Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011
por Daniel Oliveira

 

 

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Dos autores do Arrastão (ilustração de Pedro Vieira, claro)


por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins

O pedido da Palestina para ser membro de pleno direito das Nações Unidas já tem o apoio de oito dos 15 países do Conselho de Segurança (...). China, Rússia, Brasil, Índia, Líbano e África do Sul já declararam apoio ao pedido palestiniano, mas Malki disse ter recebido também garantias de voto favorável da Nigéria e do Gabão. Citado pelo diário israelita Haaretz, o ministro afirmou que os palestinianos têm duas opções para o nono voto - Colômbia ou Bósnia. Face ao anúncio de abstenção do Estado latino-americano, os seus esforços estarão a incidir sobre a Bósnia. Portugal ainda não revelou a sua posição.

Não que o turismo pelas revoluções consumadas seja uma actividade menor para um Ministro da sua valia, mas o facto é que Paulo Portas, emérito governante que ainda recentemente se deslocou à Líbia para dar conta do seu entusiasmo com a versão local da Primavera Árabe, tem uma oportunidade inédita de aparecer na fotografia de uma revolução em curso. Nada contra a vontade de aparecer, mas já que está nisso, excelso lutador pela liberdade dos povos, apareça enquanto vale a pena.

 


por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

 

 

Isaltino Morais foi detido. Pela PSP. Como um criminoso. Uma pessoa lê e não acredita. Criminoso é quem rouba um autorrádio, não é quem rouba o Estado quando ocupa cargos públicos. O criminoso gasta o dinheiro no dia seguinte, não o põe a render na Suiça.

 

Sim, é verdade que o processo ainda não acabou. Mas olha-se para a forma como os seus advogados tratam da sua defesa e percebe-se como as coisas funcionam. Todos os recursos são entregues na véspera de cada decisão transitar em julgado. Não há a tentativa de provar a inocência do autarca. Há a tentativa de arrastar, o mais que der, o processo.

 

Defendo que qualquer acusado deve ter direito a todas as garantias de defesa e a um julgamento justo. Oponho-me a julgamentos sumários. Mas o sistema jurídico português, com o seu labirinto processual, garante uma justiça rápida para quem não pode pagar um advogado e processos que se arrastam até darem em nada para quem consiga pagar os melhores.

 

Sim, toda a gente é inocente até prova em contrário. Nunca me cansarei de o dizer. Mas tudo tem um limite. No caso de Isaltino Morais, os truques dos seus advogados, que já vão no Tribunal Constitucional, sempre deixando esgotar todos os prazos até pagarem todas as multas necessárias, não podem deixar as evidências suspensas por mais tempo.Todos conseguimos distinguir quando se está a tentar provar a inocência de alguém ou a tentar adiar uma condenação.

 

Mas os portugueses não se podem queixar. O que a justiça não faz eles deixaram por fazer. Nem sequer foram os partidos. O de Isaltino correu com ele. Foram os eleitores, e não as leis, que reelegeram Isaltino depois da sua condenação. E não se tratou de caciquismo ou compra de votos. Oeiras tem os munícipes mais instruídos e com mais poder de compra do País. Os mesmos que se indignarão porque um qualquer pilha-galinhas "é apanhado hoje e amanhã já está cá fora". Não é a justiça que distingue o ladrão rico e o ladrão pobre. São os próprios portugueses. Gostam de ser roubados. Desde que o ladrão, claro, "tenha obra".

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011
por Daniel Oliveira

 

 

Na Madeira, a democracia está doente. Há três décadas que está neste estado. Quando um partido ocupa um jornal - mesmo tratando-se de um pasquim de propaganda descarada, distribuído gratuitamente e pago por todos os contribuintes -, e uma parte dos madeirenses acha isso normal, percebemos a gravidade do seu estado. Mas perante o sufoco da democracia, a permanente violação das regras democráticas, a impossibilidade de dar a volta a um jogo viciado, podemos tentar perceber. Tentar, apenas.

 

Na Madeira não há propriamente esquerda e direita. Há a maioria, que apoia o cacique local, e há o resto, que o odeia e que aplaude qualquer meio usado para o combater. Alberto João Jardim sabe disso e apela a esta hostilidade. E foi a esse espírito de guerra que apelou quando disse: "Temos de dar pancada a quem ofende os madeirenses". Não há qualquer debate político na Madeira. Há gritos e casos. Aliás, Jardim consegue a proeza de ir a eleições sem nunca participar em qualquer debate público com a oposição. É obra.

 

Perante isto, o que se passou ontem (e a que eu, por coincidência de agenda, assisti), sendo uma anormalidade e abrindo um perigoso precedente - onde chegaremos se os partidos políticos começam a ocupar jornais? -, só espanta quem não sabe o que é a vida política madeirense. Alberto João Jardim contaminou de alarvidade e arbitrariedade o confronto político na ilha. E só quando os madeirenses se livrarem dele terão uma democracia saudável e madura. Aí descubrirão: afinal, a democracia é isto.

 

Escrito no Funchal

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011
por Bruno Sena Martins

 

Um ano após ter defendido o reconhecimento do Estado Palestiniano pelas Nações Unidas, Obama dirigiu-se à Assembleia-Geral  para dizer exactamente o contrário. Mais, numa conferência de imprensa em que no fundo a bandeira americana tocava comoventemente a de Israel, Obama jurou fidelidade a Netanyahu - como que oferecendo o veto americano pelo voto do judeu americano. Assim, tragicamente, a importância dos votos e do dinheiro judaico na política americana voltou a falar mais alto.*

 

Traduzo um exerto da crónica de Robert Fisk sobre o discurso de Obama: 

 

"Um marciano que ouvisse este discurso diria, como sugeriu a Sra. Ashrawi, que os palestinianos ocupam Israel e não o contrário. Nenhuma menção à ocupação israelita, nenhuma menção aos refugiados, ao direito de retorno ou ao roubo da terra palestiniana pelo governo israelita contra a lei internacional. Mas ouviram-se imensos lamentos ao povo sitiado de Israel, aos rockets lançados às suas casas, às bombas suicidas - pecados palestinianos, certamente, mas nenhuma referência à chacina de Gaza, à massiva mortandade de palestinianos - e mesmo à perseguição histórica dos judeus e ao Holocausto. Essa perseguição é um facto da história. Tal como o horror do Holocausto.

