Sábado, 30 de Abril de 2011
por Miguel Cardina


por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (12) | partilhar

por Miguel Cardina


por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (23) | partilhar

Sexta-feira, 29 de Abril de 2011
por Daniel Oliveira

Lello diz que Cavaco é foleiro. Nogueira Leite diz que Lello é um cibernabo. Lello diz que Nogueira Leite quer abifar uns tachos. Deve ser disto que falam quando falam de crispação. E esta crispação compreende-se. São os foguetes que animam uma festa morna. Enquanto a União Europeia e o FMI escrevem o verdadeiro programa eleitoral do PS e do PSD, aquele que ambos se preparam para aceitar sem um sinal de resistência, há que continuar a fingir que há um confronto político.

 

A ver se nos entendemos: dá imenso jeito, por exigir menos informação e menos reflexão, acreditar que a nossa situação se resume a uma questão de carácter dos intervenientes políticos. É confortável pensar que estamos como estamos porque o Presidente da República é "foleiro", o primeiro-ministro é "aldrabão", o líder do PSD é "um banana" e todos eles estão rodeados de gente que quer "abifar uns tachos". Esta narrativa permite não discutir política, não discutir economia, não discutir Europa. Permite que os atores políticos não apresentem alternativas entre si e que os cidadãos não se dêem ao trabalho de pensar nelas. Tudo se resume a qualidades pessoais.

 

Nada tenho contra a crispação política. Pelo contrário. Nos tempos que correm, com a injustiça evidente na distribuição de sacrifícios, com o egoísmo a corroer a Europa por dentro, com o assalto das instituições financeiras aos cofres públicos, com a suspensão de várias democracias europeias, fazia falta um sobressalto cívico. Mais crispação e menos anemia democrática. Mas a crispação que falta é política. Querem insultar-se? Insultem-se. Mas com conteúdo, se fazem favor.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (27) | partilhar

por Miguel Cardina

 

O programa do PS agora apresentado é um mau truque de ilusionismo. O editorial do Público de ontem chama-lhe «um programa igual a um carro usado» e nota como as medidas avulsas, genéricas e requentadas ali apresentadas são «um sintoma de esgotamento típico de um fim de ciclo». Parece-me uma caracterização acertada. Aspecto importante: desaparecem grande parte das medidas contidas no PEC IV, que Sócrates tão arrebatadoramente defendeu e cujo chumbo considerou uma manobra lesa-pátria das oposições unidas. Sobretudo medidas que o eleitorado tradicional de esquerda poderia ver com maus olhos, como o congelamento de salários na função pública, os cortes nas pensões e o aumento do IVA. Não é a primeira vez que em momentos eleitorais vemos o PS tentar passar a imagem de que é diferente do que tem sido no poder.

 

Mas desta vez a coisa corre o risco de parecer ainda mais anacrónica. É que um dos elementos mais curiosos do programa é a inexistência de referências ao FMI, que verdadeiramente irá fazer o programa do futuro governo. José Sócrates e Pedro Passos Coelho, com a bênção de Cavaco e da banca portuguesa, governarão com o programa de austeridade desenhado pela troika. E governarão muito provavelmente coligados, caso as sondagens estejam certas e a preferência do parceiro de aliança se mantenha inalterada. Estamos, pois, diante de uma jogada de ilusionismo de baixo calibre. Quando a 16 de Maio for apresentado o pacote FMI e os líderes do PS e PSD forem obrigados a entender-se com base nessa plataforma, a audiência terá diante dos olhos aquilo que já é evidente para todos: o truque desvendado. Sócrates de mão dada com Passos Coelho ao mesmo tempo que procura sacar com a outra mão a rosa escondida na manga do casaco. Convencerá alguém?

 

* Texto inicialmente publicado no Blogue de Esquerda, da revista Sábado, onde estarei nestes dias a participar na "Semana do Blogger Convidado". Deixo um agradecimento especial à Marta Rebelo pelo convite e uma sugestão para que passem por lá.

tags: ,

por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
por Daniel Oliveira

 

 

Enquanto o debate político português continua centrado no seu próprio autismo - dedicado à autoflagelação e ignorando a crise europeia -, estão a acontecer coisas interessantes. Duas, por agora: a lenta agonia espanhola e a ameaça de reestruturação da dívida grega. Basta que a última aconteça para a queda de Espanha ser uma questão de dias. E depois dela, o contágio a Itália e à Bélgica.

 

Este efeito dominó acabará por criar uma situação financeira, mas também política, absolutamente nova. Com a queda de dois grandes a Europa será mesmo obrigada a reagir. O egoísmo alemão terá de fazer uma escolha: ou muda de rumo ou prepara a morte do euro e da União Europeia. E a segunda escolha terá um preço de tal forma arrasador para os alemães - sempre foram os que mais ganharam com a moeda única - que nem é sequer uma alternativa para quem não queira ficar na história como o chanceler que matou a economia alemã.

 

Se este cenário se confirmar - e cada vez mais sinais apontam para aí -, os seus efeitos dependerão da rapidez de uma reação europeia. Se for, como tem sido, a passo de caracol, estamos todos tramados. O barco vai ao fundo e ninguém se salva. Se for, por pressão dos gigantes em queda, rápida, talvez haja futuro para a Europa. E talvez haja futuro para Portugal.

 

Triste situação é esta, em que a nossa sobrevivência depende da desgraça alheia. Triste Europa é esta, que só acordará no dia do Apocalipse. Tristes líderes políticos são estes, tão dependentes dos poderes financeiros que só pensarão no futuro quando a tragédia lhes bater à porta.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (15) | partilhar

por Pedro Vieira

 

 

 


por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Quarta-feira, 27 de Abril de 2011
por Daniel Oliveira

 

Com a contenção cega (há outra, racional) da despesa pública, as empresas de transportes estão virtualmente falidas. Uma das medidas que pode vir aí é um acentuado aumento dos preços para os utentes.

 

Que fique claro que não acho que a gestão destas empresas esteja livre de críticas. Pelo contrário. A irracionalidade de muitos investimentos e a má gestão da coisa pública é evidente. Mas não valem comparações com o sector privado. Graças aos desastrosos contratos feitos a quando da privatização a retalho da Rodoviária Nacional e a absurdas concessões - em que o Estado garante que acaba sempre por ficar com prejuízo -, ele fica apenas com o filet mignon. Assim é fácil ter resultados. Ao Estado cabe mais do que isso, apesar de tantas vezes o ignorar. O problema não é o dinheiro que se gasta nas empresas públicas de transportes. Esse poderia ser traduzido em ganhos para a economia.  É pena esse dinheiro nem sempre ser gasto com eficácia.

 

O aumento dos preços dos transportes não é apenas socialmente insustentável. É economicamente irresponsável. Parece que vamos poupar, mas a decisão trará prejuízo. Cinco consequências óbvias:

 

1 - Desencoraja os cidadãos a usar os transportes públicos, daí resultando a continuação da utilização do transporte individual, que, para além de exigir a manutenção de infraestruturas mais caras, aumenta a nossa dependência energética. Consumir menos energia um imperativo económico (e ambiental). E transportes coletivos acessíveis são condição para esse objetivo nacional.

 

2 - Transportes coletivos mais caros aumentam os custos da distância, reduzem a competitividade de regiões mais isoladas, aumentam a pressão sobre os grandes centros urbanos e contribuem para o desordenamento do território. Os efeitos não se medem apenas em custos sociais - pobreza, segurança, saúde publica - que o Estado terá de pagar. Os efeitos económicos são profundos e duradouros.

 

3 - Mais carros nas ruas é mais engarrafamentos e mais tempo perdido. Mais tempo perdido tem efeitos na produtividade. Se o argumento da qualidade de vida dos cidadãos já não chega, que se tenha em conta este.

 

4 - Transportes mais caros aumentam os custos do trabalho. Ou ele se reflete nos salários - porque é mais caro ir trabalhar - ou, na ausência de poder negocial, esse custo é transferido para o trabalhador. Mas, seja quem for que pague, não deixa de ser um aumento do custo da mão de obra.

