Terça-feira, 30 de Novembro de 2010
por Sérgio Lavos

Duarte Pio compara crise actual à da Primeira República e pede referendo à monarquia.

 

*Ou, por outras palavras, só faltava este para se juntar à festa.

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por Sérgio Lavos
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por João Rodrigues

BCE, FMI e Comissão Europeia com a mesma cassete neoliberal: “reformar o mercado de trabalho”. O que é isto? Luta de classes à escala europeia; desculpem, mas não tenho melhor expressão: reduzir os custos do despedimento, fragilizar ainda mais a contratação colectiva e afunilar o subsídio de desemprego para que a economia do medo alastre, para que a insegurança laboral se intensifique. O objectivo principal é tornar estrutural a lógica conjuntural das políticas orçamentais de austeridade, ou seja, reduzir permanentemente os salários directos e indirectos, no público e no privado, que isto está tudo ligado. O aumento das desigualdades é outro dos efeitos/objectivos. Segue-se o apelo ao incumprimento do acordo sobre o salário mínimo? A crise e o desemprego continuam sem solução, claro. Isso pressupunha mudar a configuração institucional europeia para termos políticas de investimento, de estimulo económico. O aumento generalizado do desemprego é o resultado da crise do capitalismo financerizado e as economias que aguentaram melhor o embate, em termos de emprego, parecem ser precisamente as que têm regras laborais que distribuem os direitos e as obrigações de forma mais favorável a quem trabalha. Na realidade, a crise é usada como pretexto para todas as regressões, para a consolidação de todas as utopias liberais. Questão de poder. Esta gente só descansa quando tivermos todos regressado a 1906, a um anúncio que estava afixado numa fábrica da Renault: “Os operários podem despedir-se avisando o encarregado com uma hora de antecedência. A Casa, por sua vez, pode despedir os operários sem indemnização, avisando-os o encarregado com uma hora de antecedência.”


por João Rodrigues
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por João Rodrigues

O Prós e Contras de ontem confirmou uma ideia: o pluralismo democrático no debate económico-político, que o serviço público tem por função garantir, não é bom para quem gosta de medina-carreirar. É óbvio que não estamos condenados ao plano inclinado.


por João Rodrigues
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por Pedro Vieira

 

 

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

 

 

 

 

A Irlanda era um exemplo: desregulou os mercados de capitais, dedicou-se ao dumping fiscal, com um IRC irrisório e desregulou o mercado de trabalho. Atraiu assim os capitais estrangeiros e alimentou-se de uma bolha imobiliária. O problema é que os mercados têm humores. E assim como vieram, foram embora aos primeiros sopros da crise. Com tão generoso tratamento, um quarto do PIB irlandês não contribuiu com um euro para o rendimento nacional e as receitas fiscais sentiram-no bem. Ainda antes de vir a nacionalização da banca falida, já a crise batia à porta: o PIB caiu 3,5 por cento em 2008 e 7,6 por cento em 2009.

 

A promessa de que um mercado de trabalho flexível também não se confirmou: 4,6 por cento de desemprego em 2007, 6,3 por cento em 2008, 11,9 por cento em 2009 e 13,7 em 2010. Um aborrecimento quando as certezas ideológicas não são confirmadas pelos factos.

 

Depois sabe-se o que aconteceu. A exposição da banca irlandesa ao exterior levou à falência do primeiro banco. O Estado correu em seu socorro e isso custou nem mais nem menos do que 17 por cento do PIB. Quando a certeza de mais duas nacionalizações que custarão 35 mil milhões de euros surgiram a União Europeia obrigou a Irlanda, que só precisava de ir aos mercados da dívida em Abril de 2011, a pedir ajuda (à "generosa" taxa de mais de cinco por cento) ao fundo europeu e ao FMI.

 

Com o dinheiro viram imposições: mais flexibilização do mercado de trabalho (que tão bons resultados demonstrou), diminuição do salário mínimo, diminuição em dez por cento dos salários dos funcionários públicos (que já tinham sido reduzidos em dez por cento) e diminuição do subsidio de desemprego.

 

Vamos repetir para quem já se esqueceu: tudo isto está a acontecer à Irlanda para salvar a banca. Onde se vai buscar o dinheiro? Aos recursos públicos, às prestações sociais e aos salários dos irlandeses. São eles que vão pagar a factura das aventuras de uma banca falida.

 

Impõe a Europa novas regras para o sistema financeira? Quis regulamentar os mercados de capitais? Conseguiu impor impostos que não apostem numa concorrência fiscal incomportável para os países europeus? Nada disso. As causas da crise irlandesa foram rapidamente esquecidas. Uma boa oportunidade para atacar direitos laborais e destruir o Estado Social não se pode desperdiçar. Mesmo que uns e outro nada tenham a ver com o que aconteceu.

 

Para Portugal, a Europa já tem a mesma receita: flexibilizar as leis laborais. O que tem isso a ver com o endividamento externo de Portugal? Nada. Mas quem ainda não percebeu que a crise causada pelo laxismo dos Estados face às aventuras dos grupos financeiros será usada para dar a última machadada no modelo social europeu não percebeu nada do que estamos a viver.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Pedro Vieira

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Miguel Cardina

Vão sendo conhecidos aos poucos os mais de 250.000 telegramas dirigidos a Washington pelas embaixadas norte-americanas, e disponibilizados pelo site WikiLeaks. Ficamos a saber que os Estados Unidos espiaram o secretário-geral da ONU e que têm uma visão pouco abonatória dos líderes europeus. Somos informados de esforços para isolar Chávez e de pressões de países, como a Arábia Saudita, para que fosse desencadeado um ataque militar contra o Irão. Foi-nos dado a conhecer o estado de saúde e as particularidades de alguns políticos mundiais.

 

Tirando algumas liberdades literárias da gente das chancelarias, nada do que é revelado é, até agora, grande novidade. Mas aguardemos. Entretanto, um exercício curioso é atender aos ecos que as divulgações vão motivando. Julian Assange, o homem da WikiLeaks, é perseguido pela CIA. Hillary Clinton fala de ataque à "comunidade internacional". Ahmadinejad diz que é tudo uma conspiração arquitectada pelos EUA. A China bloqueia o acesso à informação. O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão fala em "amizade adulta", garantindo que a relação com os EUA não será danificada. Berlusconi, esse, desmente as "festas selvagens".

