima). Mesmo passados tantos anos, temi o pior. Felizmente a idade tinha-lhe domado não o julgamento mas o temperamento. Ou tinha apenas mais em que pensar. O encontro rápido não deu para repetir longas conversas. O Acácio era, como quase todos os jornalistas com história, um conversador com quem o tempo se ganhava. O jornalismo português perdeu um homem de carácter. E, como em todas as profissões, eles são quase sempre a excepção.
Mais dois blogues no Santa Aliança: o Jugular e o Klepsýdra. Com estes dois reforços de peso a aderirem à Santa passam a ser 27 os blogues agregados.
Com muito atraso, já estão na página correspondente os últimos 10 textos que escrevi para o Expresso.
Como não há duas sem três, participo hoje, dia 29, em mais uma conversa sobre as eleições americanas. Desta vez o debate é com quem lá for. Organizado pelo Le Monde Diplomatique, na Associação O Bacalhoeiro (R. dos Bacalhoeiros, 125, junto à Casa dos Bicos em Lisboa), às 18h30. Apareçam.
Durante três anos ouvimos a conversa do inevitável. Escolas e urgências fecharam porque não havia dinheiro. Museus ficaram sem vigilantes por causa dos cortes orçamentais. O tempo de reforma foi encurtado porque a segurança social não era sustentável. Os impostos subiram porque tínhamos de fazer sacrifícios. Os funcionários públicos, e com eles os do privado, perderam quase 10% de poder de compra nos últimos anos porque não podíamos pagar aumentos salariais. O défice, que, como era previsível, deixou agora de ser uma prioridade para a Europa, explicava tudo. Só não explicava as obras públicas megalómanas.
Até que se aproximam as eleições e tudo passa a ser possível. Podemos pagar aumentos salariais, aumentos nas reformas, tudo. Agora Sócrates diz, preocupado, que todas as famílias precisam de ajuda. Não precisavam antes? Ou não terá dado o nosso primeiro-ministro pela crise que nos acompanha, mais do que aos restantes europeus, há uns anos? Não terá reparado no aumento do desemprego que atira milhares para a miséria? Não terá reparado no desespero da classe média que, com o aumento das taxas de juro, não sabe como continuar a pagar as prestações da casa?
Mas afinal era possível. Afinal havia dinheiro. O Governo estava apenas a guardar-se para o ano de todas as eleições. E foi neste preciso momento que saiu a sorte grande ao PS: a crise financeira internacional. Três em um: o Governo tem um argumento para abrir os cordões à bolsa, tem um álibi para a crise nacional - que, na realidade, é anterior à crise mundial - e começa já a escrever o guião em defesa da estabilidade política e da maioria absoluta. Com que cara Sócrates vai voltar a exigir sacrifícios depois das eleições? Com a mesma de sempre. Mais uma vez, será culpa da crise.
Em todos os debates presidenciais americanos os principais canais de televisão escolhem um painel de indecisos para avaliar o desempenho dos candidatos. Quando os candidatos dizem que lhes vão dar uma casa e baixar-lhes os impostos eles dão nota positiva, quando os candidatos se atacam mutuamente eles dão nota negativa. Os indecisos odeiam polémicas. É por isso mesmo que são indecisos.
Há dois tipos de indecisos: os marcianos e as primas-donas. Os marcianos são aqueles que, dois anos depois da campanha mais mediática de sempre ter começado e com dois excelentes candidatos, olham para a televisão e perguntam: o que é que o velho e o preto estão para ali a dizer? São os calões da turma. Temos de ter paciência e repetir a matéria dada. E, no fim, quando tudo lhes foi explicado, dizem enfadados: são todos iguais, querem é tacho!
Como decidem o seu voto? Mistério! Mas bem pior são as primas-donas. Como nos últimos dias de campanha é para os indecisos que se fala, a prima-dona quer manter o estatuto e a atenção. A rábula resulta. É por isso que é perigoso facilitar demasiado o voto através da Internet, do multibanco ou do telemóvel. Não! Há que dar trabalho ao indeciso. E, em último caso, desmobilizá-lo do voto. O mundo não pode depender de pessoas que demoram vinte meses a decidir onde fazer uma cruzinha.
A Islândia era um país relativamente pobre antes da II Guerra. Depois, graças a uma base militar americana, à exportação de peixe, ao investimento em tecnologia e educação e à adopção do modelo social nórdico, transformou-se num dos países com maiores índices de desenvolvimento e produtividade do mundo. Só que a Islândia nadava em dinheiro. Com apenas 300 mil almas penadas, o dinheiro sentia claustrofobia insular. Os bancos do país começaram a alargar os seus negócios para outra paragens e a investir em mercados muito mais arriscados mas com maior retorno. Correu bem e a Islândia teve, na última década, um crescimento de 4% ao ano. Até que rebentou a crise. Os bancos islandeses, demasiado gordos e expostos, entraram em colapso. Arrastaram a ilha com eles. Os islandeses descobriram que o dinheiro dos seus fundos de pensões empatados nas bolsas correspondia a 133% do PIB anual. E a prudente Islândia, que teve de chegar a velha para se meter no jogo, ficou na penúria. Os três maiores bancos foram nacionalizados, a coroa islandesa estatelou-se e a ilha está à beira da bancarrota.