 

5 - Aumentando esta despesa - que para quem trabalha ou estuda não é dispensável -, reduz-se o dinheiro disponível para as famílias poderem poupar, agravando assim o nosso endividamento externo crónico.

 

Conclusão: o aumento dos preços dos transportes agrava todos os problemas que nos impediram de resistir a esta crise internacional. Tem efeitos negativos na competitividade, na produtividade, no crescimento e na poupança. Tem-se dito que temos governado sempre a pensar no curto-prazo e sem planear o futuro. Mas desse consenso nacional - talvez o único - não se tira nenhuma conclusão e repete-se o erro.

 

Diz-se muitas vezes que todos concordam no diagnóstico e que o problema são as soluções. Errado. O diagnóstico que tem sido feito é que Portugal tem um problema com as suas despesa e dívida públicas. E, dito isto, as medidas que se avançam destinam-se a resolver esse problema. Na realidade, como as contas públicas não vivem divorciadas da situação económica, que afeta as receitas, não o resolvem. Mas acontece que o principal problema do País não é de finanças publicas. A nossa dívida pública está, esteve quase sempre, na média europeia (ou abaixo dela). O nosso drama, aquilo em que nos distinguimos dos parceiros europeus, é a dívida externa, principalmente privada. Esse endividamento externo resulta de um modelo de desenvolvimento insustentável, de um crescimento anémico e de pouca poupança privada. E este é um bom exemplo de uma medida que agravará todos estes problemas estruturais.

 

O diagnóstico não está errado por ausência de conhecimento. Todos sabem dos números. É por teimosia ideológica de quem prefere ignorar a realidade e para alimentar um processo global de saque aos cofres públicos - os nossos sacrifícios ajudarão à recapitalização uma banca gerida com irresponsabilidade - que trabalhamos com base num diagnóstico enviesado do qual resultam medidas irracionais.

Não posso, por isso, deixar de sorrir quando se pede unidade nacional em torno dos sacrifícios que nos vão ser exigidos, quando desses sacrifícios não só não resultará a solução para os nossos problemas como, ao que tudo indica, eles se agravarão. Perante o precipício, pede-se unidade para dar um passo em frente.

 

O aumento do preço dos transportes é uma boa metáfora do suicídio a que nos vamos entregar. Daqui a vinte anos estaremos a lamentar a cegueira que agora nos guia. Como fazemos hoje em relação a muitas das decisões que tomámos há vinte anos. E então, como agora, muitos dirão que é tarde para chorar sobre o leite derramado. E então, como agora, iremos remendar os erros do passado. E assim continuaremos, de inevitabilidade em inevitabilidade, até à inevitabilidade final.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (80) | partilhar

Terça-feira, 26 de Abril de 2011
por Miguel Cardina

José Manuel Fernandes leu no seu antigo jornal uma reportagem baseada na tese de doutoramento de Raquel Varela sobre a acção do PCP em 1974-75 e não apreciou o teor da peça.  O ex-director do Público lançou-se então numa tosca busca googliana e - vileza suprema! perversão imunda! - descobriu que a historiadora também tem currículo político. Esta estranha ideia de que historiadores não podem ter activismos sociais ou políticos já foi muito bem escalpelizada pelo Zé Neves. É de facto curioso perceber como os nossos autoproclamados liberais, no momento em que deveriam sê-lo - o que neste caso passaria por se sentar numa poltrona, com um copo de uisque ao lado e a gravata ligeiramente desapertada, a ler atenta e criticamente o livro da Raquel Varela - optam por anatemizar o outro à boa maneira estalinista. Onde antes estavam a classe social e os inimigos do povo, hoje está a militância (desde que seja à esquerda). Há coisas fantásticas, não há?


por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (31) | partilhar

por Miguel Cardina

 

 

 

tags: ,

por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

 

O senhor Diogo Leite Campos quer acabar com os subsídios - subsídio de renda ou abono de família - sem saber onde realmente gastam os beneficiários o dinheiro. Não deixa de ser um raciocínio económico estranho, já que a despesa - os filhos ou a casa - estão lá. Para resolver o problema, quer fazer como se faz com os mendigos: dá-se-lhes uma sandes em vez do dinheiro. Através de um cartão de débito e recorrendo a instituições de caridade, como "albergues" ou a "sopa dos pobres". A leitura de Oliver Twist, de Charles Dickens, pode ajudar a perceber o modelo social de Leite Campo.

Num excelente almoço organizado pela Câmara do Comércio e Indústria Luso Francesa, onde perorou sobre a pobreza, Leite Campos explicou que "quem recebe os benefícios sociais são os mais espertos e os aldrabões e não quem mais precisa".

 

Seria impensável eu dizer que o senhor Leite Campos é um "aldrabão". Longe de mim pôr em causa a honorabilidade de tão distinta figura. Os insultos, já se sabe, são coisa que deixamos para os miseráveis. O direito ao bom nome vem com o cartão de crédito e quem não o traz na carteira só pode deixar de ser suspeito se lhe derem um cartão de débito. Os pobres são, até prova em contrário, mentirosos. Como não insulto o senhor, fica apenas este facto: estando ainda a trabalhar, já recebe uma reforma do Banco de Portugal. Quando se retirar da Universidade de Coimbra, juntará o que recebe já hoje ao que receberá dali. Acumulará duas reformas vindas do Estado.

 

Seria um argumento "ad hominem" atacar o professor Leite Campos, competente fiscalista, por causa das suas duas reformas. Dizer que ele é "esperto" e que gasta recursos do Estado que podiam ir "para quem mais precisa". Espertos são os pobres que ficam com os trocos. Quem consegue acumular reformas por pouco trabalho é inteligente. Os pobres enganam o Estado, os outros têm direitos. Os pobres roubam o contribuinte, os outros têm carreiras. Fico-me por isso pelos factos: a reforma que o senhor Leite Campos recebe do Banco de Portugal resulta de apenas seis anos de trabalho naquela instituição.

 

Cheira-me que se a generalidade dos portugueses recebesse reformas, estando ainda no ativo, por seis anos de trabalho e as pudesse acumular com outras dispensaria bem o abono de família e até o cartão de débito para ir à sopa dos pobres.

Aquilo que realmente está esgotar o crédito da minha paciência é ver tanto "esperto" que vive pendurado nas mordomias do Estado a dar lições de ética aos "aldrabões" que recebem subsidios miseráveis. É mais ou menos como dizia o outro. Já chega. Não gosto de tanto cinismo. É uma coisa que me chateia, pá.

 

Sobre os subsídios, Leite Campos disse: "O dinheiro não é do Estado, é nosso. Quem paga somos nós. Nós, contribuintes, temos direito a ter a certeza que o nosso dinheiro é bem entregue. Eu estou disposto a pagar 95 por cento do que ganho para subvencionar os outros, mas quero ter a certeza que é bem empregue, e que não vai parar ao bolso de aldrabões". Sobre as escandalosas reformas do Banco de Portugal, faço minhas as palavras do vice-presidente do PSD.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (81) | partilhar

Segunda-feira, 25 de Abril de 2011
por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (27) | partilhar

por Daniel Oliveira

No link em baixo, texto do FMI, revisto e não acutualizado, o ano passado, para o Arrastão, por José Mário Branco.