 

Estamos diante de três regras de ouro da diplomacia realmente existente. A primeira é que é preciso continuar a gabar o vestido do rei não importa o modo como se nos apresenta aos olhos. A segunda é que é preciso desconfiar das aparências, a começar pela enunciada na primeira regra. A terceira é que entre a verdade e a mentira, deve escolher-se o segredo.


por Miguel Cardina
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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010
por Sérgio Lavos

 

A volubilidade dos adeptos de futebol é um daqueles problemas sem solução. E quando falamos de milhões de adeptos, outro factor entra na equação: a diversidade opinativa, que no seu melhor manifesta-se no estádio, em forma de aplauso ou de apupo. Como em muitas outras coisas, o futebol não se diferencia de tudo o resto. Heróis, se formos a ver, há poucos. E os vilões podem nascer todas as semanas.

 

O Benfica, decidido a boicotar o sucesso do ano passado, deitou fora cartas que não conseguiu substituir, mas manteve incólume a coluna da equipa. As saídas de Di Maria e Ramires não podem, nunca poderiam servir, de desculpa para a irregularidade exibicional, que vem desde a pré-época. Mas se nada pode servir de desculpa, muito menos servirá a contestação ao treinador que pôs a jogar a equipa como há muito não se via - desde o campeonato de Toni. De bestial a besta, claro, mas nem tanto. Conhecemos os defeitos do treinador. Mas ninguém é perfeito. E Jorge Jesus tem crédito para muito mais, as qualidades que parecem ter desaparecido certamente irão ressurgir. Que esta fraqueza momentânea sirva para alimentar manchetes de jornais especulativos e ressentidos, já me parece menos normal. E menos ainda me parece que jornalistas chico-espertos estejam mais interessados no seu ego inchado pela ocasião do que em fazer um bom trabalho - sim, falo da entrevista no fim do Beira-Mar-Benfica, um caso surreal de desrespeito por quem, no limite, alimenta a estação que decide não cumprir o regulamento da Liga que obriga a que as perguntas rápidas no fim da partida se limitem ao comentário do jogo. Jesus terá sido extemporâneo? Nunca. Deselegante talvez, e apenas porque, sabemos, não tem o dom da palavra. Mas mal-educado foi, sem dúvida, o jornalista que insistiu uma segunda vez numa questão que fora respondida.

 

Outra vítima das flutuações de humor dos benfiquistas tem sido o melhor marcador das últimas três épocas. Sem desculpa, como a frase anterior o prova. E viu-se, no regresso da lesão, qual é a diferença entre ter Cardozo no ataque e outro jogador qualquer do actual plantel. Golos, parece. Aquele pormenor que traz resultados (e dinheiro). A classe no pé esquerdo, sobressaindo a média velocidade, como um lento pesadelo para o defesa. Imaginamos que a grande vantagem de Cardozo é a subvalorização que os adversários fazem das suas capacidades. Cada um joga com as armas que lhe dão.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

 

 

 

As forças policiais e militares entram no Complexo do Alemão - pequeno quando comparado com algumas das favelas do Rio de Janeiro - e as imagens não se distinguem de uma qualquer guerra. Como se chegou a este ponto?

 

A ausência de Estado não leva à ausência de poder. Nem sequer à ausência de opressão. As relações de poder criam-se sempre, no vazio que o Estado deixa. No caso de muitas das favelas do Rio - e em muitas regiões da América Latina - ele é substituído pelo poder do narcotráfico. E percebe-se porquê. Ele tem tudo o que um Estado precisa - recursos financeiros, humanos e bélicos - para garantir o monopólio da violência e impor os seus próprios códigos e leis. Sem democracia nem normas que defendam os cidadãos do abuso.

 

Quando falo de ausência de Estado, não falo apenas (nem sobretudo) de forças repressivas. Falo de infra-estrtutras, apoio social e democracia. Na realidade, o único contacto que uma parte da população carioca tem com o Estado é com a polícia. Até agora, o Estado ofereceu-lhes pouco mais do que os traficantes: violência, corrupção e atropelo sistemático à lei. O Estado representou sempre um elemento estranho a estas comunidades, abandonadas à sua própria sorte. "Tropa de Elite", que fez vibrar os espíritos vingativos de muita classe média brasileira, retratava, com tons de heroísmo, esse Estado tão violento como laxista.

 

As entradas nas favelas foram sempre feitas através de incursões punitivas que deixavam atrás de si um banho de sangue. Corro o risco de ser optimista, mas há alguma coisa que está a mudar. E a imagem de muitos populares das favelas a aplaudir esta invasão - é disso que se trata -revela essa mudança.

 

A Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) tiveram o objectivo de mudar esta forma de actuar. Tratam-se de forças de ocupação. Forças que pretendem permanecer no local. As bandeiras brasileiras e do Estado do Rio de Janeiro, nos pontos mais altos do Complexo do Alemão, simbolizam essa ideia. Mas, ainda assim, continuava a tratar-se de uma ocupação quase exclusivamente repressiva, em que o poder dos traficantes era substituído pelo poder das forças policiais.

 

Esta ocupação de guerra, precipitada pela reacção dos traficantes, tem algumas diferenças com o passado. Apesar de mais de trinta mortes, sabe-se que entre eles não estão as dezenas de inocentes que as entradas policiais nas favelas costumam trazer. Não há, apesar de tudo, os relatos da violência indiscriminada costumeira, que trata todos os moradores como potenciais criminosos. E há uma diferença no discurso do poder político. Ele fala de direitos humanos e, acima de tudo, do que tem de ser feito (e no complexo do Alemão alguma coisa já foi feita) para lá e depois da acção policial: mais investimento nas infra-estruturas básicas e comunitárias para aquelas populações. E, por cansaço e por uma boa dose de esperança que resulta destas duas novidades, a reacção das populações das favelas é diferente.

