Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011
por João Rodrigues

Sócrates admite mais austeridade para atingir défice de 4,6% este ano. Ler Alejandro Nadal: O governo controla o gasto, não o défice.


por João Rodrigues
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por João Rodrigues

Esta é a pergunta que o blogue Massa Monetária do Negócios colocou a Álvaro Santos Pereira e a mim. Santos Pereira diz que "A austeridade é necessária mas não é suficiente". Austeridade permanente? Não, obrigado, digo eu: Não satisfeitos pela factura apresentada aos contribuintes pelos efeitos dos desvarios do sistema financeiro, os mesmos mercados pediram, em 2010, um segundo pagamento através do aumento das taxas de juro da dívida pública, em especial nos países periféricos. A política económica de austeridade, desenhada para aplacar a pressão dos mercados, já fracassou neste intento. Qualquer que seja o modelo de aplicação e a distribuição do seu fardo, o resultado da austeridade é a recessão e a continuação do aumento do desemprego, sem perspectiva de crescimento futuro. As políticas de austeridade fazem do trabalho, dos salários directos e indirectos, a principal variável de ajustamento à crise. Assim não se criam os empregos de que necessitamos porque não se resolvem os dois problemas que travam o investimento: o acesso ao crédito e as expectativas de evolução da procura. O resto pode ser lido aqui.

 


por João Rodrigues
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por Sérgio Lavos

Gosto tanto de algumas unanimidades como desaprovo outras. Não cultivo a atitude de ser sempre do contra nem cedo sempre às imposições da moda. O meu meio-termo é o meu gosto, e apenas erro quando não sei do que falo – e admitir isto não diminui o pecado.

O meu filme preferido de entre os que Martin Scorcese dirigiu é No Direction Home: Bob Dylan – e o segundo bem poderia ser A Minha Viagem em Itália. E arriscaria ainda um terceiro: The Last Walz. Arrisco deitar fora O Touro Enraivecido e principalmente a sua melhor obra de ficção, Taxi Driver. Guardando os seus documentários religiosamente.

Que Scorcese consiga ser melhor quando fala das suas paixões não deixa de ser surpreendente. Ou pensando bem, não é. Porque Scorcese é um meticuloso cinéfilo que enriquece a sua obra com o conhecimento adquirido na obra de outros. É claro que existe um modo scorcesiano de fazer cinema – aquela maneira de acumular tensões sem nunca mostrar verdadeiramente um núcleo dramático que justifique essas tensões; e isto é uma qualidade. Quando Travis Bickle, em Taxi Driver, finalmente cede aos demónios interiores, o ritmo do filme torna-se decrescente, um balão esvaziando-se até que nada reste. A violência não é gráfica nem explosiva; é um esgar no rosto de Robert de Niro ou uma improvisação em frente ao espelho. Nada acontece apenas uma vez. Uma continuidade nos actos da personagem de Bickle imita as flutuações constantes da cidade de Nova Iorque, o seu pulso. Tudo é normal na cidade que nunca dorme – e em Nova Iorque Fora de Horas confirma-se em tom de burlesco a loucura encenada de Taxi Driver.

Falando de um filme, torna-se fácil ganhar-lhe apego. Regressemos portanto a No Direction Home, fabuloso testemunho dedicado a alguém que já está além da História – da sua injustiça suprema, dos seus ciclos inevitáveis de vida e morte. E acaba por ser tudo menos curioso que Bob Dylan, uma das mais perfeitas encarnações do Homem americano, tenha sobrevivido ao peso de o ser persistindo numa reclusão casmurra, encerrado numa misantropia que é o espelho do seu génio. O documentário de Scorcese esquiva-se a grandes teorias – sempre uma armadilha – e concentra-se nos pormenores. As entrevistas perigosas, no fio da navalha; o relato dos músicos que o acompanharam; a reacção do público conservador da música folk aos concertos electrificados da digressão de "Bringing It All Back Home" – o seu álbum esquizofrénico; a zanga com Joan Baez.

O mistério de Dylan fascina por ter criado uma obra que configura o espírito de um tempo. E Dylan apenas se tornou um mito quando se rebelou contra as suas raízes e se reinventou enquanto músico. Em 1965, Dylan previu o fim da utopia do movimento hippie? Não será assim, apenas prosseguiu o caminho de uma outra utopia; no caso, criativa, espaço de singularidade artística. O seu maior feito – que ele, como se vê em No Direction Home, acaba por desvalorizar em termos de importância simbólica. Scorcese capta o percurso feito de desvio e transgressão, focando o seu olhar nos pormenores, seja uma entrevista ao músico em que este é provocado por um jornalista de intenções duvidosas, seja no relato feito no tempo presente, em que Dylan se expõe revelando as sombras desconhecidas da sua história.

Ao conhecermos o músico na intimidade das histórias durante tanto tempo guardadas, compreendemos melhor a razão das mudanças que ocorreram nos últimos 40 anos na América. Mérito para Martin Scorcese. Partindo do particular para o universal, tornando a micro-história pista de leitura para a grande História, sobretudo asseverando a importância da cultura pop para o entendimento pleno de uma sociedade, Scorcese atingiu a perfeição. Que tenha assim sucedido em forma de documentário, não me parece que venha mal ao mundo. O cinema também pode servir como testemunho de um tempo que vai passando. Para sempre.
 
 
(Escrevi este texto em Maio de 2007 no meu outro blogue - e Scorcese até está escrito com "c" e tudo. Republico-o aqui porque sim, porque uma opinião não pode nascer do nada, a não ser que se reduza a uma simples provocação. Constato que mudei apenas numa coisa: depois de ter visto Taxi Driver mais uma ou duas vezes, ainda o valorizo menos. Coisa que - e perdoem-me comparar o que muitos acham incomparável - nunca poderei dizer de Coppola; cada visionamento do primeiro e do segundo Padrinhos ou de Apocalypse Now é uma festa, nunca perdem. Há uma grandiosidade ali, uma vontade épica, que sempre faltou a Scorcese. Mas enfim, são opiniões. Valem o que valem.)
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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

Defender os serviços públicos não significa ter apenas um discurso sindical, onde se agrada a todos e a todas as suas exigências. Quem defende que o Estado Social deve garantir aos cidadãos os serviços fundamentais para a sua qualidade de vida tem de fazer escolhas. E por vezes escolhas difíceis. Não esquecendo três critérios fundamentais: racionalidade, justiça e coerência.

 

Nenhum destes critérios permite defender a existência da ADSE no nosso sistema de saúde. Se não vejamos:

 

A existência da ADSE é insustentável porque promove a irracionalidade. Entregamos a gestão de recursos a quem não os paga. Quem fornece o serviço não só não tem de promover a racionalidade de custos como tende a ganhar tanto mais quanto mais irracional for. Junta-se a isto o facto de, como acontece com as seguradoras, os beneficiários da ADSE poderem usar os hospitais públicos em atos médicos mais complexos ou dispendiosos.

 

A ADSE é injusta. Não há forma de defender que enquanto os trabalhadores do privado estão obrigados, caso não tenham rendimentos para mais, a usar um serviço do Estado, os trabalhadores do Estado nas mesmas circunstâncias possam optar por serviços privados financiados pelo Estado. A mensagem que o Estado passa é a de que o que é bom para os funcionários dos outros não chega para os seus.

 

A ADSE, para quem se bate de forma coerente pelo Serviço Nacional de Saúde, é indefensável. É incoerente criticar as parcerias público-privado que dilapidam os cofres públicos ou o cheque-ensino e defender a ADSE. Quem defende que o SNS deve ser para todos e não apenas para os mais pobres não pode depois aceitar que haja um sistema de exceção para os funcionários do Estado.

