Quinta-feira, 31 de Março de 2011
por Daniel Oliveira

Ricardo Salgado, a entidade onde se cruzam todos os interesses privados e públicos,  responsabiliza o impasse político pela descida da banca nacional nos ratings. Sim, a banca, que está bem mais endividada do que o Estado, diz que a culpa é dos políticos. Sabe quem não se limita à ideologia que, até ao aumento dos juros, a nossa dívida pública estava na média europeia, enquanto a dívida privada há muito estava acima da de qualquer outro país. De facto, o Estado não é apenas bom para fazer excelentes negócios. Também serve muitíssimo bem para passar todas as culpas.


por Daniel Oliveira
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por Miguel Cardina

O administrador dos CTT, Marcos Baptista, nomeado para o cargo pelo seu ex-sócio e secretário de Estado dos Transportes, Paulo Campos, suspendeu hoje o seu mandato após revelações de que teria falsificado o seu currículo académico. A notícia está aqui e só me fez lembrar um grande hit dos anos oitenta. Deve ser do calor.

 


por Miguel Cardina
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por Daniel Oliveira

 

A agência Fitch, uma das que andou a avaliar positivamente lixo e a descobrir pelos jornais a falência de empresas e de países, ameaça baixar de novo o ratig da dívida portuguesa se Portugal não recorrer à ajuda externa . Diz-se, quando se contesta a fiabilidade das avaliações destas empresas (que, recorde-se, trabalham para quem ganha dinheiro com o aumento dos juros), que nada podemos fazer. Elas limitam-se a olhar para os dados económicos e financeiros e a dizer de sua justiça.

 

Se assim fosse, não havia avisos. Se assim fosse, as agências limitavam-se a olhar para as contas - que não são um segredo de Estado, são públicas e podem ser avaliadas pelos investidores - e a dar a nota correspondente. O que a Fitch fez, e não é o primeiro caso, foi dar um conselho a Portugal. Sendo que Portugal não é seu cliente. E nesse conselho está implícita a ameaça: ou fazem o que os nossos clientes querem ou nós dizemos aos mercados que vocês não vão conseguir pagar, aumentando assim as vossas dificuldades de financiamento e, obviamente, a dificuldade em pagar. O que a Fitch fez não foi uma avaliação externa ao próprio mercado. Foi uma intervenção direta no mercado para determinar as políticas de um Estado. Foi lobby em favor dos seus clientes, usando o instrumento que tem para determinar decisões políticas. Porque, todos sabemos, o recurso à ajuda externa, sendo péssimo para a nossa economia, permite o saque final e impede qualquer renegociação da dívida, a única solução racional para as economias periféricas da Europa.

 

Nada a fazer, é o que se diz. Falso. Está nas mãos da Europa determinar os moldes em que a ajuda externa é garantida. Está nas mãos da Europa garantir essa ajuda, comprando ela própria a dívida nos mercados primários, e dando garantias para uma renegociação da dívida. Está nas mãos da Europa proteger os países que estão na linha da frente de um ataque especulativo ao euro, dizendo o que diz qualquer devedor que seja vítima do abuso de poder dos credores: ou renegociamos as condições ou não pagamos. Não estamos dispostos a trabalhar para pagar juros que não correspondem ao risco real de incumprimento. É isto que famílias, empresas e Estados fazem quando o credor abusa do seu poder: se queres receber o que te devo não tentes levar o que não te devo. Mas para isso Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal não podem ser abandonados à sua sorte. Cabe à Europa cumprir o seu papel solidário. E não deixar que seja a Fitch e restantes agências de notação a determinar as políticas dos seus Estados.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por João Rodrigues

 

Esta semana, a ideia zumbi da chamada consolidação orçamental expansionista foi mais uma vez enterrada com a revisão em baixa da previsão feita pelo Banco de Portugal (BdP). Graças à austeridade, teremos uma recessão de pelo menos -1,4% este ano e dezenas de milhares de novos desempregados. Correia de transmissão do neoliberalismo com escala europeia, o BdP diz que toda esta destruição é inevitável e terá mesmo de ser aprofundada. Agora vem propor, sempre alinhado com a direita, uma redução das contribuições patronais para a segurança social, compensada com um aumento do IVA. Reduzir salários directos e indirectos e aumentar as desigualdades são as obsessões de sempre do BdP. Só mais um esforço que ainda não somos o país desenvolvido mais desigual. Para o BdP, a competitividade é questão de custos salariais directos ou indirectos e nada mais. Uma forma de percepção selectiva que atrofia a imaginação política e a inovação empresarial. Será que desconhecem que no nosso país o peso do IVA nos impostos totais é dos mais elevados da UE? É claro que o BdP faz um ensaio tosco de economia política e propõe, tal como um certo partido da direita, para tentar compensar e disfarçar mais um projecto de regressão social, uma vaga "transferência monetária" dirigida, que nunca ocorrerá, claro. Aliás, há muito que o BdP declarou guerra ao projecto do Estado social universal. De resto, também como a direita, o BdP continuará a dizer que o desemprego é um problema de segurança social demasiado generosa e de regras laborais que ainda dão alguma liberdade aos trabalhadores, como se a enéssima recessão provocada pela austeridade permanente não fosse a principal causa do desemprego, como se a crise financeira mundial não tivesse implodido com os idealismos de mercado e gerado novas vagas de desemprego, como se o desastre da integração num euro disfuncional, sempre apoiado, não tivesse ocorrido. São infinitos os pretextos para baixar salários e deteriorar condições de trabalho, mas não há melhor do que o desemprego de massas causado pelas crises. É a economia política do desemprego. É a cassete da Almirante Reis.

 

Publicado no Ladrões de Bicicletas


por João Rodrigues
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Quarta-feira, 30 de Março de 2011
por Sérgio Lavos

Banco de Portugal empresta mil milhões ao FMI.

 

E daqui a uns tempos, o FMI irá, não ajudar Portugal, mas sim fazer um resgate que é, nas palavras de um colunista irlandês do The Independent, um adiar do problema para as gerações futuras. E um descalabro social sem precedentes. Curiosamente, a notícia linkada não refere qual a taxa de juro que o FMI irá pagar ao Banco de Portugal, e, depois de alguma pesquisa feita na Internet, não encontrei qualquer referência a essa parte da questão, e fiquei mesmo dúvida se será mesmo um empréstimo ou um financiamento directo, sem cobrança de juros (talvez o João Rodrigues possa explicar-me como funciona). Seja como for, resumindo, Portugal está a emprestar dinheiro a uma instituição para que esta possa emprestar de volta (daqui a pouco tempo, parece), com um juro que pode ir de 4.5 a 5%, e impondo condições que podem levar à absoluta destruição do tecido económico nacional. Maravilhoso. Ou sou eu que estou a ver mal o problema?