Nada aconteceu à economia real islandesa. Continua a produzir-se muito e bem, continua a exportar-se peixe e eles continuam a ser poucos e educados. E antes desta engorda, o país estava bem e recomendava-se. Foi a ganância que tramou os islandeses. A mesma ganância que levou 300 mil britânicos, incluindo Câmaras Municipais, universidades, hospitais, instituições de beneficência e até uma associação de abrigo para gatos, a investir mais dinheiro na banca islandesa do que a prudência recomendava. Gordon Brown veio em seu socorro e usou uma lei antiterrorista para salvar as libras de se afogarem no Atlântico Norte.
De um dia para o outro, o país onde melhor se vivia ficou com uma inflação estratosférica, tem de pedir dinheiro aos russos, nacionalizou os seus três maiores bancos e, pela primeira vez na história, o seu primeiro-ministro anda na rua com um guarda-costas. É o que dá pôr tudo o que se ganhou a trabalhar a render no jogo.
Os últimos 13 anos da sua história falam por si. Foi Presidente do Sporting e saiu do Sporting. Foi presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, deixou a Figueira da Foz falida e foi-se embora para ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Deixou Lisboa falida e foi-se embora para ser líder do PSD e primeiro-ministro. Foi despedido de primeiro-ministro antes que o país se desfizesse em gargalhadas e concorreu às eleições. Conquistou o segundo pior resultado de sempre do PSD mas nunca se conformou. Escreveu livros, abandonou uma entrevista e voltou a ser candidato à liderança do PSD. Perdeu de novo. E é este homem, que deixou todos os cofres sem dinheiro e todos os humoristas com muito material, que o país não quis e que nem o PSD aceitou de volta, que Manuela Ferreira Leite vai repescar para governar a capital. Que Santana não sabe quando deve parar de voltar, não é novidade para ninguém. Mas estará a candidata 'contra o populismo' assim tão desesperada?
Quatro dias antes da Lehman Brothers decretar falência, os gestores do banco planeavam entregar 20 milhões de dólares de bónus a três colegas que se iam embora da empresa. Ainda não tinha passado uma semana do momento em que o Estado enterrara 85 mil milhões de dólares dos contribuintes norte-americanos na seguradora AIG e os seus executivos já rumavam a um "resort" de luxo na Califórnia, com alguns dos seus melhores clientes, para um retiro de 'trabalho'. Quase meio milhão de dólares, foi a factura paga com dinheiro dos que vivem a tragédia económica. No meio da hecatombe, o banquete. Nenhum destes episódios explica a situação em que estamos ou chegaria sequer para piorar o que já está péssimo. Mas são uma pequena imagem da absoluta falta de obrigações morais e sociais que domina os homens que dominam as nossas economias.
Os ultraliberais teimam em tratar tudo o que aconteça na economia com metáforas naturais. Depois da tempestade virá a bonança. Deixe-se morrer erva daninha e a melhor crescerá mais forte. Negam, com a trivialidade telúrica dos seus argumentos, o carácter político e ético da economia. Todos os domínios da nossa existência são condicionados por um único dogma: a liberdade começa e acaba no mercado. A sua ideologia destrói os fundamentos da regulação da vida em sociedade, que é a razão de ser de qualquer democracia. Sendo amoral e absoluto, o liberalismo económico transformou-se na ditadura ideológica do século XXI e no maior perigo para a nossa liberdade. Pelo mercado, como antes pela raça ou pela revolução, nenhuma vida concreta tem realmente qualquer valor, nenhum valor tem qualquer relevância. Quase trinta anos depois da revolução começada por Reagan e Thatcher, é hoje uma evidência que devolver à sociedade, organizada no Estado, o poder de estabelecer limites numa economia sem rosto e sem nomes, e por isso moralmente irresponsável, não é um acto radical ou sequer revolucionário. É um acto de sobrevivência.
Portugal reconheceu a independência do Kosovo. Vale o que vale. Nem o Kosovo se preocupa com Portugal, nem Portugal se preocupa com o Kosovo. Mas para quem ache que a coerência tem algum valor foi confrangedor ouvir o ministro Luís Amado. Explicou que com este reconhecimento se abre uma caixa de Pandora. Que tudo por ali foram erros. Conclusão: reconhece-se a independência. Porquê? Porque os nossos aliados (EUA) reconheceram e porque não queremos ser confundidos com quem tem problemas com nacionalismos internos (Espanha).
Que nada de relevante distingue o Kosovo da Abkazia ou da Ossétia do Sul, que a partir de agora é legítimo um país invadir territórios de um Estado para lhes dar a independência, que depois disto só pode vir a grande Albânia, com mais conflitos nos Balcãs... Nada disso interessa. Sobretudo depois de o ministro ter recebido directivas de Condoleezza Rice em visita a Lisboa. Um país de governantes pequenos será sempre pequeno. Só quer aparecer no boneco com os senhores crescidos. Não é sina. É uma escolha.