 

Mas OS PALESTINIANOS NÃO COMETERAM ESSES ACTOS. Foram, os europeus - cuja ajuda Obama procura na recusa da criação do Estado palestiniano - que cometeram esse crime dos crimes." (expressão em caixa alta no original)

* Antes que venham com a ladainha do costume, reafirmo: igualmente servil para com o inimputável Estado de Isreal, em tudo o mais Obama continua a ser infinitamente melhor do que os republicanos que se lhe opõem.


por Bruno Sena Martins
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por Sérgio Lavos

Premiar os melhores alunos nas escolas portuguesas, incentivando o trabalho e o mérito. Mas depois do trabalho feito, obrigar os alunos a abdicarem do prémio pelo qual tanto se esforçaram em prol de "famílas mais carenciadas". No fundo, incutir nas nossas crianças valores mais humanos do que a meritocracia ou a competitividade. E ainda bem que o sr. ministro, que, antes e depois de ser nomeado para a função, não se tem cansado de insistir na valorização destas características, mudou de ideias a tempo - na realidade, a poucos dias do acontecimento. Nem tudo está perdido.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

 

Gostei de ouvir o secretário de Estado da Administração Local numa entrevista à TSF. Explicou que, mais importante do que reduzir as freguesias, é tornar o ordenamento autárquico mais racional. E, mais interessante, percebeu-se que sabe distinguir entre a mera matemática dos cortes e razoabilidade das decisões. Começando por dizer o óbvio: freguesias urbanas, rurais, predominantemente urbanas, em sedes de concelho ou em zonas isoladas do interior não são a mesma coisa e não se lhes pode aplicar os mesmos critérios. Estranho que dizer uma evidência mereça aplauso. Mas nos tempos que correm, em que os cortes e o populismo mais básico andam de mão dada, é uma lufada de ar fresco.

 

E disse mais: que a fusão de municípios será voluntária. Mas neste caso trata-se de cautela política. Num país sem tradição regionalista, o municipalismo tem uma extraordinária capacidade de resistência. Tentasse o governo acabar com um e teria mais revolta na rua do que com todas as medidas socialmente criminosas que anda a tomar. Há guerras que são fáceis de aconselhar, quando se aterra num País, mas bem mais difíceis de travar por quem tem de por cá continuar.

 

Há, no que toca ao número de freguesias, inúmeras irracionalidades que resultam mais da inércia e da resistência de minúsculos poderes do que de uma necessidade ou, sequer, da vontade popular. Duvido que os pouco mais de 120 mil barcelenses façam questão em ter 89 freguesias. Nunca foi por vontade dos lisboetas, tradicionalmente mais identificados com os seus bairros do que com as freguesias - que nem correspondem a grande coisa -, que a capital tem 53 presidentes de Junta, enquanto o Porto se satisfaz com 15. Tem muito mais a ver com os minúsculos líderes locais que não querem perder o seu pequeno lugar de prestígio.

 

Como se sabe, a Câmara de Lisboa decidiu avançar com a fusão de freguesias. Algumas com tão poucos eleitores que nem listas partidárias com moradores ali se conseguem fazer e nem a porta aberta, com horários normais, conseguem ter. As populações ficam, como é evidente, a ganhar com esta decisão. Em proximidade. Porquefreguesias com alguma dimensão podem ter meios humanos e financeiros para fazer mais do que tratar de uns canteiros e passar umas certidões. Uma realidade bem diferente é a de quem tem de viajar quilómetros para ir à sede da Junta.

 

Mas note-se que foi Lisboa, e não o poder central - quem não vive na Capital tem a tendência para confundir as duas coisas -, que decidiu avançar com este processo. E é natural que, conhecendo as idiossincrasias da cidade, tenha decidido melhor do que um qualquer burocrata do ministério que seguisse critérios muito rigorosos mas pouco conhecedores da realidade local. Por isso, parece-me que o mais inteligente seria dar às autarquias um prazo decente para elas próprias fazerem as suas propostas, com base nos critérios propostos pelo governo. Claro que muitos autarcas dispensam este fardo que lhes pode, em alguns lugares, custar votos. É mais fácil culpar o Terreiro do Paço por cada decisão.

 

Mas infelizmente, a política, hoje, resume-se a cumprir um memorando feito por quem, sobre economia só exige disparates e sobre o resto conhece apenas o aeroporto da capital onde aterra. Estamos entregues a isto: políticos fracos que cumprem ordens de burocratas ignorantes. Neste caso, a decisão do governo não podia estar mais correta. Mas o memorando exige rapidez e isso pode estragar tudo. 

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 27 de Setembro de 2011
por Daniel Oliveira

 

Será esta personagem real ou um impostor? Será um dos famosos "Yes Men"? É este o debate sobre o vídeo viral do momento (eu próprio o postei aqui durante um minuto). Deixo aqui quatro artigos sobre Alessio Rastani: este, este, este e este. Se ele é mesmo um corretor, sabemos que os sociopatas podem ser sinceros e que essa sinceridade cria incómodo. Mas se, pelo contrário, esta entrevista tiver sido uma partida é uma excelente metáfora sobre o mundo irreal em que vivemos, onde a um falso "especialista" chega com tanta facilidade à BBC para falar dos mercados e da crise do euro. E, curiosamente, nos diz a verdade.  


por Daniel Oliveira
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por Miguel Cardina

 

Nestes novos tempos em que a direita tem uma oportunidade de ouro para aplicar o seu programa histórico, temos direito a tudo. Até à reemergência dos velhos e gastos oráculos. Explicando ao povo no Casino da Figueira da Foz as razões pelas quais chegámos a esta "piolheira", Medina Carreira lá fez a sua conversa de taxista ressentido. Afiançou, por exemplo, que neste país se "endeusam" as universidades e que, claro está, temos "doutores a mais". E o Rui Curado Silva, cheio de paciência, lá demonstrou a falsidade desta ideia. Com um gráfico e tudo.

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por Miguel Cardina
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por Daniel Oliveira

 

Angela Merkel, chanceler de um dos primeiros estados europeu a violar os limites do défice - problema rapidamente resolvido com adiamentos -,propôs que os países que ultrapassem o défice e o endividamento público exigidos perdessem a sua soberania.

 

Suspeita-se que a dívida alemã seja, ela mesma, muito superior ao que é confessado. Segundo o jornal "Handelsblatt", a maior parte das despesas previstas com reformados, doentes e pessoas dependentes não foram nos cálculos. ´O quer dizer que a dívida alemã poderia vir a corresponder a 185 por cento do PIB da Alemanha, quase igual à grega e muito superior à espanhola, italiana e portuguesa. Já não quero que a Alemanha perca a sua soberania. Basta-me que deixe de querer ter a nossa.

 

Acho que está então chegada a altura de pôr a chanceler no seu devido lugar. E explicar-lhe que estas declarações são um ato hostil contra aliados, que a coloca na perigosa posição de séria ameaça à independência dos Estados e ao direito internacional. A coisa resume-se de forma ainda mais direta: Angela Merkel é um perigo para a segurança e estabilidade dos países europeus. E é assim que deveria começar a ser tratada pelas instituições europeias e os membros da União.

 

Entretanto, temos de fazer uma escolha. E em qualquer delas a retórica imperial da senhora Merkel não cabe.

A primeira: os países europeus começam a preparar a desagregação da União Europeia, regressando às velhas nações, e a Alemanha voltará ao degredo de onde a Europa, solidária e complacente, a retirou, esquecendo os seus crimes passados. Sem qualquer possibilidade de, com o seu marco, competir com o dólar. Crescerá enquanto a galinha dos ovos de ouro do Leste render e, quando a festa acabar, fica reduzida à sua dimensão. Dimensão na qual, bem sabemos, sempre sentiu alguma claustrofobia.