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

por Bruno Sena Martins


por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

Domingo, 24 de Abril de 2011
por Daniel Oliveira

O FMI teve lucros em quatro dos últimos seis anos fiscais - entre 2005 e 2010 - e já reviu em alta de 63 por cento as previsões de resultados operacionais para este ano, graças aos empréstimos aos países europeus em dificuldades. As previsões de 328 milhões de SDR (524,8 milhões de dólares, ao câmbio de hoje) comparam com projeções iniciais de 202 milhões de SDR, feitas em abril de 2010, e refletem os reflexos positivos -- para as contas do fundo -- dos empréstimos à Grécia e à Irlanda, sem contar ainda com o empréstimo a Portugal, cujo valor ainda não foi fixado. Os novos empréstimos, aprovados depois de abril de 2010, incluindo os 30 mil milhões de euros à Grécia e os 22,5 mil milhões à Irlanda, "fizeram aumentar as previsões de resultados de crédito em cerca de 102 milhões de SDR [163,2 milhões de dólares], incluindo 74 milhões de SDR em taxas de serviço e 28 milhões nas margens da taxa de juro cobrada", refere um recente relatório financeiro do FMI. Aqui


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (66) | partilhar

Sábado, 23 de Abril de 2011
por Miguel Cardina

 

Da Gui, claro.

tags:

por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (20) | partilhar

Sexta-feira, 22 de Abril de 2011
por João Rodrigues

"Troika" receptiva à descida do IVA no golfe. Bancos vão ter dinheiro do Estado para passar stress.


por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (20) | partilhar

por Sérgio Lavos

 

 

 Uma das bandas resistentes da britpop anos 90 é também uma das mais subvalorizadas desta e de todas as décadas. Os Supergrass começaram por ser um conjunto de adolescentes com mais acne do que originalidade musical, mas sempre tiveram um jeito especial para melodias que fazem lembrar o melhor do rock clássico, dos Rolling Stones aos Beatles, passando pelo mais britânico Paul Weller e todos os projectos por onde este passou. Música para ouvir descontraidamente, sem pretensões mas com bastante ritmo, melhores do que os Oasis sem fazerem nada por isso, um swing fabuloso. Moving é um excelente exemplo de tudo isto. 


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (3) | partilhar

por Miguel Cardina

Aqui fica, na íntegra, o manifesto dos 74 nascidos depois do 25 de Abril. Afirmam não se resignar com a erosão do património material e simbólico decorrente dessa ruptura democrática e consideram que nos dias de hoje se configura uma séria ofensiva que exige uma mobilização cidadã equivalente. Vale a pena ler:

 

O inevitável é inviável: Manifesto dos 74 nascidos depois de 74

 

Somos cidadãos e cidadãs nascidos depois do 25 de Abril de 1974. Crescemos com a consciência de que as conquistas democráticas e os mais básicos direitos de cidadania são filhos directos desse momento histórico. Soubemos resistir ao derrotismo cínico, mesmo quando os factos pareciam querer lutar contra nós: quando o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusava uma pensão ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, e a concedia a torturadores da PIDE/DGS; quando um governo decidia comemorar Abril como uma «evolução», colocando o «R» no caixote de lixo da História; quando víamos figuras políticas e militares tomar a revolução do 25 de Abril como um património seu. Soubemos permanecer alinhados com a sabedoria da esperança, porque sem ela a democracia não tem alma nem futuro.

 

O momento crítico que o país atravessa tem vindo a ser aproveitado para promover uma erosão preocupante da herança material e simbólica construída em torno do 25 de Abril. Não o afirmamos por saudosismo bacoco ou por populismo de circunstância. Se não é de agora o ataque a algumas conquistas que fizeram de nós um país mais justo, mais livre e menos desigual, a ofensiva que se prepara – com a cobertura do Fundo Monetário Internacional e a acção diligente do «grande centro» ideológico – pode significar um retrocesso sério, inédito e porventura irreversível. Entendemos, por isso, que é altura de erguermos a nossa voz. Amanhã pode ser tarde.

 

O primeiro eixo dessa ofensiva ocorre no campo do trabalho. A regressão dos direitos laborais tem caminhado a par com uma crescente precarização que invade todos os planos da vida: o emprego e o rendimento são incertos, tal como incerto se torna o local onde se reside, a possibilidade de constituir família, o futuro profissional. Como o sabem todos aqueles e aquelas que experienciam esta situação, a precariedade não rima com liberdade. Esta só existe se estiverem garantidas perspectivas mínimas de segurança laboral, um rendimento adequado, habitação condigna e a possibilidade de se acederem a dispositivos culturais e educativos. O desemprego, os falsos recibos verdes, o uso continuado e abusivo de contratos a prazo e as empresas de trabalho temporário são hoje as faces deste tempo em que o trabalho sem direitos se tornou a norma. Recentes declarações de agentes políticos e económicos já mostraram que a redução dos direitos e a retracção salarial é a rota pretendida. Em sentido inverso, estamos dispostos a lutar por um novo pacto social que trave este regresso a vínculos laborais típicos do século XIX.

 

O segundo eixo dessa ofensiva centra-se no enfraquecimento e desmantelamento do Estado social. A saúde e a educação são as duas grandes fatias do bolo público que o apetite privado busca capturar. Infelizmente, algum caminho já foi trilhado, ainda que na penumbra. Sabemos que não há igualdade de oportunidades sem uma rede pública estruturada e acessível de saúde e educação. Estamos convencidos de que não há democracia sem igualdade de oportunidades. Preocupa-nos, por isso, o desinvestimento no SNS, a inexistência de uma rede de creches acessível, os problemas que enfrenta a escola pública e as desistências de frequência do ensino superior por motivos económicos. Num país com fortes bolsas de pobreza e com endémicas desigualdades, corroer direitos sociais constitucionalmente consagrados é perverter a nossa coluna vertebral democrática, e o caldo perfeito para o populismo xenófobo. Com isso, não podemos pactuar. No nosso ponto de vista, esta é a linha de fronteira que separa uma sociedade preocupada com o equilíbrio e a justiça e uma sociedade baseada numa diferença substantiva entre as elites e a restante população.

 

Por fim, o terceiro e mais inquietante eixo desta ofensiva anti-Abril assenta na imposição de uma ideia de inevitabilidade que transforma a política mais numa ratificação de escolhas já feitas do que numa disputa real em torno de projectos diferenciados. Este discurso ganhou terreno nos últimos tempos, acentuou-se bastante nas últimas semanas e tenderá a piorar com a transformação do país num protectorado do FMI. Um novo vocabulário instala-se, transformando em «credores» aqueles que lucram com a dívida, em «resgate financeiro» a imposição ainda mais acentuada de políticas de austeridade e em «consenso alargado» a vontade de ditar a priori as soluções governativas. Esta maquilhagem da língua ocupa de tal forma o terreno mediático que a própria capacidade de pensar e enunciar alternativas se encontra ofuscada. Por isso dizemos: queremos contribuir para melhorar o país, mas recusamos ser parte de uma engrenagem de destruição de direitos e de erosão da esperança. Se nos roubarem Abril, dar-vos-emos Maio!

 

Alexandre de Sousa Carvalho – Relações Internacionais, investigador; Alexandre Isaac – antropólogo, dirigente associativo; Alfredo Campos – sociólogo, bolseiro de investigação; Ana Fernandes Ngom – animadora sociocultural; André Avelãs – artista; André Rosado Janeco – bolseiro de doutoramento; António Cambreiro – estudante; Artur Moniz Carreiro – desempregado; Bruno Cabral – realizador; Bruno Rocha – administrativo; Bruno Sena Martins – antropólogo; Carla Silva – médica, sindicalista; Catarina F. Rocha – estudante; Catarina Fernandes – animadora sociocultural, estagiária; Catarina Guerreiro – estudante; Catarina Lobo – estudante; Celina da Piedade – música; Chullage - sociólogo, músico; Cláudia Diogo – livreira; Cláudia Fernandes – desempregada; Cristina Andrade – psicóloga; Daniel Sousa – guitarrista, professor; Duarte Nuno - analista de sistemas; Ester Cortegano – tradutora; Fernando Ramalho – músico; Francisca Bagulho – produtora cultural; Francisco Costa – linguista; Gui Castro Felga – arquitecta; Helena Romão – música, musicóloga; Joana Albuquerque – estudante; Joana Ferreira – lojista; João Labrincha – Relações Internacionais, desempregado; Joana Manuel – actriz; João Pacheco – jornalista; João Ricardo Vasconcelos – politólogo, gestor de projectos; João Rodrigues – economista; José Luís Peixoto – escritor; José Neves – historiador, professor universitário; José Reis Santos – historiador; Lídia Fernandes – desempregada; Lúcia Marques – curadora, crítica de arte; Luís Bernardo – estudante de doutoramento; Maria Veloso – técnica administrativa; Mariana Avelãs – tradutora; Mariana Canotilho – assistente universitária; Mariana Vieira – estudante de doutoramento; Marta Lança – jornalista, editora; Marta Rebelo – jurista, assistente universitária; Miguel Cardina – historiador; Miguel Simplício David – engenheiro civil; Nuno Duarte (Jel) – artista; Nuno Leal – estudante; Nuno Teles – economista; Paula Carvalho – aprendiz de costureira; Paula Gil – Relações Internacionais, estagiária; Pedro Miguel Santos – jornalista; Ricardo Araújo Pereira – humorista; Ricardo Lopes Lindim Ramos – engenheiro civil; Ricardo Noronha – historiador; Ricardo Sequeiros Coelho – bolseiro de investigação; Rita Correia – artesã; Rita Silva – animadora; Salomé Coelho – investigadora em Estudos Feministas, dirigente associativa; Sara Figueiredo Costa – jornalista; Sara Vidal – música; Sérgio Castro – engenheiro informático; Sérgio Pereira – militar; Tiago Augusto Baptista – médico, sindicalista; Tiago Brandão Rodrigues – bioquímico; Tiago Gillot – engenheiro agrónomo, encarregado de armazém; Tiago Ivo Cruz – programador cultural; Tiago Mota Saraiva – arquitecto; Tiago Ribeiro – sociólogo; Úrsula Martins – estudante

