Terça-feira, 31 de Maio de 2011
por Bruno Sena Martins

Por Luís Januário,

 

"Segunda feira, as forças da ordem, nas Portas del Sol como no Rossio , hão-de pôr as pedras a brilhar para sossego de Madame Mubarak e da historiadora. Nesse dia, a direita portuguesa, com ou sem os entreguistas do PS, continuará a cumprir o programa económico dos investidores , sem constragimentos. Por um momento brilharão os novos heróis colaboracionistas e haverá um minuto de glória para os Viegas e Nobres, uma cadeira no 2º balcão, antes de serem arrastados por outra gente menor e com menos escrúpulos.

 

Mas esta campanha tem tido uma coisa boa, que nem o fogo de artifício, os comentadores e as sondagens têm conseguido obscurecer. A esquerda tem tido um comportamento digno, tem-se esforçado com os meios limitados que tem, ao seu dispor, por mostrar aos eleitores o que está em curso: o equivalente de aquilo a que , num dia de lucidez, Soares chamou um grande embuste. A esquerda leu o acordo da troika e exigiu a auditoria pública das dívidas ( e disse Não pagamos a dívida dos bancos!). A esquerda exigiu a identificação dos credores- porque o maior dos crimes foi a culpabilização da gente comum pelos propagandistas dos verdadeiros culpados. A esquerda recusou como solução a redução dos níveis de protecção social, educação, investigação, saúde, reconversão ecológica como remédio para a crise. Disse que a renegociação da dívida e das taxas de juro deveria ser feita agora, enquanto há força…

 

Tenho orgulho dessa esquerda. Agradeço aos que lutam todos os dias. Aos que mantêm levantado o farrapo vermelho. E mesmo que no domingo estivesse sozinho face à urna, haveria de lhe entregar o meu papel. E dizer aos que mandam e aos colaboracionistas: não nos entregaremos nunca."


por Bruno Sena Martins
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por Andrea Peniche

Roubado à Minoria Relativa.


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

Fontes da troika fizeram saber que os partidos com possibilidade de governar (um novo conceito constitucional) já deveriam ter escolhido um "alto comissário" para começar a preparar a aplicação medidas do memorando. Uma espécie de primeiros-ministros ad hoc antes das eleições. Tenho ideia que nos países destes senhores - alguns deles também bastante endividados e prontos para cair no buraco da crise - há leis e constituições e que a democracia não é uma mera formalidade. Também por cá, da ultima vez que olhei para a nossa lei fundamental, não constava a figura de um comissário pré-eleitoral.

 

A forma como estes manga de alpaca falam dos países onde itervêem, mais típica de governadores coloniais do que de instituições internacionais com algumas regras diplomáticas a cumprir, não é apenas insultuosa. É demonstrativa de uma extraordinária falta de cultura democrática. Portugal não é uma das ditaduras onde o FMI se sente mais em casa. É uma democracia parlamentar. Aqui elegem-se deputados e governos. A legitimidade de quem governa reside no voto popular. Em democracias não se nomeiam conissários antes do voto e o voto não é um pormenor que se ignora.

 

Mas o que deveria causar indignação a qualquer democrata ou patriota parece ser natural para os candidatos a diretores-gerais do PS e do PSD. Passos tentou mesmo usar o insulto em seu favor: vejam que eles, inteligentes, civilizados, lá de fora, querem mudar de governo. Até onde vai a falta de espinha de quem se diz líder político.

 

Estamos, ao que parece, condenados a ser governados por capachos. Mas o problema não é apenas dos candidatos a tão pobre figura. A maioria dos portugueses acha que merece ser tratada com este desprezo. Aplaude a chegada do colono e acredita que ele vem pôr a piolheira na ordem. Aceita o insulto sem um protesto.

 

A respeitabilidade de um povo não se mede pela emoção com que canta o hino ou o fervor que entrega à evocação da sua história. Vê-se na forma como se trata e se deixa tratar. E um povo que não se choca com a sugestão estrangeira da escolha administrativa de um comissário que prepare a governação, como se o seu voto nem existisse, provavelmente merece os passos e os sócrates que lhe têm saído na rifa. Neste País falta mais do que dinheiro. Começa a faltar alguma dignidade.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por João Rodrigues

 

Pedro Bingre tem estudado uma das mais importantes e menos conhecidas facetas da economia política que escavacou as nossas cidades e fragilizou financeiramente o país: as “fortunas trazidas pelo vento” que dão pelo nome de mais-valias urbanísticas. A poupança das famílias foi transformada em betão com preços elevados e a banca, o pilar deste processo, canalizou para aí, na ausência de uma política pública adequada, dez vezes mais crédito do que para a indústria e a agricultura. 

 

Parece fácil a resposta à seguinte pergunta: “quando vinte famílias pagam 3.000.000 € por um conjunto de apartamentos que mais não custou a construir do que 1.000.000 €, quem embolsou dois milhões de euros em mais-valias urbanísticas criadas por uma decisão urbanística pública?” Uma coligação, bem almofadada politicamente, entre a banca, a construção e a especulação. Agora a banca prepara-se para receber apoios do Estado, sem contrapartidas de controlo e de gestão públicas, que podem chegar aos 27% do PIB. Que fazer para combater este improdutivo rentismo e toda a corrupção que lhe está associada, para combater este modelo guiado por sectores predadores e disfuncionais? Por exemplo, começar por seguir algumas das práticas mais avançadas, aliás como propõe ousadamente a esquerda socialista. Ainda Bingre:

“Contraste-se este nosso regime comercial com o dos Países Baixos; o mercado imobiliário holandês é dos que mais exemplarmente executa a retenção pública de mais-valias urbanísticas. Mesmo que se encontrem contíguos aos perímetros urbanos, os solos agrícolas holandeses são transaccionados a preço estritamente agrícola, posto que qualquer comprador privado sabe de antemão que futuros acréscimos de valor do solo, produzidos por via de loteamentos, reverterão para o erário público. Além de reter as mais-valias urbanísticas, o Estado Holandês oferece também para arrendamento público mais de 30% do parque habitacional do país — fórmula que além de facilitar a mobilidade laboral e assegurar residência a preço justo para toda a população, dificulta sobremaneira o crescimento de bolhas imobiliárias.”

É claro que nada disto está previsto nos programas das troikas interna e externa. Porque será?


por João Rodrigues
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Segunda-feira, 30 de Maio de 2011
por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

 

A decisão do Tribunal de Oeiras de obrigar as televisões a pôr todos os partidos em debates frente a frente, dando razão a uma providência cautelar do MRPP, depois de outro ter recusado igual pedido do MEP, a cinco dias da campanha acabar, é um excelente retrato da justiça portuguesa. Parece não haver grande preocupação com a exequibilidade e a coerência do que se determina.

 

A minha opinião sobre esta matéria é a mesma que sempre foi, incluindo quando militei num partido sem representação parlamentar: debates com 17 pessoas não esclarecem ninguém e é impossível organizar 136 debates frente a frente. Logo, tem de se escolher um critério razoável e objetivo. O da representação parlamentar, garantindo um debate para os restantes, não sendo perfeito, é o melhor dentro das soluções praticáveis.

 

As televisões optaram por tentar que todos os partidos debatessem com Garcia Pereira. Se os partidos aceitassem isto teríamos 16 debates para o MRPP, um para cada um dos outros sem representação parlamentar e cinco para PS, PSD, CDS, BE e PCP. Alguém me explique onde está a justiça desta solução.

 

Um tribunal que decide que as televisões devem, para garantir a igualdade, organizar 136 debates ou está a brincar ou pensa que a melhor forma de defender a democracia é acabar com debates políticos na televisão. Com esta decisão, é isso que acontecerá daqui para frente. Todos igualmente invisíveis. Ficaremos com as arruadas e os tempos de antena.

 

Dir-me-ão: mas é assim mesmo que as coisas são. A justiça tem de ser cega e, já agora, idiota. É irrelevante se outro partido se queixou do mesmo e recebeu a decisão oposta, é irrelevante se a decisão é tomada num tempo em que é virtualmente impossível de cumprir, é irrelevante que dela resulte um absurdo. A resposta à providência cautelar de Garcia Pereira cumpre a lei. E eu pergunto: se a realidade é indiferente à justiça qual é a utilidade da justiça?