 

A segunda: damos definitivamente o passo para uma Europa Federal. Com harmonização fiscal, orçamento europeu, obrigações da dívida europeias, moeda única e, claro está, união política. Um parlamento europeu com poderes soberanos, um senado com representação igual para cada Estado, um governo e uma Constituição. E nesse projeto europeu os países periféricos deixarão de ser tratados como um simples mercado, onde se comprou a destruição de toda a capacidade produtiva, se despejou os produtos e, quando já nada se podia fazer com eles, se atirou para o lixo. O euro deixará de ser um instrumento ao serviço da economia alemã. O Banco Central Europeu deixará de ser um representante das conveniências de Berlim. Ou seja, Angela Merkel, ou quem a substituir, terá de saber viver com os seus parceiros. Os mesmos que ajudaram a Alemanha - com compromissos políticos e cedências económicas - a reerguer-se e a reunificar-se.

 

Estas são as duas possibilidades da Europa: voltar para trás ou andar para a frente. Se ficar em cima da ponte que está a ruir as repercussões podem ser terríveis para as democracias europeias.

 

Só que antes disto, ao que tudo indica, a irresponsabilidade europeia deverá levar a Grécia a sair do euro. E se isso acontecer nós seremos os senhores que se seguem. Ou seja, para nós e para os gregos as ameaças criminosas da senhora Merkel valem pouco. Poderemos vir a recuperar, da pior forma, a nossa soberania: através da saída do euro. E não seria mau que, pelo menos, trabalhássemos nesse cenário. E nos preparássemos para ele. A esse assunto irei um destes dias.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011
por Sérgio Lavos

 

A partir de 1 de Janeiro de 2012, deixará de haver espectáculos de tortura ao vivo na Catalunha. A medida, aprovada pelo parlamento daquela região espanhola, parece ter deixado enfurecidos os sádicos do costume. Felizmente, a história esquecerá depressa estes reaccionários; daqui a umas décadas, toda a gente se questionará sobre como foi possível ainda existirem touradas no século XXI.

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por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

Parece que Alberto João Jardim e Angela Merkel aprenderam a gerir dinheiros públicos na mesma escola. E agora, será que a Alemanha vai ter de abdicar da sua soberania para poder cumprir os critérios de estabilidade? É que a partir dos 90% a dívida começa a esmagar o crescimento económico e a Alemanha parece que afinal já vai nos 185%, a um passo dos 186 da Grécia e distanciando largamente a Itália (120%), Portugal e a Espanha. Quererá a pátria de Frau Merkel entrar para o quadro de desonra do Euro?


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

O fascínio acrítico pelo progresso é tão idiota como o fascinio acrítico pela tradição. E quando o fascínio pelo progresso assenta num deslumbramento por cada avanço tecnológico ele torna-se especialmente perigoso. Não porque, evidentemente, um qualquer desenvolvimento tecnológico seja por si mesmo negativo. Mas porque ele transporta sempre em si perigos que não foram inscritos nos seus objetivos iniciais.

 

A Internet e as redes sociais aproximaram as pessoas, dispensaram mediadores, encurtaram a distância e o tempo, abalaram hierarquias, intensificaram a participação democrática, aumentaram a liberdade de expressão, permitiram a transparência e tornaram o acesso à informação virtualmente infinito. Tudo certo. Mas partimos do princípio que tudo isto era positivo. E tudo depende sempre do grau.

 

A aproximação das pessoas é positiva desde que não se torne sufocante. A expressão "aldeia global", que parecia simpática, pode tornar-se assustadora. Como são as aldeias. Enquanto na cidade nos é permitida a privacidade do anonimato, na aldeia o controlo social pode tornar-se insuportável. E a "aldeia global" está a tornar-se insuportável.

 

Dispensar mediadores pode parecer agradável. Mas os mediadores seguem, ou podem ser obrigados a seguir, regras. Se os dispensarmos completamente não os dispensamos apenas a eles. Dispensamos um acumular de saberes, de leis, de códigos. E se isso acontece num mundo virtual, sem rostos e nomes, perde-se toda a responsabilidade social.

 

Encurtar distância e tempo parece ser cómodo. Mas o ser humano tem capacidades limitadas. Domina um determinado espaço, precisa de um determinado tempo. E as suas instituições foram desenhadas para esse espaço e para esse tempo. Se há coisa que as sucessivas crises financeiras em que vivemos nos explicam é isso mesmo: tudo se passa demasiado rápido, tudo se passa em lugar nenhum, onde nenhuma lei e nenhuma ética pode chegar. Exige-se às instituições que criámos uma rapidez e espaço de ação que elas não podem ter. Nem nunca terão.

 

Derrubar hierarquias parece excelente, sobretudo para alguém com as minhas convicções políticas. Mas as hierarquias não são, nunca foram, o problema. De onde nasce a sua legitimidade é que nos deve preocupar. Sim, devemos ser todos iguais em deveres e direitos. Temos de ter todos as mesmas oportunidades. É nisto que uma pessoa de esquerda acredita. Mas não acredita, não pode acreditar, porque as evidências não o permitem, que temos todos as mesmas capacidades. E que estamos todos igualmente preparados para as mesmas responsabilidades.

 

Claro que a participação democrática é excelente. Mas se ela não tem rituais, momentos, regras e responsabilização será tão participada como a gritaria de uma multidão.

 

A liberdade de expressão é um direito de todos. Sem exceção. Mas a indiferenciação e o burburinho onde nenhuma voz se distingue, pode ser livre, mas não chega a ser sequer uma forma de expressão. Desta cacofonia nasce apenas a ignorância e o desespero.

 

O acesso generalizado ao máximo de informação é excelente. Mas excesso de informação é o mesmo que informação nenhuma. Sabemos hoje muito mais do que sabíamos. Mas não conseguimos fazer sínteses, construir narrativas coerentes, aprender com os erros. Porque é tudo demais, demasiado rápido, demasiado próximo, em demasiada quantidade e uniformemente importante.

 

A transparência é um valor em regimes democráticos. Mas o excesso de transparência torna a vida em sociedade insuportável. Não há vida em comunidade (nem política, nem negócios, nem família, nem amizade, nem vizinhança) sem segredos, mentiras e hipocrisia. Ninguém quer viver num lugar onde tudo se sabe, tudo se diz, tudo se ouve e tudo se vê.

 

O que quero dizer com isto tudo? Que a tecnologia trouxe perigos que nos parecem (e também são) vantagens. Nada de novo. Assim foi com a moderna impressão, em que o original e a cópia deixaram de existir, ou com a rádio e a televisão, que nos formatou em gostos e opiniões. O  novo é que, neste caso, a tecnologia trouxe perigos para quase todo o edifício de valores que nos regia e para quase todas as instituições que conhecemos de uma só vez e em apenas duas décadas. Sem que estejamos preparados para tamanha revolução. A democracia nasceu para a cidade. E depois para as Nações. Não nasceu na aldeia e não existe no planeta. Ela nunca existirá na "aldeia global". E ela exige tempo. Não sobrevive a uma avaliação imediata e permanente.