 

O optimismo nasce desta ideia: parece existir vontade política para mudar o estilo de intervenção que, assumindo que sem segurança não há liberdade, vai muito para lá do discurso da "lei e da ordem". Quer Estado, mas completo: com democracia e o mínimo de direitos sociais. Sabendo que a vantagem do Estado Democrático sobre o poder dos traficantes não vem com os seus tanques. Vem com direitos e deveres. Se, reconquistada esta pequena favela, o poder político não se esquecer disto, há razões para o optimismo dos cariocas - os das favelas e os outros. Porque todos sabem que não há ocupação militar de partes de uma cidade que garanta a paz. Só quando os favelados forem brasileiros por inteiro aceitarão as leis que, até hoje, nunca lhes serviram de muito.

 

Se o governador do Rio de Janeiro (Sérgio Cabral) for coerente com o que diz (e sabemos que palavras não chegam) e vencer esta batalha, mostra que as preocupações sociais e a defesa da segurança pública não só não são contraditórias como, pelo contrário, são a única resposta eficaz à criminalidade. Porque nem os reis da droga são vítimas da exclusão social - eles são os exploradores na sua forma mais primitiva -, nem as populações das favelas têm de estar condenadas à marginalidade. Porque a segurança não é, nunca foi, uma questão essencialmente policial. Ela é, antes de mais, uma questão política que se resolve com um Estado Democrático, respeitador dos direitos humanos e promotor da igualdade social. É isso que Sérgio Cabral tem dito. Veremos se é isso que fará.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Ana Mafalda Nunes

 

O “cidadão empenhado” Belmiro de Azevedo, num artigo de opinião publicado este Sábado no semanário “Expresso”, elucidou-nos acerca da sua orientação de voto nas presidenciais de Janeiro. Afirma com “espírito elevado” que vai votar no Prof. Cavaco Silva. Porque, considera ser este o homem “com experiência suficiente para nos assegurar condições de governabilidade” e que afinal a chave para resolver as nossas maleitas está num “Presidente da República que possa ser um ponto de coesão e de equilíbrio”.

Então mas afinal de contas o Professor Silva já não é um “Ditador” sem qualidades de Presidente?

Numa entrevista do Sr. Azevedo à revista “Visão” publicada a 28 de Janeiro deste ano, acusou Cavaco Silva de ser ditador por ter dispensado quando era Primeiro Ministro, quatro amigos seus e “ministros competentes. Mais, diz na mesma entrevista que Cavaco "é um tipo duro, mas não foi talhado" para ser Presidente da República, porque "é um homem do Governo, activo". Mas afinal vai votar no professor para o Governo ou para Presidente? Ou está só a ser incoerente?

Tenho dificuldade em compreender o que mudou na cabeça do Sr. Belmiro para considerar agora, que afinal o Prof. Aníbal, que ocupará (caso seja eleito) “um lugar chato” e de “espaço de manobra limitado”, poderá “utilizar os conhecimentos da sua acção executiva para aconselhar os decisores e influenciar o curso das coisas”. Mas afinal vamos ter um governo (partindo do mesmo princípio que Belmiro parte - que o actual governo cai) com o fantasma dos natais passados a mandar? Ou o Sr. Belmiro considera que os portugueses precisam como castigo para o despesismo do estado de um Ditador que “dispõe das competências certas”?  

O que terá conduzido à incoerência este grande empresário de mercearias? Terá sido o desempenho apagado do actual Presidente que mudou em 10 meses, ou terão sido as suas necessidades e prioridades individuais e empresariais a mudar?


por Ana Mafalda Nunes
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Sábado, 27 de Novembro de 2010
por Ana Mafalda Nunes

por Ana Mafalda Nunes
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por Andrea Peniche

No mesmo dia em que a imprensa noticiava um estudo da União Europeia que revela que 53.5% dos jovens portugueses trabalham ao abrigo de contratos temporários, a Assembleia da República chumbava uma proposta do Governo que visava regulamentar os estágios profissionais (subsídio de estágio, horário de trabalho, etc.). Insólito é o facto de a bancada do Partido Socialista ter votado, toda juntinha, contra uma proposta do Governo, mesmo que o seu conteúdo tenha sido uma bandeira da JS.

Num país que exige estágios profissionais em diversas áreas para que as pessoas possam exercer a sua profissão não os subsidiar significa não só patrocinar a precariedade como aceitar este novo tipo de escravatura. São milhares os jovens que trabalham à borla em ateliês de arquitectura, jornais, escritórios de advogados e em muitos outros sectores profissionais.

No entanto, como na Assembleia da República há deputados que estão ao serviço não dos seus eleitores mas de corporações profissionais, eis que o deputado-advogado Ricardo Rodrigues se apressou a criar uma excepçãozinha à proposta do Governo: excepcionar os estágios de advocacia. O zum-zum criado obrigou a uma alteraçãozinha que tornasse menos evidente os interesses privados do deputado-advogado. A proposta final, integrada na lei do Orçamento, passou então a incluir o regime de excepção para as profissões liberais e o trabalho independente, e foi aprovada no pacote geral do Orçamento do Estado. O Bloco de Esquerda levou a proposta original a votação e esta foi chumbada.

Quando em jogo está a manutenção de interesses instalados importa muito mais confundir estágios profissionais com estágios curriculares e fazer de conta que não se sabe que grande parte destes jovens ditos trabalhadores liberais e independentes são, afinal, falsos recibos verdes.


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

"A televisão trouxe a notícia da libertação de Aung San Suu Kyi, e é claro que fiquei satisfeito. Sou em princípio a favor de todas as libertações, mas talvez desta ainda mais do que é costume. Não por Suu Kyi ser Prémio Nobel da Paz e Prémio Sakarov: na verdade são galardões que pela sua própria história me inspiram alguma desconfiança e dispenso-me de explicar porquê. Mas acontece que Suu Kyi é mulher e que para mais tem aquele arzinho fisicamente frágil que nos dá cuidados quando a imaginamos presa. É certo que na sua própria residência, que é capaz de ser mais confortável que a minha. Mas imagino que deve ser terrível para uma mulher, para mais senhora de boa disponibilidade financeira, não poder sair de casa para ir às compras no hipermercado mais próximo."

Do bem humorado Correia da Fonseca, distinto idiota que escreve no jornal "Avante!"


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Fala-se muito de uma provável remodelação do governo. É um assunto importante. Também eu, quando for desta para melhor, quero estar com o meu fato mais elegante.

por Daniel Oliveira
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por Andrea Peniche

A imprensa dá hoje conta que Filipe La Féria está de malas feitas e pretende abandonar o Rivoli. Será desta que Rio vai perceber que tem que gizar uma política cultural para a cidade ou pretende alugar o Rivoli para casamentos e batizados?