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
O circulo de Coimbra perdeu um deputado, pondo em risco a eleição de José Manuel Pureza, alguém que eu, como todos os que o conhecem, admiro, respeito e não quero deixar de ver no Parlamento. Não posso, porque sou de Lisboa, votar nele. Mas pode quem vota em Coimbra. Continuar a ver José Manuel Pureza no Parlamento é um dos meus principais desejos para estas eleições. Por isso gravei este depoimento de apoio ao Bloco de Coimbra. Talvez por sentirem o mesmo, muitas figuras independentes e conhecidos militantes socialistas da cidade fizeram o mesmo apelo. O voto em Pureza é duplamente útil: porque garante a eleição de um deputado que os eleitores conhecem e respeitam e porque não é um apenas mal menor.

por Daniel Oliveira
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Domingo, 29 de Maio de 2011
por Sérgio Lavos

 

Bobby Gillespie é o homem que tocou bateria num dos grandes álbuns dos anos 80, Psychocandy, dos Jesus and Mary Chain. Só por isso, já teria lugar garantido na história da música pop. Mas esta circunstância é um pormenor, se olharmos para o que se seguiu. Insatisfeito com os humores etílicos dos irmãos Reid, decidiu começar a sua própria banda. Os Primal Scream. Depois dos álbum de 1987, Sonic Flower Groove, ainda marcado pelos sons noise guitar, versão Jesus ou Cocteau Twins, e pelo álbum de 1989, homónimo, cunhado pela influência do rock dos anos 60 (a que voltariam mais tarde), Bobby Gillespie descobriu o ácido. E em 1991, saiu Screamadelica. Fusão entre rock e música de dança, entre o house que os dj's passavam na hacienda e os discos dos Rolling Stones da década, Screamadelica é um acto de fé no poder de uma boa trip. Confessado mais tarde pela banda, cada álbum foi gravado sob influência de um droga diferente. Pouco interessa o que é a verdade. Queremos saber é do fantástico resultado final.

 

Desde a primeira faixa, Movin' on up, com refrão cantarolável, maracas e o delicioso coro gospel a elevar a voz drogada de Gillespie aos céus, o solo que não seria desdenhado por um Keith Richards nos seus piores dias, e o fabuloso final em fade out. Slip inside this house, uma cover de uma música de 1967 dos 13th Floor Elevators é a primeira incursão no house, samples, batida com um groove infeccioso, rock psicadélico com piano e mc à mistura. Depois, Don´t fight it, feel it, e estamos numa pista de dança de Ibiza, mas numa versão retro-marada: a voz funk de Denise Johnson, o piano eléctrico, os sons para chamar pelo povo. A pedir remistura mais electrónica, que aconteceu em várias versões. Depois da euforia da dança, a queda. Higher than the sun é a primeira canção perfeita do álbum, psicadelismo electrónico puro, uma viagem por um plano mais elevado, a voz de Gillespie a planar sobre uma batida trip-hop deslizante. E o loop final, já noutro universo. Mas a queda ainda vai mais longe, e o espírito regressa ao corpo. Inner Flight é o segundo momento de perfeição, um instrumental com aaah's e ooo's pelo meio, minimal, guitarra cristalina e som de flauta divinal (sintetizado) a conduzir a alma a lugares cuja existência preferiríamos desconhecer. E, claro, um sample de Brian Eno. Come Together é quase tão brilhante como a música com o mesmo nome dos Beatles. Um discurso do reverendo Jesse Jackson transformado em incitação às massas de um dj numa rave, digressões electrónicas analógicas e o refrão gospel repetido à exaustão. Um Deus profano a brincar com coisas sagradas - como o amor, a chave dos anos 60, a década que conduz todo o álbum. Depois, aparecem as palavras de Peter Fonda em Wild Angels, o sample acrescentado por Andy Wetherall, o produtor do álbum, para servir de mote para mais um ziguezague entre o house e o rock americano, batida madchester e secção de sopros elevando a música aos píncaros. O single de apresentação, canção pedrada, on the road como os anjos do Inferno do filme de Roger Corman (e o melífluo som do melotron pontuando o gospel em loop contínuo). Nancy Sinatra, de quem os Primal Scream fizeram uma cover alguns anos depois, é a outra estrela do filme. Tudo bate certo. A seguir, Damaged é a balada que qualquer álbum de rock tem de ter. Piano e guitarra, crescendo amoroso e desalinhado, pedrado e danificado, sintetizador de cabaré a acompanhar e solo quase bluesy embrenhado no lamento existencial. Um intervalo na euforia. A que se se segue a ressaca de I´m Comin'  Down, bater no fundo com saxofone e digressão de Gillespie pelos caminhos mais negros da alucinação psicadélica. A reprise de Higher Than the Sun, mais longa, a versão dub, arrastada, atmosférica, extraterrestre. A música original reduzida aos seus fundamentos sonoros, esqueleto exposto para as pistas de dança. A caminho do fim de festa. Saídos da discoteca, em pleno ar livre, as estrelas brilham (e, na minha memória, o rumor do mar mistura-se com as últimas notas da última música dançada na pista de dança). Shine Like Stars, a caminho do fim da noite. Grande final.

 

Vinte anos depois, os Primal Scream ainda andam por aí (e contam com a ajuda de um dos maiores baixistas de sempre, Mani dos Stone Roses). Vêm a Portugal tocar na íntegra Screamadelica, no Optimus Alive, no dia 7 de Julho. Vinte anos depois, continua a ser um grande álbum.

 

Screamadelica

Primal Scream

Lançado em 23 de Setembro de 1991 pela Creation

Produzido por The Orb, Hypnotone, Andrew Weatherall, Hugo Nicholson e Jimmy Miller


por Sérgio Lavos
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por João Rodrigues

A ATTAC-Portugal (Associação para a Taxação das Transacções Financeiras para a Ajuda aos Cidadãos), fazendo justiça ao objectivo de popularização do conhecimento económico crítico, que foi uma das justificações para a criação desta associação de âmbito internacional, teve a ideia de elaborar um documento intitulado a “crise portuguesa em dez minutos”: “a crise económica portuguesa não tem origem num «Estado gastador», não é só da «responsabilidade deste Governo» nem dos cidadãos «que vivem acima das suas possibilidades»” Dez minutos talvez seja o tempo que também demora a ler, no Portugal Uncut, a excelente resposta de Luís Bernardo, Mariana Avelãs e Nuno Teles à pergunta: Auditoria Cidadã à Dívida Pública - O que é? Trata-se de uma das propostas políticas que pode ajudar a superar o Estado predador, derrotando a aliança interna e externa que o suporta. Diagnóstico e alternativas porque “o inevitável é inviável”.


por João Rodrigues
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Sábado, 28 de Maio de 2011
por Miguel Cardina

 

O PS é um case study. Faz campanha a comentar as escorregadelas dos seus adversários para não ter de discutir as suas propostas; chama "caloteira" à esquerda que propõe a auditoria e a – mais tarde ou mais cedo, inevitável – renegociação da dívida, acusando-a de não querer "honrar os compromissos" com a banca alemã; acena com o “perigo da direita” como se não tivesse sido o PS o principal promotor do programa de austeridade e desmantelamento do Estado social assumido no acordo com a troika; aliar-se-á ao PSD ou ao CDS sem quaisquer problemas de consciência num futuro governo cujo programa-base demorou dezasseis dias a ser traduzido e disponibilizado em português. O PS está no direito de ser como é. Mas ter a lata de ainda assim apelar ao “voto útil” à esquerda, como o fez António José Seguro, ultrapassa os limites da decência. Ou será que quereria dizer “voto fútil”?


por Miguel Cardina
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por Bruno Sena Martins
Passos Coelho é um neoliberal, sincero no seu aventureirismo, e um populista de circunstância. Paulo Portas é um populista, forjado pelo ultra-conservadorismo, que aprendeu a fazer da circunstância uma ideologia para eleitor ver. Liberal nos valores, Sócrates é todo circunstâncias, ainda que debilmente domesticado pela má consciência de pertencer a um partido designado socialista.

por Bruno Sena Martins
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Sexta-feira, 27 de Maio de 2011
por Sérgio Lavos

 