 

*Não reparei quando estava a escrever o post, e segui um link do Facebook, mas a notícia citada é de Dezembro de 2009. OK, uma notícia ultrapassada, e provavelmente os mil milhões já foram parar há muito aos cofres do FMI. Pois, parece que em 2009 estávamos em tempo de vacas gordas e que um compromisso da UE é para se levar a sério. Mas esperem, em 2009 o défice não estava já a crescer? A economia não tinha estagnado? Pouco mudou desde essa altura, a não ser o desemprego, que aumentou, e o poder de compra de quem ainda trabalha, que diminuiu. Pois.

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por Sérgio Lavos
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por João Rodrigues

 

 

Renegociar dívida antes que seja inevitável pode ser solução. Vale a pena ler o oportuno trabalho de Ana Rita Faria, até pelo pluralismo da opinião económica auscultada, de “vários quadrantes ideológicos”, onde se incluem os economistas José Reis e José Castro Caldas. A reestruturação é uma ideia em que temos insistido e que vai fazendo o seu caminho devido à insustentabilidade da combinação de pressões de mercado e de políticas de austeridade recessivas, geradoras de quebras de rendimentos e de mais desemprego. Uma ideia que tem de fazer parte da agenda de uma aliança de países periféricos apostada em mudar os termos de uma integração europeia transformada num programa do FMI. No entanto, e como sublinhou o relatório do Research on Money and Finance, há uma diferença, que aliás separa os economistas dos vários quadrantes, entre uma reestruturação da dívida liderada pelos credores e uma reestruturação liderada pelos devedores. Uma coisa é certa: ou a periferia se une ou a periferia é destruída pelas regras definidas pelos credores. Realismo sem moralismos. Aliás, a ameaça da reestruturação por parte da periferia, mesmo quando feita por um país isolado, como a Irlanda, espevita sempre a imaginação de quem comanda a (des)união. O objectivo é mesmo esse. Não há inevitabilidades neste campo. O problema português, claro, é que o bloco central só pensa em agradar a Merkel…

 

 


por João Rodrigues
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por Pedro Vieira

As caniches, companheiras de muitos anos, aconchegam-se-lhe mal se senta em frente à lareira ainda sem brasas e escutam-no com fidelidade como se nenhuma das suas palavras fosse desperdício.

 

da introdução de felícia cabrita a Um Homem Invulgar, Esfera dos Livros, Março 2011


por Pedro Vieira
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por Bruno Sena Martins


por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

Pedro Passos Coelho diz, desde que chegou à liderança do PSD, que não quer aumentos de impostos. Há um ano, acabou por deixar passar o PEC III, que aumentava os impostos. Pediu desculpas aos portugueses por aceitar aquilo que sempre recusara.

 

Depois disso, continuou a defender que aumentar os impostos não era a solução. Sobre o PEC IV afirmou: "Mantém a receita preferida deste governo: a solução da incompetência. Ou seja, se falta dinheiro aumentam-se os impostos". Chumbou o PEC e não foi preciso esperar um dia para surgir a sua proposta competente e inovadora: aumentar o IVA, o mais cego de todos os impostos. Vai ao bolso dos que sendo tão pobres nem impostos sobre os rendimentos pagam. Vai ao bolso até de quem não tem rendimentos.

 

Sabe quem não anda a olhar para a política com os óculos da partidarite que as soluções económicas e políticas de Passos Coelho pouco diferem das de Sócrates. No que será mais grave e estrutural limita-se a fazer o mesmo com mais convicção. Agora ficamos a saber que tem o mesmo respeito que o primeiro-ministro pela palavra dada.

 

Diz-se que Sócrates e Passos Coelho dificilmente se entenderão e que um bloco central apenas é possível sem um deles na liderança dos seus partidos. Uma questão de personalidades, garantem uns. Sócrates não é de confiança, dizem outros. Mas a verdade é que um e outro, para além de concordarem no essencial, padecem do mesmo mal que tem destruido a credibilidade da políca nacional: o que dizem num dia não vale um euro no dia seguinte.

 

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 29 de Março de 2011
por Sérgio Lavos

Passos apresenta programa eleitoral de apoio às "vítimas” da austeridade.

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por Sérgio Lavos
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por Miguel Cardina

Ficámos hoje a saber que a Assembleia da República não realizará a tradicional sessão comemorativa do 25 de Abril, uma vez que já estará dissolvida. Há quem legitimamente se lamente com o facto. Eu próprio gosto de ficar a ouvir os discursos enquanto observo cravados e desencravados. Mas não há dúvida que a inexistência de cerimónia também tem os seus lados positivos: em primeiro lugar, estaremos a salvo de um qualquer Aguiar Branco que decida aproveitar a data para defender a revisão constitucional e atacar o Estado Social com base em frases de Lenine, Sérgio Godinho e Rosa Luxemburgo (sim, isso aconteceu); em segundo lugar, ficaremos a saber quais os deputados e deputadas que decidirão comemorar a data onde ela também merece ser comemorada - na rua. Como diziam aqueles filósofos britânicos dos anos setenta, o que é preciso é olhar sempre para o lado luminoso das coisas.


por Miguel Cardina
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por Andrea Peniche

Vi ontem, na edição online do Público, a notícia de que em várias cidades do país tinham sido colados cartazes, nas agências do BPN, que diziam: «O vosso roubo custou 13 milhões de salários mínimos». Segui o link para o blog deste grupo, que se denomina «E o povo, pá?», e fiquei espantada. Estão lá as fotos das agências visitadas, um vídeo e uma espécie de manifesto onde estas pessoas se apresentam, explicam a razão do seu protesto e justificam a escolha do BPN.

 

Hoje, li a reportagem sobre essa acção na edição impressa do Público e fiquei sem dúvidas: trata-se de gente inteligente e com iniciativa. «Fartos de resmungar sozinhos» decidiram «resmungar para o megafone». Sairam à rua a 12 de Março e agora vêm dizer: «Estamos assim porque nos estão a roubar».

 

Uma das coisas mais interessantes que esta gente traz à discussão é a tradução de políticas e números em linguagem entendível. Para mim, 6500 milhões de euros é uma ordem de grandeza que me ultrapassa. Consigo perceber que é muito dinheiro pela quantidade de zeros à direita. No entanto, dizer que isso equivale a 13 milhões de salários mínimos ou a 4% do PIB esclarece-me verdadeiramente.

 

A cereja em cima do bolo é dada, na tal reportagem do Público de hoje, quando é relatada a conversa sobre a escolha da música para o vídeo. «O melhor é colocar qualquer coisa inócua. Se metemos punk, vão dizer que somos anarquistas. Se metemos Seu Jorge, vão perguntar: 'O que é que querem dizer com isto?' Alguém pediu um segundo sentido? Que tal algo islandês? Bjork. It's all so quiet».

 

A ligação da questão do BPN, ou roubo, como lhe chamam, ao sucedido na Islândia é, de facto, interessante e inteligente. Em Portugal, aceitamos quase em silêncio uma nacionalização ruinosa; na Islândia, a democracia venceu a corrupção e o compadrio

Como dizem no manifesto, «o caso BPN configura o processo de desagregação do Estado democrático, onde se salvam os accionistas e as entidades reguladoras, onde se escolhe salvar os activos nacionalizando os prejuízos à conta dos impostos que pagamos. O caso BPN diz-nos que em Portugal a fraude compensa e, quando esta vence, a democracia perde. Portugal está transformado num país onde há Estado máximo para alguns e Estado mínimo para quase todas as outras pessoas».  