 


por Andrea Peniche
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Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010
por Sérgio Lavos

 

Há uma certa elegância não desprezável na câmara de Anton Corbijn. Em Control seria mais evidente, mas a verdade é que a estetização de uma tragédia - a morte de Ian Curtis - esvazia, até certo ponto, a importância do acontecimento. O Americano não corria esse risco - adapta uma obra de ficção. Mas também não corre o risco porque Corbjn decide evidenciar a sua veia cinéfila. Não há muito de Antonioni - as críticas que li, estranhamente, dizem que sim. Mas há uma certa secura na caracterização do assassino - um George Clooney em underacting, rosto fechado a fazer lembrar, estranhamente, um Buster Keaton deslocado - e um gosto bem vincado pela contemplação da paisagem. Mas esta procura dos espaços abertos do campo italiano contrasta com as cenas dentro de portas, actos de um homem só sublinhados pela proximidade da câmara. O assassino de Clooney é um criminoso metafísico, como o carteirista de Bresson. Depois de um trabalho que corre mal - a "amiga" morre - decide desistir e aceitar uma última missão. O trabalho consiste em fabricar uma arma para uma assassina. A destreza do artesão sobressai através do trabalho de montagem, dos sucessivos close ups das mãos do assassino montando a arma, afinando a mira. O assassino de Clooney é um homem fora de tempo, um artista. Por isso, o seu disfarce na aldeia italiana onde se exila é o de um fotógrafo. Mais do que um duplo do realizador - Corbjin começou por ser isso mesmo - ele é um duplo de si próprio; o shoot do atirador é o mesmo do fotógrafo (e do realizador, já agora), e os dois mesteres convergem na cena em que Clooney e a assassina (Thekla Reuthen) vão para o meio da natureza afinar a mira da espingarda (óbvia homenagem a uma cena de Day of the Jackal que o Ouriquense lembra). O fotógrafo de paisagens disparando contra o céu e a perfeição de um lugar que parece não existir.

 

Depois, há a personagem de Clara, a prostituta por quem Jack se apaixona. Um lugar comum que, não o deixando de ser, acaba por se tornar obrigatório no percurso do assassino. E o que acaba por salvar esta fraqueza do filme é a extraordinária beleza de Violante Placido; ela consegue roubar todas as cenas a Clooney. Curiosamente, pode-se comprovar que grande parte dos fascínio de Placido nasce do seu desempenho, que acaba por torná-la mais sedutora do que as fotos de sessão encontradas no Google. Desde Naomi Watts em Mullholland Drive que não sentia tal distância entre a realidade e o cinema. A elegância de Anton Corbjin, apesar de alguns defeitos, acaba por levar a melhor no fim.

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por Sérgio Lavos
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por Miguel Cardina

 

Tony Judt não é Nicolas Sarkozy. Por isso a leitura dos anos 60 que aparece em vários momentos do recomendável Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos não se confunde com o ódio que um dia Sarkozy destilou sobre 68 e os seus efeitos. Mas deixa aqui e ali um travo semelhante. Adepto da recuperação da ideia social-democrata, Judt fala dos anos 60 como um conservador. O capítulo dedicado à década no seu volumoso (e também muito recomendável) Pós-Guerra optava já pelo mesmo enfoque. E Judt não é caso único: Eric Hobsbawm também não nutre muita simpatia por esses tempos turbulentos. Na sua autobiografia, o reputado historiador marxista considera que os jovens de então procuravam sobretudo «emblemas para as suas lapelas privadas», que só por acaso coincidiram com os da esquerda mais radical.

 

Em traços grossos, Tony Judt olha para esses anos como uma antecâmara directa do triunfo do neo-liberalismo, da primazia do privado sobre o público, do fatalismo do fim da história. Para o historiador britânico, a época teria sido marcada pelo «subjectivismo do interesse e desejos privados», pela «rejeição do colectivismo» e pelo desprezo perante as questões relativas à justiça social. Daí a referência ao «legado irónico» da «esquerda egoísta» que usava o marxismo apenas como «tecto retórico». Convém desde já esclarecer que a panorâmica histórica que atravessa esta derradeira obra de Judt serve no essencial para sustentar as propostas contidas nas páginas finais – as melhores e mais incisivas – nas quais, simultaneamente, se elabora uma crítica do presente e se aponta um caminho político alternativo que passaria pela recuperação do legado social-democrata. Tony Judt defende a necessidade de uma social-democracia defensiva que resultaria de um projecto mínimo caracterizado como «a melhor solução possível nas actuais circunstâncias». Trata-se assim de resgatar a social-democracia histórica das suas reconfigurações do tipo «terceira via» e voltar a sintonizá-la com um padrão ético composto de justiça social e igualdade. Padrão ético, esse, que alimentara o New Deal e a construção do Estado-Providência, e que os anos 60 haviam interrompido. 


por Miguel Cardina
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por Daniel Oliveira


por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins

Numa entrevista recente Manuel alegre afirma que a adopção por homossexuais ainda lhe causa engulhos decorrentes de uma questão geracional. A sua formulação revela a abertura política contra essa forma de discriminação. A esquerda pra frentex agradece. Já a palavra engulho dá conta de uma resistência da ordem do visceral que também merece ser sublinhada: engulho - "ânsia que precede o vómito". Alegre está longe de me revolver um décimo daquilo que Cavaco Silva opera nas minhas vísceras sensíveis, ou não fosse Cavaco o principal autor - moral e material - da democracia de austeridade em que Portugal se tornou, ou não tivesse Cavaco feito aquela triste figura aquando da aprovação do casamento por homossexuais (aliás, veementemente defendida por Alegre). Mas, para ser honesto, não me ficará mal dizer que a ideia de votar em Alegre ainda me causa engulhos. No fundo estou como Alegre, entre a resistência visceral e o desígnio de uma abertura política.

 

Publicado no Aparelho de Estado.


por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

 

A crise financeira foi provocada pelo aprofundamento do fosso entre pobres e ricos. A conclusão é dessa organização de cariz socialiazante conhecida por Fundo Monetário Internacional. Tal como acontecera na Grande Depressão, a crise financeira resulta da concentração de riqueza detida pelos mais ricos e o crescente acesso ao crédito dos mais pobres, sem recursos para viver nas sociedade modernas, explica o estudo do FMI.