Uma das coisas que me divertem – provavelmente porque gasto demasiado do meu tempo em desnecessárias inutilidades (e claro que há inutilidades necessárias, mas isso é outra vindima) – é espreitar os comentários dos espectadores no Cinecartaz do Público. Depois de ver os filmes, por princípio; que nunca uma opinião me faça alterar o fundamento dos meus preconceitos. Há umas semanas, fui ver um filme que declaro, desde já, ser fabuloso: O Tio Bonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores. Não vale a pena queixarmo-nos da extensão do título em português; em tailandês é ainda mais extenso e certamente mais impronunciável, quase tanto como o nome do realizador desta obra: Apichatpong Weerasethakul (fiz copy/paste do IMDB, para que se saiba). Certamente que todos se lembrarão que este filme ganhou a Palma de Ouro do ano passado e que esta decisão foi um incómodo para muita gente. Em concreto, recordo uma polémica nas páginas da Sight & Sound. Que o filme era demasiado hermético, lento, inacessível. Ora bem, o filme é seguramente hermético, lento, pouco acessível. Mas esta análise revela de forma mais decisiva os preconceitos e as limitações de quem a faz do que esclarece exactamente que objecto é este. A verdade, subjectivamente falando, é que o filme é uma experiência sensorial do outro mundo, uma viagem psicadélica entre tempos e espaços, uma provocação aos limites da verosimilhança extraordinariamente arrebatadora. Vivemos – nós, que apenas vemos imagens, sombras no ecrã – entre fantasmas, os fantasmas que visitam o tio Bonmee enquanto ele vai morrendo. E a morte, aqui, não é um abismo, não é um corte violento nem um nó dramático, à maneira do cinema ocidental. Não conheço o suficiente da cultura tailandesa para poder especular sobre a filosofia zen que motiva Apichatpong. Sei que a morte – e a vida, sobretudo a vida, a dolorosa preparação para a morte – não é o mesmo vulto negro do filme de Bergman, por exemplo; é um acidente, uma aceitação, uma desolação serena. Os espíritos da natureza, a irmã morta, o filho desaparecido em busca da alma que as fotografias roubam, o quotidiano pacífico de uma plantação, o ritmo das colheitas, o sol e as sombras da floresta. Um mundo afastado do mundo, do ritmo da cidade que é incrivelmente condensado naquela cena final em que uma família (que inclui um jovem monge budista que foge do silêncio do mosteiro) olha concentrada para um televisor num quarto de hotel, a realidade fora da realidade que acabámos de viver durante duas horas. Tudo desapareceu, com o desaparecimento de Bonmee, a derradeira viagem de regresso ao útero materno, a gruta inicial.

 

E depois leio (e agora cito de cor, porque já não encontro o comentário): “filme chato, fotografia péssima, o pior filme que já vi”. Ou algo que se pareça. A minha opinião vale tanto como a deste espectador, eu sei, e assim desculpa a minha ingénua presunção*. Onde está a diferença? Deveria perder o meu tempo em utilidades mais transitórias (há algum filme com carros em velocidade furiosa em cartaz?)

 

*Sobre a diferença entre opinião e crítica, coisa clara que muitos leitores de jornais parecem ainda não ter percebido, há muito escrito por essa net fora. O Luís Miguel Oliveira, por exemplo, tem vários textos sobre o assunto. Dizem tudo, e é admirável a pachora que ele muita vezes tem para explicar o que deveria ser evidente.

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por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins

"More ash than cash."


por Bruno Sena Martins
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por Andrea Peniche


por Andrea Peniche
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por Bruno Sena Martins

Por muito que os corpos se adaptem ao clima, sobretudo os corpos aclimatizados ao longo de gerações, os nativos de condições metereológicas extremas sofrem pouco menos do que os visitantes de circunstância. O que aparta uns e outros, no essencial, é a arte da premeditação: a premeditação com que os acostumados preparam o embate, a premeditação com que o escolhem e, sobretudo, a premeditação informada com que prefiguram a dureza do embate a partir da experiência. No calor dos trópicos como no frio glaciar, somos surpreendidos pela partilha com os locais de um desconforto que julgaríamos marcar as fronteiras na nossa exterioridade. Na verdade essa exterioridade só existe na dúvida: a dúvida do visitante acerca daquilo que pode aguentar, a certeza do nativo de que já passou por isto. A assertividade é uma adaptação a condições adversas. Assim, o homem resoluto e o homem razoável distinguem-se pelo modo como digerem as intempéries do passado: o homem resoluto é um ser disponível para a morte, conquanto lhe conhece as fronteiras, o homem razoável desconfia da razoabilidade de estar vivo.

 

Publicado em Avatares de um Desejo


por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

 

O CDS é a favor do acordo da troika mas nem por isso. Diz que tem espaço de manobra. Logo se vê, portanto. Já governou mas nem se lembra. Nomeou muitos boys mas já se esqueceu. Até Celeste Cardona que, sem saber nada da poda, aterrou na CGD. Gastou em submarinos mas é contra o despesismo. O CDS é liberal-conservador-social-populista-responsável-moderado-centrista-radical. Tudo depende do barrete que fica melhor a Paulo Portas quando aparece na televisão.

 

O voto no CDS é uma espécie de voto em branco que elege deputados. Ou uma tripla para um governo: qualquer um lhe serve. Tem apenas uma mensagem: somos diferentes. Diferentes dos outros e deles próprios. Portas é sempre uma novidade, mais pelo fato que usa do que pela política. É como aquele anúncio de uma água gaseificada: "podíamos dizer que somos muita bons e tal... mas mudámos só o rótulo".

 

Mas o novo estilo centrista de Paulo Portas resulta. E assusta um PSD desnorteado. Prova disso é o anúncio da disponibilidade do outrora liberal Coelho em rever a lei do aborto. Para reagir ao CDS, o novo PSD encontrou o seu lugar: bem à direita de Portas. Mais extremista no combate ao Estado Social, igual em tudo o resto. Não percebe o verde Coelho que é no centro que os votos lhe estão a fugir para o CDS. Passos entusiasmou-se e foi radicalizando o discurso. Portas, camaleão como sempre, adaptou-se e deu ao seu partido um ar um pouco mais social.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Miguel Cardina

Tem razão o Nanni Moretti: "le parole sono importanti". Porque não descrevem apenas a realidade; criam uma determinada percepção sobre ela. Daí que seja de saudar - e de assinar - esta petição pelo rigor na cobertura jornalística do acordo com a troika. É que podemos definir de muitas formas a intervenção do FMI-BCE-UE, mas "ajuda" é ofensiva para os factos. E para o país. Como se diz no texto, "em primeiro lugar, um empréstimo com uma taxa de juro tão elevada dificilmente pode ser considerado uma ajuda. E, em segundo lugar, este empréstimo, encontra-se associado a um acordo, que obriga o Estado Português a cumprir - a troco do empréstimo - um conjunto de contrapartidas que se materializam em medidas de austeridade fiscais, sociais e económicas. Por último, assumir acriticamente que se trata de uma ajuda significa ignorar a profunda controvérsia, contestação e discussão quanto à pertinência e adequação destas medidas, cujos impactos sociais e económicos nefastos são amplamente reconhecidos."


por Miguel Cardina
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Quinta-feira, 26 de Maio de 2011
por Andrea Peniche

Eu sei que as sondagens que anunciam um empate técnico lhe dão cabo dos nervos; eu sei que José Sócrates é um osso duro de roer; eu sei que as percentagens do CDS o fazem tremelicar, mas, com os diabos, não verta sobre os nossos ovários a sua incomodidade, Pedro Passos Coelho.

 

O tema do aborto é mesmo o único assunto de que guardo boas lembranças suas. Defendeu a descriminalização do aborto e isso ficou-lhe bem; provou que nem sempre as coisas se dividem entre esquerda e direita; às vezes elas dividem-se entre democracia e talibanismo.

 

Eu bem sei que as sondagens indiciam a probabilidade de ter que fazer fretes à direita das direitas; e, sim, já não é a primeira vez que Paulo Portas coloca em cima da mesa a questão do aborto como moeda de troca para a ajudinha que o PSD tanto precisa para ir para o poleiro. Mas, tenha lá paciência, se achava a clandestinidade miserável, se achava que as mulheres podiam interromper a gravidez, não venha agora armar-se em polícia dos costumes.

 

A mim também me chateia que haja mulheres reincidentes na prática de aborto. Estão, do meu ponto de vista, a escolher mal, estão a escolher prejudicar a sua saúde. Porém, não me passa pela cabeça apontar-lhes o dedo e ameaçá-las de prisão ou com uma nova clandestinidade sacada de um referendo inventado para conquistar votos à direita. O que me passa pela cabeça, e deixo-lhe a sugestão, é tentar perceber a razão do encaminhamento para o planeamento familiar e a contracepção, apesar de existir, falhar.