 

Esta posição não se pode confundir com as dos que atacam a ADSE como forma de atacar os funcionários públicos e através deles o papel social do Estado. A critica à existência da ADSE faz-se do lado oposto: a defesa de um SNS público e universal e do papel do Estado como prestador de serviços sociais

 

Apesar dos funcionários públicos já utilizarem os serviços hospitalares do Estado para muitos atos médicos, integrar 700 mil pessoas em todos os serviços do SNS não é coisa fácil. Discursos apressados nesta matéria são irresponsáveis. Acabar amanhã com a ADSE seria uma loucura. Mas quem quer ter um discurso coerente sobre o Estado Social e serviços públicos justos e racionais tem de defender o fim da ADSE e de todos os subsistemas de saúde que não sejam meramente complementares. Custa? Claro. Toda a política séria faz-se de escolhas difíceis.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Domingo, 27 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

Que fofura: João Miranda compara o Hamas, o partido mais votado nas eleições em território palestiniano (que, lembre-se, ainda não é um país independente) e cujo líder nem sabemos bem quem é (não vale ir à Wikipedia) com ditadores de créditos firmados - como soi dizer-se - déspotas que não hesitam em dizimar a população para se manter no poder. Ah, bendito liberalismo; se eu fosse mais crescido, aderia de imediato a tanta pureza de intenções. Este é o caminho. 


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

Não vi discursos do rei nem outras coisas que tal, portanto a minha opinião vale o que vale, mas, de entre os filmes nomeados, a Rede Social é de longe o melhor - a tal coisa sobre a actualidade que melhor descreve a... actualidade, mas sobretudo um tour de force do argumentista, Aaron Sorkin. O Cisne Negro é um bom filme, mas melhor do que o filme é a superlativa Natalie Portman, que consegue demonstrar que beleza e talento são perfeitamente compatíveis. Dos actores, confesso que nada vi, mas a minha aposta será em sempre em Jeff Bridges; Colin Firth é um protótipo inglês, como o Jaguar: muita técnica, nenhuma diversão - as mulheres gostam dele apenas pelo Mr. Darcy, sem perceberem que este é apenas uma personagem de ficção (de outro mundo, graças a Jane Austen, uma das poucas coisas que tenho em comum com Vasco Pulido Valente). Quanto a toda a envolvência psico-social dos Oscares, o que tenho a dizer é que gosto, sempre gostei, e acho que de facto são a celebração do mundo do cinema, mesmo quando objectos inclassificavelmente maus como Shakespeare in Love (e é pena que o único prémio da Academia ganho por Gwineth Paltrow tenha aparecido graças a esta mediocridade) vão longe. Também não percebo porque deixou de ser convidado para apresentar a cerimónia o Jon Stewart; e muito menos entendo porque nunca foi convidado o Ricky Gervais ou o Larry David. Este ano, então, temos um descendente de portugueses que é um actor apresentável - James Franco - e uma Anne Hathaway suficientemente distante da fabulosa Julia Roberts para que queira ser como ela, mas que, na minha cabeça, não passa da Rainha Branca do fraquíssimo Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. E o único filme que eu acho bem não ter sido nomeado foi a fraude Shutter Island, do realizador mais sobrevalorizado de sempre, Martin Scorcese. Eu tenho qualquer coisa contra Scorsese, admito: o únicos dois filmes que ultrapassam a mediania são documentários: No Direction Home, excelente, e A Minha Viagem a Itália. Taxi Driver é um bom filme, mas com demasiada consciência da sua importância and all that bullshit. E Touro Enraivecido é um filme cagão, com preto e branco e tudo. Tudo é resto é banal, ou péssimo, e ele apenas acerta novamente com O Cabo do Medo, mas isso apenas porque Robert de Niro dá asas a todo o overacting que tem em si.

 

Resumindo e concluindo, os Oscares são uma celebração, e é apenas normal que Forrest Gump tenha ganho o Oscar. Orson Welles nunca ganhou, e quer-me parecer que pelo menos cinquenta por cento dos membros da Academia nunca viu um filme do Godard. Muito menos Film Socialism, que é bem capaz de ser o melhor filme de 2010. E ainda não estreou em Portugal.

 

*Lembrei-me agora, o filme de entre os nomeados é, sem qualquer dúvida, Toy Story 3. Aquele de que me lembro de mais cenas, mais vezes, com mais emoção. Genial, e o facto de ser um filme de animação ainda torna o feito mais significativo. Viva a Pixar!

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por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins

The Fighter (David O. Russell)

 

 

 

 

Outras Escolhas:

Melhor Actriz

Melhor Actor

Melhor Actriz Secundária

Melhor Actor Secundário


por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

UNIVERSIDADE DE PRIMAVERA DO FÓRUM MANIFESTO

Estado Mínimo, Crise Máxima

25 a 27 de Fevereiro, Ovar

 

PROGRAMA

25 de Fevereiro, Sexta 21H

Conferência de abertura: ‘Estado e Sociedade’

Luís Fazenda e José Manuel Pureza

 

26 de Fevereiro, Sábado

10h – 12h30

Sessão de trabalho – Serviço Nacional de Saúde

Aula: Pedro Ferreira – Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Mesa Redonda: com João Semedo

 

14h30 – 17h30 Sessão de trabalho – Educação

Aula: Manuel Sarmento – Universidade do Minho

Mesa Redonda: com Ana Drago e Maria José Araújo

 

18h

Mesa redonda ‘A nova esquerda e os novos na esquerda’

Com Hugo Ferreira, Gonçalo Monteiro, Pedro Feijó e José Miranda

Moderação de Daniel Oliveira

 

21h

Sessão de trabalho – Cultura

Com Catarina Martins

 

27 de Fevereiro, Domingo

10h – 12h30

Sessão de trabalho Segurança Social

Aula: Carvalho da Silva – Secretário-Geral da CGTP


por Daniel Oliveira
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Sábado, 26 de Fevereiro de 2011
por Bruno Sena Martins

Melhor actriz secundária:

 

Hailee Steinfeld (True Grit)

 

True Grit


por Bruno Sena Martins
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por Bruno Sena Martins

Melhor Actor secundário:

 

Christian Bale (The Fighter)

 

The Fighter


por Bruno Sena Martins
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por Bruno Sena Martins

Melhor actor:

 

Colin Firth (The King's Speech)

 

The King's Speech


por Bruno Sena Martins
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por Bruno Sena Martins

Melhor actriz (ex aequo):

 

Natalie Portman (Black Swan) e Michelle Williams (Blue Valentine)

 

Blue Valentine


por Bruno Sena Martins
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Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011
por Daniel Oliveira

 

Os ingleses chamavam aos independentistas irlandeses de terroristas. Salazar referia-se aos movimentos de libertação africanos como terroristas. Os britânicos diziam que os apoiantes de Gandhi eram terroristas. E também consideravam os sionistas terroristas. Os sionistas consideravam Arafat um terrorista. E também o Hezbollah. E até todos aqueles que criticam o comportamento de Israel na região. A Fatah diz que o Hamas é terrorista. Para o regime sul-africano Mandela era terrorista e até usou vários dos métodos de combate que hoje são claramente considerados habituais para terroristas. Como os sionistas em Israel, por exemplo. Entre outros argumentos, George W. Bush justificou a invasão do Iraque com as supostas relações do regime com terroristas. Os EUA achavam que Kadhafi era amigo de terroristas. Quando se abriu ao mercado internacional deixou de ser. Kadhafi avisa que os que o querem derrubar são terroristas.

 

Para os EUA os mujahedin que combatiam no Afeganistão eram libertadores, para os soviéticos eram terroristas. E os mesmos que eram "freedom fighters" no tempo dos soviéticos passaram a ser terroristas no tempo dos americanos. Para a população americana, composta por muitos descendentes de irlandeses, os repúblicanos da Irlanda do Norte são nacionalistas, para os britânicos são terroristas. Para os africanos o MPLA era um movimento patriótico, para o regime português era terrorista. Para todo o Mundo Mandela era um defesor dos direitos cívicos, para os defensores do Apartheid não passava de um terrorista. O Ocidente considera os independentistas curdos do Iraque heróis da democracia e os independentistas curdos da Turquia terroristas.