 

Nos EUA, entre 1983 e 2007, o rendimento detido pelos cinco por cento mais ricos aumentou de 22 para 34 por cento, resultando disso mesmo, o endividamento da restante população (94 por cento) duplicou nesse período. Tudo muito semelhante ao que acontecera entre 1920 e 1928.

 

O estudo, pensado para os EUA, foi replicado para outros países desenvolvidos. E quando chega a Portugal revelou o que já sabemos: é o segundo país da zona euro onde há maior desigualdade na distribuição da riqueza. E isso ajuda a explicar o nosso nível de endividamento.

 

Podemos tirar três conclusões deste estudo: que o endivimanto não resulta de uma bebedeira consumista que leva os povos a viver acima das suas possibilidades, mas de um desvio dos recursos disponíveis de parte da população para os mais favorecidos; que a crise não resulta, como nos querem vender, de um excesso de Estado Social, mas de um falhanço no papel redistributivo do Estado; e que as medidas que estamos a aplicar, com redução de prestações sociais e dos custos do trabalho, apenas agudizarão a crise.

 

Como em quase todos os estudos que vão saindo, os números contrariam a lenga-lenga que nos vendem todos os dias.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Pedro Vieira

já está disponível aqui o tomo 8 do ah, a literatura.


por Pedro Vieira
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por Andrea Peniche

Era uma vez uma senhora já de certa idade que precisava de fazer uma cirurgia. Como o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não dá resposta em tempo útil, foram criados os ditos «cheques cirurgia». A dita senhora recebeu um desses cheques e lá se dirigiu ao hospital privado que havia escolhido da lista proposta pelo SNS. Quando já se encontrava nesse hospital para comparecer à consulta marcada, surpresa das surpresas, foi reencaminhada para a clínica do médico que supostamente a deveria atender nesse hospital privado. Chegada à clínica, o médico em questão aconselhou-a a uns exames extra de diagnóstico na clínica de um médico seu amigo. Mais, ainda lhe sugeriu uma outra consulta e meia dúzia de sessões de fisioterapia na clínica... da filha.

Se há negócios que são bons para algumas pessoas, eles são ruinosos para outras. E estas outras pessoas geralmente estão em desvantagem porque para além de serem apanhadas numa teia para a qual não têm orçamento, carregam com elas a doença.

A resposta a isto, para além de uma denúncia ao Ministério da Saúde, só pode ser a exigência de um SNS capaz, pois só ele pode garantir a democracia no acesso aos cuidados de saúde.


por Andrea Peniche
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Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010
por Ana Mafalda Nunes

 

 

Hoje foi dia de rescaldo da greve geral e analisar/manipular números, dia de acalmar corações e punhos exaltados. Para outros foi dia de limpar as lágrimas de pimenta e de memórias do cravo. Dia de adrenalina em baixa e de voltar à triste realidade do défice, do desemprego, da contagem até ao fim do mês…

Passam 35 anos desde 75, 25 de Novembro. Para a malta da polémica, valeu e bem o que valeu. Marca a viragem iniciada 19 meses antes, põe fim ao interminável calor e corta o curso do rio revolucionário, cujas margens alargavam, mas nada fertilizava ou fazia brotar. Há quem goste de lhe chamar o dia da liberdade, mas esse 25 é o da Primavera que sem ele não teríamos Verões ou Outonos. Depois há quem puxe da bandeira com a mão direita e reclame para este (dia) os louros de ter posto a correr os “comunas”. No dia 26 de Novembro Ernesto Melo Antunes em frente às câmaras da RTP dizia que o PCP era indispensável para a construção da democracia em Portugal (é pena não existir, ou eu não encontrei, um “videoTube” que o ilustre). Era o início da consciência democrática, de que era necessário unir o trabalho de todos e que todos são os bens/males necessários para a evolução, modernização, económica, social, cultural e humana de um país ainda estagnado pelo feudo do Sr. Azar.

Da importância do nosso Ernesto: aparece como cidadão dotado de consciência, coerência cívica e política ainda na época pré-Cravos quando tenta candidatar-se às eleições legislativas de 1969. Abril em execução, é-lhe reconhecida a capacidade de, ainda que militar, pensar política, teve como tarefa preparar o Programa do Movimento das Forças Armadas anunciado ao país na madrugada de 26 de Abril de 1974. Em 75 foi conselheiro da revolução e meteu a pasta dos negócios estrangeiros à tiracolo e tentou fazer-nos à vida. A pasta cai-lhe quando ”bota o carapau” no “Documento dos Nove”, do qual foi o principal autor e que dá origem ao Outono da mudança. Na verdade o documento era um manifesto de esquerda ao trabalho político, que não servia aos extremos, um conjunto de propostas que aspiravam a coordenadas de um rumo democrático oposto ao modelo radical de Leste e à social-democracia Ocidental europeia. Não fora o manifesto trabalho do Ernesto não teríamos isto, sem estrutura, sem pai e mãe a que chamamos democracia, que nos serve, menos mal, para ir vivendo a vidinha com a cabeça entre as orelhas e muito de vez em quando, timidamente levantando a voz e os braços.

Obrigado Ernesto!


por Ana Mafalda Nunes
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por Pedro Vieira

 

 

© rabiscos vieira

 


por Pedro Vieira
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por Pedro Sales

 

Provando que também entrou em contenção de despesas, os membros do Governo agora debitam todos (o mesmo discurso) a mesma cassete. É a crise, é a crise.


por Pedro Sales
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por Andrea Peniche

Assinala-se hoje o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres.

As efemérides têm destas coisas, obrigam-nos a encarar uma realidade que, por vezes, anda demasiado esquecida nos restantes dias do ano.

 

No relatório de 2010 do Observatório de Mulheres Assassinadas, da UMAR, pode ler-se: «O número de mulheres assassinadas por violência doméstica e de género volta a aumentar em relação ao ano anterior. Em 2009, tivemos 29 mulheres assassinadas, este ano, ainda com dados provisórios, temos já 39. Também as tentativas de homicídio subiram para 37, este ano, tendo sido 28 no ano anterior».