tags:

por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (59) | partilhar

Quinta-feira, 21 de Abril de 2011
por Sérgio Lavos

 

O cerco aperta. O desespero cresce. A esperança diminui. Parece não haver um fundo para o poço. Estaremos perdidos em breve.

 

A psicose milenarista cavalga as vagas da crise nacional. Claro que sabemos como tudo começou, e no fundo desconfiamos de uma ou outra solução mais justa e, sobretudo, realista, para sairmos do buraco onde nos metemos, mas preferimos a angústia de um futuro inexistente a qualquer ideia diferente das que nos são impostas pelos malagridas dos jornais e das TV’s. Basbaques olhando para o ar esgazeado de Medina Carreira, zombies delirando perante as apocalípticas palavras de Vasco Pulido Valente, renovamos a nossa desconfiança diariamente. Merecemos os arautos da desgraça. O conforto da desistência é uma doce almofada onde repousamos a cabeça. Se a solução não passou pelos sucessivos PEC’s, se não passará pela intervenção da UE e do FMI, então que se lixe, cairemos sem honra nem glória. Mas aproveitemos enquanto dura. Gastemos o pouco que nos resta nas parcerias público-privadas da nossa vidinha. Enchamos os hotéis do nosso Allgarve, viajemos, escapemos ao estertor da crise embriagados pela réstia de tédio existencial a que temos direito, consumamos, amemos os produtos que um dia irão escassear.

 

Sempre acreditando no que o sistema tem para nos oferecer, aceitando a santa palavra dos gurus que nos trouxeram aqui. Cada remendo na economia é um bálsamo que sabemos não ir resultar, mas cremos, como cremos. Cremos porque queremos continuar a saber que a desgraça é nossa culpa, e porque no fundo desconfiamos das medidas que nos dizem salvadoras. Como desconfiamos, anuimos. Se a Grécia está no abismo do FMI, é esse o caminho que queremos seguir. Se a Irlanda tem de pagar o preço do salvamento dos bancos, então nós também temos. Tanta auto-indulgência faz bem ao ego estilhaçado do país.

 

E mais um cheiro de desgraça, mais um prego no caixão desta indulgência, este texto. Não é o que escrevo melhor nem pior do que a média nacional (ainda que a média nacional seja no fundo bem superior à média mundial ou mesmo europeia). Habituado que estou à praga catastrofista, embarco de bom grado nela; porque, lá está, não sou melhor do que a média. E produzo? Certamente, mas nunca o suficiente. Talvez mais do que a média, mas poderei eu dizer que aqueles que nos governaram e governam são piores ou mais incompetentes do que a média? Ninguém sabe. Os vícios dos políticos são outros, não tanto a preguiça. Acredito piamente no esforço, na dedicação, no suor dos nossos governantes. Que esse esforço seja quase sempre mal direccionado, muitas vezes mal-intencionado e amiúde certamente criminoso, pormenores da história. A culpa será sempre nossa; a democracia é tão tramada como o regime psicanalítico da moral judaico-cristã. O pecado original do português é não se importar em ser mal governado. Sentimos culpa por termos um pouco mais que os nossos pais, e sabemos que, no fundo, não o merecemos. É bem feito que uns senhores chegados de avião no meio do nevoeiro que cobre o país nos venham tirar o que fomos acumulando. Resgatar-nos do nosso mediano comodismo. É a maldita culpa.

 

Contudo, rejubilemos. No entanto, esperemos – até porque nada mais podemos fazer. Parece que todos os precipícios têm fundo, e certamente que um dia haverá crescimento económico. Se entretanto regredirmos umas décadas em direitos sociais, em conquistas democráticas, é para o nosso bem. A purga é necessária. O caminho é apenas um, sigamos o próximo Messias. Em direcção ao abismo. Nem que seja.

 

(Texto publicado no Delito de Opinião.)

tags:

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

por Pedro Vieira


por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (23) | partilhar

por Bruno Sena Martins

JOSÉ SENA GOULÃO

Publicado na Liga Aleixo

 

Chegou o dia de ser sincero: depois da derrota no Dragão por não estava à espera de voltar a pôr os olhos no Jamor este ano. A minha estratégia nos dias anteriores à contenda saldou-se pela cobardia do “eles que fiquem com a fruteira”, “não estou interessado em disputar taças na catedral do fascismo”, “o Jorge Jesus é uma boa pessoa”. Enfim, tentei enganar-me com todos os artifícios e mentiras que me permitissem confrontar com a dificuldade de virar uma desvantagem de dois golos. Sejamos claros, a única forma de o Porto se classificar passava por marcar 3 golos na Luz com o Roberto no banco.

 

Valeu-nos a exorbitante confiança de uma equipa que tem em João Moutinho o seu capitão moral. A certa altura, a cada recuperação de bola eu dava por mim a entornar a cerveja estupefacto com a capacidade do pequenitates para se interpor no curso normal dos passes falhados pelo Jardel. Digamos apenas que o sofá do Aleixo ficou pejado de Sagres. Mas valeu-nos também a crise de identidade de Jorge Jesus. Jorge Jesus não consegue alimentar a raiva dos jogadores dele contra o Porto por uma razão: ele não consegue ter raiva ao Porto. Convenhamos que não é fácil ter raiva a um clube que — no maior acto de sabotagem da história do futebol — ofereceu 4 milhões de euros pelos seus serviços. No fundo, é como uma mulher manter-se fiel ao seu marido rezingão depois de receber um telefonema do Jude Law para beber um martini na Riviera. Pinto da Costa minou o Benfica pelo “amor em euros” que mostrou a Jorge Jesus (se não estou em erro 4 milhões seria a maior transferência de um treinador da história do futebol). Depois disso bem podia o Rui Gomes da Silva — o hooligan de segunda à noite — debitar ódio semanal, bem podia o Filipe Vieira incensar a vingança do Benfica contra o Benquerença, contra o Guimarães e contra as galáxias pode descobrir. Jorge Jesus não pode tomar parte desse ódio na mesma medida em que nós, narcisicamente, não conseguimos dizer mal de alguém que nos elogia a nosso spaghetti alla carbonara feito com arroz basmati.

 

Mas além do dilema afectivo que Pinto da Costa semeou no empedernido coração de Jesus, há um dilema mais prosaico, um dilema táctico. Jorge Jesus montou a equipa para massacrar com um futebol de "ataque diabólico". Acontece que por questões que se prendem com a resistência do corpo humano ou com a eventual gestão de um resultado favorável, há alturas em que o melhor é abrandar ritmos, gerir energias e, vamos dizê-lo, jogar à defesa. Ora, o plantel do Benfica deve ser o único do mundo que só tem um meio campista de qualidade que sabe defender, chama-se Javi Garcia (pelas razões óbvias não falarei do Airton). Querem uma amostra de meio-campistas que permitem atacar e gerir um resultado: João Moutinho, Belhushi, Fernando, Guarin, Souza. A isto, meus senhores, chama-se um plantel.