 

A palavra terrorista sempre serviu para tudo. Poderia servir para definir um método de guerra: espalhar o terror indiscriminado. Mas se assim fosse, teriamos de incluir na lista o terrorismo de Estado usado em guerras convencionais: em Angola, no Vietname, no Iraque, na Chechénia, em Gaza, no Líbano e em quase todas as outras. Poderia servir para definir aqueles que usam os métodos da guerra assimétrica: a falta de meios é compensada pelo uso de ataques não convencionais. Mas se assim fosse, quase todos os movimentos de guerrilha urbana, onde estão incluidos vários os movimentos que fundaram vários Estados que temos por democráticos - a República da Irlanda ou Israel, por exemplo -, teriam sido terroristas. Até a resistência francesa aos nazis seria terrorista. Ou podemos considerar que terroristas são os que combatem em forças militares não regulares. E aí, praticamente todos os que combatem sem estarem integrados em forças armadas de um Estado são terroristas.

 

Na verdade, a palavra terrorista não define grande coisa a não ser a simpatia ou antipatia que sentimos por cada movimento armado. Há uma posição coerente, que é a do pacifismo radical: só a não-violência abdica do terror, só ela se opõe de forma clara ao terrorismo. Aquela que reconhece que todas as formas de guerra têm, entre as seus técnicas de combate, o uso do medo e do terror como forma de impor a sua vontade, seja essa vontade justa ou injusta. Claro que daqui não pode resultar o relativismo absoluto: matar milhões de judeus em câmaras de gás não é o mesmo que provocar algumas mortes num bombardeamento; atirar dois aviões contra um edifício no centro de uma cidade não é mesmo que disparar um rocket para o outro lado da fronteira. Em que ponto fica exactamente o terrorismo? Nunca encontrei uma definição neutra . E, desde o 11 de Setembro de 2001, a palavra banalizou-se de tal forma que já não parece corresponder a mais do que uma forma de "terrorismo" verbal (cá está o uso indiscriminado). Foi a partir dela que todos os atropelos aos direitos cívicos e às liberdades individuais e políticas se foram fazendo neste início de século. É a vantagem das palavras brutais com objecto inpreciso. Ela própria ajuda a criar o terror suficiente para o inaceitável poder ser aceite.

 

O facto de um ditador ex-financiador de movimentos considerados terroristas ter usado a palavra no momento em que a sua queda parece eminente tem uma enorme utilidade: mostrar a inutilidade da própria palavra e criar o hábito de, antes de se colar o rótulo, analisar as motivações e os métodos de cada movimento político sem comprar pacotes completos. E assim concluir que talvez nem todos islamistas sejam terroristas, apesar de serem extremistas, o que já não é grande elogio. Que nem todos os que se opõem aos regimes que apoiamos são terroristas. Que, coisa extraordinária, nem sequer todos os que se opõem à democracia e à liberdade são terroristas. E, acima de tudo, que as listas europeias, americanas ou seja de quem for de organizações terroristas não valem uma pevide. Que aqueles que são terroristas para uns são heróis para outros e que até os terroristas do presente passarão a ser vistos como heróis no futuro pelas mesmíssimas pessoas.

 

Todos somos antiterroristas. Até os terroristas acham que são. A questão é outra. É saber quanto vale uma vida para quem combate. E aí, meus amigos, suspeito que valha tanto para muitos dos que nos habituámos a chamar de terroristas como para outros que vestem uniformes mais respeitáveis.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

alguns que gostam de se esquecer que morreu mais gente ao longo da intervenção americana no Iraque (e, já agora, no Afeganistão) do que em qualquer revolução que  possa surgir no mundo árabe, mesmo tratando-se, neste caso, de um psicopata assassino como Khadafi e ressalvando que uma vida perdida já é muito, demasiado. Os que estão a morrer em nome da liberdade na Líbia não precisam de amigos destes, certamente. E é tão fácil ser marine sentado à frente de um ecrã de computador. Os cowboys de sofá voltaram. Já cá faltavam.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

 

No Benfica começa-se a sentir uma estranha tendência, que poderá trazer dissabores no futuro, para finalizar jogadas com "nota artística elevada" (no linguajar de JJ). Deveria haver um credo nas grandes equipas: não humilharás os teus adversários - mesmo que eles peçam para ser humilhados. E uma finta a mais pode ser um risco, como pode comprovar Carlos Martins no final do jogo; trocar duas vezes as voltas a um matulão ex-jugoslavo cujo nome eu não quis decorar dá direito a um golpe de karaté. Lições que não se devem esquecer.

 

E o Benfica também não deverá esquecer a maneira correcta de poder desfrutar da oportunidade de Gaitán tentar mais um chapéu ou Salvio rematar sem deixar cair a bola: a afamada pressão alta, especialidade apurada por Mourinho e imitada por JJ neste Benfica. A meio da segunda parte, distraí-me durante alguns segundos, julgando que o Estugarda iria partir para o ataque, e ia perdendo o segundo golo do Benfica depois de um roubo de bola no meio-campo e de uma finta demasiado perfeita de Jara ao defesa esquerdo alemão. Há, claro, hesitações. Dúvidas. Erros. Mas a suspensão da descrença em relação à falibilidade humana apenas se aceita em alguns jogos de equipas de outro mundo. O Benfica é deste mundo, porque não pode ter melhores jogadores do que tem. Mas sim, o futebol "lindo" do Benfica é resultado do aproveitamento máximo dos jogadores que podem actuar, o que justifica em parte as debilidades da primeira parte da época. Os substitutos dos melhores da época passada demoraram seis meses a compreender as ideias de Jesus, e neste momento são o motor da equipa, levantando deste modo o véu sobre a funcionamento do sistema de jogo escolhido: ele depende do equilíbrio precário entre ataque e defesa que os dois médios centro/alas podem trazer. Gaitán aprendeu a defender e, supreendentemente, corre mais rápido com bola do que Di Maria (ou pelo menos com maior controlo) e Salvio percebeu que pode arriscar a jogada um para um no ataque sem que a equipa perca defensivamente - e neste aspecto, Javi Garcia continua a ser essencial (e Airton só não é porque tem o lugar tapado). 

 

Voltando à questão da humilhação, gostei de ver o Benfica jogar apenas com dez, durante mais de meia parte, contra o Sporting. Depois do Porto, parece-me que se poderá manter a coerência arbitral nos jogos contra os grandes que se seguem: golo nos primeiros quarenta e cinco minutos, eficácia defensiva e desnorte quase patético da equipa com mais um jogador na etapa complementar. Paulo Sérgio deveria ter visto o vídeo do Porto-Benfica da Taça; e só por este deslize merece o despedimento (como se o resto não fosse mais do que suficiente).

 

*É claro que eu bem gostaria de gostar de ver o Sporting no fundo do poço. A maioria dos sportinguistas que eu conheço mereceria este desprezo; é a maioria que se diverte mais com as escassas derrotas do Benfica (é verdade, empates não temos há quase um ano) do que com as parcas vitórias do Sporting. Mas não gosto, não consigo. O desvario total que tomou conta do clube de Alvalade não me traz felicidade, nem conforto (bom, talvez algum gozo culpado). Arribem depressa, que isto a dois tem menos piada.