 

O espírito da rede social infinita e global - temos todos tantos "amigos" -, de uma participação sem responsabilidade que se confunde com democracia participada, seria excelente se tivesse encontrado, no caminho, alguma resistência das instituições do "velho tempo". Se os mediadores das sociedades democráticas tivessem reivindicado o direito ao exercício das suas funções. E, neste momento, estou a pensar especialmente na imprensa. Não foi isso que fizeram. No início, ignoraram. Arrogantes, desvalorizaram o novo mundo que aí vinha. Um burburinho que não merecia a sua atenção. Lixo, apenas. Depois renderam-se. E renderam-se da pior forma: assumiram a derrota e compraram o burburinho e o lixo. Não se limitaram a aproveitar as suas vantagens, que não são poucas. Perdidos, sem saber qual o seu papel, deixaram de mediar.

 

Tudo isto, por estranho que pareça, vem a propósito de um pequeno anúncio para o qual fui alertado há quase quinze dias. Saiu no caderno "Vidas", do "Correio da Manhã". Dizia isto: "Está numa esplanada e repara que na mesa ao lado se encontra aquela atriz que todos os dias vê na televisão? Passeia na rua e depara-se com um futebolista às compras ou com um ator de quem tanto gosta? Não fique parado. Pegue na sua máquina fotográfica, registe o momento e envie-nos a foto. Oferecemos uma Samsung EC PL70 ao melhor paparazzo. Participe e divirta-se."

 

Ou seja, um jornal, em vez de valorizar, selecionar e responsabilizar os cidadãos na recolha de informação vai buscar o pior deste novo mundo. Dirão: sim, é verdade, mas a revista em causa, como mediadora, também, ela própria, se dedica ao lixo. E essas revistas sempre existiram. Não desminto. Acontece que se uns milhares de paparazzos são um problema com o qual ainda estamos preparados para lidar, milhões de paparazzos são um pesadelo que nem George Orwell poderia prever. Se o controlo social de uma aldeia pode ser asfixiante, o controlo social de uma aldeia, passado para a escala global, constrói uma sociedade onde nenhum de nós quererá viver. É uma questão de escala. Focos de nojeira controlam-se, a nojeira em todo o lado é insuportável.

 

Onde quero chegar? Num momento em que tudo é fluído, em que não há tempo, espaço, instituições, regras, responsabilização e rostos (não porque haja um qualquer declínio moral, mas apenas porque há instrumentos que põem em causa a forma como vivemos em sociedade até aqui), quem ocupa os lugares tradicionais de mediação tem de resistir e demarcar-se de todos os que, na sua profissão, contribuem para a morte da sua própria função social.

 

Escolhendo outro episódio. A Wikileaks teria sido excelente para a defesa da liberdade de informação se os jornalistas tivessem feito o seu trabalho com tanto material: selecionar com critério. Como, em demasiados casos, preferiram ou vouyerismo (saber o que fulano disse sobre beltrano), perderam a oportunidade de se legitimarem como mediadores aos olhos dos cidadãos. Assim como, quando um jornal pede aos cidadãos para violarem a privacidade dos "famosos", lhes explica que a única diferença entre um órgão de comunicação social e um blogue anónimo é que se tem de pagar para ler um enquanto o outro é de borla. Se nos jornais ainda há que ache que pode participar na barulheira indiferenciada, é bom que saiba que para isso nem quem gosta de lixo precisa deles. E que se prepare para fechar a loja.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Sábado, 24 de Setembro de 2011
por Sérgio Lavos

 

No dia 24 de Setembro de 1991, o álbum Nevermind sai para as lojas; no dia 11 de Setembro de 2001, dois aviões embatem nas Torres Gémeas e matam quase 3000 pessoas.

 

As duas datas, sem nada que pareça aproximá-las, acabam por ser duas importantes balizas da geração a que pertenço. Em 1991 eu ainda achava que nunca chegaria à idade adulta; em 2001, eu já tinha entrado nessa idade sem me ter dado conta. Até que uma realidade tingida de ficção me desperta. 

 

A experiência do mundo é sempre individual, solitária; mas os dois acontecimentos certamente marcaram milhões de filhos da bonança dos oitenta. Curiosamente, somos nós, os da Geração Rasca, que agora mais sofremos as agruras de um capitalismo precário.

 

E os Nirvana, o que têm eles a ver com isto? Deixando um pouco de parte a música, o impacto de Nevermind foi um fogacho que rompeu o domínio da mentalidade consumista a que o mundo estava submetido naquela época. E, simultaneamente, o exemplo de como o capitalismo joga todas as mãos com um trunfo no bolso: os putos niilistas de Aberdeen, uma pequena cidade no Noroeste dos EUA, tornaram-se de um dia para o outro estrelas planetárias, os heróis que vieram substituir Axl Rose e rock bem composto que formava o gosto da juventude. Como diz Mickey Rourke (outro herói dessa década) em The Wrestler, os Nirvaram chegaram e estragaram isto tudo. E o capitalismo abraçava os que o desprezavam - como sempre o fez.

 

E é fácil de perceber como: a pose rebelde do hard rock era um postiço tão evidente como as lutas simuladas do wrestling. Axl Rose batia na namorada mas era um menino mimado com demasiado dinheiro nas mãos e um talento mais do que duvidoso (e nesta frase não entra Slash). As tabelas eram dominadas pelo eurotrash e a britpop ainda não atingira o seu auge. E, de repente, surge uma banda que na aparência tinha um som violento, que remexia as entranhas; e pareciam tão reais, as letras de Kurt Cobain, a sua dor. Os adolescentes marginalizados encontravam o seu herói; e a onda varreria o mainstream, o tal fogacho.

 

Ao longo do tempo, muito se escreveu sobre as razões por detrás do êxito. Chegou-se a acordo sobre um ponto: entre as linhas de baixo vigorosas de Krist Novoselic, a bateria pujante (e brilhante) de David Grohl, a acidez das guitarras e a voz agreste de Kurt Cobain, escondia-se uma doçura pop que devia mais aos Beatles do que ao punk. Em parte esta acepção é verdadeira: Cobain admirava a banda inglesa. Mas os especialistas musicais não precisariam de ir tão longe. No punk - a linhagem directa dos Nirvana - sempre houve muito pop. Ou será que os Ramones nunca ouviram Beach Boys? E os Sex Pistols, não serão eles um dos melhores exemplos de aproveitamente da cultura popular de sempre - a imagem, acima de tudo, a pose?

 

In Bloom, a segunda faixa do álbum, é a prova disfarçada: no vídeo, a banda finge ser dos anos 60 - as raparigas gritam e puxam os cabelos, os rapazes deliram. A ironia provocatória da evocação era auto-indulgente. Servir os servos, como cantaria depois Cobain. As multidões ululantes eram servidas. Vendidos, sim, mas a gozar o melhor tempo da vida.

 

Os três sempre tiveram um sentido cénico insuperável. Cobain provocava, Novoselic seguia-o, Grohl é, sempre foi, um bom actor. Se assim é, o que diferenciava os Nirvana das bandas rock que os precederam? Encenar a verdade sempre foi o mais difícil. E Cobain acabaria por perceber isso demasiado tarde.