 

Diz o Pedro Passos Coelho que «hoje, é muito fácil as pessoas poderem evitar esse tipo de situações, desde que actuem com alguma rapidez, desde que o Estado e a sociedade dêem informação necessária às pessoas». Eu gostava de acreditar nisso, mas, infelizmente, a realidade contradi-lo a cada momento. Sabe, é que entre a informação e a alteração de práticas vai uma distância enorme. E não sou eu quem o diz. Se se der ao trabalho de ler algumas coisinhas que as ciências sociais vão produzindo, perceberá que esta «pólvora» já foi descoberta há muito tempo. Caso contrário, não haveria, por exemplo, novos casos de SIDA nem condutores ao volante completamente embriagados.


por Andrea Peniche
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por Daniel Oliveira

 

Quem leia grande parte das colunas de opinião e da gritaria sempre indignada dos comentários em blogues e jornais fica a achar que tudo neste País se resume aos problemas de carácter de políticos. A coisa divide-se em duas correntes: os que veem nos defeitos pessoais de Sócrates a causa desta crise e os que, num olhar mais abrangente e estrutural, alargam a coisa a todos os políticos. Há, claro, os que tentam discutir alguma política. Mas rapidamente são afogados pela maré de insultos em que se transforma qualquer conversa. A questão é, portanto, saber se é apenas Sócrates que é aldrabão ou se o insulto se aplica a toda a classe política.

 

A ética não é um assunto externo à política. A violação sistemática do contrato de confiança dos eleitos com os eleitores é relevante. A corrupção, o nepotismo, as redes de influência e muitos dos podres que degradam a nossa democracia são assuntos políticos. Não desculpabilizo aqueles que, nesta matéria, têm sido cúmplices e laxistas. Nem antes, nem agora. O meu problema não é isto ser debate. Participo nele e muitas vezes aqui escrevi sobre este tipo de assuntos. O meu problema é quando isto é todo o debate que sobra.

 

Porque leva as pessoas ao erro quanto ao diagnóstico: se tudo se resume às características pessoais e éticas dos governantes, a Europa, a desregulação dos mercados financeiros, os erros no nosso modelo de desenvolvimento ou a desigualdade estrutural em todos os domínios da vida portuguesa ficam arredados de qualquer conversa. E são o que realmente conta. Muitos portugueses acreditam que chegámos aqui por causa do que aconteceu no País nos últimos seis anos. Claro que também foi por isso. Mas resumir os nossos problemas ao último governo e às questões domésticas é de tal forma absurdo, tem tão pouca relação com os factos, que é argumento que não se aceita em pessoas inteligentes e informadas que estejam de boa-fé num debate.

 

Porque leva as pessoas ao erro quanto às soluções: se tudo se resumisse às características pessoais e éticas do governante as coisas seriam muito simples. Bastaria mudar de protagonistas. É excelente para quem defende que a democracia se resume à alternância. E o jeito que tem dado a quem, sabendo que não fará melhor, gosta de centrar tudo no ódio que tanta gente sente por Sócrates e que ele parece não querer evitar. E assim se deixa de fora do debate quem quer discutir alternativas às verdades feitas e ao discurso do inevitável. A coisa está neste ponto: ou insultamos Sócrates ou estamos feitos com Sócrates. Assim, não sobra espaço para a política.

 

Porque retira à política todo o seu conteúdo. Sem, mais uma vez, desprezar a importância das qualidades humanas e sociais dos atores políticos, arrisco-me a dizer isto: a história está cheia de escroques que foram bons governantes e excelentes pessoas que foram líderes medíocres. Grande parte dos homens e mulheres que hoje admiramos eram intragáveis como seres humanos. E muitos deles tinham uma conduta pública pelo menos duvidosa. O que conseguiram não diminui os seus defeitos. Apenas prova que de boa gente está a desgraça dos povos cheia.

 

Li, esta semana, num diário, uma carta extraordinária de um leitor. Chamava ele à atenção para o olhar de cada líder partidário nos últimos debates. Mostrava-se, aliás, indignado por ninguém ter dado destaque a isso. Portas não olhava nos olhos dos opositores. Sócrates tinha a raiva no olhar. Passos Coelho e Jerónimo de Sousa eram, via-se nos olhos, sem margem para dúvidas, boas pessoas. Sabem porque temos tantas vezes falhado nos políticos que elegemos? Porque acreditamos em duas coisas: que boas pessoas são bons governantes e que podemos ver a alma de um político através da televisão.

 

Sócrates mentir com tanta facilidade é, para mim, um problema político. Não é, ao contrário do que agora parece, nem o primeiro nem o pior. Mas, sobretudo, não é esse o seu principal problema. O seu problema é não ter um rumo para o governo do País nem convicções políticas. O maior problema de Sócrates não é dizer hoje uma coisa e amanhã outra. É a razão porque o faz. É não ter uma verdade sua - e isso não é uma questão de carácter, é uma questão estritamente política. É que o confronto político faz-se de mundividências e convicções que se confrontam. Diz-se que Sócrates é determinado. O problema é que a sua determinação não está associada a convicções.

 

Porque fica tanta gente presa ao debate sobre o carácter do primeiro-ministro? Porque a ausência de ideologia está longe de ser exclusivo de Sócrates. É um problema do nosso tempo. Sem ela, sobram as qualidades pessoais dos governantes e a indignação sem propósito dos cidadãos. Sem ela temos políticos mas não temos política. E aos políticos sem política, que são meros gestores de inevitabilidades, chamamos, com toda a razão, de oportunistas. Só que eles são a consequência, e não a causa, das nossas falhas enquanto cidadãos.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011
por Daniel Oliveira

Vinte gestores, diz um relatório da CMVM, têm, sozinhos, mais de mil lugares de administração em empresas nacionais. Recebem, em média, 297 mil euros por ano. Uns meio milhão. Um deles dois milhões e meio. Diz-se que a inveja é o pecado nacional. Da minha parte, confirmo. Não tanto dos salários que os senhores recebem, que sou rapaz de me contentar com menos. Mas da sua extraordinária capacidade de trabalho. Não admira que sejam estes mesmos senhores a exigir moderação salarial. Conseguíssemos nós, preguiçosos, ter tantos empregos simultâneos e em todos trabalhar de forma a justificar vários bons salários e também nos chocávamos com a facilidade com que tanta gente leva, em média, 780 euros mensais para casa por dar todo o seu tempo a apenas uma das empresas onde estes senhores dão no duro.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por João Rodrigues

 

O que Ricardo Santos Pinto escreveu a propósito do ensino público – “como o PS preparou a privatização do ensino” – poder-se-ia escrever também a propósito do serviço nacional de saúde, onde os grupos privados vão ganhando músculo, graças a parcerias público-privadas e a outras engenharias políticas, ou das ruinosas privatizações, mais directas, de infra-estruturas e de serviços públicos igualmente importantes, já planeadas antes do culminar da austeridade destruidora de emprego, dos PEC acordados pelo bloco central, o que agora se designa por “ajuda”. Poder-se-ia também falar do enfraquecimento da segurança social pública. Ou da subversão das universidades. A fragilização da provisão pública, o ataque ao prestígio, estatuto e autonomia dos seus profissionais, a canibalização do Estado pelos grupos privados, já a designei assim, são mesmo algumas das principais marcas dos seis anos de Sócrates. Assim também conseguimos explicar as notáveis capturas de antigos dirigentes pelos grupos económicos. 


Digo isto com tristeza, até porque sempre defendi todas as convergências possíveis à esquerda, mas, no plano governativo, desde há muito que quem apenas se entrega a gizar apelos a entendimentos entre as esquerdas e o chamado “centro-esquerda” tem de ignorar olimpicamente não só quase todas as políticas públicas concretas deste governo, mas também o desacordo da direcção do PS com todas as alternativas de esquerda disponíveis, acabando assim por transformar o discurso político da convergência numa abstracção rarefeita que não é para este país. Na prática, legitima-se a direcção do PS que mais tem contribuído para a intensa viragem à direita na vida nacional. A possibilidade da radicalização ideológica de Passos Coelho, que agora assusta tantos, é, em grande medida, o resultado do fim da tradição social-democrata na direcção do PS, uma das principais obras de Sócrates. 

Dois objectivos, intimamente ligados, dão então sentido à social-democracia, ao “socialismo democrático”: o Estado social e o pleno emprego. Há muito que se desistiu de garantir as condições institucionais para a sua prossecução. Trata-se agora de eliminar direitos laborais e sociais – dos despedimentos mais fáceis e baratos a um subsídio de desemprego mais reduzido e curto, passando pela ameaça à negociação colectiva ou pela erosão do financiamento directo da segurança social, substituído pelo aumento de impostos regressivos – e de ter o topete, como Helena André, de chamar a esta regressão “aumento da protecção laboral”. Que fazer? Começar por reforçar eleitoralmente as esquerdas que nunca desistiram de apresentar alternativas concretas no campo das políticas públicas. É neste campo que a possibilidade de uma sociedade decente se constrói e destrói e é por aqui que a definição das alianças possíveis para um governo de esquerda deve sempre começar.


por João Rodrigues
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por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
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Terça-feira, 24 de Maio de 2011
por Daniel Oliveira

 

 

O padrão em quase toda a Europa tem sido o mesmo: quem está no poder sofre desgaste. Em quase todos os países cresce quem está na oposição e os partidos de fora do centrão, seja à direita ou à esquerda. Mesmo na Alemanha, que tem beneficiado com a actual crise, a CDU tem sido penalizada e os "Verdes" têm capitalizado o descontentamento.