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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

Perante este texto do meu camarada Luís Fazenda, onde é feito um desafio para a apresentação de moções à próxima convenção do Bloco, com destinatário evidente e num apelo a uma clarificação interna, escrevi uma resposta. Como o desafio interno foi feito no esquerda.net, enviei o meu texto para o mesmo lugar. A resposta veio do secretariado do partido, que me recordou que o portal não costuma ser usado para polémicas internas e decidiu publicar o meu texto no site interno do Bloco, como contributo para a Convenção, publicação que agradeci, esperando que futuros desafios internos sejam publicados no mesmo lugar. Tencionava publicar o meu texto apenas no esquerda.net. Como assim não aconteceu, ele também é publicado aqui. E esta explicação serve apenas para o justificar. Voltando a repetir o que já escrevi no Arrastão: este texto apenas me vincula a mim próprio e a mais nenhum dos membros do Arrastão, alguns deles militantes e dirigentes do Bloco e vários com posições diferentes das minhas na matéria em debate. Feito o esclarecimento, segue o texto em causa:

 

"Escreveu o camarada Luís Fazenda, a propósito das críticas feitas à apresentação de uma moção de censura: 'Agora que se iniciou o processo da convenção nacional talvez não fosse desejar muito esperar notícia das moções que se apresentem, da qualidade do argumentário, da representatividade de que dispõem. Quem quer debate geral no partido recolhe 20 assinaturas e vem a jogo. É óptima a discussão aberta entre opiniões contrárias de bloquistas, mesmo quando tem lugar na tv ou nos jornais. No entanto, quando os instalados "comentadores" falam do Bloco de Esquerda como um todo, e até alegam crises internas (diabo!) convém perceber, é o mínimo, o peso das coisas e das pessoas. Os media não dão cartão de eleitor no Bloco, como se viu bem pelo "caso" Joana Amaral Dias. Felizmente há luar, mesmo quando passam cometas. Quem disse que o Bloco não é um partido diferente?'

 

Apenas li críticas públicas à moção de censura de pessoas ligadas às listas minoritárias com presença na Mesa Nacional, de Rui Tavares e de mim próprio. Como os primeiros já se mediram em votos na última convenção e o eurodeputado não é militante do Bloco de Esquerda, fico com a estranha sensação de ser um dos destinatários deste desafio. E sobre esse desafio tenho apenas quatro coisas a dizer:

 

1 – Que fico satisfeito por o camarada Luís Fazenda ter finalmente dado a cara pela moção de censura. Sendo membro da Comissão Política e deputado não pude deixar de sentir a sua ausência pública neste importante combate que o partido tem pela frente. Pena que se tenha ficado pelo Esquerda. Mas estou seguro que no próximo mês a direcção do Bloco lhe dará a mesma tarefa que deu aos camaradas Francisco Louçã, Miguel Portas, Ana Drago, João Semedo e José Manuel Pureza. Porque nos momentos difíceis o empenho de todos os dirigentes é fundamental.

 

2 – Que esta moção teve uma excelente oportunidade de ir a votos: a reunião da última Mesa Nacional, órgão responsável pela direcção política do partido entre convenções. Não deixa de ser extraordinário que depois do atropelo às regras democráticas do partido, que levaram a Comissão Política a decidir um acto desta importâcia táctica e estratégica três dias depois da reunião de uma Mesa, sem que sequer o tema fosse abordado na mesma, se venham fazer desafios à intervenção democrática dos militantes nesta matéria. Digamos que o apelo vem tarde demais e devia começar por ser feito à própria comissão política. Como delegado à última convenção, elegi apenas a Mesa Nacional. Era ela, e não a próxima convenção, que devia ter sido chamada a decidir. Não o foi. Apelos para recolher vinte assinaturas para discutir uma decisão que já foi tomada são pelo menos bizarros. O camarada Luís Fazenda quer medir a força da sua posição depois de uma decisão ser tomada mas não achou necessário medir argumentos antes de tomar a decisão. Por mim, prefiro a clareza da democracia interna a lutas de facções. E se houve quem tomasse posições públicas talvez seja porque a direcção achou que o debate interno era dispensável

 

3 – Que não me recordo de, na última convenção do partido, ter aprovado nenhum documento que apontasse para a apresentação de uma moção de censura desta natureza. E por isso não consigo perceber quando terá ido esta opção a votos. A não ser, claro, que esta moção de censura tenha como objectivo uma clarificação interna e que este estranho parágrafo do camarada Luís Fazenda, que substitui a força do argumento pelo argumento da força, apenas queira clarificar essa vontade de separação de águas. Só assim se compreende que o camarada veja a critica a este gesto político como razão bastante para a apresentação de uma moção contra a da lista da direcção. E se é esse o objectivo, devolvo o desafio: que o camarada Luís Fazenda avance com teses próprias, explicitando essa clarificação política interna que aparentemente deseja.

 

4 – Não fazia ideia que a camarada Joana Amaral Dias (que até apoiou publicamente esta decisão do partido) tinha um “peso” diferente de qualquer outro militante. Se se trata de um “cometa”, será tanto como o camarada Luís Fazenda ou qualquer membro do partido. O Bloco não tem donos nem notáveis e as críticas de qualquer camarada, acertadas ou não, valem exactamente o mesmo. A referência à camarada Joana Amaral Dias, completamente a despropósito do tema, e sabendo-se que nunca a direcção assumiu qualquer tipo de problema com esta militante, é no mínimo deselegante. De resto, como nenhum órgão eleito em convenção foi auscultado nesta matéria, o peso de cada posição sobre o assunto é uma incógnita e o camarada Luís Fazenda limita-se a partir do princípio que a posição que defende é maioritária. É sempre um mau princípio num partido democrático."


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

A crise económica provocou um movimento de revolta nos países árabes. Não se tratou, como alguns românticos gostam de pensar, de uma revolta espontânea. As revoltas que vencem nunca são. No Egito, teve uma direção política que a preparava há pelo menos três anos. No caso, jovens educados e apostados num movimento assumidamente não-violento. Contaram com o descontentamento que resultou da situação económica? Sim. Com o facto de, vivendo numa ditadura, não haver outra forma de protesto? Claro. De, com um desemprego galopante e a ausência de Estado Social, os egípcios não terem nada a perder? Provavelmente. Mas contaram, antes de mais, com a única coisa que constrói movimentos em tempos de crise: a esperança, essa palavra maldita para os cínicos. Não tinham um programa, mas tinham um objetivo possível: o fim da ditadura. E um inimigo claro: Mubarak. A revolta só constrói alguma coisa quando sabe contra quem e para onde vai. Os egípcios não estavam desesperados. Eles acreditaram que podia ser diferente.

 

E essa, entre tantas outras, é a diferença entre o que se passa nos países árabes e na Europa. Somos mais ricos e temos mais a perder, é verdade. Mas é mais do que isso: estamos desesperados. Não sabemos quem é o inimigo ou então ele é demasiado etéreo para cair. E não acreditamos que pode ser diferente. A revolta que se sente nas conversas públicas e privadas não se vai transformar num movimento coletivo porque lhe falta um horizonte e um adversário com rosto. Quem julga que este será um momento cheio de enormes lutas sociais e de oportunidades para a esquerda se afirmar engana-se. Sim, haverá uma minoria mais politizada que irá à luta. Mas para a grande maioria o desespero traduz-se em medo. Medo da crise, de perder o emprego, das taxas de juro, da dívida, da instabilidade, de tudo. Não é por acaso que o discurso do poder sobre a crise aposta no medo. Porque resulta.

 

A radicalização, nestes períodos, não é apenas ineficaz. Ela alimenta o medo que devia combater. Mas, acima de tudo, ela isola os que querem dirigir uma oposição que não aposte apenas na alternância. É o populismo autoritário de quem promete 'pôr o país na ordem' que conquista apoios nestes momentos. É a situação e não a oposição que ganha nestas alturas.