Analisando este relatório, percebemos também que os homens mais violentos são aqueles com quem as vítimas têm uma relação de intimidade (64%), seguidos daqueles com quem já mantiveram uma relação (20%), estando, porém, agora deles separadas ou divorciadas.

 

Apesar do muito que foi feito nos últimos anos, nomeadamente a nível legislativo, muito há ainda para fazer. É preciso acabar com a impunidade e com os olhares, práticas e discursos desculpabilizadores. É necessário continuar com campanhas nacionais que denunciem a violência doméstica como crime, porque essas campanhas não só empoderam as mulheres e as ajudam a romper com o ciclo de violência, como constroem na sociedade a ideia urgente de tolerância zero para este tipo de crime. Precisamos, igualmente, de Juízos especializados em violência doméstica porque precisamos de tribunais capazes de compreender a amplitude deste crime, de modo que possam agilizar e adequar as suas decisões: grande parte das mulheres assassinadas já estava sinalizada como vítima de violência doméstica, o que significa que a protecção não foi eficaz ou não chegou a tempo. Basta olhar para o número de processos que chega ao fim e compará-lo com o número de queixas apresentadas, o número de condenações e o número de medidas de coacção aplicadas para percebermos a importância desta medida.

 

E, evidentemente, é necessário proteger as vítimas, pois elas são-no não apenas porque levam tareias e são sujeitas à violência e coacção psicológicas, mas também porque, para romperem com essa situação, são obrigadas a desestruturar as suas vidas, já de si precárias. Ir para uma casa abrigo exige romper com a maioria das relações sociais; significa abandonar o emprego e a casa familiar; implica sujeitar os filhos e filhas, quando existem, a uma vida diferente e escondida: mudar de escola, viver numa casa que não é sua, etc. Lembro-me de uma vez, quando trabalhava como voluntária na UMAR, de ter ido retirar rapidamente uma mulher e o seu filho à pensão onde tinham sido albergados. O filho tinha telefonado ao pai, denunciando o seu paradeiro, porque queria comer «chocapic» e na pensão onde estavam não havia. Parece ridículo, mas não é. O sofrimento destas mulheres é aumentado pelo facto de terem de sujeitar os seus filhos e filhas a uma vida diferente da que tinham imaginado. Notícias como esta são, pois, inaceitáveis.

 

É por isso que esta é uma batalha de toda a gente, de todos os homens e mulheres que não se resignam perante a desigualdade e violência. É de uma batalha civilizacional que se trata, de uma batalha que não aceita a desigualdade e a violência como argumento. Quem cala, consente; quem cala, desculpa. Elas somos todos e todas nós.


por Andrea Peniche
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por Bruno Sena Martins

 

É inevitável pensar que perdi tempo demais a ver aqueles jogos da segunda divisão alemã, então comentados pelo Jorge Perestrelo, para já velho me dar à fineza de tirar a limpo a adaptação para cinema d'O Amante de Duras. Não porque não houvesse coisas mais importantes em linha de espera. Não (Santo Agostinho me guarde) porque despreze completamente a comunidade de troca que esgrime a agenda cultural por princípio de actualidade. Não porque a obra de Duras ocupe lugar comparável ao de outros autores que têm lugar cativo no meu testamento. A questão é que há um raríssimo poder colonizador nos seus textos, algo que provavelmente muito deve aos lugares que visita. E por aí se impunha a dívida. Saigão, Sadec, Horoshima, Calcutá: são espaços que fatalmente colonizam a débil imaginação deste jovem imberbe (note-se que ainda o sou, senão jovem pelo menos imberbe).

 

O dispositivo de escrita d'O Amante é inteiramente confessional e autobiográfico, o que não quer dizer que os factos correspondam efectivamente às vivências pessoais de Duras. Aliás, seria a própria autora a afirmar a ficcionalidade do texto que finalmente lhe concedeu o Gongourt em 1984 (Uma Barragem Contra o Pacífico havia falhado por pouco em 1967). Sabemos, por exemplo, que o amante histórico não primava pela beleza -- ao contrário do que a descrição mais ou menos generosa do romance faria supor, ao contrário do entretanto mitificado Tony Leung --, sabemos que o elemento sexual chegaria relativamente tarde na relação. Mas, à parte algumas minudências aplanadas ou distorcidas pelas exigências romanescas da narrativa, O Amante não trai o sentido memorial de uma relação iniciática, aquela que se constituiu para Duras como o alvor da sexualidade, da auto-suficiência económica, mas, também, o marco de uma transgressão que irreversivelmente violentou o futuro de uma putativa senhora de bem.

 

Na verdade, dada como era a reciclar materiais, parece lícito pensar que Duras tentasse enfatizar a posteriori os elementos ficcionais d'O Amante como parte de uma estratégia: tratava-se de limpar caminho à recepção d'O Amante da China do Norte (1991), título que, contra as acusações de auto-plágio, defenderia como o relato  fiel do que realmente se passou. Em todo o caso, a adaptação fílmica d'O Amante será sempre recebida quer contra o livro quer contra a biografia. E, nessa perspectiva, é desde logo muito difícil não vermos em Jane March um retumbante erro de casting.

 


por Bruno Sena Martins
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por João Rodrigues

A Areia dos Dias é o blogue do Grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz. Vale a pena seguir ou não fosse dinamizado, entre outros, por Manuela Silva, Manuel Brandão Alves ou Mário Murteira, economistas que não esquecem a questão que mais importa: como colocar a economia ao serviço das pessoas? Entretanto, este grupo, que tem dinamizado uma interessante e aberta reflexão colectiva sobre as reformas para uma economia civilizada, teve a oportuna iniciativa, em conjunto com outros economistas, de elaborar um apelo para uma nova economia que todos podem subscrever. Há alternativas às irracionais políticas de austeridade.

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por João Rodrigues
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por Daniel Oliveira

É provável que depois de ontem Ricardo Salgado e João Salgueiro continuem a cruzar-se com ministros e líderes da oposição e aqueles expliquem a estes que as medidas da crise não lhes podem tocar enquanto o governo corta no abono de família de quem vive com demasiado pouco para respirar.