 

A Espanha não fugiu à regra e o PSOE levou este fim de semana uma varridela geral, perdendo municípios e províncias que sempre foram seus. Enquanto milhares se juntavam nas Portas do Sol, em Madrid, mostrando que não se reveem no atual quadro partidário, a esquerda à esquerda do PSOE e sobretudo o PP subiram à custa do descontentamento com o governo.

 

Se tudo isto é verdade, basta olhar com atenção para os resultados eleitorais nos vários países para perceber que o centro-esquerda tem sido mais duramente penalizado do que a direita. O que não deixa de ser extraordinário se tivermos em conta que vivemos uma crise que resulta da aplicação da agenda da direita liberal, que desregulou mercados, obrigando os Estados a endividar-se para salvar a economia. Na realidade, a direita conseguiu fugir às suas responsabilidades e, apesar de todas as evidências, convenceu os cidadãos de que a crise que estamos a viver resulta da falência do Estado Social. Só a esquerda pode ser responsabilizada por esta inversão completa de todos os argumentos.

 

No momento em que a receita liberal provou a sua inadequação à realidade faltou ao centro-esquerda, no poder em vários países, a capacidade de aproveitar a oportunidade. Quando se salvaram os bancos não se aproveitou o momento de fragilidade das instituições financeiras para impor regras severas e mudar de forma radical o funcionamento da economia, travando a loucura do capitalismo de casino. Deixou-se para mais tarde. E mais tarde foi tarde demais. Os abutres voltaram e não foi para agradecer. Foi para aproveitar a crise que eles próprios criaram para se reerguerem à custa dos contribuintes. Socialistas e social-democratas (não me refiro ao embuste português) perderam a sua oportunidade e deixaram que outros escrevessem o guião desta crise.

 

A esquerda mais radical não está também isenta de culpas. Em vários países, não percebeu que esta era o momento para estar disponível para entrar no barco do poder e pressionar uma social-democracia desorientada. Na ânsia de crescer com o descontentamento, contentaram-se com as migalhas. O bolo ficou para a direita, que aproveitará o momento para dar a machadada final no Estado Providência.

 

Neste momento, o centro-esquerda está num beco sem saída. Depois de anos a liderar os destinos da Europa sem ser capaz de prever o que aí vinha e cedendo a terceiras vias da moda, depois da oportunidade perdida de 2008, depois de gerir a crise que se seguiu sem firmeza contra os que por ela foram responsáveis, tem poucos argumentos junto dos eleitores. Ser apenas o gestor brando de uma austeridade criminosa não mobiliza ninguém.

 

Como os manifestantes da Porta do Sol ou a "geração à rasca" portuguesa, a tradicional base social de apoio da esquerda europeia está órfã. São cada vez mais os que não acreditam em nenhum dos partidos e se preparam para engrossar as fileiras dos abstencionistas ou para se render à direita, que ao menos faz com o convicção o que os socialistas fazem sem empenho. Em tempos como estes, as meias-tintas não dizem nada a ninguém.

 

A travessia no deserto de socialistas e social-democratas europeus pode ser uma oportunidade. Antes de mais, para eles próprios. Têm, nesta crise, e de uma vez por todas, de escolher o lado em que estão. A retórica da defesa do Estado Social enquanto ajudam à sangria dos cofres do Estado para a banca não pega por mais tempo. Mas também para as forças que estão à sua esquerda, que estão obrigadas a perceber que vivemos novos tempos, em que as clivagens do pós-guerra e da guerra fria fazem já pouco sentido. Têm de ser um elemento eficaz de pressão para conseguir reagrupar forças e para obrigar o renitente centro-esquerda a mudar de rumo.

 

Se uns e outros falharem mais uma vez não serão apenas as conquistas sociais do século XX que estarão em causa. Será a democracia. Os que outrora lhes deram força para garantir cinquenta anos de prosperidade e direitos sociais rumarão para políticos populistas, nacionalistas e inimigos da liberdade. E aí, meus caros amigos, ainda teremos saudades destes tempos que vivemos.

 

Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 23 de Maio de 2011
por Sérgio Lavos

 

(...) Falando de um filme, torna-se fácil ganhar-lhe apego. Regressemos portanto a No Direction Home, fabuloso testemunho dedicado a alguém que já está além da História – da sua injustiça suprema, dos seus ciclos inevitáveis de vida e morte. E acaba por ser tudo menos curioso que Bob Dylan, uma das mais perfeitas encarnações do Homem americano, tenha sobrevivido ao peso de o ser persistindo numa reclusão casmurra, encerrado numa misantropia que é o espelho do seu génio. O documentário de Scorcese esquiva-se a grandes teorias – sempre uma armadilha – e concentra-se nos pormenores. As entrevistas perigosas, no fio da navalha; o relato dos músicos que o acompanharam; a reacção do público conservador da música folk aos concertos electrificados da digressão de "Bringing It All Back Home" – o seu álbum esquizofrénico; a zanga com Joan Baez.

 

O mistério de Dylan fascina por ter criado uma obra que configura o espírito de um tempo. E Dylan apenas se tornou um mito quando se rebelou contra as suas raízes e se reinventou enquanto músico. Em 1965, Dylan previu o fim da utopia do movimento hippie? Não será assim, apenas prosseguiu o caminho de uma outra utopia; no caso, criativa, espaço de singularidade artística. O seu maior feito – que ele, como se vê em No Direction Home, acaba por desvalorizar em termos de importância simbólica. Scorcese capta o percurso feito de desvio e transgressão, focando o seu olhar nos pormenores, seja uma entrevista ao músico em que este é provocado por um jornalista de intenções duvidosas, seja no relato feito no tempo presente, em que Dylan se expõe revelando as sombras desconhecidas da sua história.

 

Ao conhecermos o músico na intimidade das histórias durante tanto tempo guardadas, compreendemos melhor a razão das mudanças que ocorreram nos últimos 40 anos na América. Mérito para Martin Scorcese. Partindo do particular para o universal, tornando a micro-história pista de leitura para a grande História, sobretudo asseverando a importância da cultura pop para o entendimento pleno de uma sociedade, Scorcese atingiu a perfeição. Que tenha assim sucedido em forma de documentário, não me parece que venha mal ao mundo. O cinema também pode servir como testemunha de um tempo que vai passando. Para sempre.

 

(Nos 70 anos de Bob Dylan, republico este texto antigo do meu outro blogue).


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

Tantas vezes injustamente acusado de promover o facilitismo, o GAVE parece ter levado a coisa a mal e, nos testes intermédios deste ano, desatou a exigir, não diria o impossível, mas o improvável: que os alunos saibam alguma coisa.

Mas no teste de Ciências Físico-Químicas do 9º ano terá ido longe de mais, exigindo a jovens de 15 anos que, entre outras coisas, saibam contar até 8. É certo que a prova permitia o uso de calculadora mas afigura-se um exagero supor que, ao final de 9 anos de escolaridade, os alunos já tenham aprendido a carregar 8 vezes na tecla 1 e, depois, na tecla "Total".

Se não, veja-se a pergunta de abertura do Caderno 2: "O sistema solar é constituído pelo Sol e pelos corpos celestes que orbitam à sua volta. Actualmente, considera-se que os planetas que fazem parte do sistema solar são Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno. Em 2006, Plutão deixou de ser classificado como um planeta, embora continue a fazer parte do sistema solar. [Pergunta:] Actualmente, considera-se que o sistema solar é constituído por quantos planetas?".

Já no Caderno 1 se exigia também que os alunos soubessem que, a 100º centígrados, a água entra em ebulição em vez de solidificar.

Com testes destes, visando aferir o desempenho dos alunos "por referência a padrões de âmbito nacional" lá se vão o "direito ao sucesso" desses alunos e a sua rápida entrada no mercado do desemprego.

 

(Aqui).


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

A palavra que sempre aparece associada à dívida irlandesa, grega e portuguesa em todos os textos que por esse Mundo se vão escrevendo tornou-se numa palavra proibida no debate político português: renegociação. As contas são simples e não deixam enganar: é virtualmente impossível pagarmos a dívida acumulada e a que, para pagar a que já temos (e recapitalizarmos os bancos), acabámos de contrair. Mesmo cumprindo todo o programa da troika tal não acontecerá. Os nosso credores sabem disso e preparam-se para a renegociação que virá. Apenas querem ganhar tempo. A verdade é esta: daqui a uns anos ou estaremos a pedir mais dinheiro emprestado para pagar os juros - olhem para a Grécia -, ou estaremos a não pagar ou estaremos a renegociar.