Nada a fazer? Pelo contrário. Há uma forma de vencer o desespero: dar esperança. E para isso é preciso que as pessoas acreditem que há alternativas e que elas podem vencer. Ninguém se arrisca a troco de coisa nenhuma. Duas condições para que isso seja possível: credibilidade no que se propõe e uma ação política que se dirija a uma base social maioritária. Programa exequível e alianças alargadas. Exatamente o oposto da radicalização.

 

Não, não estou a falar de flores. Estou a falar do Bloco de Esquerda, do PCP e dos muitos eleitores e militantes do PS que ainda acreditam que o poder pode ser mais do que gestor da desgraça. Estou a falar dos sindicatos, dos movimentos sociais, de quem tem espaço na comunicação social. Na radicalização podemos sentir-nos mais fortes, mas é uma ilusão. Porque ninguém acredita que podemos vencer, fica a faltar a esperança. E, sem ela, o medo acaba sempre por levar a melhor.

 

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de fevereiro de 2011


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

 

O ministro dos Negócios Estrangeiros avisou que a situação nos países muçulmanos é explosiva. Demos por isso. Mais explosiva do que a quando da queda do Muro de Berlim. Talvez. Que pode vir aí o fundamentalismo que apoia terroristas. Seria talvez mais sábio saudar o facto de, ao contrário de todas as previsões dos cínicos, as revoltas terem sido dirigidas por democratas laicos. Se dependesse da forma como a Europa lidou com a região, nada teria mudado.

 

Mas Luís Amado fez mais do que dizer o obvio: explicou que aquelas ditaduras fizeram muito pela segurança europeia. Agradece-se a franqueza, mas, quando vemos um banho de sangue num país onde um louco varrido governa há quarenta anos ao sabor dos seus caprichos delirantes, só me ocorre uma palavra para qualificar estas declarações: nojo.

 

Não está sozinho, o senhor. Na televisão, o secretario de Estado do Turismo não cabe em si de contente. A instabilidade, as mortes e os motins no Egito e na Tunísia são excelentes para o turismo português. De novo, sinto asco.

 

Tenho a certeza que a muitos portugueses acham tudo isto normal. O egoísmo é instintivo e as lágrimas pelos outros ficam para filmes num serão bem passado e campanhas de solidariedade com data marcada. Sou dos que acha que a política não se pode limitar à pura gestão de interesses, mesmo que os interesses sejam os nossos. Que ela tem uma dimensão moral. E que os países e os povos também se distinguem pela elevação moral do seu comportamento.

 

Não espero nem quero que Portugal lamente os turistas que decidem mudar de destino e compreendo que em tempos de crise os que vivem do setor fiquem satisfeitos com o facto. Não espero nem quero que a Europa prefira a insegurança destes momentos à segurança do que é previsível. Mas espero que os dirigentes políticos não se esqueçam da dimensão moral da sua função. E que saibam que a desgraça de um povo não se festeja e a liberdade de um povo não se lamenta. Que não há camas ocupadas em hotéis que paguem as vidas que se perderam nem segurança que valha décadas de loucura de meia dúzia de déspotas. Que não há discurso cínico aceitável quando a força aérea de Kadhafi bombardeia manifestantes.

 

Uma funerária enterra os mortos mas não festeja uma catástrofe. Um médico trata de um doente mas não lamenta a saúde. Um militar vive da guerra mas deve esperar a paz. E se até os que tratam dos seus negócios têm a obrigação de não esquecer a sua primeira condição - a de humanos -, esperava-se que políticos não a esquecessem. A imagem que, nestas declarações, estes governantes dão do país é a de uma Nação de abutres e de gente sem espingarda dorsal. E isso envergonha-me.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011
por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Andrea Peniche

 

A formiga no carreiro
vinha em sentido contrário
caiu ao Tejo
ao pé de um septuagenário

Lerpou trepou às tábuas
que flutuavam nas águas
e do cimo de uma delas
virou-se para o formigueiro
mudem de rumo
já lá vem outro carreiro

A formiga no carreiro
vinha em sentido diferente
caiu à rua
no meio de toda a gente

buliu abriu as gâmbeas
para trepar às varandas
e do cimo de uma delas
virou-se para o formigueiro
mudem de rumo
já lá vem outro carreiro

A formiga no carreiro
andava à roda da vida
caiu em cima
de uma espinhela caída

furou furou à brava
numa cova que ali estava
e do cimo de uma delas
virou-se para o formigueiro
mudem de rumo
já lá vem outro carreiro


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

Uma a uma, vão caíndo as ditaduras árabes às mãos dos seus povos. Os ditadores ainda tentam lançar um último aviso: vêm aí teocracias. A ver se pega nos seus aliados - antigos, como os de Ben Ali ou Mubarak, ou mais recentes, como os de Kadhafi, que depois de anos com direito a estatuto de inimigo número um do Ocidente, passou a ser tolerado quando passou a estar diponível para bons negócios. E, apesar de estarmos perante revoltas laicas, muitos europeus e americanos compram facilmente o susto. Percebe-se: habituados a aceitar a cumplicidade com déspotas como um mal menor, um guião alternativo não encaixa na propaganda.

 

Esta é a tese específica para os países muçulmanos: ou a ditadura laica ou o islamismo terrorista. Há outra, mais geral, que tem muitas décadas: a democracia e a liberdade não têm futuro fora da nossa civilização. O problema é que, em democracia, os governos estão sujeitos à vontade popular. E a vontade popular dos outros pode não coincidir com os nossos interesses. É bem mais seguro dar uma ajuda a ditadores. Ficam dependentes de um apoio externo que compense a sua falta de legitimidade interna. Foi, aliás, essa a razão que levou as antigas potências coloniais a entregar o poder a minorias religiosas em países árabes: a xiitas na Síria sunita, a sunitas no Iraque xiita, a cristãos no Líbano muçulmano. Minorias que recebem o poder precisam de apoio externo para o manter.

 

A ideia de que a democracia e a liberdade não podem vingar fora da Europa e dos EUA tem barbas. Ela foi largamente desenvolvida sobre a África do Sul. Vinha aí um banho de sangue. Foi desmentida. Foi aplicada à América Latina. Generais como ditadores era coisa que sempre iria acontecer. Mas valia que fossem "dos nossos". Hoje, a maioria dos países da América do Sul e da América Central são democracias em construção. E continua a ser defendida quando se fala da China. Se aquilo vira uma democracia vai rebentar por todos os lados.

 

"Se se podem deitar abaixo ditaduras na Europa - primeiros os fascistas, depois os soviéticos - por que não se podem derrubar ditadores no grande mundo árabe muçulmano?", pergunta Robert Fisk, que sabe do que fala. Não sabemos se as coisas correrão bem. Mas é claro que podem.