 

Portanto, ao contrário do que vai fazendo doutrina, Jorge Jesus não perdeu o jogo por ter jogado à defesa, coisa que não sabe nem se preparou para fazer. Jorge Jesus perdeu o jogo porque, à falta dos argentinos das extremas, abdicou de atacar, isto é, porque abdicou de jogar — facto que fica comprovado pela presença de Aimar no banco ao longo de pacientes 70 minutos. Desde as vitórias nos jogos sem fronteiras em San Marino que não me lembro de ganhar tanto no mesmo sítio. O Estádio da Luz é a prova de que devemos voltar sempre aos lugares onde fomos felizes.


por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (61) | partilhar

por Bruno Sena Martins

Se o Benfica não ganhar a Liga Europa Jorge Jesus vai ter que procurar novo emprego.  


por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (27) | partilhar

por Daniel Oliveira

Por toda a Europa, jornais especializados e muitos colunistas explicam que a intervenção em Portugal, assim como as que aconteceram na Grécia e na Irlanda, apenas destruirá a nossa economia sem conseguir nenhum dos seus supostos objetivos. Em todo o lado, debatem-se estas sucessivas suspensões da democracia. Na Irlanda, os editoriais dos principais jornais, a quando da entrada do FMI, eram de indignação contra a perda de independência. Na Grécia, vimos como o povo se manifestou.

 

Já nem discuto aqui se esta intervenção era inevitável. Quem me lê sabe o que penso sobre o assunto e sobre a repetida ideia de que não há alternativas. Fico-me pelo comportamento de muitos das pessoas que fazem opinião neste País. Nesta fase, assistimos a uma coisa extraordinária: propostas de medidas estruturais para o FMI impor ao País. Isto mesmo. Apelos para que o FMI tome decisões a propósito da reestruturação do Estado, de direitos sociais, de política fiscal.

 

Perceberá esta gente o que está a fazer? Em vez de dirigirem os seus apelos a quem os cidadãos portugueses vão eleger, fazem apelos a organizações internacionais em quem ninguém votou. Em vez de ficarem do lado de quem nos representa, põem-se do lado de quem vem impor medidas. Não se limitam a aceitar a intervenção externa, porque a acham inevitável. Apelam a que estes senhores governem Portugal. Sem o voto de ninguém. Que apliquem o programa que estes colunistas acham o melhor para o País, dispensando a democracia e a opinião da maioria. Convencidos que as suas opiniões e soluções são melhores para Portugal, acham-se com a autoridade para dispensar a opinião do povo.

 

Nunca fui muito dado a patriotismos. Mas duas coisas são certas para mim. A primeira: defendo a soberania democrática. Ela pode ser nacional ou transnacional, na condição de estar suportada pela legitimidade do voto. E se o voto é nacional, a soberania tem de ser nacional. Não votei no FMI. Poderia aceitar - e não aceito - que intervenção do FMI era inevitável. O que nunca aceitarei é que o FMI é o governo do meu País. A segunda: não sendo um fervoroso patriota, quando o meu País está debaixo de um ataque, quando a sua liberdade, a sua soberania democrática e o seu futuro estão em perigo, sei de que lado estou.

 

Por isso, digo sem meias-palavras duas coisas simples. Que os autores destes apelos, que pedem a quem ninguém elegeu para aplicar as medidas estruturais que lhes parecem mais corretas, não acreditam na democracia. Não acreditam no voto. Não acreditam na vontade popular. E quem, quando se está a tentar, com derrota certa, reduzir a amplitude da intervenção externa não sufragada pelo voto, pede que ela seja o mais abrangente possível, está a trair os portugueses. É isto mesmo. Num País que ainda tivesse algum orgulho e dignidade, isto ptovocaria indignação. Aqui, ao ponto a que chegámos, tudo já parece normal.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (42) | partilhar

Quarta-feira, 20 de Abril de 2011
por João Rodrigues

 

Talvez alguém que estude as nossas elites seja capaz de me explicar por que é que em Portugal quanto mais intenso o preconceito de classe subjacente a declarações sobre politicas públicas de gente com responsabilidades, maiores são os benefícios individuais que retiram de um Estado considerado gerador de perversidades. Curiosamente, estas perversidades só atingem as classes subalternas. Leite Campos do PSD é um estudo de caso: o seu conforto não pode ser suficiente para explicar as inanidades sobre o totalitarismo fiscal ou o inovador toma lá mas é um cartão de débito para não gastares tudo em vinho e bolos. 

 

Mudando de assunto ou talvez não. Até agora, o PS bateu todos os recordes nas opacas parcerias público-privadas. Estas agradam muito aos espíritos santos que comandam a economia politica nacional, mas terão de ser bem auditadas e revistas. Passos Coelho, revelando toda a hipocrisia da direita, quer alargar as engenharias políticas do PS a novas áreas e assim talvez bater os seus recordes. Terá chegado o tempo das "parcerias privado-públicas"? Nuno Serra analisa as ideias políticas do PSD no ensino: trata-se sempre de ir ao pote.


por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

por João Rodrigues

 

As declarações com laivos keynesianos de Strauss-Kahn e os alertas de alguma investigação do FMI, a que temos aludido, sobre as consequências económicas negativas da austeridade, sobre a responsabilidade da desigualdade elevada no desencadear da crise ou sobre a eventual necessidade de controlos de capitais para desencorajar a especulação nos países em desenvolvimento, não devem iludir, como sublinha Mark Weisbrot no The Guardian, a questão dos interesses que comandam as operações concretas do FMI, que têm acabado sempre por convergir com a máxima ortodoxia da CE-BCE por essa Europa fora: acima dos governos do centro só mesmo a Goldman Sachs, a "bancocracia" de que fala hoje Rui Tavares no Público, não sendo aliás por acaso que o inefável Borges foi colocado a chefiar a secção europeia da internacional monetária.

 

O economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, que agora até defende condições financeiras mais realistas nos empréstimos às periferias que vão para os credores, é há muito um dos mais entusiastas defensores de cortes, na ordem dos 20%, dos salários no nosso país. Assim se explica o relaxamento com o desemprego e a obsessão com as regras laborais. Uma prescrição para o desastre da interacção perversa entre deflação e dívida, com muita insolvência e fragilidade financeira à mistura. Entretanto, quem quiser sair deste quadro de terror socioeconómico e ter uma perspectiva mais realista sobre problemas de competitividade das periferias pode ler este artigo no voxeu, que revela o que se esconde por detrás dos custos do trabalho e sobretudo do capital…

 

Publicado no Ladrões de Bicicletas


por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

por Bruno Sena Martins

Tenho dúvidas se a ausência do BE e do PC nas negociações com o FMI terá sido acertada. A minha questão não se prende tanto com o dilema estratégico: valeria a pena legitimimar as negociações para tentar mover umas vírgulas de lugar? Talvez não. Mas lamento pela falta de confiança no proselitismo de esquerda: imagino que as negociações fossem uma excelente oportunidade para tentar converter os senhores do FMI a um projecto revolucionário de esquerda para a extinção do capitalismo predatório. Eu sei, eu sei. Mas maça-me que desistamos de tentar. 


por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (31) | partilhar

por Miguel Cardina


por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (14) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

 

Otelo Saraiva de Carvalho presenteou-nos com mais uma das suas frases de efeito: se soubesse o que sabe hoje não teria feito o 25 de Abril. Três coisas rápidas:

 

A primeira: o 25 de Abril não foi uma prenda de Otelo aos portugueses. Foi obra de muitos outros militares. E foi obra dos portugueses. A democracia não nasceu num dia. Foi construída. E foi construida e defendida por nós. Se ele não tivesse comandado as forças revolucionárias outros o fariam no lugar dele.

 

A segunda: isto não acabou assim. No meio, erguemos um serviço nacional de saúde que, com todos os seus defeitos, até está entre os melhores do mundo; alfabetizámos, construísmo a escola pública, democratizamos o ensino superior; garantimos uma segurança social universal; acabámos com a censura; deixámos de ter presos políticos; abrimos Portugal ao Mundo; e, para o mal ou para o bem, defendemos sempre a nossa democracia, com liberdade e pluralismo. Se Otelo faz um balanço negativo, ele lá saberá o que esperava da revolução.