 

É provável que hoje os varas e os godinhos e os coelhos deste país continuem a telefonar aos amigos que deixaram no governo e nas empresas do Estado para resolverem uns problemas pendentes e uns concursos faz de conta. É provável que Dias Loureiro continue a passear-se por Cabo Verde, como se o buraco negro do BPN, pago com a nossa desgraça, nunca tivesse existido. E que outros dias loureiro joguem golfe com homens de negócios e tratem de fechar os olhos a quem devia zelar pela saúde da nosso sistema bancário. É provável que António Mexia não deixe de receber um salário maior do que muitos presidentes grandes multinacionais enquanto os portugueses falidos pagam das facturas mais altas de electricidade da Europa. É provável que tantos turbogestores de tantas empresas, dedicados à sua boa agenda no Estado generoso mas selectivo, continuem a referir-se a quem depende do seu salário para viver como "colaborador", sempre sublinhando a sua baixa produtividade. É provável que senhores como Luís Correia da Silva, administrador da Groundforce, ex-secretário de Estado de Durão Barroso e importante operacional da campanha de Cavaco Silva, continuem a despedir centenas de trabalhadores por e-mail e continuem a ser tratados como gente respeitável.

 

É provável que amanhã ex-ministros das finanças continuem opinar sobre o que devia ser feito e eles nunca fizeram. Que reformados precoces do Banco de Portugal continuem a explicar ao país como ele tem vivido acima das suas possibilidades. Que economistas avençados nos continuem a vender o Purgatório para salvar os seus do Inferno. Que os seus jovens aspirantes, muito radicais e frescos, se alinhem para dar a cara pela autoflagelação nacional à espera de um lugar ao sol na academia e nos corredores do poder.

 

É provável que depois de amanhã a Banca continue a pagar impostos simbólicos enquanto desempregados e beneficiários do rendimento mínimo são tratados como trapaceiros até prova em contrário. É provável que os funcionários públicos continuem a ser vistos como parasitas privilegiados enquanto boys inúteis trepam na arte de fazer coisa nenhuma.

 

É provável que a greve geral não tenha mudado nada. Mas ela, tendo sido a maior da história deste País, mostrou que ainda não estamos mortos. Deprimidos, claro. Com medo, pois somos humanos. Mas ainda resta alguma dignidade. Aquela que fez, por exemplo, os trabalhadores da Autoeuropa, a maior fábrica em Portugal, onde até houve aumento de salários, a fazer greve por solidariedade com a sua gente. É provável que tudo fique na mesma. Mas ao menos ontem respirou-se alguma sanidade. Ainda há gente com coragem. E só por essa gente pode passar a salvação deste País.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Ana Mafalda Nunes

Repete-se, mas não resisto...


por Ana Mafalda Nunes
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Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010
por Sérgio Lavos

 

A chegada do novo Arrastão, mais populoso, airoso e diversificado, trouxe o caos a muitos leitores e a gente de passagem. Todas as questões, opiniões e críticas estão a ser apreciadas, e não se duvide de que analisaremos com mais cuidado as propostas dos comentadores. Aliás, ao contrário do Governo, não entramos em devaneios e não negamos as dificuldades: não está ainda tudo afinado, admitimos (mas o Governo certamente não deixará de afirmar que "o país viveu uma greve tranquila").

 

Quem entrou em delírio parece ter sido a direita blogosférica: de um momento para o outro, Sócrates tornou-se um indivíduo respeitável e esforçado que parece conduzir o país ao rumo certo. Será isso, ou então a momentânea loucura foi provocada pelo medo dos que assumiram o discurso da "responsabilidade" e pararam durante um dia para mostrar ao Governo que deve parar com a irresponsabilidade do PEC3 e dos que aí se avizinham. E por falar em Governo, parece que a outra cabeça da hidra, o angustiado Pedro Passos Coelho, ainda agora está a tentar perceber se o Orçamento tem dedo do PSD ou não - imagino que ninguém o terá avisado que houve um acordo entre os dois senhores de cabelo branco aqui há umas semanas. O que faz dele, no mínimo, aquilo que em linguagem jurídica se chama "cúmplice de um crime". Eu até posso "compreender" a angústia dele; é uma zona cinzenta, esta: será que o povo gosta de mim a aderir à greve ou preferem que eu fique em casa pesarosamente angustiado? E, no fim de contas, o "Orçamento é "do Governo". Em tempos, parece-me que Pilatos passou por um dilema semelhante, resolvido do mesmo modo, sem rebuço.

 

Amanhã, espera-se um regresso à normalidade: a direita voltará a achar que o primeiro-ministro é a Besta, o sinal dos fim dos tempos; que os mercados (apesar da chatice da Irlanda e do problema da Islândia) são a salvação para todos os males do mundo; e que Pedro Passos Coelho é aquilo que talvez poderia ser, acaso fosse ele diferente da maneira que pode ser, dando-se o caso de não ser aquilo que verdadeiramente é. Passos Coelho, esse, persistirá o seu caminho, aprovando a continuação dos grandes projectos de obras públicas num dia e criticando o "Orçamento" do Governo" no outro; Sócrates continuará a nadar ao largo, longe da vista, tentando convencer o país de que nada disto é culpa dele; e Cavaco, claro, não nos esqueçamos, irá certamente dedicar-se a aprimorar as únicas qualidades unanimemente reconhecidas: estar calado quando deve falar e falar quando deve manter o silêncio.

 

Quanto ao Arrastão, tudo será melhor, prometemos.

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por Sérgio Lavos
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por Pedro Sales

Os funcionários públicos não fizeram greve. Para quem não trabalha, como é o caso, foi um dia como os outros. O país está falido por causa da função pública, o país está endividado por causa dos funcionários públicos, o país não tem emenda com estes serviços públicos. Os funcionários públicos passam o dia no facebook e, quando o largam, é para perderem tempo nos blogs. Os funcionários públicos são preguiçosos e pouco pontuais. Os funcionários públicos fazem greve para perpetuar os seus privilégios. Os outros, os que trabalham, vão todos os dias produzir para lhes garantir o nível de vida. Se não fosse a função pública, já vivíamos todos melhor que os belgas e holandeses. Os funcionários públicos, com as suas greves, não deixam trabalhar o país que produz. Os alemães e franceses labutam que se fartam para subsidiarem os nossos funcionários públicos. Os funcionários públicos têm mau gosto, cheiram mal da boca e ouvem música que não se recomenda.