 

Há dois mitos que estas revoltas voltam a desmentir: que há povos que têm uma propensão natural para viver debaixo do jugo do autoritarismo e que as democracias ocidentais, por o serem, querem ver esse seu modelo de organização política e social espalhado pelo Mundo. Nem a liberdade é um valor intrinsecamente ocidental nem os regimes democráticos põem o seu amor à liberdade à frente dos seus interesses políticos e económicos. As revoltas no Mundo árabe significam, antes de mais, uma derrota para os ditadores e os seus aliados externos. Mas são, também, uma derrota para os cínicos. Provam que o cinismo não é sinal de inteligência. É sinal de preguiça intelectual.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

 

No meio do delírio alucinado que parece ter sido o discurso de Khadafi, há razões para acreditarmos no poder do non sense como arma de desconstrução de um discurso. Khadafi acha que não poderá empurrado da cadeira do poder simplesmente porque não é presidente; se não é presidente, não será deposto. Mais, arriscando um salto lógico digno de Wittgenstein, Khadafi assume o papel de líder da revolução que se prepara para o apear do lugar onde está. Resumindo: ele é simultaneamente vítima e carrasco, é o revolucionário bombardeado nas ruas por aviões e é o facínora demente que dá ordem para disparar sobre a multidão. O "guia da revolução" que não tem posto oficial para se demitir lá acaba por admitir que uns jovens, sob o efeito de drogas, provocaram algum sobressalto, mas reafirma-se como lança contra o poder do Ocidente. Psicopatia? Esquizofrenia? Ou um calculismo patético e perigoso? Khadafi pode viver num mundo muito seu, mas sabe que a contestação está sobretudo - e para já - a acontecer nos países cujos líderes foram beneficiando da complacência ou do apoio claro do Ocidente, a teoria que todos conhecemos de que mais vale um ditador amigo de que um democrata inimigo. A massa revoltosa na Tunísia e no Egipto clamava contra regimes opressivos, é certo, mas também contra a presença sombria dos interesses americanos e europeus nestes países. E assim também sucede no Bahrein, no Iémen e em Marrocos. O grande erro de Khadafi terá sido a reentrada, ensaiada na última década, na normalidade cínica da diplomacia internacional, as recepções de luxo em países ocidentais, a abertura do país ao investimento estrangeiro. O recuo tentado, apesar de parecer enfermo de um ridículo desarmante, será o mais lúcido passo que Khadafi poderá dar. E sabemos o que isto pode significar: se a resistência não desistir, a carnificina. Sob a capa do mais (aparentemente) legítimo dos terrores: o revolucionário.


por Sérgio Lavos
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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011
por Pedro Vieira

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Pedro Vieira

e o episódio já pode ser visto no sítio do costume.


por Pedro Vieira
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por Sérgio Lavos

Rogério Casanova regressa em grande. E isso é assinalável (mais do que a décima e qualquer coisa vitória seguida do Benfica).

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por Sérgio Lavos
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por Andrea Peniche

Artigo de Robert Fisk, roubado ao esquerda.net

 

Se se podem deitar abaixo ditaduras na Europa - primeiros os fascistas, depois os soviéticos - por que não se podem derrubar ditadores no grande mundo árabe muçulmano? E - só por um instante, pelo menos - deixem a religião fora da discussão.

 

Mubarak alegou que os islamistas estariam por trás da Revolução Egípcia. Ben Ali disse o mesmo, na Tunísia. O rei Abdullah da Jordânia vê uma sinistra mão escura - da al-Qa'ida, da Irmandade Muçulmana, sempre mão islâmica - por trás da insurreição civil em todo o mundo árabe. Ontem, as autoridades do Bahrain descobriram a amaldiçoada mão do Hezbollah, ali, por trás do levantamento xiita. Onde se lê Hezbollah, leia-se Irão.

Por que, diabos, tantos intérpretes cultos, embora impressionantemente antidemocráticos, insistem em interpretar tão mal as revoltas árabes? Confrontados por uma série de explosões seculares - o caso do Bahrain não cabe perfeitamente nessa classificação - todos culpam os islâmicos radicais. O Xá cometeu o mesmo erro, só que ao contrário: confrontado com um óbvio levantamento islâmico, pôs a culpa nos comunistas.

 

Os infantilóides Obama e Clinton acharam explicação ainda mais esdrúxula. Depois de muito terem apoiado as ditaduras "estáveis" do Médio Oriente - quando tinham a obrigação de defender as forças democráticas -, resolveram apoiar os clamores por democracia no mundo árabe, justamente quando os árabes já estão tão absolutamente desencantados com a hipocrisia dos ocidentais, que não querem os EUA ao lado deles. "Os EUA interferem no nosso país há 30 anos, apoiando o governo de Mubarak, armando os soldados de Mubarak" - disse-me um estudante egípcio na praça Tahrir, na semana passada. "Agora, agradeceríamos muito se parassem de interferir, mesmo que a nosso favor." No final da semana, ouvi vozes idênticas no Bahrain. "Estamos a ser assassinados por armas dos EUA, disparadas por soldados bahrainis treinados nos EUA, em tanques fabricados nos EUA" - disse-me um médico na sexta feira. "E Obama, agora, quer aparecer como nosso aliado?"

 

Continua aqui.


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

 

Seria normal que uma figura pública que tem estado na berlinda por suspeitas de ter usado os seus contatos no Estado em benefício próprio tivesse todas as suas cautelas no seu comportamento público. Sobretudo quando usa serviços do Estado. Que, culpado ou inocente, evitasse confirmar a ideia de que não respeita as regras.

 

A denúncia de utentes de um centro de saúde, confirmada pela direcção daquele serviço, de que Armando Vara passou à frente de toda a gente porque tinha um avião para apanhar não tem grande importância. O que não falta neste País é gente conhecida ou anónima que, tendo algum contato ou poder, não perde a oportunidade de os usar para saltar por cima dos direitos dos outros. Espera-se que alguém que sabe que o pode fazer com especial facilidade tenha cuidados redobrados.

 

Mas irrelevante que seja, não deixa de ter a sua força simbólica. Armando Vara está a ser julgado. Julgado por abusar do seu poder e da sua influência de forma criminosa. Que, nas barbas de tantos que o podiam reconhecer, tenha confirmado a imagem que dele poderiam ter, apenas demonstra que alguns cidadãos sentem que um tratamento de favor lhes é sempre devido. Em graus bem diferentes, o que Vara fez naquele centro de saúde resulta do mesmo sentimento que poderá ter levado a envolver-se no caso Face Oculta: a ideia de que o que é de todos nós é um pouco mais dele do que nosso. E que com o poder vem um tratamento de privilégio.

 

Diga-se, em abono da verdade, que a culpa é coletiva. Sabe quem tem o mínimo de notoriedade que muitas vezes não precisa de procurar tirar benefícios da sua "fama" ou poder para os receber. Eles são-lhe oferecidos a cada minuto e, para ser tratado como os outros, tem de estar especialmente atento para recusar favores que não pediu. A cultura da esigualdade raramente é apenas de quem recebe o privilégio. Mas, neste caso, Vara não de limitou a receber um tratamento que não lhe era devido. Não se limitou a procurar esse tratamento. Exigiu-o. E parece ser um padrão.

 

Publicado no Expresso Online

 


por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins
Perante a destruição em volta, a tenacidade e constância emocional do treinador do Sporting merecem ser devidamente apreciadas. Mas sejamos francos, nenhum sortido de desastres obstaria tão completamente ao desenvolvimento de uns rudimentos do jogo (até o Octávio Machado os tinha, rudimentares é certo, mas tinha-os). Ideias que porventura revolucionariam a concepção de vida de Paulo Sérgio seriam, por exemplo, a opção por um núcleo de jogadores que pelas suas qualidades ou maior filiação num sistema de jogo pudessem aparecer como tendencialmente titulares, ou, ainda, um sistema de jogo que não dependesse tão dramaticamente da capacidade de Postiga interceptar os passes que os defesas fazem para a linha de fundo.

por Bruno Sena Martins
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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011
por Pedro Vieira

 

 

rabiscos vieira

 


por Pedro Vieira
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Domingo, 20 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

Mais de 200 mortos depois, os protestos chegam a Trípoli. A frieza dos números esconde algo que deveria servir de exemplo a quem vê de longe as revoltas que eclodiram nos países islâmicos, o heroísmo de quem luta sem armas contra um regime totalitário. O mais difícil ainda está para vir, e não falo do período pós revolucionário nos países libertos, mas sim das ditaduras mais sanguinárias, as que ainda faltam cair. Khadafi, o antigo revolucionário transvestido de líder tribal, terrorista perdoado pelo Ocidente e apaparicado por economias mais interessadas no petróleo líbio do que em algo tão vago como direitos humanos ou democracia, não hesitará em reprimir a vaga que agora começa. Poderá acabar como em Tianamen, e nessa altura o nosso homem em Trípoli, o embaixador Rui Lopes Aleixo, já deverá ter visto qualquer coisa. Será este o momento certo para os nossos empresários, oportunamente amparados pelo Governo em funções, poderem fechar negócios e usufruir de mais algum tempo de bonança. Khadafi, o amigo e mentor (na especialidade do bunga-bunga) de Berlusconi (o novo santinho no altar de helenafmatos - les beaux esprits se rencontrent?), o aliado de Sócrates, garantirá a segurança do dinheiro de sangue que chegar a Portugal. Os amigos são para as ocasiões. Mas até onde poderá ir o heroísmo dos homens e mulheres que, nas ruas dos países islâmicos, se dispõem a sacrificar em nome da liberdade?