 

Confesso que fiquei bem impressionada com esta gente, mas, mais do que isso, revi-me na sua iniciativa. Tenho pena que queiram manter o anonimato, não porque não aceite as razões que invocam, mas porque tenho a certeza de que ia gostar de os conhecer. E faço coro: «Não nos falem de austeridade, falem-nos de justiça».

 


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

 

A direita de Sarkozy teve uma pesada derrota nas eleições para os departamentos locais. A esquerda venceu em toda a linha. Os socialistas tiveram 49,9 por cento dos votos em conjunto com os seus aliados e 35,7 por cento de votos nas suas listas. Mas os resultados foram marcados pelas impressionantes votações na Frente Nacional, com 11,7 por cento dos votos e, em muitos departamentos, com resultados que atingiram os 45 por cento. Não fosse o sistema eleitoral francês e teriam chegado ao poder em muitos cantões. Marine le Pen, filha do conhecido dirigente da extrema-direita francesa, já fala da criação de uma plataforma que agregue a FN e os setores mais radicais do partido de Sarkozy (a UMP) para, seguindo o exemplo de Itália, romper o cordão higiénico que os tem mantido longe do poder.

 

Em Baden-Württemberg, uma província tradicionalmente conservadora (governada há 58 anos pela direita) e a terceira mais rica da Alemanha, Merkel também foi derrotada. A CDU ficou-se pelos 39 por cento. Pela primeira vez, a esquerda conseguiu a maioria. Mas o facto mais extraordinário é outro: os "Verdes" ficaram à frente dos social-democratas e vão, pela primeira vez na história, liderar um governo de uma província alemã. E logo uma das mais importantes do País. Angela Merkel pagou o preço das suas políticas erráticas e eleitoralistas em diversos setores. Na economia e na política europeia temos bem sentido a falta de rumo da chanceler. Não terá sido isto a mover os eleitores locais. Mas um dia, esperemos que a tempo, os alemães acabarão por perceber que o que sofrem em casa sofremos nós todos fora dela: à frente da maior potência europeia está uma mulher sem dimensão de estadista e que, com a sua inexperiência e e a sua irresponsabilidade, está a dar cabo da Europa.

 

Estes dois resultados eleitorais dão-nos alguns dados para reflexão. Os governos europeus estão em acelerado desgaste. Mas as suas oposições também. Há uma descrença geral na classe política. As vistas curtas do centro-esquerda e do centro-direita, a completa ausência de alternativas à mera gestão da crise, o discurso vazio de conteúdo político e a falta de densidade de protagonistas fracos e sem princípios pode levar a uma recomposição política em vários países europeus.

 

Isso não é obrigatoriamente mau. Mas nestes momentos os riscos para a democracia são sempre razoáveis. Ela depende da existência de alternativas democráticas e viáveis ao centrão.

 

Se olharmos para estes dois casos - o que é sempre arriscado, já que as idiossincrasias nacionais são sempre o que conta mais - poderíamos concluir que há duas hipóteses, caso se verifique um enorme desgaste das duas principais famílias políticas que têm governado os países europeus: o crescimento de uma extrema-direita xenófoba e nacionalista, que se tornará indispensável ao centro-direita, ou o crescimento de uma esquerda alternativa, preparada para governar e para, também ela, se entender com o centro-esquerda. Ao contrário do que muitos pensam, o bloco central terá pouco futuro. Porque ele é o rosto desta crise. Se os socialistas e democratas-cristão insistirem em ser meros gestores da desgraça, poderão não sobreviver aos anos de crise que aí vêm. É a clarificação, e não o pântano, que pode garantir a sobrevivência dos equilíbrios partidários dos últimos sessenta anos.

 

Em Portugal, as coisas são todas um pouco mais complicadas.

Apesar das incursões que o CDS faz, em momentos de maior aperto eleitoral, aos temas clássicos da direita autoritária - imigração, rendimento mínimo, criminalidade -, não se trata de um partido de extrema-direita tradicional. Ainda sobra, apesar de tudo, uma memória histórica que limita o crescimento de uma extrema-direita mais descarada.

 

Por outro lado, não há, em Portugal, uma esquerda à esquerda dos socialistas disponível para participar em soluções de poder. Uma originalidade nacional. Por essa Europa fora partidos ecologistas ou mais à esquerda mostraram, em vários momentos históricos, disponibilidade para governar. E nunca como agora essa disponibilidade foi tão urgente. O que está em causa na Europa é resistir a uma avalanche que ameaça não deixar pedra sobre pedra no edifício do Estado Social. Ser de esquerda tornou-se num sinal de radicalismo. A social-democracia consequente é hoje de uma ousadia extraordinária.

 

Mas Portugal tem outra originalidade, em que é acompanhado pela Alemanha e mais um ou outro país europeu: a esquerda à esquerda dos socialistas representa quase vinte por cento dos eleitores. Se quisesse usar a sua força em funções executívas teria um poder extraordinário.

 

Para a utilização desse poder seria necessário, antes de mais, que BE e PCP, em vez de se controlarem mutuamente no seu purismo ideológico, se entendessem no muito em que estão de acordo. E seria necessário que os dois quisessem cumprir a sua obrigação histórica, num momento que exige tanta responsabilidade. E seria, por fim, necessário que os socialistas não fizessem questão, como fazem, de escolher a direita, do PSD ao CDS, como aliada preferencial.

 

Olhando para a Alemanha, vemos como um partido como os "Verdes" - que tem um discurso consistentemente crítico contra as grandes opções que estão a ser feitas na Europa - pode vir a ter um papel fundamental no futuro do País e, por isso, no futuro da Europa. E percebemos como a esquerda portuguesa pode estar a perder uma oportunidade histórica. A oportunidade de se apresentar aos eleitores como uma alternativa de poder. Dizendo ao PS que, depois da provável travessia do deserto e de se ver livre de um Sócrates sem credibilidade nem pensamento político, tem uma escolha a fazer: ou continua a navegar no pântano político - o que levou o País a esta desgraça -, ou escolhe um lado no combate que se avizinha à escala europeia. Um combate pelo Estado Social e contra a mercantilização de todos os domínios da nossa vida, a precarização das relações sociais e a degradação da democracia. E que para esse combate tem aliados prontos para assumir responsabilidades de poder e para pagar a fatura de fazer essa escolha em tempos difíceis.

 

Num momento dramático para a Europa e para Portugal, cada um escolherá o papel que quer ter. No fim, os povos julgarão cada um pelas suas ações e pelas suas omissões.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Pedro Vieira

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Ana Mafalda Nunes

por Ana Mafalda Nunes
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Segunda-feira, 28 de Março de 2011
por Pedro Vieira

o aleijado que pedia esmola na estação de sete-rios mudou-se para a rua garrett.


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

Antes de ler este texto, deve ver (ou ler) a entrevista feita pelo "Expresso" a Ilídio Marques, uma das testemunhas-chave no processo Casa Pia. A vítima de abusos sexuais desmente as acusações que fez e explica como foram surgindo os nomes dos homens condenados por um dos crimes que maior repulsa social merece.

 

Pormenores a reter: Ilídio Marques desmente, quando é um homem autónomo e maduro, as acusações que fez quando era bem mais vulnerável e jovem. Ilídio Marques faz estas declarações perante todos, sozinho. Fez as acusações anteriores integrado num grupo, no meio de dezenas de interrogatórios da PJ, muito mais vulnerável a todas as pressões públicas e privadas. Ao desmentir, arrisca-se a ser acusado de perjúrio e a não receber uma indemnização de 25 mil euros de um dos arguidos. Quando fez as acusações, "arriscava-se" a ser visto como herói e a receber indemnizações do Estado e dos arguidos. Em sentido contrário, fez as acusações anteriores a investigadores judiciais. Faz estas revelações a um jornalista. Não têm o mesmo valor. Nada disto prova que as suas declarações atuais são verdadeiras e as anteriores são falsas, nem o inverso. Mas são dados importantes.

 

Das duas uma: ou Ilídio Marques mente agora ou mentiu antes. Se mente agora, ficamos com um problema: todo o processo, que dispensou provas circunstanciais, se baseia na credibilidade dos testemunhos. Essa credibilidade ficaria definitivamente posta em causa. Se mentiu antes, foram presas as pessoas erradas, acusadas de crimes que não cometeram. Em qualquer um dos casos, estamos perante uma situação gravíssima em que se confirma ter havido pouco sangue frio e demasiada permeabilidade de investigadores e do tribunal às paixões que este caso naturalmente provocou.

 

Há alguns anos que o processo - mais do que a culpa ou inocência de cada um dos arguidos, sobre as quais nada sei - me levanta muitas dúvidas. A sua falta de rigor sempre me pareceu evidente. E para quem acha que o rigor dos processos judiciais é a base de qualquer Estado de Direito, este é um combate que vale toda a impopularidade. Recebi, ao longo destes anos, acusações de ser "amigo de pedófilos" e insultos vindos de gente que acredita que no lugar da justiça podemos ter justiceiros inflamados. Pouco me interessa se os arguidos são ricos ou pobres, poderosos ou frágeis e se a opinião pública os quer ver presos ou em liberdade. A única coisa que conta é esta: só podem ser condenado e preso qualquer cidadão sobre o qual não haja dúvidas razoáveis quanto à autoria dos crimes concretos de que são acusados.

 

Sobre o processo, mantenho todas as dúvidas, reforçadas por esta entrevista. Continuo sem nenhuma convicção em relação à culpabilidade dos condenados, convicção que seria sempre irrelevante, já que são as provas, e nas as sensações de ninguém, que contam em tribunal. Mas sei uma coisa: esta entrevista só pode causar, a quem dá valor à justiça, um enorme incómodo. Mantenho-o, indiferente às brigadas justiceiras, por mais ruidosas e maioritárias que sejam.


Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Domingo, 27 de Março de 2011
por Sérgio Lavos

As notícias sobre a morte política de José Sócrates serão certamente exageradas, mas a verdade é que o que nos espera não será nada agradável, a não ser que alguma coisa de essencial mude. 

 

Já conhecemos a história: a um líder carimástico do PS, primeiro-ministro, sucederá uma figura do PSD em que alguns sectores do partido não confiam. Eleições, maioria relativa, coligação com o CDS-Paulo Portas. Queremos que isto se repita? Eu estaria mais confiante, seguramente, se não fossem portugueses a votar nas próximas eleições. O país navega no abismo mas nem por isso as sondagens mostram alguma real vontade de mudança. A mesma monotonia do centrão, a mesma modorra que nos trouxe à bancarrota e ao esplendor do nacional-pessimismo. Sabemo-nos queixar, e neste queixume canalizamos toda a revolta. Quando não nos queixamos, invejamos. Invejamos o bem-estar dos países nórdicos mas não nos decidimos a fazer alguma coisa acerca disso. Em vez de procurarmos acabar com aquilo que atrasa o país - o desenrascanço, a economia paralela, a fuga aos impostos, o clientelismo, a corrupção - achamos que, se não imitarmos os hábitos de quem se dedica à ilegalidade, nunca chegaremos a lado nenhum. Não valorizamos a honestidade, a criatividade, a frontalidade. A classe política não é melhor do que a média nacional, mas lida com mais poder. E o poder, como se sabe, corrompe - ainda mais. A cada mudança de governo, a mesma dança ensaiada pelos boys, de cadeira em cadeira. A administração pública funciona mal, mas ninguém tem interesse em mexer com este estado de coisas. Todos os anos, há milhares de concursos públicos no país que já têm o lugar preenchido à partida, para um amigo, um parente, um membro do partido. Toda a gente sabe disto, mas ninguém parece importar-se muito. Cada legislatura é uma oportunidade de ouro para os partidos da tríade do sistema semearem os seus homens de mão nas maiores empresas, que por sua vez esperam pela migalha que a influência destes homens do aparelho lhes trará. A promiscuidade entre Estado e grandes empresas privadas é um hábito antigo, um conforto, uma coisa que todos acham normal. Estamos habituados a reeleger políticos que estão a ser investigados, a aceitar que a mão da justiça não chegue a todos da mesma maneira, a perdoar quem pertence ou fareja o poder.

 

Saber se Sócrates irá resistir uma vez mais é secundário. O nacional-pessimismo aconselha a acharmos que o senhor seguinte é pior do que aquele que temos. A estabilidade de que falam os comentadores não é apenas um chicote que nos mantém disciplinados; é a nossa segunda pele. Será impossível acontecer por cá o que sucedeu na Irlanda, onde um partido que nunca tinha ganho eleições chegou ao poder, ou na Islândia, entregue ao poder, literalmente, do povo, e não a uma elite financeiro-partido-empresarial, a elite que levou à crise global, e que, apesar de todas as promessas em contrário, tenta reforçar a sua posição durante este período conturbado. É o que temos. Quando a farsa em que julgamos viver se revelar uma verdadeira tragédia, não nos queixemos: temos o que merecemos, essa é a essência da democracia.

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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

Por 300 votos, os sportinguistas parecem ter decidido ficar na mesma. Parece que Bruno de Carvalho não parecia ser honesto. Ao contrário de Godinho Lopes, o dos paquetes, Luís Duque, com termo de identidade e residência, e Paulo Cristóvão, o do caso da mãe de Joana. Uma coisa é certa: o Sporting é o clube mais português de Portugal. Endividado e ingovernável.

 

PS: o espectáculo que se seguiu ao anúncio dos resultados foi triste. Muito triste.

 

PS2: Há uma semana defendi que estava na altura de passar a vigorar nos clubes o princípio democrático de "um homem, um voto", (podendo não se votar nos primeiros cinco anos). Aqui ficam os resultados, sujeitos a confirmação, se fosse este princípio a vigorar: Bruno de Carvalho - 41%; Godinho Lopes - 36%. Ou seja, a maioria dos sócios votou em Bruno de Carvalho. Mas os mais antigos escolheram outro presidente.


por Daniel Oliveira
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Sexta-feira, 25 de Março de 2011
por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
A Marktest dava 71 por cento dos votos a Cavaco Silva, a três meses das eleições. A Marktest dá 47 por cento dos votos a Passos Coelho, a três meses das eleições.

por Daniel Oliveira
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por Ana Mafalda Nunes

"Nato is now in charge of the no-fly zone and the arms embargo, policed from a flotilla in the Mediterranean. The big bone of contention is the air strikes."

 

“There are three main elements to the military offensive against Gaddafi stemming from UN security council resolutions – a no-fly zone, an arms embargo and the air strikes on ground targets based on the "right to protect", safeguarding civilians in Libya from massacre.”

 

Não será demais lembrar que há 12 anos, na Sérvia, a "humanitária" intervenção também tinha como objectivo proteger os civis do massacre.

Mas podemos também lembrar o petróleo-irrigado Iraque...

"sair da frigideira para cair no lume"?

 


por Ana Mafalda Nunes
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por Daniel Oliveira

Enquadrado na quinta mostra de documentário português, a Panorama convidou quatro bloggers para debater o PREC e a política actual. Tiago Mota Saraiva (5dias), Daniel Oliveira (Arrastão), João Villalobos (Albergue Espanhol) e Rodrigo Moita de Deus (31 da Armada). É hoje, dia 25, às 19h30, na Casa da Achada, em Lisboa (Rua da Achada 11, perto da Rua da Madalena). Pedro Mexia será o moderador.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

O modelo de avaliação dos professores foi revogado. O Bloco de Esquerda agendou a sua proposta e ela passou. Agora é começar de novo. Porque o que nasceu torto só podia cair. Apenas se deu o último empurrão.

 


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

 

Amanhã, o Sporting vai a votos. Não costumo publicar aqui textos sobre o meu clube. Mas, tendo em conta o momento extraordinário que se vive no Sporting, deixo aqui o texto que publiquei hoje no Record (onde explico o meu voto sem esperança):

 

"Seguindo a tradição de cooptações entre notáveis, Godinho Lopes estava convencido que estas eleições iam ser um passeio. Não serão. O Sporting não é um clube britânico nem uma filial bancária. É uma associação desportiva e popular. E os sócios estão cansados de gestores com tanto domínio do economês e resultados financeiros e desportivos tão desastrosos. O futuro é uma incógnita, mas o passado conhecemos bem. E o passado é representado pela lista de Godinho Lopes. A questão é saber quem será o homem que livrará o Sporting da “tralha roquettista”.

 

Como pessoa independente e fora dos jogos de poder no clube, farei, como sempre, a minha declaração de voto. Como a maioria dos sócios, entrei nesta campanha com mais dúvidas do que certezas. Cheguei a pôr a possibilidade de votar em Dias Ferreira. Ninguém duvida do seu sportinguismo. Mas, ao ter dado o seu nome à direção de Bettencourt, dificilmente se pode apresentar como um rosto da mudança. Olhei com interesse para a candidatura de Pedro Baltazar. Parece-me ser um homem sério e defende princípios pelos quais me tenho batido. Mas a escolha de Santana Lopes e a desastrada camapanha acabaram por o afastar da corrida.

 

Não vou dizer que tenho grande confiança em Bruno de Carvalho. Também a mim o fundo russo me levanta dúvidas. Mas três coisas me fizeram decidir: tem a combatividade que o Sporting precisa para se impor aos seus adversários; tem alguns nomes na sua equipa que me dão alguma confiança; e é o único que, estando em condições de vencer, pode romper com o passado recente. O meu voto em Bruno de Carvalho será crítico. E com um contrapeso: votar numa das listas independentes para o Conselho Leonino e para o Conselho Fiscal. Para que haja um verdadeiro controlo do sócios."

 

Publicado no jornal "Record" a 25 de Março de 2011


por Daniel Oliveira
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por Miguel Cardina

Ao contrário do que já li por aí, este governo não caiu de podre. Caiu de manha, como alguns jogadores que pressentem o adversário por trás e simulam a queda na grande área. Do timing ao modo como foi preparada a apresentação do PEC 4, tudo foi feito para impossibilitar a sua aprovação pelo PSD, o parceiro habitual do PS nesta sucessão de medidas austeritárias. O PS procurou assim libertar-se do fardo de ter de ir receber à porta o FMI e abriu campo a um discurso de vitimização. Quanto ao PSD, empurrado pelas circunstâncias e pela fome de poder, lançou-se de imediato numa tentativa de demarcação política, que já levou Passos Coelho a um estranho exercício de faltar às promessas eleitorais antes mesmo de poder ser eleito. Como já estamos em clima pré-eleitoral, entraremos num período de crispação retórica que tenderá a encobrir as convergências de fundo entre a direita neo-liberal e a “esquerda-merkel”, como convenientemente lhe chamou Zé Neves. Por isso mesmo é muito interessante o quadro elaborado pelo Público sobre a “repartição dos sacrifícios” constantes nos PECs e a análise que o Nuno Serra faz dele, mostrando a sua intrínseca injustiça. Alguém consegue dizer-se de esquerda e manter a imperturbabilidade diante desse programa do bloco central tácito?


por Miguel Cardina
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por Pedro Vieira

 

 

 


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

 

Os mercados reagiram mal ao anúncio de eleições. Os mercados não gostam muito de eleições. Mas estou convencido que, perante as garantias que Passos Coelho vai dando de que fará o mesmo que Sócrates, os mercados tenderão a acalmar. Os mercados suportam a alternância mas ficam apreensivos perante alternativas. Ainda assim, os eleitores devem ser cuidadosos. Irem votar pode ter a sua utilidade, mas é fundamental não aborrecer os mercados. É bom haver uma clarificação política. Mas clarificação em excesso pode cegar os mercados.

 

Aqui fica um breve guia que o eleitor deve seguir no dia em que for votar:

 

1 - Um eleitor consciente deve votar em quem aceite que o papel social do Estado é um problema para os cidadãos, apesar de aparentemente os cidadãos serem beneficiados pela sua existência. E deve evitar votar em quem queira um Estado interventivo na economia. Se lhe dizem que a desregulação económica é insustentável, o eleitor tem obrigação de ser moderado e aprender a viver com esta dificuldade. Se lhe dizem que o Estado Social é insustentável, o eleitor tem obrigação de ser radical e cortar o mal pela raíz.

 

2 - Um eleitor consciente deve votar em quem queira flexibilizar as leis laborais, apesar da maior parte dos eleitores ser favorecida pelas garantias que essas leis hoje lhe dão. Um eleitor responsável sabe que se é legítimo que as empresas defendam os seus interesses, é irresponsável que o trabalhador faça o mesmo.

 

3 - Um eleitor consciente não deve votar em quem queira taxar transações financeiras, obrigar a banca a pagar os mesmos impostos que as restantes empresas ou acabar com offshores. Os mercados, como a generalidade dos cidadãos, não gostam de pagar impostos. O eleitor deve atender, antes de mais, às necessidades dos mercados. E apenas depois disso às suas. Para quê taxar a banca quando se tem o IVA para aumentar? Sejamos razoáveis.

 

4 - Um eleitor consciente não deve, em caso algum, votar em quem defenda nacionalizações. A iniciativa privada é sagrada. Deve aceitar uma excepção a esta regra: se um banco estiver à beira da falência, um Estado responsável deve socializar o prejuízo. A banca é fundamental para a iniciativa privada. E a iniciativa privada é sagrada.

 

5 - Um eleitor consciente deve votar em quem defenda as privatizações. Um Estado grande esmaga a liberdade dos cidadãos. Não deve votar em quem defenda a regulação dos mercados. Mesmo que essa regulação seja a única forma de garantir a liberdade dos cidadãos. No fim de tudo, não devemos esquecer, o que é bom para os mercados é bom para os cidadãos.

 

6 - Um eleitor consciente não deve votar em quem defenda qualquer tipo de protecionismo económico. Vivemos num Mundo globalizado e isso tem sido bom para a humanidade. Pode, no entanto, votar em quem queira impedir a entrada imigrantes. Não devemos ser líricos e pensar que é possível viver com as fronteiras escancaradas.

 

7 - O voto ideal de um cidadão consciente é em quem esteja disponíveis para participar em governos alargados ou de salvação nacional. Os mercados gostam de estabilidade. E não há nada mais estável do que ter a certeza de que é indiferente quem vence as eleições. Os mercados florescem nas democracias. Mas gostam mais daquelas em que não se corre o risco do povo escolher entre diferentes opções.

 

Se seguir estas regras simples o nosso País ainda se pode salvar. Os mercados não ficam tensos. E a calma dos mercados é a melhor garantia para o nosso futuro. Eles agradecem com juros um pouco mais altos. Mas não tão altos como podiam ser. Está revoltado? As coisas são mesmo assim. E não faltava mais nada que o voto servisse para mudar a forma como as coisas são.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins

Publicado na Liga Aleixo

 

Virada que foi a vaga aflição trazida pelo confronto com a Académica, e enquanto não é a hora de festejarmos o campeonato no túnel da luz, o portista carente de emoções futebolísticas não tem outro remédio senão virar-se para as eleições do Sporting (eu sei, eu sei). Há muito que aquele clube não conseguia cativar os meios de comunicação social além das rádios regionais e das tardes em que a redacção da “Bola Branca” se apanha com falta de assunto e, acto contínuo, telefona ao filho de um dos 5 violinos para um pizzicato de nostalgia.

 

Enquanto José Eduardo Bettencourt faz repousar todas as suas possibilidades de redenção na hipótese de Sinama Pongolle mostrar no Saragoça que afinal não é inferior ao Rodrigo Tiui, os 5 candidatos do Sporting fazem repousar todas as hipóteses de prosperidade futura em mostrar que não são tão maus como Godinho Lopes. Godinho Lopes é o que tem mostrado mais dificuldade em distanciar-se da sua existência enquanto pessoa anódina: as tentativas de produzir um camuflado com Luís Duque, Carlos Freitas e Domingos embatem com gravidade no brilho da sua insignificância. Ainda assim o mais surpreendente é a dificuldade dos outros candidatos para serem incrivelmente melhores do que Godinho Lopes: não são.

 

Dias Ferreira nesta contenda tem momentos em que parece ser uma pessoa a quem poderíamos entregar o cão para que o passeasse uns 15 minutos, não é: o mais acertado será levar o cão directamente para o matadouro municipal. Abrantes Mendes, irmão gémeo de Defensor de Moura em quem votei nas últimas eleições, conseguiu ganhar um debate; por deus quando um homem daqueles ganha um debate a hipótese de entregar o Sporting a um ditador sul-americano dos anos 70 na reforma deve ser seriamente ponderada. A bitola posta nestas eleições cria a ilusão que Pedro Baltazar é um pouco melhor que o rei Jorge VI recentemente representado por Colin Firth, não é. Enquanto o rei Jorge VI se entaramelava porque o aparelho vocal tinha dificuldade em acompanhar o tempo discursivo do seu pensamento, Pedro Baltazar (um homem bonito que passou ao lado de uma carreira como modelo de relógios caros) desacelera a fala para que lentidão do seu pensamento tenha uma qualquer banda sonora.

 

Já Bruno de Carvalho no meio daquela salsa parece ser o Martin Luther King dos tempos modernos, não é. Além de uma boa voz e de uma assertividade que parece fazer medo aos demais contendentes, em condições normais Bruno de Carvalho teria poucas hipóteses de ganhar as eleições da União de Coimbra nem que o Mandatário fosse o Abramovich (de notar que a União de Coimbra, tal como o Sporting, há anos que não tem futebol sénior). Mas nada disto é normal e o Sportinguistas devem ter a inteligência de escolher o Martin Luther King de trazer por casa: uma voz grossa e uns russos com dinheiro a sobrar é mais do que qualquer um dos outros candidatos tem para oferecer.


por Bruno Sena Martins
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Quinta-feira, 24 de Março de 2011
por Bruno Sena Martins

"O PSD não afasta a possibilidade de uma nova subida do IVA, que poderá aumentar para 24 ou 25 por cento para evitar o congelamento das pensões mais baixas e o corte nas mais elevadas."


por Bruno Sena Martins
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por Andrea Peniche

O Diário de Notícias dá hoje conta de um estudo realizado pela CGTP, com base em dados do INE e do Ministério do Trabalho, que revela que as mulheres, para além da sua jornada de trabalho remunerado, lhe acrescentam mais 16 horas semanais, não remuneradas, com tarefas relacionadas com a família.

 

Os números são novidade, mas apenas confirmam aquilo que toda a gente já sabia: a entrada das mulheres no mundo do trabalho assalariado não lhes retirou responsabilidades com as tarefas domésticas e de apoio à família (crianças e velhos).

 

Do meu ponto de vista, isto só lá vai se duas ideias forem claras:

 

1. Substituir o tranquilizador argumento da «ajudinha» pela prática da partilha;

 

2. Perceber que não se constrói igualdade, entre outras coisas, com políticas de austeridade cegas: quando se corta nos apoios sociais, aumenta-se o fardo das mulheres, uma vez que são elas as «tapa-furos» da ausência de Estado social.

 


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

No fim do debate ontem, Pedro Silva Pereira disse, num discurso que deveria ter sido feito pelo primeiro-ministro, que a votação do PEC foi, na prática, uma moção de censura. E falou, como Lacão e Sócrates, mais tarde, de uma coligação negativa. Errado. Ao se comprometer na Europa com um pacote de medidas socialmente violentas e economicamente desastrosas, sem ter maioria e sem negociar com a oposição, José Sócrates chantageou o Parlamento, apresentando, na prática, uma moção de confiança. Uma habilidade para obrigar a oposição a fazer uma escolha: ou apoiar as medidas para as quais não foi tida nem achada ou ser responsabilizada pela queda do governo.

 

Sócrates não foi vítima de nenhuma rasteira. Atirou-se para o chão para se poder vitimizar e com isso ir a eleições nas condições menos más para si. O governo não foi forçado a demitir-se. Procurou esta situação: ou um reforço da sua legitimidade, ou eleições. Ou tudo, ou nada. E quem quer tudo ou nada pode sempre ficar com nada.

 

Na sua declaração ao País, Passos Coelho tentou dourar a pílula, falando de uma estratégia diferente para o País. Mas foi Manuela Ferreira Leite que, no debate parlamentar, disse o que ia na alma do PSD: "O problema já não se põe é ao nível das medidas concretas. O problema que se põe a este Parlamento, com uma clareza gritante, é de quem as propõe e quem se responsabiliza por elas." E acrescentou: "Não tenho nenhuma dúvida de que as mesmas medidas tomadas por outro governo teriam outro resultado". Em resposta, Vieira da Silva aceitou que estas propostas não eram do governo, eram da Europa. Ou seja, PS e PSD aceitam que podem mudar os actores, mas o argumento será o mesmo.

 

Quem recusa este caminho económico e financeiro, quem considera que ele piorará a nossa situação, pondo o País na mesma situação em que a Grécia e a Irlanda se encontram, só poderia votar contra este PEC. Mas quem, como o PSD, julga que estas medidas são aceitáveis ou, pelo menos, inevitáveis, teria de fazer as coisas de forma diferente. Se, como disse Ferreira Leite, as mesmas medidas seriam boas se aplicadas por outro protagonista, a opção que tinha era a que foi aceite na Irlanda: aprovava o PEC na condição do governo se demitir. A palavra seria devolvida aos portugueses sem que a crise política afectasse as negociações com a Europa. Sócrates não poderia confundir a sua desgraça com a desgraça do País, Passos poderia mostrar que quer chegar ao poder sem ser à custa de meses de indefinição.

 

Não houve uma coligação negativa. Houve três partidos que se têm oposto aos PEC's e coerentemente se recusaram a colocar a sua assinatura num pacote de medidas que consideram inaceitável. E houve um partido que aceita, na prática, estas medidas, mas quer ser ele a aplicá-las. E que para isso abriu uma crise política.

 

Assistimos a teatro amador: PS fingiu que queria evitar uma crise política para ir a votos nas melhores condições, PSD fingiu ser contra o que tenciona ele próprio levar à prática para chegar mais depressa ao poder. Nem um nem outro se preocuparam, por um segundo que fosse, com o interesse dos portugueses.

 

No meio disto, o Presidente da República não existiu. E não existiu porque, no dia em que tomou posse, ao fazer o discurso que fez, escolheu o seu lugar: tentar, num período que julgava que seria mais longo, liderar a oposição em vez de Passos Coelho. Enganou-se nos cálculos e perdeu o seu lugar de árbitro.

 

Agora serão os portugueses a escolher. Dia após dia, serão convencidos de que este é o único caminho possível. Para quem julgue que a Europa é um lugar distante e que Irlanda, Grécia e Portugal podem continuar, cada um deles, a tratar de si, será verdade. Para os que aceitam que os sacrifícios só podem ser exigidos aos mais fracos, porque os mais fortes zarpam daqui ao mínimo apelo para contribuírem um pouco para o bem-estar coletivo, também. Mas quem não aceita esta suspensão da democracia, onde os governantes são apenas gestores da austeridade, tem de exigir aos que vão a votos alternativas. Alternativas exequíveis apresentadas por quem esteja disponível para participar no poder e para aplicá-las. Não vale a pena, no dia seguinte às eleições, recomeçar a ladainha contra os "malandros dos políticos". Somos nós, e só nós, que os escolhemos.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 23 de Março de 2011
por Daniel Oliveira

Comentário áudio ao chumbo do PEC e crise política (amanhã completado com texto).


por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins

"Não queiram sair da frigideira para entrar no lume". Jerónimo de Sousa

 


por Bruno Sena Martins
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por Ana Mafalda Nunes

...é a anónima mensagem que tem sido, ao longo do dia, veiculada por SMS.

Para quem vai, talvez seja melhor levar um  cachecol Laranja e uma bandeira:

 


por Ana Mafalda Nunes
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por Pedro Vieira

Censos: sem-abrigo registados em torre de luxo

 


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

 

Uma das cegueiras da política actual é a de continuarmos a tentar resolver à escala doméstica o que só na Europa se pode resolver. E a esquerda padece do mesmo vício, acabando por ficar presa num beco sem saída: a de tentar contrariar a austeridade no lugar onde, sem uma vitória europeia, ela será inevitável.

 

Numa iniciativa que rompe com nacionalismos idiotas e sectarismos autofágicos, um grupo de eurodeputados da Esquerda Unitária, Verdes e Socialistas criou, a título individual, o LEFT caucus (não é apenas "esquerda" em inglês; é também a abreviatura de "liberté, égalité, fraternité: toujours" em francês). Os impulsionadores desta iniciativa foram os portugueses Rui Tavares (Esquerda Unitária) e Ana Gomes (Socialistas), os alemães Jan Albrecht (Verdes),  Franziska Keller (Verdes) e  Helmut Scholz (Esquerda Unitária), a francesa Sylvie Guillaume (Socialistas), o espanhol  Raül Romevia i Rueda (Verdes) e o grego Kríton Arsernis (Socialistas).

 

O LEFT caucus será apresentado hoje aos europeus. Pretendemos ser um fórum de coordenação de políticas de esquerda, de criação de uma nova maioria progressista, e de consolidação de um discurso consistente, realista e mobilizador. qualquer pessoa pode inscrever-se e começar a receber informações. Podem consultar o site e ler a declaração de intenções.

 

Ultrapassar as fronteiras nacionais e partidárias é o caminho.


por Daniel Oliveira
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por Andrea Peniche
Por Robert Fisk, The Independent
 

Então, vamos tomar «todas as medidas necessárias» para proteger os civis da Líbia, não é? Que pena não termos pensado nisso nos últimos 42 anos. Ou 41 anos. Ou… bem, vocês sabem o resto. E não dos deixemos enganar com o que significa realmente a resolução da ONU. Mais uma vez, será uma mudança de regime. E, tal como no Iraque – para usar uma das únicas frases memoráveis de Tom Friedman nessa altura – quando o último ditador se for, quem sabe que tipo de morcegos sairá do caixão? Uma coisa que podemos fazer é localizar os futuros Khadafis e Saddams que estamos a criar neste momento - os futuros sádicos das câmaras de tortura.