 

Aqui ficou um resumo, qual serviço público para quem não tem muito tempo, para todos quantos pretendem saber o que é que a maioria dos blogues da direita mais liberal anda a dizer da greve geral.


por Pedro Sales
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por Arrastão

por Arrastão
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por Bruno Sena Martins

Wild River, Elia Kazan, 1960

Wild River, 1960

 

Triste ironia que o mote no título do post tenha sido retirado da cinematografia de Elia Kazan. O passado, o seu passado, a velha história. Nada que me faça hesitar no tanto que lhe quero os filmes; admiro-os  demasiado e dizem-me demasiado para que não sinta, também eu, a traição pelo largo espectro daquilo que dele ficou para a posteridade pública. Nalgum sentido preferia não saber: há tanto sacana recordado em mármores impolutas. Também não o teria aplaudido nos Oscars, mas homenageio-lhe a obra às escuras.

 

Publicado em Avatares de um Desejo


por Bruno Sena Martins
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por Arrastão
Com novo grafismo, alojado no Sapo e três novos arrastadores (a Andrea Peniche, a Ana Nunes e o Miguel Cardina), esperemos que se continuem a sentir em casa.

por Arrastão
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por Ana Mafalda Nunes

Este canto do mundo não precisa de paninhos quentes.

Hoje, dia de Greve Geral, que se levantem vozes de indignação!


por Ana Mafalda Nunes
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por Andrea Peniche

O Conselho de Administração do Hospital de S. João comprou, pela módica quantia de 100 mil euros, cinco espectáculos a Filipe La Féria. A receita do espectáculo reverterá, dizem, para financiar a construção do Hospital Pediátrico do Norte (nova ala de pediatria do Hospital de São João). Dos cinco espectáculos comprados, só dois se realizaram. Os outros três acontecerão em Lisboa, fora de época e de contexto.

Se já é discutível que um hospital público utilize dinheiros públicos para financiar produtores privados, não é sobre isso que vou falar. O que me parece é que esta iniciativa é ruinosa. Eu não tenho grande cabeça para contas, mas ainda sou capaz de tratar de alguma mercearia. Ora, sendo a lotação do Rivoli de cerca de 800 lugares, ou o preço médio dos bilhetes é superior a 25 euros e a lotação está completamente esgotada ou a coisa vai dar prejuízo. Ao invés de arrecadar, o Hospital vai pagar.

 

Ao mesmo tempo que um hospital público entrega 100 mil euros a Filipe La Féria, o Teatro Nacional de São João vai ser extinto pelo Orçamento do Estado e integrado na estrutura do OPART (Organismo de Produção Artística). E assim, de uma penada, se acaba com a única estrutura de produção e programação descentralizada do Ministério da Cultura e se cria um monstro administrativo que gerirá, centralmente, a programação dos três teatros nacionais e da Companhia Nacional de Bailado. Como diz o Ricardo Pais, «isto parece uma Santa Aliança entre a senhora ministra da Cultura e o dr. Rui Rio. É o conluio com a destruição sistemática do Teatro no Porto». 

 

E agora vou para a rua, que é dia de abraçar o teatro e de Greve Geral.


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Miguel Cardina

 

Estreio-me no Arrastão na mesma semana em que o jornal Público deu à estampa uma manhosa reportagem assinada por Paulo Moura sobre as manifestações anti-NATO e disponibilizou o primeiro volume da filmografia completa de Michel Giacometti. Entre um acontecimento e outro vai a distância de uma reconciliação - de mais uma reconciliação - num namoro atribulado que já leva vinte anos de existência.

 

A série O Povo que Canta, realizada por Alfredo Tropa e transmitida pela RTP entre 1970 e 1974, corria o risco de se tornar uma espécie de mito urbano: muitos falavam dela mas poucos a tinham visto. Giacometti devolve-nos aí as imagens de um país que estava a desaparecer, com os seus rostos, os seus costumes, as suas sonoridades. A ele lhe devemos a paixão paciente que o fez recolher uma significativa quantidade de espécimes musicais. Sem ela, boa parte da música que se reivindica de inspiração “tradicional” ou “popular” – da Brigada Victor Jara à Banda do Casaco, de José Mário Branco aos Gaiteiros de Lisboa, do projecto Megafone aos Galandum Galundaina – teria sido mais pobre.

 

No jornal com o qual me reconciliei, Nuno Pacheco comparava o destino das recolhas do norte-americano Alan Lomax – 15.000 músicas hoje depositadas na Biblioteca do Congresso – com a pouca atenção que o Estado português sempre deu à preservação do espólio de Michel Giacometti. No fundo, a pouca atenção que deu à memória de um país. Giacometti não foi o primeiro nem o último a dedicar-se a esse trabalho de recolha etnográfica. Nem os seus métodos e opções foram inquestionáveis. Mas mesmo aqueles que actualmente buscam caminhos artísticos ou etnográficos que tocam as áreas do “tradicional” ou do “popular”, seja lá o que isso for, sabem que só se podem afastar do etnógrafo corso se, como Édipo, confrontarem essa presença espectral.

 

Um dos trechos fílmicos mais fortes que conheço está num dos episódios do Povo que Canta e pode muito bem servir de metáfora a um post que trata também de assinalar um começo. Foi gravado em 1970, em Dornelas do Zêzere. Caminhando sob uma roda elevada, uma mulher retira água do rio para irrigar os campos, ao mesmo tempo que canta, hipnotizada, uma melodia de trabalho. Sobre a mulher da roda, Ana Paula Guimarães escreveu um belo texto, onde anota a sublime conjugação entre «postura de trabalho (de tripalium, tortura), técnica (capacidade de executar, levar a bom termo) e arte (a voz, o canto ritmando e gerindo o esforço)». Instalada entre o céu e a terra, essa mulher transformava-se em metáfora de algo só aparentemente contraditório: a persistência do corpo e a necessidade de movimento. Num mundo abandonado pelos deuses, este é uma boa imagem para os recomeços.

 

E agora vou para a rua que o dia é de Greve Geral.


por Miguel Cardina
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por Sérgio Lavos

 

Em dia de greve, homenagem ao meu irlandês preferido - apesar de Joyce, Yeats, Beckett e Bushmills - numa cena em perfeito estado de graça, boa demais para adjectivos.

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por Sérgio Lavos
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