 

Mas, em Portugal, quem ouse falar do assunto é chamado de radical, irrealista, caloteiro e irresponsável. E, no entanto, são os que se recusam a debater o inevitável que merecem cada um destes adjetivos.

 

Radicais, porque acreditam que é da destruição da nossa economia e daquilo a que chamam de "regime" que nascerá a solução para os nossos problemas. Os ultras do liberalismo económico repetem o discurso que antes era mais comum na extrema-esquerda: sobre as ruínas da sociedade antiga nascerá o homem novo e deste tempo nada sobrará a não ser uma memória distante de um "Estado gastador" e dos privilégios dos "direitos adquiridos".

 

Irrealistas, porque qualquer economista ou político sério sabe que nem em circunstâncias diferentes, com melhor situação económica, se conseguiria pagar esta dívida, com estes juros e estes prazos. Quanto mais num momento de crise internacional, quando os estímulos públicos ao crescimento nos estão vedados, se advinha uma recessão e se sabe que as receitas fiscais cairão e as despesas sociais, mesmo com todos os cortes, aumentarão. Olhe-se para os números da Grécia, um ano depois da "ajuda" externa, e aprenda-se alguma coisa.

 

Caloteiros, porque esses é que pedem emprestado em condições que sabem que nunca poderão cumprir. Na realidade, tal como na economia doméstica ou nas empresas, só quer renegociar a dívida quem a tenciona pagar. Os caloteiros, esses, enganam os credores e enganam-se a si próprios, adiando a confissão das suas dificuldades até ao momento em que o inevitável se impõe.

 

Irresponsáveis, porque tencionam empurrar o problema com a barriga. Alimentam uma bola de neve: pedir emprestado para pagar o que se pediu emprestado para pagar o que se pediu emprestado para pagar o que se pediu emprestado. Não percebendo que a única forma de quebrar este ciclo vicioso é garantir crescimento económico. Podem cortar toda a despesa do Estado, que os juros da dívida continuarão a aumentar se não combatermos o nosso verdadeiro problema estrutural: a divida externa, sobretudo privada. E que só há uma forma de a reduzir: crescer e poupar. Não há crescimento com políticas públicas recessivas. Não há poupança com uma austeridade cega e desvairada.

 

Não estaremos pior daqui a uns anos porque era inevitável. Estaremos pior porque aceitámos a cartilha ideológica da moda no lugar do debate sério sobre a nossa economia. E esse debate sério inclui a proposta proibida: renegociação da dívida. Quanto mais tarde menos útil ela será. E quando os credores a quiserem fazer já de pouco nos servirá. A nossa economia será uma ruína. Diz-se: renegociar dará mau nome ao País. Imaginem o nome com que ficaremos quando não conseguirmos pagar de todo.

 

Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Domingo, 22 de Maio de 2011
por Sérgio Lavos

 

 PS paga apoio com refeições.


por Sérgio Lavos
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Sábado, 21 de Maio de 2011
por Sérgio Lavos

 

Um livro classificado como romance que parece uma reportagem jornalística; ou um relato autobiográfico; ou um ensaio sobre a memória e a sua falibilidade; um livro de viagens que conta histórias reais e inventadas, no qual as personagens existem na realidade mas com outro nome. Sobretudo, o prazer da leitura, frase a frase, a fluidez da escrita, a capacidade de cruzar diferentes tempos e criar um objecto que tem tanto de modernidade como o travo de uma língua portuguesa clássica cultivada por muito poucos na literatura portuguesa contemporânea.

 

Nada de pós-modernismo, uso de minúsculas, diálogos que não se distinguem do resto do texto, personagens que parecem todas ter a mesma voz, a voz do narrador, do autor, o tal do silêncio entre as palavras tornado piada literária, caricatura involuntária. La Coca, de J. Rentes de Carvalho, é mais do que isto. O narrador regressado a Portugal, anos 90, e uma viagem pelo Minho e pela Galiza que tem como intenção inicial investigar o tráfico na região, intenção que o avanço da narrativa acaba por sabotar. O narrador – convirá esquecer que o autor Rentes de Carvalho nasceu ali perto, em Gaia (filho de pais transmontanos), o Porto à espreita, e durante a adolescência foi viver com o pai para a fronteira norte entre Portugal e Espanha, o rio Minho pelo meio – reencontra amigos de infância, névoas de um passado em tudo diferente da memória que ele tem deste, filhos de conhecidos, estradas de infância e paisagens que se tornaram desconhecidas ou desapareceram. Encontra-se também com os homens do tráfico. Antigos contrabandistas de tabaco e bebida convertidos ao novo deus do haxixe, da cocaína e da heroína, os heróis de outra era, portugueses que negam ter alguma coisa a ver com essa actividade fronteiriça, galegos que fogem ao contacto do jornalista que vem da Holanda. A viagem é uma sabotagem da ideia inicial. Começa no presente mas acaba num passado irrecuperável. À crueza do contrabando de droga, da violência, as mortes e a prisão, é contraposto o romantismo dos antigos barqueiros que de noite atravessavam o Minho trazendo pacotes de maços de cigarros americanos. O episódio delicioso do pacto entre a guarda fiscal e os contrabandistas que existia no passado foi substituído por histórias de traições entre traficantes, acordos obscuros entre a polícia e os maiores chefes, delações de rivais, relatos exultantes da ascensão e queda de criminosos sem escrúpulos que acabam traídos por companheiros no crime.

 

A descoberta de um mundo novo que a memória tem dificuldade em aceitar, leva a que o passado seja tratado à luz distorcida de um ideal que, provavelmente, nunca terá existido; ou, mais provável, um ideal de vida imaginado. A memória é imaginação, sempre: recriamos o passado como um conjunto de imagens cuja substância é impossível de tocar. Teremos sempre de acreditar no que recordamos: a nostalgia é isto mesmo. E o narrador de La Coca ou, ouso dizer, Rentes de Carvalho – saí da leitura do livro convencido que pouco ou nada distingue os dois, e a prova desta convicção é assumir que, no limite, ficção e memória podem ser as duas faces da mesma moeda – não foge às suas armadilhas. Enredados na mesma teia em que ele caiu, chegamos ao fim igualmente perdidos. E isso é bom; muito, muito bom.

 

(La Coca, de J. Rentes de Carvalho, ed. Quetzal).

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por Sérgio Lavos
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por Miguel Cardina

 

Mais algumas imagens magníficas da revolta espanhola.

 

(via Tiago Mota Saraiva)

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por Miguel Cardina
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por Sérgio Lavos

 

A pose encenada de Angélica, um portento de beleza e mistério, será uma chave para se compreender o cinema de Manoel de Oliveira. A distância entre os códigos do cinema moderno, que supostamente será mais realista, longínquo do teatro filmado que, nas palavras do cineasta, o cinema nunca deixou de ser, e os que sustentam a obra de Oliveira, terá sido o que criou o mito sobre o cinema de Oliveira e, por metonímia, o cinema português. Maravilha, ainda bem que assim é. O realizador de 103 anos é o cinema português, e ter conseguido criar uma obra como O Estranho Caso de Angélica é um milagre. A idade não é um problema: há mais modernidade neste filme - apesar dos efeitos especiais evocando o cinema clássico de Meliés ou o expressionismo alemão - do que na esmagadora maioria das estreias com pipocas dos últimos dez anos. Uma modernidade que recorre, com uma inteligência fulgurante, a citações, à metaficção, à ironia, ao jogo intertextual com a anterior obra e com a obra de outros autores. E há, ainda, o prazer da descoberta. Nunca me terei apercebido do modo perfeitamente distanciado, auto-irónico, como Oliveira encara a utilização de actores amadores e a artificialidade pomposa do seu desempenho - um dos horrores que lhe apontam, como se um filme como Avatar fosse menos artificioso do que qualquer um de Oliveira. Mas sim, espantoso, Oliveira sabe, e brinca subtilmente com isso, demonstrando através das imagens o que já afirmara em entrevistas. 

 

Voltando a Avatar - e apetece falar deste filme que diziam ir revolucionar o cinema -, nem o mais perfeito 3D poderia provocar em nós o efeito que a sequência final de O Estranho Caso de Angélica provoca: um plano comovente, por tudo o que sabemos do que existe fora da sala de cinema, mas um plano também que nos engole e, num prodígio de magia, nos coloca dentro do filme, mergulhados na mesma escuridão do fotógrafo que se perdeu de amores por uma morta. 