 

E a música, claro, a equação: um dos melhores baixistas rock dos últimos trinta anos; um Cobain que decidiu incorporar melodias trauteáveis nas suas composições; e um baterista que entrou e revolucionou o som da banda. O que mudou, de Bleach para Nevermind, passou muito pela entrada de Grohl. As variações rítmicas de Nevermind - a tal cadência lento-rápido-lento roubada aos Pixies - encaixam-se na perfeição às melodias vocais e instrumentais. E a produção de Butch Vig aprimora o som, limpa-o de impurezas, corta e cola até se encontrar o single perfeito. 

 

Mas as massas de jovens que os adoravam - no sentido religioso do termo - não poderiam perceber estas subtilezas. A eles - a mim - atraía o desespero urgente de dizer alguma coisa ao mundo. Os gritos de Cobain eram também os gritos dos jovens que o bem-estar material e o desconforto espiritual tinham castrado. Os slackers, os loosers (da canção de Beck), a geração rasca.


por Sérgio Lavos
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por Bruno Sena Martins

 Quando tantos rejubilam com tão pouco, percebemos que são muitos há longo tempo desavindos do hábito de serem melhores. Por uma questão de estilo, para nós um empate é sempre uma derrota.


por Bruno Sena Martins
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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011
por João Rodrigues

Um dos efeitos da enésima ronda de austeridade recessiva na Grécia é tornar o cenário de saída do euro cada dia mais plausível. Na ausência de uma reconfiguração, este euro autodestrói-se porque a resposta austeritária está inscrita na sua constituição. Se isto continuar assim, o povo grego pode ser só o primeiro a ser colocado perante a questão decisiva depois da inevitável reestruturação da dívida: quando e como sair? 


por João Rodrigues
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por Sérgio Lavos

 

Transformar em empresas a Cinemateca e os teatros nacionais. É simples de entender a originalidade e o alcance desta medida: tornar atractivo o espaço que em tempos João Bénard da Costa dirigiu não é difícil: estou a imaginar um multiplex para filmes de Hollywood, pipocas e cola incluídos - parece-me ser a única maneira de rentabilizar o que agora dá prejuízo. Questões como o acesso aos clássicos do cinema ou a formação das novas gerações parecem-me perfeitamente obsoletas. Que mil "Avatars" floresçam! E quanto aos teatros, na realidade não precisamos deles; os actores são parasitas que vivem à nossa custa e, no fim de contas, quem precisa de Shakespeare, Ibsen ou Sófocles para viver? Não temos as novelas e os reality-shows da televisão? Se a maioria prefere ver a Casa dos Segredos em vez de Hamlet, é absurdo manter teatros abertos. A decadência do Ocidente (segundo Vasco Pulido Valente) é um pormenor da história.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

Durante a campanha, chocado, Passos Coelho disse que era falso que pretendesse liberalizar os despedimentos e acabar com o conceito de justa causa. Isto apesar disso resultar como evidente da revisão constitucional que apresentou ao País. Essa revisão dificilmente se fará - até porque, sem muito para dizer, o PS fez do combate a estas propostas o seu cavalo de batalha. Mas não é necessário. As novas propostas do governo para alterar o código de trabalho resultam na mesmíssima coisa.

 

Quando se diz que é razão para despedimento por justa causa a redução de quantidade e qualidade da produção de um determinado trabalhador está a dizer-se o quê? Querem conceito mais genérico e arbitrário do que a redução da qualidade do que se produz? Se um patrão quiser mesmo despedir alguém, precisa de alguma coisa que não seja a sua opinião?

 

Muitos jovens e menos jovens sem qualquer vínculo contratual - já são uma parte muito razoável do mercado de trabalho -, para quem não há lei, acreditam que os direitos de quem tem contrato são seu inimigo. Tendo a legitimidade de fazer parte dessa geração - quase toda a minha vida profissional foi feita em precariedade absoluta -, não podia discordar mais. Os direitos não serão distribuídos com maior equidade. O que acontecerá é exactamente o oposto: a perda de direitos de quem os tem apenas fragiliza ainda mais quem nunca os teve. Porque se todos os trabalhadores estiverem dependentes dos caprichos e humores do empregador ninguém poderá resistir aos abusos. E o primeiro efeito será a perda de poder negocial de quem vive do seu trabalho. O que resultará dessa fraqueza generalizada: uma distribuição ainda mais desigual dos rendimentos entre trabalho e capital.

 

A segurança no emprego não é um privilégio. É a condição para o mínimo de justiça social. Se o exército de precários aumenta os principais prejudicados serão os precários de sempre. Saberão finalmente que melhor do que têm nunca conseguirão.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

 

Troy Davis, condenado à morte em circunstâncias que não estavam, de modo algum, "além de qualquer dúvida razoável", acabou por ser executado. Enquanto a pena de morte não for abolida, a superioridade moral dos EUA será um mito. Para além de qualquer dúvida razoável. 


por Sérgio Lavos
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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011
por Daniel Oliveira

 

Há quem defenda a responsabilização criminal de Alberto João Jardim não apenas por ocultação de dívida (na qual parece ter contado com o silêncio cúmplice, mas, claro, sempre preocupado, do mais alto magistrado da Nação), mas pela própria dívida. Aquilo que parece servir para responsabilizar na realidade desresponsabiliza.

 

As decisões tomadas por Alberto João Jardim foram políticas. Há muito que os madeirenses sabem que a dívida da região se acumula muito para lá do sustentável e aceitável. As consequências disto devem ser políticas. Os eleitores da Madeira têm agora a oportunidade de fazer o seu julgamento político. E é este o momento em que exigem responsabilidades e são simultaneamente responsabilizados. Ao votarem, desvinculam-se ou vinculam-se ao comportamento do seu governante.

 

Se reelegerem o mesmo homem que os trouxe até aqui tomam como sua a responsabilidade do que foi feito. E pagam o preço disso mesmo. Ou seja, deverão sofrer as consequências das suas próprias decisões. É isto a democracia: responsabilidade coletiva. Bem sei que muitos cidadãos compram a ideia de que existem os políticos, por um lado, e eles, vítimas destes, do outro. Como se os políticos chegassem ao poder por um qualquer golpe de Estado e não através do seu voto. Mas todas as decisões do governo regional da Madeira, eleito pelo voto democrático, são decisões dos madeirenses.

 

Se, por acaso, isolássemos as responsabilidades de Alberto João Jardim daríamos um péssimo recado aos madeirenses: não se preocupem com a vossa decisão, na hora do voto, porque na pior das hipóteses o eleito pagará sozinho pelos seus atos. Sim, Alberto João Jardim terá de ser judicialmente responsabilizado por ilegalidades que tenha cometido. Mas pela falta de solidariedade da região para com o resto do País a responsabilização é de todos os que, sabendo que beneficiavam dela, agiram, através de um voto sempre reiterado, para que assim continuasse a ser.