 

A terceira: não me parece que se a revolução não tivesse acontecido estariamos melhor neste momento. Que tenha de haver gente a explicar isto a Otelo Saraiva de Carvalho só demonstra que o que lhe sobrou em coragem sempre lhe faltou em inteligência política, como se foi notando pelo seu percurso tão repleto de asneiras.

 

A ser verdade este súbito sentimento de Otelo, talvez seja altura de abandonar a parcimónia com que nos dirigimos a ele e dizermos de uma vez por todas o que muitos de nós sentimos demasiadas vezes: se soubéssemos que Otelo seria o que foi depois da revolução também teríamos preferido que tivesse sido outro a comandar as operações no dia 25 de Abril de 1974. Não precisávamos de ir longe. Bastava procurar entre alguns dos militares que o acompanharam naquele dia. De Salgueiro Maia a Melo Antunes, nunca faltou quem provasse ter muito mais sabedoria com muito menos fanfarronice

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (47) | partilhar

Terça-feira, 19 de Abril de 2011
por Daniel Oliveira

Carvalho da Silva defendeu hoje, depois de ter reunido com a troika, que o prazo de redução para o défice português deverá ser prolongado até 2016. Carvalho da Silva sustentou ainda que as taxas de juros cobradas a Portugal não podem ser o «triplo» do que noutros países e que a solução para a crise assenta numa politica «dinamizadora de crescimento económico». «O que nós dissemos é que nós recusamos as medidas de austeridade que condenam o país», afirmou Carvalho da Silva aos jornalistas. A CGTP revela ainda que apresentou medidas concretas para combater a crise, que assentam em três pontos: «Resolver o défice, o endividamento, com crescimento económico e politicas para evitar a ruptura social». «Portugal tem que ter medidas de crescimento económico através da dinamização de um programa nacional, nomeadamente, no sector primário», afirmou dando ainda o exemplo de um combate à economia clandestina. Carvalho da Silva lembrou ainda que nos últimos meses Portugal assistiu a uma quebra da «protecção social que assusta», com quebras na «ordem dos 40 por cento, em sectores como o abono de família».

O líder sindical reforçou que só o crescimento levará Portugal para fora da crise, frisando que «não podemos ter qualquer saída da situação em que estamos comandados pelo sector financeiro», disse. Questionado sobre a atenção da troika às propostas da CGTP, o sindicalista respondeu: «Não vi nenhum deles com os ouvidos tapados, acredito que tenham ouvido».

 

Vídeo aqui


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (29) | partilhar

por Andrea Peniche

 

Movimento FERVE, Precários Inflexíveis, Intermitentes do Espectáculo e M12M (organizadores do protesto Geração à Rasca) lançaram hoje uma iniciativa legislativa popular, que pretende recolher as 35 mil assinaturas que obrigarão o Parlamento a discutir e a votar a Lei Contra a Precariedade laboral. Esta lei pretende combater a precariedade em três das suas vertentes mais comuns e injustas: os falsos recibos verdes, as contratações a prazo e o trabalho temporário.

 

Para assinar e recolher assinaturas, informe-se aqui.


por Andrea Peniche
link do post | comentar | ver comentários (7) | partilhar

por Sérgio Lavos

Deveriam ter o BE e o PCP aceitado encontrar-se com a troika infernal do FMI? Haverá questionáveis razões calculistas que terão levado à decisão dos partidos, mas julgo que a questão dos princípios terá sido essencial. O FMI é a mais horrenda extensão das políticas do austeritarismo prosseguidas pelo PS e apoiadas por PSD e CDS. A recusa do BE e do PCP em ouvirem o FMI não significa, ao contrário do que alguns de direita querem fazer crer, que estes partidos se coloquem de fora do processo democrático. Estão fora, sim, das políticas económicas que levarão o país ao descalabro económico. Portanto, uma posição de princípio. Participar no processo democrático, neste caso, significa recusar o diálogo com os nossos carrascos e encontrar outras formas de lutar contra as imposições de fora que apenas vão reforçar as políticas erradas que conduziram o país ao descalabro. Democracia, lamentamos, não é sinónimo de liberalismo económico selvagem. Estiveram muito bem os dois partidos nesta situação, e poderá este ter sido o empurrão decisivo em direcção a uma verdadeira política de protesto contra o pensamento único ultraliberal.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (23) | partilhar

por Pedro Vieira

desta vez apresentando três vidas de santos e mais uma, pelo menos até 1984. garantia de Zink.


por Pedro Vieira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Hoje, dia 19, às 19.00, na livraria Almedina, em Lisboa (Atrium Saldanha), eu e João Pinto e Castro comentaremos "Um Tratado sobre os Nossos Actuais Descontentamentos", de Tony Judt.


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

por Daniel Oliveira

Os representantes do BCE, da Comissão Europeia e do FMI convidaram todos os partidos para reuniões. Tratava-se de uma oportunidade para fazer chegar a quem vai intervir neste País durante os próximos anos a voz, as propostas, o aplauso ou a indignação dos portugueses. De todos os portugueses. De aceitar ou recusar esta forma de intervir nas economias. De aceitar o veneno que nos vai ser oferecido ou de apresentar alternativas. De mostrar a quem votou nos vários partidos que não se desistiu completamente da soberania e que os eleitos ainda os representam. De dizer aos cangalheiros do País quais serão as consequências sociais e políticas - as económicas eles conhecem de ginjeira - do pacote que se preparam para apresentar.

 

Um quinto dos eleitores não se fez ouvir. Bloco de Esquerda e PCP decidiram  não comparecer.

 

Porque não se encontram com o inimigo? Desde quando só se fala com aliados? Dizem que cabe ao governo negociar. Verdade. Mas não cabe à oposição de esquerda aproveitar esta oportunidade para dizer de sua justiça? Prefere ficar calada? Vai deixar que os partidos do bloco central repitam que são os únicos a querer lidar com a realidade? As pessoas estão assustadas e desesperadas. Todos os sinais de esperança, que só a apresentação de alternativas pode dar, são poucos. E qualquer sinal de irresponsabilidade será mal recebido.

 

Ir a este encontro com o BCE, Comissão Europeia e FMI não mudaria nada? Não os convenceriam de nada? E os nossos protestos convencem? E não temos a obrigação de protestar na mesma? Não perceberão que ao aceitarem que são impotentes dizem aos portugueses que são inúteis? É essa a ideia que querem passar?

 

Os portugueses que votaram nestes partidos não gostariam que eles se batessem, em todos os momentos e lugares, junto de todas as instituições, incluindo os organismos que vão comandar esta intervenção, pelas suas soluções? Que se batessem por juros mais baixos; que dissessem que é inaceitável que em troca do empréstimo o FMI se substitua aos poderes eleitos; que defendessem junto dos representantes europeus na "troyka" um socorro de curto prazo seguido de uma renegociação das condições de pagamento da divida; que mostrassem que uma intervenção cega terá efeitos políticos e sociais que se podem voltar contra a estabilidade do euro.

 

Sabemos que BE e PCP são contra este empréstimo nos moldes e nas condições que foram impostos à Irlanda e à Grécia. Eu também sou e não me canso de o dizer. E lutam calados? Para não se sujarem ao se sentarem na mesma mesa que os representantes do FMI e da União? Nos princípios não se cede. Mas ir a uma reunião não fere qualquer princípio. E nunca se fecha a porta à possibilidade de dizer o que se pensa e a tentar minorar os efeitos de uma derrota. Também é isto a política.

 

O PCP fala para o seu eleitorado fiel. Mas não é assim com os eleitores do Bloco. A ideia é empurra-los para os braços do PS? É facilitar a vida a Sócrates?

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (86) | partilhar

por Ana Mafalda Nunes

É certo que o InoMináFel voltou para nos assombrar… e esta noite parece obra sua.