 

E, por entre deliciosos anacronismos, a beleza da paisagem do Douro fotografada de forma brilhante, uma montagem perfeita complementada por uma montagem de som que cria fantasmas sonoros em cada cena, homenagens nada veladas ao cinema soviético (e juro que vi John Ford em alguns contra-picados), somos derrotados pelo vigor de um artista que merece muito mais do país onde calhou nascer. É um cliché, mas é também verdade. Um pecado não ver esta obra-prima.

 

* A partir desta semana, vou escrever sobre um filme, um livro e um disco, às sextas, sábados e domingos. Para espairecer da política e de outros assuntos rasteiros.

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por Sérgio Lavos
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Sexta-feira, 20 de Maio de 2011
por Bruno Sena Martins

Paulo Portas

Para quem não se deu ao trabalho de ler o programa de governo do CDS-PP (e Deus sabe como eu tenho mais que fazer), o debate Portas-Louçã foi instrutivo. Fiquei a saber que Portas defende um Rendimento Social de Inserção pago sob a forma de vales de alimentação. Não se ter lembrado de Cheques Fnac, Vouchers A Vida é Bela ou de bilhetes para a próxima final da Liga Europa mostra que Portas sabe umas coisas sobre os probres: têm é que comer e não devem gastar o dinheiro todo em doces. Um governo com Portas no poleiro é a garantia de um Estado caridoso, sem dúvida uma boa notícia para os corações misericordiosos que pagam impostos lembrando o magistério da Madre Teresa. Enquanto Louçã fala em renegociar a dívida para desatascar uma economia condenada, Portas está preocupado em lembrar a dívida dos pobres: que são uns falhados que devem à sociedade a graça do pão de cada dia, que são uns fardos cuja sobrevivência só não é renegociada porque enfim.

por Bruno Sena Martins
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por João Rodrigues

 

Por mais argumentos que se apresentem - das taxas de juro abusivas às privatizações ruinosas, passando pela "contracção sem precedentes do rendimento disponível real das famílias e de novos aumentos da taxa de desemprego", segundo o tenebroso Banco de Portugal, sempre em apoio de todas as regressões, de todas as incompetências -, a expressão “ajuda externa” sobrevive no debate público devido à seguinte ideia: em Maio não haveria dinheiro para "pagar salários". Isto não é bem assim. Em Maio, tudo o resto constante, e nem tudo tinha de estar constante porque havia algumas propostas para gerar liquidez, poderia não haver dinheiro para pagar salários e, friso o e, para fazer face a todos os compromissos com os credores. Numa democracia, aqui chegados, a escolha seria clara: entre o contrato social e o contrato financeiro não há como hesitar. No entanto, o periclitante sistema financeiro europeu não estaria em condições de aguentar tal escolha, claro. Isto é conhecimento comum.

 
A intervenção externa pretende evitar que os credores internos e externos tenham quaisquer perdas até 2013. Se Portugal tivesse tido a coragem de recusar os termos da intervenção externa, teria gerado um arranjo europeu bem melhor do que esta desgraça. É por estas e por outras que o problema europeu só começará a ser resolvido quando um país periférico ou, ainda melhor, uma aliança de países periféricos ameaçar usar a arma da renegociação. Quanto mais cedo isso acontecer melhor. Nem imaginam como isso tornaria o centro europeu consciente do seu interesse próprio esclarecido, como isso concentraria as mentes nos três problemas europeus que contam - dívida, investimento e bancos - e em três reformas incrementais: euro-obrigações, reforço do banco europeu de investimento e do controlo público dos bancos. A alternativa a isto é a desconstrução europeia, graças à interacção perversa entre as fracturas económica, social e política.

 

Publicado no Ladrões de Bicicletas


por João Rodrigues
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por Daniel Oliveira

 

Prefere a vitória de José Sócrates ou de Pedro Passos Coelho? Se me pusessem perante esta escolha não saberia o que responder.

Não, lamento, não acho que o PS e este PSD sejam iguais. É verdade que o que Sócrates fará por falta de coragem Passos fará por convicção. Dá, infelizmente, quase no mesmo. Sendo certo que, apesar de serem ambos claramente incompetentes, o primeiro fará o que a troika decidiu e o segundo tentará ir mais longe. E nisso pode haver uma diferença.

 

Só que uma vitória de Sócrates teria como resultado a sua permanência na liderança do PS. Ou seja, o bloqueio, por mais dois ou três anos, do centro-esquerda e do deprimente panorama político português. E o lento reforço da direita. A médio prazo, a esquerda (eleitorado do PS incluído) acabaria por pagar um preço demasiado alto por esta vitória sem, na prática, ganhar grande coisa.

 

A questão é esta: se o programa do próximo governo está já decidido, não seria preferível que esta crise servisse para nos livrarmos de Sócrates e iniciar-se uma profunda renovação de toda a esquerda portuguesa? Sem Sócrates tudo ficará em aberto. Com ele, continuará a degradação ideológica e ética do PS e do País.

 

O problema é que com Passos Coelho teremos um grupo de lunáticos extremistas no governo. Sem ele, o PSD rumará ao centro para o bloco central. Com ele, a direita chega ao poder no momento em que o ataque ao Estado Social é mais fácil e em que tem a direção mais radical da sua história.

Isto não está fácil para quem, à esquerda, se resigna ao "voto útil", que, como dizia Adriano Moreira, só é útil para quem o recebe.

 

A resposta, quanto ao meu voto, é mais simples: nem um nem outro contará com ele. Sou exigente com a democracia e não sou dos que se conforma com a inútil aritmética que transformar o meu voto em arrependimento mais do que certo.

 

A esquerda que se opõe a este suicídio económico tem-se portado sempre bem? Não e eu tenho-o assinalado, para irritação de alguns, mais vezes do que gostaria. Mas seria trágico que, nas atuais circunstâncias, ela não saísse reforçada. Será a única oposição ao programa da troika. O único sinal de alarme aos abusos que aí vêm. Tenha um bom ou um mau resultado, também esta esquerda terá de refletir, depois das eleições, no papel que quer ter nos próximos anos. Mas isso não diminui a importância de haver uma oposição ao sentido único que nos quer ser imposto.

 

Se me perguntarem se prefiro a vitória de Sócrates ou de Passos Coelho não sei o que responder. A minha emoção impede-me de querer sequer imaginar o que será a trupe de Passos no poder. A minha cabeça nem por isso. Felizmente, não está nas minhas mãos. O meu voto servirá para outra coisa: garantir que, havendo quem se oponha a um programa que arrasará com a nossa economia e com o Estado Social, a democracia continua a funcionar. Será, é verdade, desta vez, um voto crítico. Mas seguro da sua enorme utilidade. Será um voto contra a capitulação. O debate sobre o que tem esta esquerda de fazer com o voto que eu e muitos outros lhe vamos dar virá depois. Terá de vir.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Andrea Peniche

 

Portugal teve o seu 12 de Março; o Estado Espanhol o seu 15 de Maio. As fronteiras da resistência começam a diluir-se e a solidariedade internacionalista a ocupar as ruas e as praças.

 

Afinal, o momento que vivemos é mais ou menos semelhante. Estamos colonizados pelo discurso da crise e da austeridade; as soluções do FMI entram-nos pelo bolso dentro sem terem sido por nós autorizadas; as agências de rating e a especulação financeira destroem a economia; e, por isso, a receita é a mesma: paga quem sempre foi sacrificado. 

 

A corrupção e o compadrio, aqui como lá, têm destruído a confiança no sistema político. É preciso separar o trigo do joio e castigar quem nos conduziu a esta situação: quem confunde causa pública com causa privada e se serve a si próprio e não ao País; quem fez más escolhas e hipotecou o nosso presente e o nosso futuro. Nós podemos fazer a diferença já no dia 5 de Junho. Quem escolher a neutralidade será cúmplice; quem decidir tomar partido, contribuirá para resgatar a esperança e a dignidade.

 

Da Porta do Sol chega-nos um Manifesto nascido da raiva; raiva que é imaginação, força e poder popular. Na Porta do Sol não se teme a política, porque tomar a palavra é fazer política, assim como o é procurar alternativas.