por Sérgio Lavos
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por Miguel Cardina

Merecem reflexão algumas considerações surgidas após o anúncio da apresentação da moção de censura do Bloco de Esquerda. De facto, podemos levantar dúvidas sobre a oportunidade táctica e a forma como decorreu o processo interno e externo de apresentação da iniciativa. Podemos até achar – como há dias o Público afirmava em editorial e como argumentou ontem Elísio Estanque na mesma publicação – que o BE navega num limbo indeciso entre a vontade de ser um partido de poder e a tentação de ser um partido de protesto (se bem que neste caso me pareça de definir, antes de mais, o que entendemos por «poder» e por «protesto»). O que já se mostra incompreensível é a desilusão de alguns socialistas com a iniciativa bloquista, por um lado, e a catalogação da moção como «ridícula» por ter como destino provável a rejeição e a consequente manutenção de Sócrates no governo, por outro. Vamos então por partes.

 

A desilusão dos socialistas resulta, a meu ver, de uma caracterização equivocada daquilo que é o PS actualmente. Não penso que se possa caracterizá-lo tout court como social-democrata, logo, como o parceiro certo e inteiro numa coligação com uma esquerda que frequentemente se cataloga como «radical». Muitos sectores socialistas são-no, certamente, mas basta olhar para a geometria das preferências de diálogo parlamentar para se perceber que o PS há muito se afastou da matriz histórica da social-democracia. Compreendo a frustração: para algumas pessoas, o BE poderia ser uma hipótese de pôr o PS nos eixos da social-democracia. Mas esse é um combate que compete travar aos militantes socialistas nele interessados. Aqueles que esperavam do Bloco de Esquerda uma postura que facilitasse um «entendimento útil» com o PS deviam, antes de mais, começar por perguntar o que fez de concreto este partido para que pudesse haver convergências à esquerda. E já que se quer falar de entendimentos seria fundamental pensá-los com base em linhas políticas de fundo: sobre o estado social, sobre as políticas de emprego, sobre o combate à pobreza e às desigualdades, sobre a Europa, sobre uma ética na gestão dos bens públicos. O poder será resultado da capacidade de fazer compromissos em torno de debates como estes ou então não valerá a pena.

 

Em segundo lugar, as declarações do PSD já vieram mostrar que esta moção de censura será chumbada no hemiciclo. Tal não me parece justificar, porém, alguma adjectivação que sobre ela caiu de imediato. A política é mais do que a contabilidade das cabeças parlamentares e uma moção de censura pode perfeitamente ser a oportunidade de recusa de um caminho – recusa essa que ganha acrescida legitimidade se fizermos o exercício de comparar as práticas deste governo com o programa eleitoral com que se fez eleger – e a afirmação de um outro rumo que se considere mais sintonizado com as reais preocupações do país. Aliás, se uma moção apenas fosse válida caso tivesse condições para ser aprovada seríamos obrigados a considerar ridículas todas as moções apresentadas a executivos maioritários. E muitas das mais de vinte moções de censura já apresentadas desde 1979 foram-no nessa condição. O próprio José Sócrates foi alvo de quatro moções de censura na altura em que tinha maioria absoluta.

 

A política faz-se da afirmação de escolhas e o BE decidiu fazê-las agora. Podemos questionar o timing, mas quem se considera de esquerda facilmente concordará que são muitas as razões que dão sentido ao gesto. Ontem o PCP reforçou isso mesmo, anunciando o voto favorável à moção. A direita preferirá manter Sócrates no poder esperando que ele caia de podre. Incapaz de se desembaraçar do seu líder-eucalipto, o PS permanecerá agarrado aos destroços, fortemente inclinado ao centro e corroído por anos de poder. E o problema aqui não é o “poder”, claro está. É a urgência de entendê-lo como capaz de forjar políticas mais justas, mais decentes e, já agora, desobrigadas das promiscuidades que entrelaçam o campo político e o campo económico. Não é disso que falamos quando falamos de esquerda?

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por Miguel Cardina
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Sábado, 19 de Fevereiro de 2011
por Pedro Sales

 

Ainda agora saímos de 2010, mas já é certo que o mais recente álbum de PJ Harvey, Let England Shake, será das melhores coisinhas que poderemos ouvir neste ano que dizem ser do coelho. Cinco das novas canções podem ser encontradas, em gloriosa alta definição, nesta gravação que o canal Arte efectuou do concerto de apresentação do disco da boa da Poly Jean.

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por Pedro Sales
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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

 

Eles voltaram.


por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins

No momento em que escrevo este epitáfio às ambições europeias de Jorge Jesus estou em posição de referir que à vitória do porto sobre o Braga se somou outra ante o Sevilha, no entanto, por uma questão de modéstia emprestada não vou tomar partido dessa posição. Até porque, se o fizesse, estaria a enveredar por uma visão do mundo que faz chacota de Jorge Jesus sempre que ele fala da nota artística da sua equipa em favor de uma outra, a de Villas-Boas, que deixa isso das notas para o Rui Santos. Ademais, uma equipa que tem em Cardozo a sua referência maior devia ter o pudor de tecer considerações estéticas acerca da realidade contemporânea; sejamos francos, ao pé de Cardozo o Jardel parece um cisne, o Peter Crouch faz lembrar o Nureyev.

 

Reparem, seria incapaz de promover uma petição para banir o Cardozo do desporto em nome da elegância do futebol nacional, até porque é o melhor jogador mais deselegante de sempre, no entanto, a bem do Ranking de Portugal na Uefa, seria capaz de sugerir a Jorge Jesus para deixar o êxtase artístico para os críticos do Y e que perdesse um tempinho para estudar os adversários europeus. É que enquanto o Villas-Boas passa a noites a investigar o lanche provável de Luís Fabiano no dia do jogo, Jesus, como se percebeu, andou a semana toda a ver o jogo de Guimarães e consta que ficou muito surpreendido quando ontem não ouviu a música da Champions.

 

Aliás, não me custa crer que o inicio de época que amavelmente concedeu o campeonato ao Porto se tenha devido ao tempo que Jesus perdeu a fazer uploads de vídeos no youtube com os jogos do campeonato passado (trilha sonora: eminem; título: o mestre da táctica). O mestre da táctica, sublime escultor do seu próprio falo a despeito daquilo com a equipa israelita, só teria a mirífica possibilidades de ganhar a Liga Europa se nos próximos 4 jogos apanhar as 4 equipas portuguesas, as únicas com que está vagamente familiarizado. Mas se combinarmos a probabilidade de o Porto ganhar ao Benfica, a probabilidade do Estugarda Eliminar o Benfica, e a probabilidade do Benfica apanhar uma equipa estrangeira nos quartos de final, faz todo o sentido que Jesus nos lembre à saciedade que é o melhor coreógrafo nacional a trabalhar sem recibos verdes.


por Bruno Sena Martins
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por Pedro Vieira

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

 

 

 

 

O desemprego atingiu de novo números históricos. Nada que espante quem foi avisando que o caminho que Portugal e a Europa - sim, pela centésima vez, esta crise e as grandes opções que estão a ser tomadas não são apenas nacionais - estão a seguir só podia acabar nisto. A austeridade como programa político pode salvar muita gente, só não salva quem devia estar na prioridade de qualquer governo decente.