Hoje é o dia em que Abril, pela primeira vez este ano, dignifica o ditado das águas mil. Os trovões anunciam a morte de outros Pintores do passado e do futuro. No primeiro canal do estado, o Malato oferece dinheiro em troca de respostas. A pobre Rtp2, tem de alojar a cantora das bolas da Santa Casa da Misericórdia, a “old school”  Serenela Andrade. “No dia seguinte”, tudo na mesma… como na semana passada… - é curioso, os comentadores, de cor assumida, só se lembram das outras modalidades quando é para competir vitórias, se a evocação fosse proporcional em verbas dispensadas para além do futebol…- no canal de notícias do estado, (ainda) pago directamente, debatem-se os dramas passados que nos conduzirão à tragédia futura. Ah e hoje a malta que por cá andava em 83 a contribuir para esta cepa torta, foi notificada da possibilidade de não ter natal futuro

Tempestade…Troika…ajuda financeira…Sporting…Euros…Medo!


por Ana Mafalda Nunes
link do post | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Segunda-feira, 18 de Abril de 2011
por Pedro Vieira

 

 

rabiscos vieira

 


por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (9) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

 

O Expresso deu-nos a conhecer um estranho confronto: o FMI queria que o empréstimo a Portugal fosse por mais tempo e com juros mais baixos, de forma a atenuar os efeitos recessivos desta intervenção externa; a União, pelo contrário, quer que o pagamento da dívida seja mais rápido e com juros mais altos, sem olhar ao resultado devastador desta política.

 

Ou seja, são os nossos parceiros europeus que menos se preocupam com a destruição da nossa economia. Tendo como resultado certo, nestas circunstâncias, a bancarrota de Portugal, que se deverá seguir à da Grécia. O que acabará por ter resultados na própria saúde do euro. Chagámos então a este ponto: o maior inimigo da Europa é a própria Europa.

 

Ao que parece, os eleitores dos estados europeus não querem participar no "resgate". A coisa é de tal forma absurda que até os gregos se queixam de ter de pagar os erros dos outros. É o egoísmo que governa a Europa. E como acontece quando o pânico se instala e não há ninguém para liderar, ninguém se vai salvar. Poderia dar-se o caso da recusa em participar nesta intervenção ser um ato de solidariedade para com as vítimas da "ajuda", já que se conhecem os efeitos desta intervenção. Mas não é disso que se trata. Se fosse, não era a Europa a insistir nas piores condições possíveis.

 

Este suicídio europeu resulta do monstro que construimos: temos uma economia europeia, uma moeda europeia e não temos uma democracia europeia. Nenhum poder político legitimado pelo voto responde pelo conjunto dos europeus. Por isso, cada um fala apenas para os seus nacionais. O governo finlandês, por exemplo, cede aos eleitores dos "verdadeiros finlandeses", partido de extrema-direita que obteve ontem quase um quinto dos votos. O egoísmo é o mais estúpido dos instintos perante esta crise europeia. E é respondendo a esta irracionalidade que a Europa se está a desgovernar.

 

Ao aceitarem, também eles, a narrativa infantil que remete para as economias periféricas, e não para as fragilidades institucionais do euro e para a desregulação dos mercados, toda a responsabilidade por esta crise, foram os próprios portugueses, gregos e irlandeses a contribuirem para o discurso populista contra os "PIGS"(Portugal, Irlanda - ou Itália, ou as duas -, Grécia e Espanha). Quem se trata a si próprio como incapaz não pode esperar ser tratado com respeito.

 

É verdade que a Europa, por falta de lideranças e por ignorância dos seus povos sobre a natureza desta crise - ignorância para a qual muitos economistas, apostados numa cruzada ideológica, têm contribuído - está a cavar a sua sepultura. Mas não são apenas os complexos de superioridade dos povos do norte (muitos deles com situações financeiras tão graves como as nossas) os responsáveis por este suicídio. O espírito autoflagelador dos "self-hating pigs" e das suas antipatrióticas elites políticas, económicas e intelectuais também tem ajudado à festa: ao aceitarmos esta narrativa, para melhor engolirmos os absurdos e inúteis sacrifícios que nos exigem, estamos a confirmar a nossa culpa e a tornar para os que estão melhor ainda mais intolerável a solidariedade europeia. Talvez quando tivermos um pouco mais de orgulho e amor próprio estejamos em condições de lutar pela nossa própria vida e de exigir o respeito que nos é devido.

 

Publicaco no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (35) | partilhar

Domingo, 17 de Abril de 2011
por João Rodrigues

 

O apelo à convergência nacional em torno do emprego e da coesão social foi transformado em petição pública. Subscrevam. 


por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (4) | partilhar

por João Rodrigues

Num momento dramático como o que vivemos, a sociedade portuguesa precisa de debate e de convergências democráticas. Precisa também de reconhecer que a crise do liberalismo económico, de que a acção dos programas patrocinados pelo FMI tem sido uma expressão, obriga a reavaliar opiniões e prioridades e a construir soluções novas, assentes em ideias e escolhas claras e num programa explícito, sabendo que na democracia nunca há a inevitabilidade de uma escolha única, porque a democracia procura as melhores soluções da forma mais exigente.

 

É indiscutível que o estado das finanças públicas, que é em grande medida o resultado da profunda crise económica, exige um conhecimento e avaliação exigentes de todos os compromissos públicos. E que se torna urgente identificar a despesa pública desnecessária, supérflua e geradora de injustiças sociais, distinguindo-a da que é indispensável, colmata problemas sociais graves e qualifica o país.É também útil que se reconheça a importância do trabalho, dos salários e dos apoios sociais na sociedade portuguesa, se admita a presença de carências profundas, sob a forma de pobreza e de desigualdades crescentes, e se considere que os progressos alcançados na nossa sociedade são o resultado da presença de mecanismos de negociação colectiva e de solidariedade cujo desmantelamento pode significar uma regressão socioeconómica que debilitará o país por muito tempo.

 

Qualquer solução para os nossos problemas tem de partir de uma constatação realista: até agora as intervenções externas foram a expressão de uma União Europeia incapaz de perceber que a alternativa à solidariedade, traduzida em cooperação económica e integração sem condicionalidade recessiva, é o enfraquecimento das periferias sob pressão da especulação e de cúmplices agências de notação. A zona euro paga o preço de não ter mecanismos decentes para travar a especulação em torno da dívida soberana e para promover políticas de investimento produtivo que permitam superar a crise. As periferias pagam o preço da sua desunião política, única forma de colocar o centro europeu, principal responsável por este arranjo, perante as suas responsabilidades.

 

No momento em que se vão iniciar negociações entre o Governo e a troika FMI-BCE-CE, sabe-se que a austeridade provoca recessão económica e gera fracturas profundas, de que o desemprego elevado é a melhor expressão. As experiências grega e irlandesa exigem uma revisão das condições associadas aos mecanismos de financiamento em vigor. De facto, devido à austeridade intensa dos últimos dois anos, a economia irlandesa contraiu-se mais de 11% e a recessão grega atingiu 6,5% só entre o último trimestre de 2009 e o último de 2010. O desemprego ultrapassa já os 13% nestes dois países. A este ritmo, e apesar dos cortes orçamentais intensos, nenhum deles conseguirá reduzir a sua dívida. Isso só acontecerá com crescimento económico e com uma noção clara de que não é nos salários e no trabalho, mas antes na escassa inovação e na fraqueza organizacional de grande parte das empresas portuguesas, que residem os problemas de competitividade. Portugal não pode ser um laboratório para repetir as mesmas experiências fracassadas, e corremos o risco de uma recessão ainda mais prolongada, se tomarmos em consideração as previsões do próprio FMI.

 

Por tudo isto, considera-se necessário um apelo a um compromisso sob a forma de um programa de salvaguarda da coesão social em Portugal, de manutenção e reforço das capacidades produtivas do país para gerar emprego, com atenção às pessoas, evitando sacrifícios desnecessários. Os pontos essenciais de tal compromisso são os seguintes:

 

1. Garantir que em todas as decisões económicas e financeiras se coloca o objectivo de promoção exigente do crescimento e do emprego, reconhecendo que a sociedade portuguesa não comporta níveis de desemprego que outras sociedades registam, dada a fragilidade da estrutura de rendimentos e a insuficiência dos mecanismos de protecção social. A presença, já sugerida, da OIT nas negociações entre o Governo e a troika FMI-BCE-CE seria um sinal construtivo muito importante, colocando a questão do trabalho digno.