 

Uma coisa bem diferente é omitir a dívida. Esse é o crime pelo qual os madeirenses não podem mesmo ser responsabilizados. O que não os impede, não os pode impedir, de também o julgar nas urnas. Até porque, depois de tornado público, a reeleição de quem mentiu ao País (e aos madeirenses) só pode ser lida como uma aprovação deste comportamento. E isso faz dos eleitores da Madeira cúmplices de um crime.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011
por João Rodrigues

 

Em 2010, Portugal era o terceiro país da União Europeia com maior índice de precariedade laboral. Cerca de 23,2% dos trabalhadores por conta de outrem estavam ligados à sua entidade patronal por um contrato a termo ou por outro tipo de vínculo precário. Ao longo deste livro focam-se diversos casos que reflectem uma realidade que se impôs progressivamente nas mais diversas esferas laborais, da fábrica ao call center, do trabalho doméstico aos centros comerciais. Mais do que um mero reflexo de uma «batalha entre gerações», apresentamos aqui um conjunto de investigações que procuram interpretar o fenómeno da precariedade no quadro da evolução das relações de trabalho no nosso país.

Um livro, organizado por José Nuno Matos, Nuno Domingos e Rahul Kumar, que reflecte bem a atenção que tem sido dada a este crucial tema no Le Monde diplomatique - edição portuguesa.


por João Rodrigues
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por Daniel Oliveira

 

Já aqui escrevi sobre o investimento na renovação do decrépito parque escolar que foi suspenso e não devia ter sido . Falo agora de um investimento que deveria ter sido há muito suspenso e nunca, apesar dos avanços e recuos do do governo, o foi realmente: o do TGV. Não que eu discorde dele. Pelo contrário. Acho impensável que Portugal fique desligado da rede de alta velocidade, o meio de transporte que, na minha modesta opinião, ultrapassará, nas viagens dentro da Europa, a importância dos transportes aéreos. O TGV não é um luxo para um País que tem no turismo uma das suas principais fontes de rendimento. É uma inevitabilidade.

 

A questão é a de saber se esta é, agora, uma prioridade. E não é. Por duas razões: porque há um investimento na rede ferroviária por fazer e porque não se trata de um investimento com retorno a curto ou médio prazo.

 

Nos últimos vinte anos houve um desinvestimento absurdo na rede ferroviária, com todos os recursos a serem canalizados para autoestradas e para o transporte individual. O novo-riquismo dos nossos governantes - apoiados pela maioria dos cidadãos, que considera que andar de carro é um direito que o Estado deve subsidiar - está agora a pagar-se bem caro. Numa insuportável fatura energética - com peso nas importações - e no pagamento das ruinosas PPP. Enquanto temos, à escala, a maior rede de autoestradas da Europa é, ao contrario do que acontece na maioria dos países europeus, quase impossível usar o comboio como principal meio de transporte. Enquanto não se reverter este ciclo de destruição da rede ferroviária portuguesa - em que o atual Presidente teve um papel pioneiro e central - é absurdo investir no TGV. É como comprar um Ferrari e continuar a andar descalço.

 

O investimento no TGV não faz, durante a sua construção, nada pela economia nacional. Não usa mão de obra especializada e local, não terá fornecedores nacionais, não cria emprego sustentado, não faz nada pelo desenvolvimento das nossas empresas e provavelmente contribuirá para aumentar importações. Tudo ao contrário do investimento na requalificação do parque escolar ou dos centros urbanos. Em tempo de crise, é um investimento sem qualquer efeito no relançamento da economia.

 

Durante a campanha, mais por demagogia e preconceito ideológico do que por qualquer ponderação racional da sua utilidade, o PSD fez do cancelamento desta obra um cavalo de batalha. Como não sabia do que falava - já percebemos que isso é comum a muitas áreas - não pensou que há contratos, compromissos assumidos e dinheiros comunitários em jogo. É por isso, e não por qualquer irregularidade, que foram as obras que eram úteis e urgentes e não estas que foram realmente suspensas. Mas tem, ao que parece, uma solução imaginativa: fazer uma linha com apenas um sentido entre o Caia e Poceirão com um pequeno troço de duas linhas a meio para deixar passar o TGV que vem no sentido inverso. Faz-se um enorme investimento ficando com as suas capacidades do TGV muitíssimo limitadas. E defende a coisa tratando aquela linha como excelente para o transporte de mercadorias (por usar bitola europeia). Uma linha de luxo para transportar mercadorias. Um meio muito pouco concorrencial na Península Ibérica.

 

Teremos alta velocidade a funcionar como um regional perdendo grande parte das suas vantagens. Com uma linha cara que vai privilegiar o transporte de mercadorias, que não precisa dela. E assim se prova como a lógica da austeridade nos pode levar à irracionalidade completa. Para poupar não fazemos. Se não fizermos perdemos dinheiro por isso fazemos um bocadinho. Fazendo um bocadinho desperdiçamos dinheiro.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins

Ao que parece, a entrevista de Passos Coelho à RTP pariu a notícia de que o Primeiro não fará Campanha na Madeira ao lado de João Jardim. Nem sabemos se ficamos mais vergados pela extrema coragem de Passos Coelho, se pela extrema coragem do jornalista que lhe fez a pergunta. Glosando certo líder madeirende num congresso nacional do PSD, cabe perguntar: "Mas está tudo grosso?"


por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

 

Uns meses depois, lá me apareceu um polícia à porta de casa. Chamado para me apresentar às autoridades por causa do quarto processo de Alberto João Jardim contra mim. No dia 28 de Setembro volto à Madeira, por outras e melhores razões. E apesar dos processos de Jardim (em que usa os dinheiros públicos para processos privados), lá direi o que penso sobre o que se passou nas últimas semanas. Mais processo, menos processo, Jardim nunca me levará mais dinheiro que já nos levou a todos.

 

Em cima, a t-shirt do cão azul que levarei a tribunal, se o processo lá chegar.


por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 20 de Setembro de 2011
por Andrea Peniche

 

Quem ontem ouviu Mira Amaral percebeu que também ele alinha pelo diapasão dos cortes salariais como resposta para enfrentar e superar a crise em que vivemos. Apesar da candura e do ar bem disposto com que o disse, percebia-se nele uma certa amargura de quem conhece os sacrifícios que propõe.

 

Para quem não saiba, Mira Amaral sempre foi um homem de vida dura e sacrificada. Já depois de ter sido três vezes ministro de Cavaco, foi explorado durante 18 longos meses enquanto exercia as funções de administrador na CGD. Em troca, esse injusto, despesista e gordo Estado só lhe paga 18 mil euros mensais de reforma. Porém, como não é homem fraco nem desistente, livrou-se da CGD e fez-se de novo à vida. Recusando sempre as cunhas, decidiu gastar uma pipa de massa em selos dos correios no envio do seu currículo. E como quem porfia sempre alcança, lá conseguiu um lugarzinho como presidente do BIC português. É agora assalariado de Américo Amorim e Isabel dos Santos. Farta-se de trabalhar em troca de um magro salário. Fartou-se de fazer horas extraordinárias aquando da compra do BPN pelo BIC.

 

Se é ele quem diz que é preciso cortar nos salários, eu atrevo-me a dar-lhe razão. Afinal, são palavras de quem não só sabe o que são salários baixos como de quem põe o seu próprio salário à disposição dos ditos cortes; além do mais, é um dos maiores conhecedores do que são e do que pesam os sacrifícios na vida das pessoas comuns.


por Andrea Peniche
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por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

 

A dívida astronómica do governo regional da Madeira, que nem o imposto extraordinário de Natal chega para pagar, não é novidade. Há anos que sabemos que Alberto João Jardim se eterniza no poder por não ter de fazer contas. As suas campanhas resumem-se a uma sucessão de inaugurações de obras sobre obras, não havendo na ilha já quase espaço para tanto betão e asfalto.