 

Olhamos para o desemprego como um problema social. É, e essa é a sua dimensão mais relevante. Ele tem consequências profundas na coesão nacional e na estabilidade, que não pode ser apenas política. Ele cria uma espiral de pobreza que o torna numa bomba relógio para qualquer Nação. Mas o desemprego, pelas suas consequências profundas, desdobra-se em muitos problemas. É um problema para as finanças públicas, para a economia e para a democracia.

 

É um problema para as finanças públicas. Menos gente a trabalhar é menos gente a pagar impostos. E é mais gente a receber subsídios do Estado. O aumento do desemprego obriga ao aumento da carga fiscal, com repercussões económicas, e uma redução dos apoios sociais, com repercussões sociais. Já o escrevi várias vezes: a austeridade faz mal às finanças do Estado. Só não vê quem não quer ou quem aposta na degradação das contas públicas para assim impor o seu Estado mínimo.

 

É um problema para a economia. Mais desempregados é menos dinheiro a circular. Reduz a procura interna. E no tempo em que, apesar da aposta que deveriamos estar a fazer na prdução de bens transacionáveis para o mercado externo, as exportações dependem dos limites da crise dos outros, a procura interna continua a ser fundamental. Sobretudo para as pequenas e médias empresas, as que são responsáveis pelo maior número de empregos criados em Portugal. E o desemprego criará um problema às instituições de crédito, com um aumento seguro das taxas de incumprimento. O desemprego ressulta da crise e cria mais crise. E mais crise é mais desemprego. É um ciclo infernal.

 

É um problema para a democracia. A democracia não se resume ao gesto do voto. Ela depende do mínimo de coesão social. As pessoas só participam na vida em comunidade se sentirem que pertencem a essa comunidade. Ora, o trabalho continua a ser um dos mais poderosos instrumentos de integração social. As pessoas, depois de dizerem como se chamam, dizem o que fazem na vida. E por o que fazem na vida entendemos a sua profissão. É através do seu trabalho que definem o seu lugar na sociedade. Mal, talvez. Mas é assim que as coisas são. O desemprego não se limita a excluir os cidadãos de direitos e deveres. Exclui-as do lugar onde vivem. E quem se sente excluido deixa de acreditar nos que os rodeiam e, ainda mais, nos que são escolhidos para dirigir o País. O desemprego é um dos mais poderosos instrumentos contra a democracia.

 

Lutar pelo pleno emprego - uma sociedade onde apenas existe o desemprego friccional, voluntário, sazonal ou casual - tem de continuar a ser a principal prioridade de qualquer sociedade democrática. É uma questão de direitos humanos, sim. Mas é mais do que isso: é uma questão de sobreviência. Um governo que falha nas políticas de emprego é um governo que falha em tudo. Não é mais um indicador. É o indicador que interessa.


por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011
por Andrea Peniche


por Andrea Peniche
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por Miguel Cardina

Nós temos um primeiro-ministro que se licencia num domingo de Agosto; eles têm um ministro da Defesa que recorre ao plágio académico.


por Miguel Cardina
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por Andrea Peniche

 

A 17 de Fevereiro de 1600, Giordano Bruno ardia nas fogueiras da Inquisição. A sua teoria sobre o universo infinito e a multiplicidade de sistemas siderais, entre outras coisas, foram suficientes para que adquirisse o estatuto de herege. Numa época em que a Igreja tinha uma doutrina oficial sobre Astronomia, a defesa intransigente das suas ideias conduziram-no à fogueira. Reza a história que, por não ter abjurado, a sua língua foi cravada com pregos e uma tábua para que parasse de blasfemar.

 

Quatro séculos depois, o «crime» de blasfémia ainda persiste na sociedade portuguesa, mesmo que as fogueiras, tábuas e pregos tenham sido banidos.

 

Diz hoje a imprensa que a Rede Ex-Aequo viu recusada, pelo Ministério da Educação, a permissão para distribuir nas escolas materiais que promovem a inclusão e a não-discriminação de jovens homossexuais. A razão da recusa parece ser o facto desta campanha ser considerada ideológica. 

 

Desde 1973* que a homossexualidade deixou de ser considerada uma patologia. Até lá, muitos homens e mulheres foram acusados de estar doentes e foi-lhes imposta uma terapia. Há trinta e cinco anos que, neste país, cabe ao Estado promover a igualdade e desde 2004 que não é permitido discriminar em função da orientação sexual. A carga ideológica da campanha radica pois no cumprimento dos preceitos constitucionais.

 

Ideológica é a promoção da heterossexualidade como única forma sadia de duas pessoas se amarem; ideológico é continuar a considerar a homossexualidade um desvio; ideológico é não reconhecer a natureza da discriminação.

À semelhança da Igreja do tempo de Bruno, parece que também o Ministério da Educação tem uma doutrina oficial sobre modos lícitos de amar. Aqui, ao que parece, a homossexualidade deve continuar a ser uma heresia e dizer que há muitas formas de amar uma blasfémia.

 

* No post inicial tinha colocado 1987.


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

Ouvi, na semana passada, em Bruxelas, Richard Wilkinson, co-autor de "O Espírito da Igualdade", um livro que deu muito que falar no debate eleitoral das últimas eleições britânicas. Já aqui escrevi sobre o assunto: A ideia de que basta continuar a garantir o enriquecimento dos povos para conseguir o melhor para os cidadãos não é confirmada nos países mais desenvolvidos. Nas sociedades de abundância, é a distribuição equitativa da riqueza que garante o bem comum. Não apenas dos pobres, mas de todos. Aconselho a ler o livro.

 

A dada altura, Wilkinson mostrou à assistência um quadro sobre mobilidade social. Recolheu-se a situação social, económica e cultural de adultos. E, trinta anos depois, foi-se verificar como estavam os seus filhos. As estatísticas desmentem uma verdade feita: que os Estados Unidos são um país onde há mais mobilidade social. Pelo contrário, estão num dos piores lugares, entre os países desenvolvidos estudados. Em primeiro, para não variar, estão os escandinavos. Wilkinson lançou a provocação: "o sonho americano é na Dinamarca".

 

Errado. O "sonho americano" nada tem a ver com a mobibilidade social no conjunto da população ou com a igualdade de condições que tanto espantou Tocqueville, vindo de uma Europa ainda marcada pelo Antigo Regime. Tem a ver com a possibilidade de alguém, isoladamente, passar de pobre a miolinário. Ou seja, tem a ver com uma possibilidade num milhão, não com a justiça geral de não estarmos quase todos condenados pela condição do nosso nascimento.

 

A um inquérito sobre qual o modelo de sociedade que mais apreciava, contou Wilkinson, a maioria dos americanos respondeu que era o escandinavo. Mas, na realidade, é o mito do "self-made man" que alimenta a ética política, social e económica americana e cada vez mais a europeia. Na verdade, imagino que a maioria dos americanos prefira ter uma ínfima possibilidade de ser cinco, dez, vinte ou mil vezes mais rico do que os seus concidadãos do que a alta probabilidade de viverem todos mais ou menos bem, mas sem grandes diferenças. Porquê? Porque é essa enorme superioridade que dá poder sobre os outros e que alimenta a autoestima de quem vive desse poder. A igualdade dá qualidade de vida a quase todos mas é muito pouco sexy. Porque ela não prova aos outros que nós somos melhores do que eles. Ela apenas prova que a sociedade em que vivemos é melhor do que as mais desiguais. Ela diz muito de todos nós, como comunidade, mas não diz nada de cada um de nós, como indivíduos.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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2008:

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2007:

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2006:

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2005:

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