 

Ontem, na Rua do Salitre, em frente ao Consulado de Espanha, juntaram-se mais de 200 pessoas solidarizando-se com a Democracia Real Já! e rompendo fronteiras. Hoje, o protesto continua:

 

Lisboa

12-15 horas - almoço popular

18 horas -  concentração na Rua do Salitre

19 horas - concentração no Rossio

22 horas - assembleia popular no Rossio

 

Porto

20 horas - Praça da Batalha

 

Coimbra

20 horas - Praça 8 de Maio

 

Faro

20 horas - Jardim Manuel Bívar


por Andrea Peniche
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Quinta-feira, 19 de Maio de 2011
por Sérgio Lavos

 

O mundo de Helena Matos está a ficar cada vez mais concentracionário, a ponto de eu começar a ficar vagamente preocupado - no fim de contas, é bom continuarmos a ler este tipo de paranóia liberal-estalinista nos jornais do regime e nos blogues de direita, nunca niguém deverá desdenhar do poder do humor involuntário. A conversão sofrida - e "sofrida" é uma palavra que deverá ser usada em todos os seus possíveis sentidos - pela gente que andou, nos anos quentes do PREC, a lutar por um Portugal revolucionário, deixa marcas, e as sombras que agora julgam ver em cada esquina o resquício de um tempo de perseguição aos ferozes inimigos da revolução. Hábitos que não se esquecem, e a neurose conspirativa é uma coisa saudável e que pode aquecer o coração mais cínico. Mas, de que falo eu? Da tese exposta pela comentarista neste post. Portanto, é assim: os manifestantes que ocuparam as praças de dezenas de cidades espanholas fazem-no porque o PP de Rajoy se apresta a ganhar as eleições. Claro. Faz todo o sentido, e até há alguns freaks com capacidades divinitórias na Puerta de Sol que sem dúvida sabem com toda a segurança o resultado das eleições legislativas do próximo domingo, e vai daí dedicaram-se a evitar, a todo o custo, que o futuro aconteça. Não sei dizer se Helena Matos terá visto o filme Relatório Minoritário (ou lido o conto de Philip Dick) demasiadas vezes ou se nem o conhece. Sei que o tortuoso raciocínio que ela ensaia na análise da "revolução espanhola" (como é chamado o movimento) seria digno de vários estudos sobre a evolução da mentalidade dos burgueses que contribuíram para a revolução portuguesa - estudos que certamente passariam por alguma psicologia de pacotilha, complexo de Electra e esse tido de coisas - mas todos nós deveremos ter melhor coisas em que ocupar o nosso tempo. Entretanto, relembro a Helena Matos que, pouco antes das eleições que Aznar perdeu para Zapatero, houve um, como dizer, horrível atentado em Madrid. E que Aznar, quem sabe se um pouco, vá lá, precipitadamente, se apressou a culpar a ETA. Pior, há alguns indícios de que o fez com uma intenção vergonhosamente eleitoralista. Como a realidade, infelizmente, o desmentiu em pouco tempo, o PSOE acabou por arredar do poder o seu partido. Mas enfim, eu gostaria desde já dizer que respeito a fé de Helena Matos: se ela quer acreditar que foi meia-dúzia de okupas que derrotou Aznar nessas eleições, tudo bem, calo-me de imediato. E mais: saúdo a originalidade. Coisa tão rara deverá sempre ser louvada. Amén.


por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins

Publicado na Liga Aleixo

 

 

Quando Mourinho substituiu Octávio Machado no cargo de treinador do Porto para, duas taças europeias depois, passar o testemunho a Del Neri, tivemos que nos resignar a que acreditar no papel salvífico do Special One.

 

Que teria sido impossível uma equipa portuguesa chegar a uma final sem o seu génio, que teria sido impossível marcar golos com o Postiga em campo, que teria sido impossível tirar quilos ao Nuno Valente. Acreditámos no homem providencial, aquele sem o qual estaríamos condenados a viver contra Viena, contra uma única lembrança, contra aquela noite parada (pausa para arrepio). Julgávamos ter ficado a dever a Mourinho o absurdo de ripostar aos rigores da economia, aquela que condenou os países periféricos a exportar os seus melhores aos 18, a aceitar o regresso de jogadores em pré-reforma, a arriscar pontes aéreas com empresários da América latina.

 

Sendo de ressalvar que uma Liga Europa não é uma Champions, a presença de duas equipas portugueses numa final europeia 7 anos depois de Gelsenkirchen é um sério aviso à tentação deificante, por muito que devamos incensar Pinto da Costa, Villas-Boas ou Falcão. Na minha opinião devíamos estar mais ocupados em agradecer as muitas variáveis que nos concederam a graça do Portismo: ancestralidade familiar no Norte, ausência de um pai castigador que nos tivesse massificado enquanto benfiquistas, sensibilidade lírica para golos de calcanhar, tenacidade perante o desastre, resistência ao exílio, uma adolescência passada com o Poster do Fernando Couto no quarto, amor aos clássicos. Não sei a que sortilégio agradecer a filiação na causa portista, sei que “ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias”, não vou dizer que para o ano ganhamos Champions, mas (como dizia o semi-deus) penso.


por Bruno Sena Martins
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por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

 

 

Pedro Passos Coelho acha que as Novas Oportunidades são uma certificado à ignorância. Assim como acha que o subsídio de desemprego é um expediente de preguiçosos. Passos Coelho deve ser um homem que, desde de tenra idade, deu no duro. Um aluno brilhante que singrou numa carreira e assim se impôs aos que o rodeavam. Porque tanta arrogância social só pode resultar de uma vida sofrida que olha com impaciência para as dificuldades dos outros. Quem vá ouvindo a forma como a nossa elite fala dos menos afortunados terá de concluir que é o mérito, e apenas ele, que explica o seu sucesso.

 

Pois eu admiro quem, depois de um dia de trabalho, ainda arranja forças para ir para uma escola. Admiro quem tira tempo ao seu tempo para aprender um pouco mais. As Novas Oportunidades não corresponderão muitas vezes a um ensino de excelência. Aqui e ali poderão, muitas vezes, ser ligeiras. E as principais vítimas desse facilitismo serão aqueles que perdem o seu tempo para melhorar os seus conhecimentos e ver habilitações que já têm, conseguidas fora dos bancos da escola, reconhecidas pela comunidade. E serei o primeiro a defender que não pode haver uma formação de segunda para quem se esforça para conseguir mais. Mas nunca, em nenhum momento, me atreveria a insultar assim o esforço destas pessoas.

 

A frase de Passos até pode ser popular num País onde o esforço de quem não se resigna a ficar no seu lugar é, pelo menos até se conseguir engordar a conta bancária, motivo de troça. Quem fez o 12º ano até pode gostar de pensar que os que chegaram até lá fora de tempo não o merecem. Mas ela carrega consigo o indisfarçável desprezo que os homens à volta de Passos Coelho têm por aqueles que esta sociedade desigual e esta elite arrogante vê como "falhados". É assim com os desempregados, é assim com os que têm menos estudos. E este padrão de desprezo social diz quase tudo sobre a forma como estes senhores pretendem governar o País.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por João Rodrigues

 

Em Portugal, a evolução dos salários da função pública é um dos mais importantes factores de influência nas negociações salariais do sector privado. A redução de salários da função pública não poderá deixar de ter um forte efeito na moderação salarial no sector privado em 2011 e mesmo nos anos seguintes.

 

Relatório do Orçamento de Estado de 2011

 

Aqui está a vitória da economia política da austeridade: “moderação salarial”, ou seja, quebras intensas no poder de compra dos salários. Entretanto, a taxa de desemprego passou de 11,1% para 12,4%, “em parte”, sublinho o “em parte”, devido ao “efeito de alterações introduzidas no modo de recolha e a modificações no questionário do inquérito ao emprego”, diz o INE. A outra parte é o efeito desta austeridade inevitavelmente recessiva. Uma parte que vai ser cada vez mais importante, até porque as alterações à legislação laboral só vão acentuar os efeitos destrutivos da recessão, facilitando novos despedimentos e novas quebras dos salários. O inenarrável Valter Lemos, um personagem só possível numa democracia fortemente degradada, promovido por um partido que perdeu a bússola socialista, que digo eu, a bússola social-democrata, a bússola da decência, tem razão por uma vez: está tudo “dentro das expectativas” do governo. Dentro das expectativas da política económica dos sucessivos PEC e agora da troika. Uma política económica que tem por efeito gerar cada vez mais desemprego e medo na economia, cada vez maiores quebras nos salários e na procura, cada vez mais famílias insolventes, num país que se podia orgulhar de ter das mais baixas taxas de incumprimento no crédito, cada vez mais escolhas trágicas. Uma política para uma economia inviável: com juros superiores a 5% e uma recessão de pelo menos 4% nestes dois anos, só com muito pensamento mágico, com muita aldrabice, é que se pode dizer que a renegociação da dívida é impensável. De resto, esta política de austeridade só é evitável se os cidadãos se mobilizarem contras as troikas e apostarem nas alternativas sensatas disponíveis.

 

Nota. O gráfico é do Público. A insistência na expressão "ajuda externa" é que já não se percebe.


por João Rodrigues
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