 

A forma despudorada como nos rouba e ainda goza também não é novidade. Quando o País se comovia e aceitava, como gesto natural de solidariedade com os compatriotas madeirenses, que, em tempo de crise, fossem canalizados para a ilha milhões, com vista à reconstrução depois da tragédia, o cacique madeirense não hesitou em gastar o dinheiro em outras obras e despesas. Perante a austeridade geral, riu-se de nós e explicou que tencionava continuar a esbanjar. Porque nada podemos fazer para o impedir.

 

A violação descarada das leis da República, de que troça, por conhecer o seu estatuto de inimputável, também não é novidade. O senhor absoluto da Madeira persegue opositores, cala jornalistas, insulta detentores de cargos públicos e ainda usa as forças de segurança para impedir protestos e os tribunais para calar criticas, incluindo de deputados que, em princípio, têm imunidade parlamentar. Financia imprensa que lhe faça propaganda, esmaga a que faça jornalismo, distribui negócios por amigos e empregos por familiares, impede deputados eleitos pelo povo de entrar na Assembleia Regional e recusa-se a aprovar a lei de incompatibilidades que vigora no resto do País.

 

A cumplicidade com que sempre foi contando também não é novidade. Quando o Presidente da República se deslocou à Madeira, foi impedindo de ir ao parlamento regional e aceitou receber deputados da oposição num quarto de hotel, como se estivesse numa qualquer ditadura do terceiro mundo. Deixou que assim fosse, porque a democracia e o Estado de Direito têm um offshore na Madeira, aceite por todos.

 

Durante anos o País sorriu com as alarvidades deste déspota local. Durante anos achou o seu desprezo pela lei, pela democracia, pelo Estado e por todos nós "politicamente incorrecto" e sinal de "rebeldia". Agora ele explica, com todas as palavras, que rebentou com centenas de milhões, violou a lei e nos mentiu para não ser apanhado. E ainda se diverte com isso. Queixamo-nos? Não sei porquê. Merecemos pagar cada cêntimo que nos roubou. Achámos que não era para o levar a sério. Agora pagamos a brincadeira. Muitos madeirenses corajosos, que há quase quatro décadas fazem frente ao Presidente num ambiente político sufocante, têm pago um preço bem mais alto pela sua ousadia. Nunca quisemos saber deles. Vem agora a fatura. É bem feita.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins

por Bruno Sena Martins
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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011
por Sérgio Lavos

Alguém tenha a bondade de explicar à "liberal" do costume a diferença entre investimento público, derrapagem nas contas públicas e ocultação de dívidas, se fizerem favor. Obrigado.


por Sérgio Lavos
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por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
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por Sérgio Lavos

 

Estreitar a linha do TGV. E, no mesmo passo, revolucionar o conceito de "comboio de alta velocidade". No fundo, transformar a linha Poceirão-Caia numa nova linha do Oeste. Tudo será mais lento, excepto a imaginação deste Governo. Com Passos Coelho, o absurdo e o ridículo ganham asas.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

Sabemos que, num tempo em que a crise promete tornar-se insuportável, o governo vai cortar nas prestações sociais. Sabemos que os cortes na saúde e na educação serão de tal forma drásticos que põem em causa a sobrevivência do Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública. Sabemos que, graças à estúpida redução da Taxa Social Única, as nossas reformas estão definitivamente comprometidas. E ficámos a saber que, no meio de cortes gerais que prometem mergulhar o País numa crise de enormes proporções, o governo aumentou apenas o orçamento de um ministério: o da Administração Interna. Em vez dos 1.400 milhões que recebeu este ano irá receber 1.800 milhões em 2012. O único a ter mais dinheiro. À falta de pão responde-se com o bastão.

 

Dirão que exagero nas intenções do governo. Mas são fontes do executivo que o afirmam: com "mais desemprego, mais carências e menos prestações sociais" e não se sabendo o que acontecerá na Europa podem acontecer "sabe-se lá que protestos". E assim se explica esta excepção aos cortes gerais. A prevenção dos efeitos da crise não se faz, portanto, com políticas sociais. Aí corta-se. Faz-se através das forças policiais. E o governo não hesita em tornar isso bem claro.

 

É por isto que o debate sobre o "Estado grande" e o "Estado mínimo", entre mais ou menos Estado, sempre foi um falso debate. Quem trata de emagrecer o Estado, retirando-lhe as funções sociais, sabe que o tem de lhe dar músculo, reforçando-lhes as funções repressivas. Sempre assim foi. Quando se abandona a defesa da igualdade também se abandona a defesa da liberdade. Quando esquece os pobres tem de defender os restantes da miséria que os rodeia. Quando a educação, a saúde, o emprego e a dignidade humana deixam de ser direitos sobra apenas a defensa pela força da propriedade privada. Quando a paz social não se consegue através do Estado Providência, consegue-se através do Estado policial.

 

A questão nunca foi a dimensão do Estado. Os "liberais" nunca dispensaram o Estado para defender os valores que pensam ser fundamentais. Apenas mudam as suas prioridades. A sociedade que defendem, implacável com os mais frágeis, precisa do medo para se defender. Faz bem este governo em reforçar as polícias. Um país pronograficamente desigual não se pode dar ao luxo de acreditar no respeito da lei por quase todos os cidadãos. Até porque se a lei é a do mais forte não sobra ao Estado nenhuma autoridade moral para a impor.

 

O que esta "fonte governamental" disse ao País é que se prepara para a guerra social. Não sei se é um convite. Mas parece.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Domingo, 18 de Setembro de 2011
por Sérgio Lavos

 

A defesa de Alberto João Jardim que tem sido ensaiada pela maior parte dos comentadores e bloguers de direita assenta num único pressuposto: o governante madeirense limitou-se a fazer o mesmo que José Sócrates antes dele, aumentando a dívida e ocultando números às entidades oficiais. Tal fraqueza na argumentação da direita é bem reveladora da ausência de alternativas ao regabofe que tem sido habitual na política portuguesa. Quando se tenta defender a tibieza do PSD - Passos Coelho e Cavaco Silva à cabeça - perante o desplante e o descalabro madeirense com acusações a anteriores governantes, está-se a legitimar a ilegalidade e o crime. Porque os que se lembram de Sócrates agora são os mesmos que andaram a pedir a cabeça do antigo PM durante anos e anos. Os pecados de Sócrates não limpam a pouca vergonha do conselheiro de estado. O argumento mais débil que se pode arranjar é desculpar-se com os outros. Para além disso, esconder do Governo central despesas astronómicas dificilmente se poderá comparar ao camuflar da dívida pública com receitas de origem dúbia. O que é grave nos eventuais crimes de Alberto João não é a má gestão dos dinheiros públicos; é ter ocultado desvios de fundos que não sabemos onde terão ido parar. Deste elefante na sala, o PM dificilmente poderá livrar-se; e o silêncio de Cavaco confirma a moral que lhe conhecemos. Uma moral feita de conivências e anuimentos perante os desaforos e as ilegalidades que a trupe laranja tem cometido. Se Cavaco não é culpado directo dos crimes do BPN e de Alberto João, é seguramente cúmplice da situação. E um dos principais culpados do desvanecimento moral a que o país está submetido.


por Sérgio Lavos
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Sábado, 17 de Setembro de 2011
por Sérgio Lavos

 

Apesar dos lamentos de Passos Coelho sobre a "gravidade" da situação na Madeira, da gentil  lembrança do PR e da "análise" da Procuradoria-Geral da República, não tenho dúvidas de que nada vai acontecer a Alberto João Jardim, nem dentro do seu partido - a retirada da confiança política, como deveria ser - nem fora - a hipótese de alguma vez ser provado o crime de "dolo" com dinheiros públicos é risível. E toda a gente encara a impunidade com a maior das levezas, sabendo que o curso dos acontecimentos desemboca sempre em nada. A falência do país será coisa de pouca importância- moralmente, estamos falidos há muito.


por Sérgio Lavos
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por Pedro Vieira
© rabiscos vieira

por Pedro Vieira
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
por Daniel Oliveira

 

Por toda a Europa há um debate central para a sobrevivência do euro: deve a União emitir títulos da dívida e acabar assim com um estúpido sistema que deixa os países em dificuldade vulneráveis a qualquer ataque? A Europa não pode continuar a ter uma moeda e não ter os instrumentos para a defender. Não pode pôr nas mãos dos países um tesouro tão apetecível e deixá-los em campo aberto sem qualquer proteção. A Europa não pode ser uma união monetária e não ser uma união financeira. Se existissem as eurobrigações a zona euro não estaria à beira do colapso e a crise de confiança no euro provavelmente nem existiria.

 

O maior argumento contra os eurobonds tem sido o de que se trata de mais um passo para o federalismo. Perante aquilo a que assistimos, o argumento quase que tem graça. A Alemanha e a França fazem conferências de imprensa a anunciar a alteração de constituições alheias, o BCE toma decisões ao sabor dos interesses da economia alemã, a salvação da Grécia vai sendo negociada tendo em conta os interesses da banca francesa e alemã e há quem ande preocupado com o federalismo. Têm medo de perder soberania? Mas, como a Europa funciona, temos alguma? Por mim, antes um estado legítimo de uma Federação Europeia do que protetorado silencioso de um império franco-alemão. Mais: depois de criar uma moeda única não podíamos ter ficar a meio da ponte. Porque a meio da ponte o que acontece é o que se tem visto.

 

Os eurobonds teriam uma taxa de juro entre a da Alemanha e as de Itália e de Espanha. Óptimo para nós, menos simpático para os alemães, que querem as vantagens de uma moeda europeia sem os riscos de a ter. Mas enquanto por essa Europa fora os países periféricos clamam pelos eurobonds o nosso primeiro-ministro aparece ao lado de Merkel para se opor, com todas as letras, à ideia. Argumento: "pressuporia um nível de aprofundamento político da União que não pode ser realizado a tempo de resolver os nossos problemas". Conclusão: "não se pode olhar para um princípio de obrigações europeias como uma forma de resolvermos que temos de excesso de dívida". O homem será masoquista? O servilismo é tal que nem se aprecebe da triste figura que faz. Se há país que precisa dos eurobonds é Portugal. Outros, que não estão tão mal, estão a exigi-los com firmeza. E Passos vai explicar aos alemães que a culpa é nossa que eles não devem fazer nada.

 

Não por acaso, Paulo Portas, que sabe mais quando está distraído do que Passos Coelho nos seus melhores dias, disse, antes do seu primeiro-ministro atacar os interesses do seu próprio País: "como português estou interessado na ideia dos eurobonds, admito que, se fosse alemão, teria algumas dúvidas". E seria de esperar que quem nos governa se comportasse como um português e não como um alemão. É que ainda por cima, para além de defender Portugal, estaria a defender o euro. Confesso que ja nem sei o que diga. Será deslumbramento? Será falta de espinha? Será para fazer boa figura na esperança de, com uma boa relação com a senhora Merkel, vir a contar com a sua benevolência? Será apenas estupidez? Será como a personagem de Woody Allen, Leonard Zelig, que, por necessidade de aprovação dos outros, bastava aproximar-se de alguém para logo lhe ganhar os hábitos, as opiniões e as feições?

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
por Bruno Sena Martins

As actualizações do Arrastão passam a estar disponíveis no Facebook. Basta irem aqui.

 

 

Entretanto, a conta do twitter foi reactivada: aqui


por Bruno Sena Martins
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por Bruno Sena Martins

"O economista Paul Krugman, prémio Nobel da Economia em 2008, defendeu hoje a emissão conjunta de dívida por parte da União Europeia (as chamadas 'Eurobonds') para reforçar a solidariedade da união monetária, apesar de admitir que são um risco." [3 de Janeiro de 2011]

"O primeiro-ministro [Passos Coelho] disse, esta quinta-feira, concordar totalmente com Angela Merkel na ideia de que lançar títulos conjuntos de dívida para financiar orçamentos não faz sentido nesta altura." [1 de Setembro de 2011]


por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

 

Ontem o País entreteve-se a falar do corte 1712 lugares dirigentes na administração central e a extinção de 162 entidades públicas . Tudo isto diz-me pouco. Depende dos lugares e das entidades, se são úteis ou inúteis. Mas soa bem nos telejornais. Se são dirigentes, se são entidades e se são do Estado em princípio é mau, é o raciocínio no ambiente geral em que vivemos. Parece que o governo anterior cortou 1.812 cargos dirigentes superiores e intermédios e extinguiu 227 organismos públicos . E?

 

A coisa pode render cem milhões de euros. É impressionante como conseguimos perder tempo com o acessório. Os cortes que a troika exige são de tal magnitude que estamos a falar de trocos para dar boas notícias. Assim parecerem benignos. Para parecer que é mesmo nas "gorduras do Estado" - adoro esta linguagem dietética, que tanta gente repete sem pensar no que está a dizer - que se está a cortar. Os cortes que a troika exige - e que quem domina a Europa e as instituições que representam os interesses financeiros defende - só podem, pela sua dimensão, ir aos três principais destinatários das despesas públicas: saúde, educação e prestações sociais. Sozinhos, eles ficam com grande parte do bolo da despesa pública.

 

Podemos perder muito tempo com floreados, cargos dirigentes para aqui, despesas intermédias para acolá. O objetivo da ideologia da austeridade, que pretende tirar dos cidadãos para dar aos privados, é atacar estes três pilares fundamentais do Estado Social para os entregar a quem sabe que ali estão, por serem bens essenciais, negócios demasiado apetitosos para serem direitos universais e gratuitos.

É nisto que temos de falar. Mas é disso que o governo e os seus ideólogos querem falar menos. Porque quando falamos de reforma, de hospital público ou de escola pública tudo fica a parecer mais feio. Custa dizer que a segurança na velhice e o direito à saúde e a uma educação decente para todos são "gorduras", não custa? Mas enquanto discutimos as migalhas há quem vá preparando a distribuição do bolo.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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