 

E depois da Tunísia, depois do Egipto, tem que ser a Líbia, não tem? Os árabes da África do Norte estão a exigir liberdade, democracia, libertação da opressão. Sim, isso é o que têm em comum. Mas o que estas nações têm em comum também é que fomos nós, o Ocidente, que alimentamos as suas ditaduras década após década após década. Os franceses andaram aos abraços com Ben Ali, os americanos fizeram festas a Mubarak e os italianos trataram bem de Khadafi até que o nosso próprio glorioso líder [Tony Blair] o foi ressuscitar de entre os mortos políticos.

 

Seria por isto, interrogo-me, que não ouvimos falar de Lord Blair de Isfahan recentemente? Sem dúvida que deveria estar ali, aplaudindo com júbilo uma outra intervenção humanitária. Talvez só esteja a descansar num intervalo. Ou talvez, como os dragões no «Reino das fadas» de Spenser, esteja a vomitar em silêncio panfletos católicos com todo o entusiasmo de um Khadafi em pleno jorro.

 

Então saquemos a cortina só um pouco e olhemos a escuridão por atrás dela. Sim, Khadafi está completamente balhelhas, descabelado, um chanfrado ao nível de Ahmadinejad do Irão ou de Lieberman de Israel - que uma vez, a propósito, se pôs com baboseiras sobre como Mubarak podia «ir para o inferno», mas tremeu de medo quando Mubarak foi de facto atirado nessa direcção. E existe um elemento racista em tudo isto.

 

O Médio Oriente parece produzir estes pândegos – ao contrário da Europa, que nos últimos cem anos, só produziu Berlusconi, Mussolini, Estaline e aquele tipo baixinho que tinha sido cabo na infantaria da reserva do 16° regimento bávaro e que realmente ficou marado quando foi eleito chanceler em 1933 - mas agora estamos a voltar a limpar o Médio Oriente e podemos esquecer o nosso próprio passado colonial neste recreio. E por que não, quando Khadafi diz ao povo de Bengasi que «iremos 'zenga, zenga' (ruela a ruela), casa a casa, quarto a quarto». Sem dúvida isto é uma intervenção humanitária que é mesmo, mesmo, mesmo uma boa ideia. Ao fim e ao cabo não haverá «tropas no terreno».

 

[Continua aqui]


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

 

 

Depois da queda do Muro de Berlim, perante a vitória de um dos lados de uma contenda que durava há décadas, institui-se a ideia de que aquilo era uma chegada. A tese do fim da história era apenas a versão absurda de uma ideia difusa: acabara a necessidade de fazer compromissos. E a arrogância rapidamente se espalhou por todos os domínios da vida coletiva. Instalou-se a ideia de que tudo era possível. Depois de décadas de paranóia, que a guerra fria alimentou, perdeu-se de novo a noção do risco e da precariedade da condição humana.

 

O mercado podia tudo e os instrumentos reguladores eram apenas um entrave ao enriquecimento dos povos. O Estado Social era passadista. Os EUA representavam um império benigno e não apenas uma potência que, como todas as potências, democráticas ou não, subjuga as restantes se não tiver travão. O direito internacional era, por isso, dispensável. Os recursos eram inesgotáveis e nada de mau nos podia acontecer.

 

Nesta adolescência tardia, o capitalismo entrou numa nova fase: a da destruição de todos os adquiridos do século XX. E a destruição da memória de um século marcado por duas guerras mundiais. Criou-se um clima de irresponsabilidade que tratou de pôr à defesa todos os que, em maior ou menor grau, consideram que sem a noção do risco a humanidade é naturalmente autodestrutiva.

 

A arrogância dos vitoriosos foi abalada várias vezes. Com Chernobyl. Com a globalização sem freio. Com o 11 de Setembro. Com a guerra do Iraque. Com os dados irrefutáveis sobre as alterações climáticas. Com a crise alimentar. Com a crise do subprime.

 

Como um bêbado eufórico, a realidade parece não afectar nenhuma certeza. A resposta ao terrorismo foi a arrogância irresponsável do Império. A ideia de civilizar os bárbaros, à força se preciso for, voltou a ser dominante. Aos perigos da globalização respondeu-se com globalização sem regulação. O que se sabia sobre o papel humano nas alterações climáticas foi tratado como alarmismo de quem precisava de novas narrativas do medo. Os efeitos devastadores da desregulação dos mercados não passavam de episódios de gente sem escrúpulos. Um caso de política era apenas um caso de polícia. Não percebemos que o capitalismo financeiro é demasiado complexo e imprevisível para os instrumentos reguladores que podemos conceber.

 

Foi neste clima de excitação seguido de negação, em que todos os perigos foram ignorados, que o nuclear deixou de ser debate. A fé nos mercados, na globalização e no papel civilizador do Ocidente é também uma fé na tecnologia. Num mundo onde tudo está bem já não precisamos do debate político. Ele só pode travar o progresso. Vivemos várias vezes, na História, esta sensação de auto-suficiência, em que ideologias totais justificam todos os erros com a sua própria superioridade indiscutível. Foi isso mesmo que aconteceu com o comunismo. Há, aliás, muitos paralelos entre ele e a fúria neoliberal: o mesmo desprezo pelo sofrimento humano em nome de um bem mais precioso, a mesma arrogância moral, a mesma tentação para a engenharia social, a mesma fé inquebrantável no progresso e na tecnologia, a mesma irredutibilidade perante os limites do Planeta e do Homem (ou seja, os limites da realidade).

 

Debater os perigos do nuclear continha, deste ponto de vista, todos os pecados: aceitar os riscos inerentes ao progresso tecnológico, ter o bem-estar como critério mais importante do que o lucro, assumir que homem depende de recursos finitos, debater modos de vida que têm no consumo sem limites o seu motor, falar de sustentabilidade e não apenas de crescimento. A resposta era mais uma vez esta: com a tecnologia que temos hoje não há perigo que nos possa travar.

 

O desastre de Fukushima fez-nos mais uma vez pensar: o nuclear é uma metáfora da nossa irresponsabilidade e da nossa profunda arrogância enquanto espécie. Uma metáfora poderosa. Porque, ao contrário de quase todos os perigos, os efeitos de um desastre nuclear prolongam-se no tempo muito para lá da vida de quem os presenciou.

 

Ainda não será desta que aprendemos. Quando estamos neste estado não ligamos aos avisos. Como não ligámos ao aviso do 11 de Setembro ou da crise do subprime. Só uma tragédia que nos faça temer pela nossa sobrevivência e que crie um trauma coletivo nos fará acordar. A última vez que vivemos um episódio dessa magnitude foi com o Holocausto e com Hiroxima. Percebemos que somos apenas humanos. Seres frágeis a fazer de deuses. E que, de muito em muito tempo, percebem que o que conseguem construir é demasiado poderoso para o que podem suportar.

 

Sem ser apocalíptico, os sinais repetem-se. Depois da bebedeira virá a ressaca. Não é castigo. É uma espécie de lembrete que nos põe no lugar da nossa irrelevância. Esta conversa parece religiosa? Talvez. Afinal de contas, a religião não é mais do que um ordenamento compreensível das nossas angústias.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 22 de Março de 2011
por Daniel Oliveira

 

Imagem roubada a Bico de Gás


por Daniel Oliveira
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