 

2. Desencadear um escrutínio rigoroso da despesa pública, auditando a dívida do país, sobretudo a externa, identificando com rigor as necessidades reais e os desperdícios da administração pública e salientando a necessidade de concentrar os recursos na esfera essencial das políticas públicas que combatem a exclusão social e a desigualdade, qualificam as pessoas e promovem a actividade produtiva, a competitividade e o crescimento da economia.

 

3. Afirmar que a educação, a saúde e a segurança social, bem como outros bens públicos essenciais como os correios, não podem ser objecto de privatização, fazendo da lógica lucrativa um mecanismo de regulação nestes domínios, visto que tal solução seria cara e insustentável financeiramente, levaria à exclusão de muitos e generalizaria injustiças sociais e regionais.

 

4. Recusar qualquer diminuição do papel do Estado no sector financeiro, sublinhando que a Caixa Geral de Depósitos deve permanecer integralmente pública e com uma missão renovada e que a regulação do sector terá mesmo de ser reforçada para evitar novos abusos.

 

Os signatários entendem que um compromisso deste tipo viabiliza as acções necessárias ao momento presente, capacita a sociedade para enfrentar positivamente as dificuldades e tem como objectivo tornar claro que, em circunstâncias graves, há direitos associados à dignidade do trabalho, ao respeito pelas pessoas e à garantia da coesão social que não podem ser postos em causa, sob pena de fragilizar gravemente o país e de eliminar qualquer capacidade própria de superar a situação dramática em que nos encontramos.

 

Albano da Silva Pereira, Fotógrafo, Director do Centro de Artes Visuais de Coimbra; Alexandre Alves Costa, Arquitecto; Anália Torres, Socióloga, Professora do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa; António Arnaut, Advogado; António Chora, Coordenador da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa; António Manuel Hespanha, Professor da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa; António Pinho Vargas, Compositor; António Romão, Economista, Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa; Augusto M. Seabra, Crítico de cinema, literatura e música; Boaventura de Sousa Santos, Sociólogo, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; Carlos Fortuna, Sociólogo, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Cristina Andrade, Activista do FERVE - Fartos/as d'Estes Recibos Verdes; Daniel Oliveira, Jornalista; Eduardo Paz Ferreira, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa; Elísio Estanque, Sociólogo, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Eugénio Fonseca, Presidente da Caritas Portuguesa; Fernanda Rollo, Historiadora, Professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; Fernando Catroga, Historiador, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Fernando Roque de Oliveira, Economista, Presidente do Observatório sobre a Produção, o Comércio e a Proliferação de Armas Ligeiras; Helena Roseta, Arquitecta; Isabel Allegro, Professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; João Abel Freitas, Economista; João Cravinho, Militante socialista; João Ferrão, Geógrafo, Investigador do Instituto de Ciência Sociais da Universidade de Lisboa; João Ferreira de Almeida, Sociólogo, Professor do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa; João Ferreira do Amaral, Economista, Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa; João Proença, Sindicalista; João de Deus, Sindicalista; João Rodrigues, Economista, Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; Jorge Vala, Psicólogo Social, Investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa; José de Faria Costa, Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra; José Luís Pio Abreu, Médico Psiquiatra; José Maria Brandão de Brito, Economista, Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa; José Maria Castro Caldas, Economista, Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra; José Reis, Economista, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Luís Moita, Professor da Universidade Autónoma de Lisboa; Manuel Alegre, Escritor, militante socialista; Manuel Carlos Silva, Sociólogo, Professor da Universidade do Minho; Manuel Carvalho da Silva, Sindicalista; Manuela Silva, Economista, Professora do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa; Manuel Brandão Alves, Economista, Professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa; Maria Eduarda Gonçalves, Jurista, Professora do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa; Mário Murteira, Economista, Professor do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa; Mário Ruivo, Biólogo, Oceanógrafo; Miguel Henriques, Músico; Octávio Teixeira, Economista; Paula Gil, Activista da Geração à Rasca; Paulo Areosa Feio, Geógrafo, IGOT - Universidade de Lisboa; Pedro Hespanha, Sociólogo, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Ricardo Paes Mamede, Economista, Professor do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa; Rui Namorado, Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Rui Tavares, Historiador e Eurodeputado; Sandra Monteiro, Directora do Le Monde diplomatique - edição portuguesa; Sandro Mendonça, Economista, Professor do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa; Sérgio Azevedo, Compositor; Tiago Gillot, Activista dos Precários Inflexíveis; Vasco Lourenço, Associação 25 de Abril.

 

Público, 16 Abril 2011


por João Rodrigues
link do post | comentar | ver comentários (26) | partilhar

Sexta-feira, 15 de Abril de 2011
por Daniel Oliveira

 

 

É possível que a Finlândia vete a intervenção financeira em Portugal. Um conjunto de economistas alemães interpôs uma ação judicial com o mesmo objetivo. Na Finlândia e na Alemanha, assim como na Holanda e noutros países que têm escapado ao ataque especulativo às economias do euro, o discurso sobre a preguiça e a incompetência dos PIGS faz o seu caminho. O complexo de superioridade latente ajudam à festa.

 

Não sabem os senhores, sobretudo os alemães, que no dia em que os "pigs" rebentarem são eles que ficam a arder. A sua banca, que se está a recapitalizar à conta do BCE e dos juros de assalto que cobra aos devedores, dará o berro. Alguns holandeses, que andaram a investir nos bancos islandeses, julgando que tinham descoberto o ovo de Colombo, já sentiram como elas doem. Tivesse a Irlanda feito o mesmo que a Islândia e lançaria o pânico na city londrina. E se, como parecem desejar os eleitores finlandeses, Irlanda, Portugal, Grécia e Espanha declararem bancarrota o euro dará finalmente o berro. E virá o colapso do sistema financeiro dos que se julgam a salvo desta hecatombe.

 

A verdade é esta: a intervenção externa nos países periféricos tem como objetivo levar tudo o que haja para levar até secar o poço. E garantir que os credores se salvam da tormenta. Mas quer nas economias fortes, quer nas economias fracas, a narrativa tem sido outra: os devedores são irresponsáveis e quem fez tudo bem é que paga a fatura. A infantilidade do raciocínio tem muitos adeptos. Lá e cá.

 

Nos países mais ricos a coisa cola com facilidade. Nos países mais pobres é mais fácil exigir sacrifícios se acreditarmos nesta história. Só há um pequeno problema com este discurso: se ele acalma a revolta no sul, atiça a raiva no norte. E, perante líderes fracos num lado e povos dóceis no outro, são os que se julgam a salvo que vão fechar a torneira, garantindo assim, sem o saber, que a crise chega a eles mais depressa.

 

Se ninguém fizer nada para travar esta espiral de cegueira, será assim a história do fim da União Europeia e da sua moeda: cada um tentou salvar-se a si e todos se afogaram no fim. Criámos uma moeda sem poder político que a governe, criámos um espaço económico comum sem coesão social e sem orçamento próprio, criámos um monstro incontrolável. Era inevitável que quando as coisas dessem para o torto tudo se desmoronasse.

 

A tripulação deste navio não parece querer explicar aos finlandeses que se decidirem deixar a água inundar as camaratas até as suites mais finas acabarão no fundo do mar. Nenhum comandante tem coragem de dizer aos alemães que os passageiros que viajam em económica serão apenas os primeiros a afogar-se. Nos salões europeus, os passageiros mais distintos, incomodados com a gritaria da plebe irresponsável que corre sem destino pelo convés, continuam a ouvir a orquestra, julgando que o naufrágio não lhes diz respeito. Os passageiros menos abonados continuam demasiado ocupados com o seu próprio enjoo para reagirem racionalmente ao estado de alerta. E só quando o Titanic europeu finalmente se afundar uns e outros perceberão que seguiam todos no mesmo barco desgovernado.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (95) | partilhar

pesquisa
 
TV Arrastão
Inquérito
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador