Sábado, 30 de Junho de 2012
por Sérgio Lavos

 

A posição de força de Espanha e de Itália antes do Conselho Europeu começa a clarificar algumas coisas.

 

Primeiro, que o poder de Angela Merkel na Europa foi, antes de mais, concedido pelos líderes europeus e construído sobre a tibieza de governantes como Sarkozy, Berlusconi e José Manuel Barroso. A partir do momento em que David Cameron recusou o pacto orçamental e em que Hollande ganhou as eleições em França, tudo começou a mudar. E até o tecnocrata não-eleito Mario Monti e o conservador Rajoy emergiram como opositores às políticas prosseguidas pela Alemanha. 

 

Mas a convergência de Rajoy e Monti não é ideológica nem táctica; é simplesmente a posição natural de defesa dos interesses dos países que governam. A Espanha e a Itália interessa que o resgate à banca seja financiado com juros mais baixos. E apenas com a ajuda dos mecanismos europeus de financiamento conseguiriam isto.

 

A reviravolta na posição de Merkel está a criar assim uma divisão profundamente injusta entre os países resgatados - Grécia, Irlanda, Portugal - e os outros países em dificuldades. Enquanto que por cá as medidas de austeridade empobrecem o país e prejudicam o objectivo de cumprimento do défice, em Espanha e em Itália o financiamento vai ser feito sem ter como contrapartida mais medidas de austeridade.

 

Os "mercados" gostaram do esforço de Itália e de Espanha. As bolsas tiveram um dia em grande e os juros dos dois países baixaram bastante. Em contrapartida, os juros de Portugal tiveram uma quebra marginal, não acompanhando a euforia geral.

 

Mas ainda assim, Pedro Passos Coelho persiste no seu posicionamento, ao lado de Merkel e de um austeritarismo que a própria chanceler alemã começa a repensar. Passos Coelho continua a insistir em políticas que são contrárias ao interesse do país. Espanha e Itália unem-se para se proteger; Portugal agacha-se para passar despercebido e a situação económica do país agrava-se drasticamente, a ponto de já não ser possível cumprir os objectivos do défice para este ano. A política de subserviência seguida pelo Governo PSD/CDS, para além de ser humilhante e anti-patriótica, é um erro político que está a destruir o país, a levá-lo para um abismo de onde vai ser muito difícil sair.

 

A culpa da miséria generalizada, da brutal contracção económica, do desemprego, não é externa. Não é a troika que devemos culpar pelo estado das coisas. Várias vezes Passos Coelho repetiu que as medidas de austeridade estavam no programa do Governo. E várias medidas de austeridade foram tomadas sem estarem inscritas no memorando de entendimento, e algumas vezes contra os conselhos da troika. E o essencial do memorando - renegociação das PPP's, corte na despesa - ainda está por ser feito. 

 

É na realidade um momento extraordinário, este que vivemos. Um momento em que um Governo eleito democraticamente governa contra o bem-estar geral da população, destruindo conquistas de décadas. Um momento de suspensão da realidade, entre a cegueira ideológica e a incompetência pura. Os indicadores económicos mostram que tudo está a falhar: o país está mais pobre, mais desigual e nem assim se consegue chegar perto do objectivo principal do Governo, reduzir o défice. Pior, a desigualdade e o empobrecimento estão a contribuir para que a meta do défice esteja cada vez mais longe. Mas o Governo insiste. Como alguém disse há uns tempos, o exemplo de Portugal, deste Portugal de agora, servirá para memória futura. Miseráveis de nós, portugueses e pobres, que somos cobaias desta experiência tresloucada. Se a História não cobrar a esta gente o que está a fazer ao país, cá estaremos nós para o fazer. Custe o que custar. Custe o que custar.


por Sérgio Lavos
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Sexta-feira, 29 de Junho de 2012
por Pedro Sales

Lembrei-me desta frase, do Quinito, ao ver estes dois vídeos, compilando todas as acções do Pirlo nos jogos contra a Inglaterra e a Espanha neste europeu. Ainda falta o melhor, contra a Alemanha, mas estes dois já são tão bons, tão bons que quase puxam as lágrimas.

 

(vídeos retirados daqui, antes que o maradona se lembre de os apagar)

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por Pedro Sales
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por Daniel Oliveira

 

Não tenho nenhuma opinião especial sobre Monteiro Diniz. Não sei se ainda se lembram quem seja. Foi ministro da República na Madeira durante 14 anos. Sei que não lhe invejaria o lugar. Ocupar um cargo de necessidade e eficácia muito discutíveis (que o próprio defende que deve ser extinto), ser um enviado do poder central e, ainda por cima, tentar velar pela legalidade democrática madeirense, é coisa que nem se deseja ao pior inimigo. Saído do cargo o ano passado, Monteiro Diniz está a preparar um livro sobre a democracia na Madeira. Prometeu coisas que os madeirenses não quereriam ouvir. Eu quero, porque uma experiência de 14 anos de um olhar externo informado pode ajudar a repensar a autonomia à luz da preocupante experiência madeirense.

 

Numa entrevista ao "Diário de Notícias" da Madeira recorda o óbvio. E isso é bom, porque o óbvio é o que se esquece sempre: "O eleitorado madeirense não surge com o 25 de Abril, tem raízes históricas nas gerações anteriores e no atavismo da ancestralidade, que os atuais madeirense não deixam de ter presente na chamada memória colectiva de uma sociedade. (...) Estamos a falar das condições económicas da sociedade madeirense antes do 25 de Abril, com a colónia, com a insuficiência grande de condições de capilaridade social, com a emigração massiva. (...) Havia entre 60 as 70 mil bordadeiras de casa e o povo madeirense era despojado de qualquer ligação patrimonial, porque eram apenas colonos, que viviam com uma ligação à terra, do esforço do seu trabalho, os chamados 'vilões'. Havia depois uma pequena burguesia, com influência dos estrangeiros endinheirados, que passaram a dominar a vida económica e depois as mulheres bordavam e os homens vendiam os esforço do seu trabalho braçal. Não havia uma classe minimamente suportada na terra, que é isso que dá uma certa coesão social e uma capacidade crítica do sistema. Por outro lado, o 25 de Abril e a Constituição criou na Madeira um sistema de Governo parlamentar, que exigiria, para o seu funcionamento exato, uma estrutura sólida da classe média e mesmo que a classe média baixa fosse detentora de uma certa autonomia, de uma certa independência económica, para poder gerir e depois distribuir com total independência o seu voto no plano eleitoral. Não sucede isso porque é uma sociedade totalmente dependente."

 

A longa citação (com a qual só concordo parcialmente) serve para, antes de se falar de "jardinismo", percebermos que não há análise política que possa ignorar as condições históricas e sociais em que uma democracia se tentou impor na ilha. E que as da Madeira eram tudo menos favoráveis. A dependência dos madeirenses em relação ao poder político, a sua pouca autonomia e facilidade de ali se instalar o poder de tipo caciquista não resulta apenas do que foram os 34 anos de governo jardinista. Alberto João Jardim é mais consequência do que causa.

 

O antigo ministro da República dá a entender que a autonomia falhou. E mostra um sinal disso: "há uma certa impotência das pessoas que fazem reivindicação permanente junto da República, quando a República, a partir da constituição do sistema autonómico, entregou uma parcela importante do poder político à estrutura regional". E diz, aí sem tibiezas, que o sistema parlamentar na Madeira falhou, já que todo o poder se deslocou, ao contrário do que a Constituição previa, para o presidente do Governo Regional.

 

A Madeira mudou muito nos últimos 38 anos. Graças à autonomia e ao 25 de Abril e apesar de Alberto João Jardim. Sem ele, teria mudado muito mais e para muito melhor. Mas o atraso social e político é ainda brutal. Não há soluções mágicas para quebrar o ciclo de dependências sociais e das perversões políticas que resultam do poder absoluto de um homem e de um partido-Estado e o alimentam. Talvez parte da resposta possa vir com a sucessão de Jardim.

 

Miguel Albuquerque, presidente da Câmara Municipal do Funchal, é, segundo as sondagens, o sucessor o favorito para os madeirenses. Jardim não só não o suporta como tem feito uma campanha contra ele, a que ele tem reagido de forma clara e aberta. Coisa nunca vista no PSD Madeira. Albuquerque é filho do regime jardinista. Mas, sabemos pela história, os regimes são muitas vezes destruídos pelas suas próprias crias. E a brecha que Albuquerque está a abrir no jardinismo pode conseguir o que a oposição nunca sequer sonhou: que a Alberto João Jardim não suceda quem Alberto João Jardim quiser.

 

Mas mesmo que isto aconteça, falta o resto. Aquilo de que fala Monteiro Diniz: falta, para que a democracia madeirense atinja uma maturidade que lhe permita gerir a sua autonomia com alguma normalidade, que a sociedade madeirense mude muito. Não depende apenas da parlamentarização da Madeira - a que nem as atuais forças políticas da oposição parecem conseguir dar alguma credibilidade -, apesar disso ser importante. Não depende apenas de quem seja o sucessor de Jardim, apesar disso ser condição fundamental. Depende, acima de tudo, de opções económicas e sociais muito profundas. Miguel Albuquerque poderia significar o fim do jardinismo. Mas não sei se significará o começo de outra coisa.

 

Publicado no Expresso Online 


por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2012
por Sérgio Lavos

 

Conclusões da noite:

 

- A criatividade (Pirlo, Cassano e Montolivo) e a indisciplina (Balotelli) do Sul venceram o rigor e a fiabilidade da Alemanha.

- Monti aplica a pressão alta.

- A chanceler chorou.

 

É só um jogo de futebol? Claro; mas na política, como no futebol, às vezes perde-se, às vezes ganha-se. Merkel começou a perder. E a Europa só tem a ganhar com as lágrimas amargas de Angela.

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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

O Governo previa que a receita fiscal do Estado crescesse 2,9%. A receita fiscal do Estado caiu 3,5% nos primeiros cinco meses deste ano por comparação com o mesmo período de 2011.Houve uma quebra de 5,9% nas receitas dos impostos indirectos. Até maio, as receitas fiscais tiveram uma redução de 480 milhões. Com estes resultados, é difícil continuar a insistir nos elogios à qualidade técnica de Vítor Gaspar. Está a falhar em toda a linha.

Muitas pessoas que, ao contrário dos "tecnocratas" de serviço, "não percebem nada de economia" e "não sabem fazer contas" avisaram: as medidas recessivas associadas ao aumento dos impostos (especialmente do IVA) resultariam num agravar da crise e numa perda fiscal. Ou seja, teriam o efeito oposto ao pretendido e criariam mais problemas ao cumprimento das metas do défice.

 

Infelizmente, os factos começam a tornar-se demasiado trágicos para que se continue a contrariar a evidência. E, tirando alguns indefectíveis, já ninguém, no seu perfeito juízo, acredita que este caminho resolva qualquer problema nas contas públicas. Já para não falat de tudo o resto, a começar pelo emprego.

 

Resta então o argumento de Paulo Portas: não há alternativas. Ou seja, já nem os que aplicam esta receita acreditam nela e limitam-se a dizer que, estando a fazer uma asneira, não se lembra de outra melhor. Mas há outros caminhos. Eles não passam é por o que está escrito no memorando da troika e obrigarão à negociação e reestruturação da dívida. Tudo o resto destruirá a nossa economia e aumentará o nosso défice público, obrigando a uma interminável espiral de endividamento. Uma espiral que, no fim, nos obrigará a incumprir, a renegociar e a, muito provavelmente, sair do euro quando já nada houver a fazer.

 

Sobre Portugal, ninguém pode usar o subterfúgio que se usa para explicar o desastre grego. Nós estamos a cumprir tudo. E é por isso mesmo que está a correr tão mal. Não basta continuar a tentar destruir ualquer alternativa que surja com o discurso preguiçoso da "inevitabilidade" e do "bom aluno" que tenta agradar à Alemanha e aos "mercados".É preciso aceitarmos, de uma vez por todas, que o que está a ser feito faz parte do problema e não da solução. Só depois de o compreendermos nos esforçaremos para, coletivamente, encontrarmos alternativas. Antes que seja tarde demais. Como é para a Grécia.

 

Publicado no Expreso Online


por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2012
por Pedro Vieira

 

rabiscos vieira

 

por ora, dá-lhes padeira


por Pedro Vieira
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por Sérgio Lavos

Está a ser conseguido um dos objectivos deste Governo: destruir o Estado Social (e, recorde-se, sem que o défice seja reduzido).

 

 


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

Mais do que assinar mais um manifesto, envolvi-me, com a minha assinatura e com o empenho que pretendo emprestar a esta iniciativa, na convocatória para a realização de um Congresso Democrático das Alternativas. Alternativas à austeridade, ao saque ao Estado Social, à receita criminosa da troika e às políticas de um governo extremista.   Por agora, deixo-vos do texto da convocatória (apresentado ontem à imprensa) e o nome das primeiras 280 pessoas que a assinaram.

 

Resgatar Portugal para um futuro decente

 

“Só vamos sair da crise empobrecendo”. Este é o programa de quem governa Portugal. Sem que a saída da crise se vislumbre, é já evidente o rasto de empobrecimento que as políticas de austeridade, em nome do cumprimento do acordo com a troika e do serviço da dívida, estão a deixar à sua passagem. Franceses e gregos expressaram, através do voto democrático, o seu repúdio por este caminho e a necessidade de outras políticas. Em Portugal, o discurso da desistência e das “inevitabilidades” continua a impor-se contra a busca responsável de alternativas.

 

Portugal continua amarrado a um memorando de entendimento que não é do seu interesse. Que nos rouba a dignidade, a democracia e a capacidade de coletivamente decidirmos o nosso futuro. O Estado e o trabalho estão reféns dos que, enfraquecendo-os, ampliam o seu domínio sobre a vida de todos nós. Estamos a assistir ao mais poderoso processo de transferência de recursos e de poderes para os grandes interesses económico-financeiros registado nas últimas décadas.

 

Tudo isto entregue à gestão de uma direita obsessivamente ideológica que substituiu a Constituição da República Portuguesa pelo memorando de entendimento com a troika. E que quer amarrar o País a um pacto orçamental arbitrário, recessivo e impraticável, à margem dos portugueses. Uma direita que visa consolidar o poder de uma oligarquia, desmantelar direitos, atingir os rendimentos do trabalho (que não sabe encarar como mais do que um custo), privatizar serviços e bens públicos, esvaziar a democracia, desfazer o Estado e as suas capacidades para organizar a sociedade em bases coletivas, empobrecer o país e os portugueses não privilegiados.

 

Num dos países mais desiguais da Europa, o resultado deste processo é uma sociedade ainda mais pobre e injusta. Que subestima os recursos que a fortalecem, a começar pelo trabalho. Que hostiliza a coesão social. Que degrada os principais instrumentos de inclusão em que assentou o desenvolvimento do País nas últimas quatro décadas: Escola Pública, Serviço Nacional de Saúde, direito laboral, segurança social.

 

Este é um caminho sem saída. O que está à vista é um novo programa de endividamento, com austeridade reforçada. Sendo cada vez mais evidente que as políticas impostas pela troika não fazem parte da solução. São o problema. Repudiá-las sem tibiezas e adotar outras prioridades e outras visões da economia e da sociedade é um imperativo nacional.

 

Este é o tempo para juntar forças e assumir a responsabilidade de resgatar o País. É urgente convocar a cidadania ativa, as vontades progressistas, as ideias generosas, as propostas alternativas e a mobilização democrática para resistir à iniquidade e lançar bases para um futuro justo e inclusivo que devolva às pessoas e ao País a dignidade que merecem.

 

São objetivos de qualquer alternativa séria: a defesa da democracia, da soberania popular, da transparência e da integridade, contra a captura da política por interesses alheios aos da comunidade; a prioridade ao combate ao desemprego, à pobreza e à desigualdade; a defesa do Estado Social e da dignidade do trabalho com direitos.

 

É preciso mobilizar as energias e procurar os denominadores comuns entre todos os que estão disponíveis para prosseguir estes objetivos. Realinhar as alianças na União Europeia, reforçando a frente dos que se opõem à austeridade e pugnam pela solidariedade, pela coesão social, pelo Estado de Bem-Estar e pela efetiva democratização das instituições europeias.

 

É fundamental fazer escolhas difíceis: denunciar o memorando com a troika e as suas revisões, e abrir uma negociação com todos os credores para a reestruturação da dívida pública. Uma negociação que não pode deixar de ser dura, mas que é imprescindível para evitar o afundamento do país.

 

Para que esta alternativa ganhe corpo e triunfe politicamente, é urgente trabalhar para uma plataforma de entendimento o mais clara e ampla possível em torno de objetivos, prioridades e formas de intervenção. Para isso, apelamos à realização, a 5 Outubro deste ano, de um congresso de cidadãos e cidadãs que, no respeito pela autonomia dos partidos políticos e de outros movimentos e organizações, reúna todos os que sentem a necessidade e têm a vontade de debater e construir em conjunto uma alternativa à política de desastre nacional consagrada no memorando da troika e de convergir na ação política para o verdadeiro resgate democrático de Portugal. Propomo-nos, em concreto, reunindo os subscritores deste apelo, iniciar de imediato o processo de convocatória de um Congresso Democrático das Alternativas. Em defesa da liberdade, da igualdade, da democracia e do futuro de Portugal e do seu papel na Europa. E apelamos a todos os que não se resignam com a destruição do nosso futuro para que contribuam, com a sua imaginação e mobilização, para a restituição da esperança ao povo português.

 

Entre os mais de 300 subscritores desta convocatória (que podem ver na lista em baixo, apesar de lhe faltarem alguns nomes, que acrescentarei), há sindicalistas, deputados, militares de abril, jornalistas, académicos, dirigentes associativos, escritores, músicos, cineastas e cidadãos que se destacam pelo seu empenhamento cívico, com uma enorme abrangência política, social, etária e regional, com partido (do PCP, do BE e do PS) e independentes. Juntaram-se para organizar este congresso das oposições ao trágico caminho que a troika e o governo que quer ir para além dela impõem ao nosso país. Esperemos que o dia 5 de Outubro seja o começo de um processo que ajude a juntar pessoas em torno da construção de alternativas à austeridade. Em baixo, estão apenas os primeiros 300 promotores deste congresso. Espero que muito mais gente se envolva nesta tentativa de criar pontes entre pessoas que concordam em muito mais coisas do que por vezes julgam.

 


por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 26 de Junho de 2012
por Sérgio Lavos

 

"Sair da zona de conforto" tornou-se um dos lemas de um Governo a braços com um aumento do desemprego que, para além de não conseguir controlar, é olhado como uma praga que apenas se resolve subsidiando os patrões que estimulam a precariedade - o "Programa Estímulo 2012" - ou empurrando a geração mais bem qualificada do país para fora do barco. Incompetência na gestão de um problema agravado pelas políticas de austeridade e fanatismo ideológico nas escolhas políticas feitas são a face visível das políticas de emprego de Álvaro e dos outros governantes. Para além do mais, o que irrita mesmo é a sobranceria e o despeito com que estes políticos incompetentes olham para gente que é mais qualificada do que eles são, do que eles alguma vez serão. Jovens que estudaram, licenciaram-se, fizeram mestrados, muitos doutoraram-se e mesmo assim não conseguem encontrar trabalho na sua área de formação. Muitos jovens que acabam cursos com médias elevadas e têm de arranjar emprego muito abaixo das suas qualificações, sujeitando-se a uma precariedade agravada pela crise - os relatos de patrões que, aproveitando a desculpa do clima económico, abusam dos seus direitos, multiplicam-se. Jovens que, na altura em que poderiam ter-se inscrito numa juventude partidária do centrão e terem a garantia de um tacho perpétuo, preferiram estudar, pensando que essa deveria ser não só a melhor maneira de arranjar trabalho, mas sobretudo porque acreditavam que uma formação de excelência seria mais importante do que os conhecimentos em determinados meios.

 

Ainda assim, há inúteis que continuam a vergastar esta geração de precários subaproveitados. E depois olhamos para o currículo desta gente, e é o espanto, ou melhor, a confirmação de que os jovens que estudaram estavam redondamente enganados. Desde o primeiro-ministro Passos Coelho, que passou uma vida à sombra de cargos arranjados pelo partido ou pelo padrinho Ângelo Correia, até Miguel Relvas, que subiu na hierarquia política à conta também da sua passagem pela JSD e aproveitando as vantagens que o uso do avental lhe trouxe, há poucos governantes e políticos de destaque cuja carreira política se deva única e exclusivamente ao seu currículo académico ou profissional. E os partidos do centrão - PSD, PS e CDS - continuam a produzir fornadas de inúteis parasitas do Estado (e que não se cansam de pedir menos Estado), forjados nas juventudes partidárias, gente que, se não fosse este cadinho de boys, poucas possibilidades teria de se evidenciar ou ter uma carreira, gente que realmente nunca saiu da "zona de conforto" proporcionada pelos partidos a que pertence.

 

A última criatura a entrar neste invejável rol é o deputado-maravilha do CDS-PP, Michael Seufert de seu nome, que em entrevista ao P3 volta a exortar os jovens a sairem da sua zona de conforto. A cabeça, para além de sugerir que até aos 30 anos não sejam feitos descontos para a Segurança Social, repete a frase: "É evidente que há pessoas que precisam de sair da sua zona de conforto". E o currículo deste "empreendedor", qual é? A frequência de um mestrado* e uma carreira como jotinha que teve como cúmulo a passagem pela liderança da Juventude Popular. Parece que a principal preocupação deste produto do carreirismo partidário é o empreendedorismo. O que me parece fantasticamente acertado, tendo em conta o percurso profissional de tão brilhante deputado. Sim, são pessoas assim que estão a decidir por nós no parlamento e no Governo. Gente que tem uma opinião sobre a vida das pessoas sem saber minimamente o que é na realidade viver. Uma afronta ao mandato que receberam do povo. Uma vergonha. 

 

*Parece que terá sido uma licenciatura pré-Bolonha que se transformou num mestrado pós-Bolonha com o passar do tempo. 

 

Adenda: para que fique claro, não está em causa, por si só, o currículo de quem quer que seja, nem a escolha de quem se dedica a tempo inteiro a uma carreira política, mas a contradição entre ideias políticas e esse currículo. Não sei como alguém pode ter cara para defender o empreendedorismo quando na sua própria vida não arriscou um milímetro que fosse para além da sua carreira partidária. Da mesma maneira que é preciso ter bastante cara-de-pau para acusar pessoas com currículos académicos e/ou profissionais imaculados de não saírem da sua "zona de conforto". Sobretudo durante este período em que o crédito para começar novos projectos empresariais é uma miragem e em que o risco das coisas correrem mal num novo negócio é bastante elevado. Deve-se mesmo dizer que só quem nunca passou por um projecto empresarial de risco é que pode defender com tal desplante o "empreendedorismo". Teorias de quem olha para a economia real sem nunca com ela ter contactado e através do prisma do enviesamento ideológico desmiolado.  


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

António Costa, que se tem destacado nos últimos tempos na defesa de Miguel Relvas na Quadratura do Círculo e por mandar a polícia vandalizar casas ocupadas, continua na sua senda de ajustes directos. Desta vez, 19000 euros para António Mega Ferreira realizar um estudo sobre museus. Em tempos de crise e de controlo de dívidas das autarquias, a única razão possível para este luxo é a maquia que poderá terá entrado nos cofres da câmara directamente da conta de Belmiro de Azevedo pelo aluguer da praça do município a porcos, vacas e outros animais, aqui há umas semanas. Assim é o futuro candidato a primeiro-ministro do outro partido do centrão dos interesses. A malga é grande, dá para todos os amigos.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

Depois de criticar as políticas espanholas, portuguesas, gregas e italianas, o governo alemão reagiu mal às críticas de Obama à forma calamitosa como a Europa está a gerir a sua crise. E, claro, mandou os Estados Unidos preocuparem-se com o seu défice. Apesar de toda esta arrogância, continua a fazer caminho a ideia de que devemos compreender o comportamento alemão. Os contribuintes germânicos estão fartos de pagar por os erros dos outros. A ver se nos entendemos: a Alemanha tem enormes responsabilidades por esta crise, lucra com ela, mas tem imenso a perder com o fim do euro.

 

Quanto às fortíssimas responsabilidades do poder político alemão pela crise do euro, deixo para um outro texto. Aarquitetura desta moeda é, no essencial, de inspiração alemã. E os desequilíbrios comerciais na Europa, alimentados por uma contenção salarial na Alemanha que visou criar um mercado aberto de uma só via, ajudaram a agudizar a crise.

 

Muitos sofrem com a pobre Alemanha, que alimenta fluxos de dinheiro que desaguam em Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda. Dinheiro que serve quase exclusivamente para Estados e bancos nacionais pagarem as suas dívidas. Esquecem-se que o principal destinatário final desse dinheiro é a banca alemã (e algumas outras do centro da Europa). Ou seja, que não são os alemães que estão a pagar o resgate de Estados europeus, são os europeus que estão a pagar o lucro da banca alemã.

 

A banca alemã foi a principal benificiária dos endividamentos públicos de alguns países e do endividamento privado de muitos bancos europeus. Quando a senhora Merkel acusou a Espanha de irresponsabilidade, na última década, imagino que pensando na enorme bolha imobiliária que a banca alimentou, esqueceu-se de incluir nessa crítica a banca do seu próprio país, que andou a jogar no mesmíssimo negócio. Chegada a hora de pagar factura, grande parte dos 100 mil milhões que foram despejados nos bancos de Espanha acabarão nos cofres dos bancos alemães (e franceses, britânicos e belgas). Têm pena dos alemães que estarão a pagar a factura dos outros? Não precisamos de fazer um grande esforço para desmentir este mito: O Deutsche Bank teve um lucro de 8.000 milhões de euros em 2011. Entre 2009 e 2011, em plena crise financeira e do euro, os lucros do principal banco alemão aumentaram 67%. Percebem agora para onde está a ir o dinheiro?

 

Quando muita gente avisa que um dia destes os alemães se podem cansar de portugueses, espanhóis, gregos, irlandeses, italianos... enfim, de toda a Europa, e seguir o seu caminho, não deixo de me comover com tanta ingenuidade. Sim, os portugueses ou os gregos sofrerão muito com uma saída do euro. Mas, apesar da tragédia que sobre eles se abaterá, recuperarão capacidade de determinar as suas políticas monetárias, fiscais e económicas, agora decididas em Berlim. Se o euro acabar, a Alemanha perde tudo. Até por uma razão simples: foi ela quem mais ganhou com ele.

 

Segundo um documento interno, que está nas mãos do ministro das Finanças alemão e chegou à imprensa, o fim do euro significaria, para a Alemanha, uma queda em 10% do seu PIB, logo no primeiro ano, e um desemprego que atingiria pelo menos cinco milhões de pessoas. A mim, confesso, estas previsões até me parecem optimistas. A coisa é um pouco mais grave: sem o euro, a Alemanha tornar-se-ia, num mundo globalizado, virtualmente irrelevante. Seja como for, uma fonte não identificada do Ministério das Finanças Alemão explicou ao "Der Spiegel" que, "comparando com esse cenário de rotura da zona euro, qualquer resgate parece um mal menor". Uma informação que os vários Estados europeus devem reter.

 

Dirão: se a Alemanha ganhou mais com o euro, com o mercaodo único e com os erros alheios, foi porque soube tratar de si. Concordemos com esse raciocínio. Mas temos de o levar até ao fim: se a Alemanha soube usar as fragilidades dos outros para lucrar com elas, que tal os outros fazerem o mesmo com a Alemanha? E a sua fragilidade é a sua absoluta dependência em relação ao futuro do euro e a sua enorme exposição às dívidas públicas e privadas europeias. Têm muito a perder com o fim do euro? Então paguem a factura da vossa própria sobrevivência. Os seus bancos sofrerão muito com o incumprimento no pagamento das dívidas de Estados e bancos? Então ajudem a Europa a sair desta crise ou preparem-se para sofrer as suas consequências.

 

Na realidade, nós estamos todos a pagar para a Alemanha manter, numa Europa disfuncional, um poder económico para o qual não tem, sem a União e o euro, dimensão. E está na altura de pensarmos como um alemão e dizermos à senhora Merkel: ou faz parte da solução ou prepare-se para umas décadas de penúria. Quer mesmo arriscar o fim do euro? Não? Então ponha-se fina. O problema é que temos todos sido os anjinhos no meio de um jogo de poker. Está na altura de desfazer o bluff alemão.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 25 de Junho de 2012
por Sérgio Lavos

"Tolerámos cumplicidades entre a esfera pública e a esfera dos negócios". - Vítor Gaspar, há minutos no debate da moção de censura do PCP. Tem toda a razão:

 

José Luís Arnaut e Miguel Moreira da Silva.

 

Eduardo "Pentelho" Catroga e Celeste Cardona.

 

Manuel Frexes e Álvaro Castelo-Branco.

 

Sérgio Monteiro e Ferreira do Amaral.

 

Miguel Relvas.

 

BPN.

 

Etc., etc.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira


Recordo que os bolseiros, que, desde que este ministro chegou ao ministério, são obrigados a viver com os atrasos nos pagamentos como uma rotina, têm um regime de exclusividade e não podem procurar rendimentos noutras fontes.

por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

 

A cada nova revelação dos números da execução orçamental, confirma-se a ideia: o país está cada vez mais pobre, mas nem assim o défice de 4.5% irá ser atingido.

 

Passos Coelho e Vítor Gaspar prometeram-nos: a cura de austeridade - "além da troika", disse o primeiro-ministro várias vezes - era necessária ao abrigo do programa da troika. E fundamental para se atingir a meta do défice e assim voltar aos mercados em 2013. Mas Vítor Gaspar falhou. Redondamente, criminosamente. A meta não irá ser atingida, como muita gente previu, tanto à esquerda como à direita. E ninguém poderá levar a sério o ar de surpresa de Gaspar. As consequências de uma política de empobrecimento seriam sempre estas. Aqui no Arrastão inúmeras vezes escrevemos: a austeridade leva a uma contracção da economia, o que significa mais desemprego, aumento das despesas com as prestações sociais, quebra das receitas fiscais, tantos os impostos sobre o consumo como sobre os rendimentos. Os aumentos sobre o IRS, IRC e IVA redundaram num contraproducente fracasso. O que o Governo esperava obter a mais esfumou-se com a crise. E bem pode Vítor Gaspar culpar a conjuntura económica: é mentira. O resgate internacional levou a que os juros da dívida baixassem ao longo do tempo. A injecção de capital feita pelo BCE em Novembro passado permitiu que Portugal respirasse um pouco mais. Mas nem esta descida nos juros se deve a políticas do Governo: se o BCE não tivesse actuado, ainda estaríamos nos mesmos níveis que estávamos em Janeiro. E o crescimento das exportações - a menina dos olhos que também não se deve a políticas deste Governo - abrandou no mês passado.

 

Em dia de vitória da selecção, Vítor Gaspar confessou o seu falhanço. Mas a cada novo falhanço, o Governo aponta na mesma direcção - o abismo. No final do conselho de ministros extraordinário, Paulo Portas - quem terá obrigado o ministro dos submarinos a, por uma vez, dar a cara pelo Governo? - disse que a melhor notícia é terem já passado seis meses. Sem nada de bom para dizer, Portas refugiou-se na vulgaridade insultuosa. Os cálculos eleitorais do Governo deixam de fora o milhão de desempregados, os milhares de empresas em processo de insolvência ou a passar por dificuldades, os pobres cada vez mais pobres. O ideal seria, sabemos bem, que todos emigrassem. Para que o fardo das prestações sociais fosse um pouco reduzido e para que continuassem a crescer as remessas em dinheiro entradas no país.

 

E enquanto isto, os boys continuam a ocupar lugares no Governo e na administração pública. Enquanto isso, privatiza-se as empresas que dão lucro e guarda-se lugares na administração para as pantanosas criaturas que brotam do aparelho dos partidos. E enquanto isso, pressiona-se jornalistas, mente-se com todos os dentes e trafica-se influências a favor de amigos, confrades de avental e membros do partido.

 

2012 vai sem dúvida marcar um ponto de viragem.


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

Fernando Lugo, um ex-bispo relativamente moderado mas apoiado pela esquerda na sua eleição, foi deposto do lugar de Presidente do Paraguai. Apesar de se terem cumprido, formalmente, todos os requisitos legais, a deposição-relâmpago do presidente eleito, em apenas 30 horas, por causa de 17 mortes num conflito entre a polícia e sem-terra, foi considerada, na generalidade dos países latino-americanos, como um golpe de Estado. E o novo governo tenta agora romper o quase completo isolamento internacional.

 

A esquerda latino-americana (e não só) que pretenda transformar uma realidade social injusta de forma mais radical está consciente de uma coisa: não tendo o apoio das elites económicas e das elites políticas tradicionais, nunca lhe chega uma vitória eleitoral. Independentemente do que se pense sobre cada um dos presidentes eleitos, as tentativas de golpes de Estado na Venezuela e na Bolívia e os golpes nas Honduras e, há mais de três décadas, no Chile, são um aviso de que nunca se podem esquecer: aqueles que se lhes opõem não desistem de os derrubar por todos os meios.

 

Mas não é apenas isto. As transformações a que se propõem exigem um apoio popular organizado. São terrivelmente difíceis e para as conquistar não chega deter um poder formal que será subvertido - como foi nas Honduras e no Paraguai - à primeira oportunidade. Nem chega o carisma dos seus líderes. Não chega ser, como Lugo era chamado antes das últimas eleições, "o bispo do povo". É preciso que esse poder esteja apoiado numa forte base social, organizada e combativa. E para ela existir são precisos resultados concretos.

 

Claro que Lugo, como Zelaya, Allende, Chavez ou Evo Morales, tiveram do seu lado, ao contrário de Fidel e Raul Castro, a legitimidade do voto. Mas quem quer ir mais longe tem de ter do seu lado a democracia em ação. E a democracia, pelo menos para governos desta natureza, passa por iniciar a democratização real das sociedades dos seus países.

 

Lugo caiu e não teve, nesse dia, mais de 500 pessoas a manifestar-se por ele. Caiu e apenas 4 senadores votaram contra este golpe. Caiu e teve de aceitar a sua queda sem resistência. Caiu e nem o partido que o apoiava, o Partido Liberal Radical Autêntico, uma força tradicional paraguaia sem qualquer história de combate social, esteve do seu lado. Isto porque a vitória de Lugo não resultou de um movimento político estruturado e com implantação popular. Lugo venceu por causa de Lugo. E Lugo não chega para defender Lugo.

 

Para vencer eleições e tudo ficar na mesma basta um homem que vença uma eleição. O resto já lá estará, nas elites económicas e políticas, para o defender. Para mudar um país um homem não chega. E esta, entre muitas outras, é a razão porque desconfio de movimentos personalistas de esquerda, como, por exemplo, o "chavismo". Há uma grande diferença entre um movimento social e político e um movimento carismático. Um depende do poder que as pessoas conquistam para si próprias, o outro depende do poder que um homem providencial momentaneamente lhes ofereça. E o personalismo tem sido um dos maiores pecados da esquerda latino-americana.

 

Fernando Lugo caiu por causa de um confronto entre as forças policiais e camponeses sem-terra. Ou pelo menos esta foi a razão que a oposição, maioritariamente de direita, apontou para a sua queda. A verdade é que, em quatro anos de poder, a realidade agrária do Paraguai não mudou. 1% dos proprietários continua a deter 77% das terras - 351 proprietários detêm 9,7 milhões de hectares -, enquanto 40% dos pequenos proprietários rurais, camponeses, tem apenas 1%. 350 mil famílias rurais vivem em acampamentos de barracas.

 

Quando venceu as eleições, Lugo prometeu nacionalizar 8 milhões de hectares para depois os distribuir entre as 300 mil famílias sem-terra. Não cumpriu e a situação até piorou. Como muito bem escreveu o jornalista Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, "se Lugo alguma culpa tem nessa história, não é a de ter ordenado ou provocado o incidente, mas o de não ter conseguido fazer a reforma agrária que prometeu ao assumir em 2008". Assim como não conseguiu inverter a situação relativa ao Tratado de Itaipu, assinado com o Brasil, que permite ao Paraguai usar metade da energia produzida por aquela central eléctrica, que garante 20% das necessidades energéticas do Brasil. Continua, tal como antes, a usar apenas 5% (que garantem 95% das suas necessidades) e a vender o resto a preço de custo.

 

Se tivesse feito a reforma agrária e mudado a política energética não teria contado com a oposição que contou? Seria bem pior. Mas seguramente estariam, do seu lado, bem mais do que 500 manifestantes. E sua destituição administrativa teria sido bem mais difícil. É esta a lição: a quem queira governar pelos mais fracos é indispensável o voto dos mais fracos. Mas ele não chega. Precisa do apoio ativo e organizado dos mais fracos. Quem nada quer mudar pode desiludir quem nele vota. É quase da natureza das coisas. Mas quem se prepara para um combate tão difícil, como o de destruir as estruturas que garantem uma pornográfica desigualdade, precisa de contar com o apoio comprometido dos destinatários das suas políticas.

 

Publicado no Expresso Online 

 


por Daniel Oliveira
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Domingo, 24 de Junho de 2012
por Daniel Oliveira

 

Retirado daqui.

 


por Daniel Oliveira
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Sábado, 23 de Junho de 2012
por Daniel Oliveira

 

"Como sabe, eu sou bancário, do BES, que é quem paga o meu salário – o único que tenho e que faço questão de manter. Por isso, antes de formalizar a candidatura, fiz questão de ter uma reunião com o doutor Ricardo Salgado, a quem transmiti, de forma transparente, a minha intenção. Naturalmente que ele, enquanto presidente da comissão executiva do BES, desejou-me sorte e disse que era também um factor de prestígio para o BES ter um dos seus colaboradores como secretário-geral da UGT."

Carlos Silva, candidato à liderança da UGT.

Retirado do 5 Dias

 

Estranho sindicalista que se refere a si próprio como "colaborador" (irá a a UGT passar a chamar-se UGC?) e faz questão de tornar público que, na sua candidatura à liderança de uma central sindical, teve o aval do seu patrão. 


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

É a segunda vez que o "Jornal de Angola", órgão oficioso do governo de José Eduardo dos Santos, Isabel dos Santos e restante elite de generais-empresários, me dedica um texto repleto de insultos. Como a da primeira vez, tomo-o como um enorme elogio. Sobretudo as partes em que me tentam dar lições de liberdade de imprensa. A antipatia dos capachos de qualquer ditadura deve sempre ser vista como um sinal de decência.

 

PS: Seguramente por humildade, o autor desta prosa, homem corajoso - mas não o suficiente para assinar com o seu nome -, identifica-se com um nome falso. Segundo fiquei a saber, o senhor chama-se, na realidade, Artur Queiroz (conhecido simpaticamente em Angola como "o pai da censura no jornal de Angola" e o "tuga mercenário") tem tantos heterónimos, masculinos e femininos, que um tipo se perde. Usa-os para insultar quem se atreva a criticar o dono, com especial atenção para angolanos que, ao contrário dele, cumprem as suas obrigações de jornalista. Acontece que à multiplicação de heterónimos não correspondem estilos diferentes - o seu talento não chega para tanto - e os seus pseudónimos têm sempre o rabo de fora. Queiroz é luso-angolano, veio para Portugal em 75, andou pelas bandas do PRP e dedicou-se, nas páginas de jornais nacionais, a ferozes críticas ao governo angolano. Há dez anos voltou a Angola, abandonou os devaneios de juventude e fez pela vida. Arranjou trabalho como consultor no JA e tem como única função queimar, com a proteção da primeira dama, gente incómoda para o regime. Ganha a vida a fazer fretes (na gíria jornalística costuma-se usar outra expressão) à ditadura angolana. Mas tem vergonha do que faz. Não é mau sinal. Quer dizer que ainda tem alguma noção do triste papel que reservou para a sua vida. Para ficar a saber mais, vale a pena ler estes textos de Reginaldo Silva, um velho jornalista angolano, várias vezes preso depois de 1977.


por Daniel Oliveira
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Sexta-feira, 22 de Junho de 2012
por Bruno Sena Martins

Desde o primeiro jogo do Euro 2004 que eu não torcia pela Grécia. Tempo de repetir: força Grécia!

 


por Bruno Sena Martins
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por Pedro Vieira

 

 

rabiscos vieira

 

you'll never walk alone


por Pedro Vieira
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por Bruno Sena Martins

 ANTÓNIO M. SIMÕES/GLOBAL IMAGENS

 

O grande mérito de Paulo Bento neste Europoeu foi ter-se lembrado de convocar o Cristiano Ronaldo.


por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira

 

Desde o seu nascimento que considerava que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) seria uma estrutura sem qualquer credibilidade. Defendi, quando se discutia a reformulação da Alta Autoridade para a Comunicação Social, que a entidade reguladora fosse composta por dois representante eleitos pelos jornalistas, um representante das empresas de comunicação social, um eleito por dois terços do Parlamento e um nomeado pelo Presidente da República. Uma maioria de representantes dos regulados (com maior peso dos profissionais), um nome aceite por uma maioria qualificada do Parlamento e uma figura escolhida pelo Chefe de Estado. Considerava que uma composição deste género, tendo vários defeitos, teria, pelo menos, o mínimo de credibilidade junto de quem deve acatar as suas decisões.

 

Como era de esperar, os dois principais partidos não quiseram deixar passar a oportunidade de determinar quem controlaria os jornalistas. E transformaram a ERC num miniparlamento, onde tratam das suas pequenas guerras. Assim foi no tempo de Sócrates, assim é no tempo de Passos. Nem as pessoas que lá se sentam, mesmo quando são jornalistas, merecem o respeito dos profissionais que pretendem regular, nem as suas deliberações têm qualquer credibilidade no conjunto da sociedade. Defendi então que a tentativa de instrumentalizar a ERC seria inútil: um órgão regulador que não é levado a sério não regula ninguém. Assim tem sido.

 

A deliberação sobre as pressões e ameaças de Miguel Relvas ao jornal "Público", em que, como era de esperar, a maioria escolhida por PSD e CDS dá tudo como não provado, apenas confirma a evidência: esta estrutura partidária não regula nem pretende regular coisa nenhuma. O facto de um dos membros que deliberou sobre este assunto, a jornalista Raquel Alexandra, ser, como a própria confirmou, amiga muito próxima de Miguel Relvas e não se ter escusado a participar neste embuste é apenas mais uma prova de como a ERC não faz qualquer questão de se dar ao respeito.

 

A ERC é apenas mais um exemplo do falhanço da regulação em Portugal. A Autoridade da Concorrência, que nunca descobriu qualquer problema na evidente cartelização de preços dos combustíveis, ou a Entidade Reguladora dos Serviço Energéticos, sempre com tanto receio de aborrecer a EDP, são outros. No caso da ERC, indignaram-se os social-democratas quando mandava o PS. Indignam-se os socialistas quando manda o PSD. Mas sabemos que nenhum deles está disposto, estando no poder, em desistir deste patético faz de conta.

 

A ERC acha que nada ficou provado sobre Relvas? E a quem interessa a opinião de cinco nomeados partidários sobre este assunto?

 

Publicado no Expresso Online

 

 

 


por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 21 de Junho de 2012
por Miguel Cardina

 

Sim, o desemprego é um flagelo que destrói vidas e que resulta da política de empobrecimento induzido em que estamos mergulhados. Sim, ele tem crescido entre quem tem cursos superiores (não, não é mais fácil ter um emprego sem um curso superior). Sim, as humanidades atravessam uma crise de credibilidade (não, não diz só respeito a quem estuda "isso"). Mas títulos sensacionalistas como este "Conheça os cursos que colocam os alunos no desemprego" são mentirosos e ofensivos. São mentirosos porque não encontrei nenhum dado dos coligidos pelo governo que permita certificar que todas as pessoas que terminaram os dois cursos em que se refere níveis de 100% de desemprego estejam efetivamente nessa situação (pelo contrário). E são ofensivos porque tratam os sujeitos como mera mão-de-obra que visa alimentar o "mercado de trabalho" (coisa que além do mais, como sabemos, é tudo menos imutável). Algo vai mal neste quadrado anémico quando o "empreendedorismo" se transforma na "gaia ciência" que nos sobra e os saberes que estão para lá da "racionalidade instrumental" são tratados como uma espécie de "diretor de recursos humanos" que anda para aí a mandar gente para o desemprego...

 

*Os dados do governo merecem, na verdade, uma leitura atenta. Dois elementos a realçar: metade dos desempregos habilitação superior tem entre 25 e 34 anos. Relativamente à distinção por género, já se sabia que as desempregadas são sempre um pouco mais do que os desempregados (52%-48%). Mas desconhecia, por exemplo, que no caso dos desempregado/as com habilitação superiores, o fosso tivesse uma dimensão tão significativa (67,4% de mulheres para 32,6% de homens). By the way, isto também daria para fazer uns titulozinhos manhosos... Eu prefiro ficar-me pela constatação de que continua a fazer sentido lutar contra discriminações em função do género.


por Miguel Cardina
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por Sérgio Lavos

 

Rui Rio, conhecido como "O Entaipador Implacável da Ribeira", decidiu uma vez mais enviar os gorilas da polícia municipal para vandalizarem um projecto cidadão que tinha ocupado um espaço público deixado ao abandono, no caso a biblioteca infantil Ivo Cruz. Não devemos duvidar: Rui Rio prefere o vazio à cultura, a violência institucional à participação cidadã na construção da cidade do Porto. Como vi escrito no Facebook, assim que Rio ouve falar em cultura, saca dos tapumes. Modos de vida. Mas não é isso o mais intrigante neste caso de assoberbamento cro-magnon do presidente da câmara portuense.

 

No dia em que a biblioteca foi assaltada pela polícia, o Diário de Notícias noticiou o caso. O bizarro da situação é que o jornal saiu para as bancas cerca de três horas antes do caso ter acontecido. A notícia - sem assinatura - falava em "injúrias e agressões a agentes", quantifica o número de pessoas identificadas e especula sobre a origem dos ocupantes do espaço. Este extraordinário exercício da adivinhação dado à estampa no Diário de Notícias teve pouca repercussão na realidade; a efectiva vandalização do espaço pela polícia, acontecida três horas depois desta notícia ter começado a ser lida, acabou por decorrer sem "injúrias e agressões" nem outros fenómenos paranormais de monta.

 

Contactado pela associação que ocupara o espaço, o provedor do DN defendeu o jornal dizendo que a notíciaa tinha sido escrita com base num comunicado da polícia enviado na noite anterior. Fantástico país, este, em que membros da polícia se dedicam a escrever notícias que depois enviam aos jornais, e ainda por cima notícias sobre o futuro, sobre o que ainda está para acontecer. Fabulosa nação, também, aquela em que um jornal - por sinal, o mais antigo publicado em Portugal - recebe notícias redigidas pela polícia e as publica como sendo suas e verdadeiras.

 

Contado não se acredita, dirão. Mas eu acrescento: a verdade e a realidade, tudo vão, tudo ilusório. Acreditamos no que queremos acreditar, mesmo que seja má ficção escrita por um péssimo polícia.

 

Adenda: o provedor do jornal, Óscar Mascarenhas, deixou na caixa de comentários um esclarecimento sobre a sua actuação que julgo ser premente deixar aqui. Diga-se que nunca duvidei da competência de Óscar Mascarenhas, que tem mostrado, em outras situações ocorridas no DN - por exemplo, o caso da contra-notícia enviada pelo Governo para a redacção no dia de uma greve de transportes - bastante competência e sobretudo independência nas suas análises, nunca se furtando a criticar e a melhorar os procedimentos do jornal para o qual trabalha.  Aqui fia então, com um pedido de desculpas pelo equívoco cometido:

"Caro Sérgio Lavos:
Não fui contactado pela associação nem defendi coisa nenhuma. Já esclareci no blogue respetivo e repito-o aqui:
Pretendo retificar aqui um equívoco. "O provedor do leitor deste jornal foi contactado, e defendeu que aquela peça foi baseada num comunicado da polícia enviado na noite anterior". Esta afirmação não corresponde à verdade. A Sra. Patrícia Dias da Silva contactou-me (sem me dizer se representa ou não mais alguém, mas isso é indiferente) e respondi-lhe: "Já recebi uma reclamação anterior sobre esta notícia e pedi esclarecimentos urgentes à Direção do DN, sendo certo que a notícia parece sustentar-se em informações fornecidas por forças policiais.
Obrigado pelo alerta." Não "defendi" coisa nenhuma, prometi averiguar e bem dispensava que a minha resposta fosse tão completamente deturpada. A análise do que aconteceu sairá na edição de amanhã, dia 23, do DN. Oscar Mascarenhas (Provedor do Leitor do DN).


por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

Há crimes que, pela condenação social de que hoje são alvo, são especialmente sensíveis a propostas menos avisadas. Entre eles está, seguramente, o abuso sexual de menores. Pedofilia, que usei no título para indetificação fácil do tema, é coisa do domínio da da psiquiatria. Nem todos os pedófilos chegam a ser abusadores, tal como nem todos os abusadores de menores são tecnicamente pedófilos. É agora usual dizer-se que o abuso de menores é "o mais hediondo dos crimes". Sentido por ele, como pai e como ser humano, o mesmo nojo que os demais cidadãos, não faço hierarquizações com outros crimes (incluindo crimes que envolvem menores) igualmente graves, dando a este um estatuto de exceção. 

 

Está, em cima da mesa, uma proposta vinda da Europa: a possibilidade de se divulgar a identidade de abusadores a escolas e vizinhos. Abusadores que já foram condenados pelas suas condutas e terão cumprido a sua pena, como é evidente.

 

Sobre a necessidade, devido à fortíssima reincidência deste crime, de não apagar estas ocorrências dos registos criminais dos abusadores não tenho uma posição fechada. Precisaria de ouvir mais gente e compreender melhor as implicações de tal procedimento para o nosso ordenamento jurídico e a sua real eficácia.

 

Sobre a o possibilidade de divulgar essa informação a escolas e vizinhos tenho uma posição fechada: frontalmente contra. Uma coisa é as autoridades disporem dessa informação para intervirem, irem acompanhando o comportamento de quem já tenha cumprido a sua pena e arranjarem mecanismos que impeçam o abusador de trabalhar instituições que têm a seu cargo menores. Outra, bem diferente, é determinar uma condenação perpétua, transformar cidadãos em suspeitos crónicos de qualquer ato de que possam não ser responsáveis e até criar condições para a justiça popular. Não é preciso fazer um grande esforço para imaginar que, qualquer um de nós, tendo filhos e sabendo-se vizinho de um abusador não descansará enquanto ele ali viver. E, pior, ao mais pequeno acontecimento teremos aquele vizinho não apenas como suspeito, mas como culpado à partida. E isto é o oposto do que eu entendo por Estado de Direito.

 

Dirão que o que está em causa é demasiado grave para nos prendermos a este tipo de preocupações. Mas o Estado de Direito torna-se especialmente importante quando os crimes são realmente graves. E ainda mais quando esses crimes têm sobre as pessoas um efeito emocional que as pode tornar compreensivelmente irracionais.

 

Um Estado que consiga garantir um acompanhamento da vida de um abusador condenado, impedindo que este venha a estar em situações que ponham em risco os outros, tem seguramente o meu apoio. A defesa de garantias não pode ser cega perante o enorme risco de reincidência. Mas uma lei que substitua a justiça pelo linchamento terá, seja qual for o crime, a minha frontal oposição. Porque se trataria de uma lei que criaria, na sociedade, um ambiente de perseguição e, na prática, incitaria, ao mínimo incidente, ao crime. Tudo o que uma lei não deve ser. O assunto não é fácil. Mas por não ser fácil é péssima ideia substituir a cautela por populismos fáceis.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 20 de Junho de 2012
por Sérgio Lavos

Poderia socorrer-me da ironia para comentar o desfecho do caso Relvas: "Que surpresa, a ERC ter deliberado em favor do ministro que a tutela..."

 

Ou da indignação pura e dura: "Se o ministro tivesse um pingo de vergonha naquela cara de maçon murcho, já se teria demitido; se o primeiro-ministro tivesse uma réstia de decência no corpo e um estertor de vivacidade na espinha, teria ele mesmo feito o serviço."

 

Ou então da raiva contida: "Uma vez mais, prova-se que em Portugal, quando se fala de políticos, a culpa morre sempre solteira."

 

Ou ainda do queixume miserabilista nacional, tão "tradicional" como os cães de loiça da Joana Vasconcelos: "Um país a ir pelo cano, em que cada caso grave redunda em vazio; o fundo do poço irá sempre ser mais fundo."

 

Ou, em caso de desespero, aceitar a resignação passiva: "Que fazer? Mas alguém estaria à espera de outro resultado?"

 

Mas enfim, tudo corre sem sobressalto. Cívico, humano ou de vida. Vou deitar-me, ler um pouco e tentar adormecer. Amanhã o país vai estar um pouco pior, mas que se lixe; se ninguém se preocupa, deixa andar.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

*

Quando é o próprio secretário de Estado da Cultura a escolher o representante de Portugal na Bienal de Veneza, e não um comissário - coisa inédita -, e dias depois do ministro dos Negócios Estrangeiros ter dado à costa para falar desta espectacular diva da arte, que consegue ser “genial, internacional, tradicional e empresarial” (Portas dixit), não precisamos de mais nada: Joana Vasconcelos é o passaporte para a imortalidade de Portugal. O histerismo político é tão pífio que, perto disto, os galos de Barcelos da artista parecem as Graças de Botticelli.

 

(E não surpreende que a artista se deixe instrumentalizar politicamente: a produção em série de mamarrachos que evocam a "tradição portuguesa" precisa de ser escoada de qualquer maneira. São escolhas de vida.)

 

*Para não baixar o nível estético deste blogue, optei por reduzir à sua verdadeira dimensão uma das obras da artista. Tem de haver limites para o mau gosto.

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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

 

Num país com baixos índices de escolarização e altos níveis de iliteracia, os pais tendem a confundir a preparação, a cultura e o conhecimento dos seus filhos com as notas que eles têm em exames. Este "conhecidómetro" instantâneo transformou-se no alfa e no ómega do nosso sistema educativo. Pouco interessa o que realmente se aprende na escola e qual a utilidade do que se aprende para o desenvolvimento intelectual, cultural, técnico e emocional (desculpem, "emocional" não, que é "eduquês") da criança (desculpem, "criança" não, que é "piegas") e do adolescente. A escola tem apenas uma função: preparar para os exames.

 

Um pai um pouco mais exigente, que tente acompanhar os estudos do seu filho, depara-se sempre com a mesma avassaladora e pragmática resposta: "pai, isso não me interessa, não sai no teste"; "mãe, não é assim que está no livro". A nossa escola promove duas coisas: a completa ausência de sentido crítico e a capacidade de memorização. Não desprezo a segunda, muitíssimo longe disso. Mas, se não me levarem a mal, não chega.

 

Na escola portuguesa também se despreza cada vez mais a capacidade de desenvolver projetos, em grupo ou individualmente, promove-se pouco o desejo de ir mais longe do que é debitado nas aulas e dá-se muito pouco valor à expressão oral. Depois de centenas de exames, um aluno com excelentes notas pode acabar a escola sem saber desenvolver oralmente uma ideia e sem conseguir argumentar num debate. Porque o essencial da avaliação é feita através de provas escritas, sem consulta, e iguais para todos.

 

Compreende-se esta opção: é aquela que melhor serve o raciocínio do burocrata. E para o burocrata a exigência não se mede por o gosto por aprender (ui, o que eu fui escrever!) e pelo desenvolvimento de capacidades que são forçosamente diferentes, de pessoa para pessoa. O burocrata abomina, pela sua natureza, as variações que lhe estragam os gráficos.

 

Os testes e exames não servem para avaliar o que se aprendeu nas aulas e fora delas, as aulas é que servem para os alunos se prepararem para os testes e exames. E avaliados de uma forma que, com raríssimas exceções, nunca mais vão voltar a experimentar na sua vida. Nunca mais, em toda a minha vida, me tive de sentar numa secretária e despejar por escrito o que, como a esmagadora maioria dos alunos, tinha decorado uns dias antes.

 

O ministro Nuno Crato passa por um reformador. Porque alguém meteu na cabeça das pessoas que há uma qualquer relação entre a "escola moderna" (um movimento pedagógico considerado libertário) e as práticas e teorias em vigor nas escolas públicas e no Ministério da Educação. Na realidade, a escola sonhada por Nuno Crato é muito próxima da escola que realmente temos. Ele apenas decidiu agravar todos os seus vícios: a "examinite" aguda, o domínio absoluto do que a gíria estudantil chama de "encornanço" e o predomínio burocrático da avaliação como princípio e fim das funções do ensino. Lamentavelmente, como poderemos ver comparando o nosso sistema educativo com os melhores da Europa - o finlandês, por exemplo, que tem os melhores resultados no mundo apenas tem, que eu saiba, um exame no fim do ensino secundário -, este sistema não prepara profissionais competentes, pessoas interessadas e cidadãos conscientes. Este sistema burucrático, pensado por burocratas, apenas forma excelentes burocratas.

 

Nuno Crato já tinha criado os exames no final do 2º ciclo e, absoluta originalidade em toda a Europa, no final do 1º ciclo. Promete agora a introdução de mais exames nacionais, no final de cada ciclo, em mais disciplinas. Não tenho a menor dúvida que a medida é popular. Popular entre muitos pais, que podem ver as capacidades dos seus filhos traduzidas em números, sem terem de acompanhar o que eles realmente sabem. Popular entre muitos professores com menos imaginação que têm assim metas bem definidas, sem a maçada de trabalhar com a singularidade de cada aluno.

 

A escola, como uma fábrica de salsichas, é o sonho do ministro contabilista, do professor sem vocação e do pai sem paciência. Não vale a pena é enganar as pessoas: não se traduz em qualquer tipo de "exigência" (uma palavra com poderes mágicos, capaz de, só por ser dita, transformar a EB 2 3 de Alguidares de Baixo no Winchester College) nem em mais qualificação profissional e humana dos jovens portugueses. Os países que conseguiram dar à Escola Pública essa capacidade seguiram o caminho oposto. Aquele que Nuno Crato abomina.

 

Publicado no Expresso Online

 


por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 19 de Junho de 2012
por Daniel Oliveira

Para quem tenha paciência, vale a pena ler o comunicado do Comité Central do Partido Comunista Grego (KKE) de balanço dos resultados eleitorais, depois de ter passado, em apenas dois meses, para quase metade da percentagem, resultado da sua recusa, desde a primeira hora, de vir a participar em qualquer governo com o Syriza. O texto só vale a pena para se perceber até onde pode ir o delírio sectário contra o partido de "centro-esquerda" (o Syriza). Não aconselhável a pessoas impressionáveis. No comunicado do PCP, o Syriza nem sequer existe. Antes a omissão.


por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

 

Quando o ministro Vítor Gaspar confessou a sua surpresa em relação ao diferencial entre as expectativas do Governo para o desemprego e a realidade - parece que o modelo teórico (?) não tinha previsto um aumento tão acentuado - o povo partilhou com Gaspar e os outros governantes um pesar colectivo generalizado. Mas eis que, passado algum tempo, lá vem o estudo encomendado pelo Governo - sabe-lá quanto terá custado mais este estudo ao Estado, isto é, aos nossos bolsos - que explica tudo: parece que pelo menos 0.5 % desse aumento é explicado pelas dificuldades das empresas no acesso ao crédito.

 

Curiosamente, há um ano que o Governo anda a tentar estimular os bancos a emprestarem às empresas. Aparentemente, sem sucesso. As sucessivas recapitalizações dos bancos portugueses - o eufemismo para os subsídios concedidos pelo Estado às entidades financeiras - têm redundado em fracasso. Mas todo este processo é contraditório; o Governo tanto apela à poupança privada como espera que os bancos emprestem mais dinheiro. É um problema certamente não previsto nos "modelos económicos" do ministro Gaspar, mas que qualquer regra de bom senso esperaria: sem dinheiro a circular na economia, as esperanças de crescimento são mínimas. Com pouco dinheiro nos bolsos, e na expectativa de ainda terem menos, os portugueses consomem muito menos, os bancos emprestam menos - o risco é mais elevado - e a margem para o empreendedorismo é reduzida. Ninguém quer arriscar em tempos de crise - o termo real para o "reajustamento" de que fala o documento.

 

Mas o relatório chega a outras interessantes conclusões: surpreende-se com o facto de o sector mais dinâmico da economia - as exportações - não estar a "criar" mais emprego, absorvendo os desempregados dos sectores da economia em contracção. Realmente, surpreendente que os empresários não estejam a contratar mais gente e que o crescimento residual das exportações não compense a brutal contracção do consumo interno provocada pela austeridade "além da troika". E mais surpreendente é outro aspecto do estudo: a rigidez do mercado de trabalho também contribui para o aumento do desemprego. Esta conclusão é deveras interessante, sobretudo porque colide de frente com outra conclusão do mesmo estudo: na expectativa de que o período de "reajustamento" (i.e., crise) seja mais demorado do que o inicialmente previsto, os empresários estarão também a fazer os seus "reajustamentos" na força de trabalho. Extraordinário exercício de novilíngua, este, que eu descodifico para quem ainda não percebeu. Os patrões estão a reduzir salários e a despedir pessoas com receio de que a crise ainda vá piorar. Mas, as leis laborais não são rígidas? Mas, não é difícil despedir pessoas e baixar salários? Tudo muito intrigante.

 

O Governo escolheu o seu lado no combate ao desemprego. Não o lado de quem produz a mais valia para a economia, os trabalhadores, mas o lado de quem explora essa mais valia, enriquecendo, os patrões. Uma escolha ideológica, plasmada no fabuloso programa "Estímulo 2012", que no fundo canaliza verbas para subsidiar as empresas que promovem a precariedade. Para além de mascarar os números do desemprego para inglês ver, não se vê que benefícios possa trazer um programa que prevê o pagamento de parte do ordenado a trabalhadores com contratos a termo certo. Partilhar custos laborais com os empresários - o ovo de Colombo para resolver os problemas do desemprego.

 

Não há modelo teórico que preveja tanto adiantado mental a comandar os destinos do país. Vejamos que outras surpresas nos esperam ao virar da esquina.


por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos

G20 defende menos austeridade na Europa. Ou, por outras palavras, os grandes líderes tentam evitar que Angela Merkel continue a conduzir o mundo em direcção a uma crise económica generalizada, sem precedentes. Boa sorte para eles (e para nós) - a teimosia moralista é pior do que qualquer forma de incompetência.

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por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

Os socialistas conseguiram uma histórica maioria absoluta no parlamento francês. Não sei se este é o melhor resultado para garantir uma forte inflexão no posicionamento francês na Europa, mas o absurdo sistema eleitoral francês foi desenhado de forma a impedir qualquer surpresa que a vontade popular possa trazer. Seja como for, Hollande conseguiu um resultado extraordinário e de nada se poderá desculpar no futuro. Tem, coisa raramente conhecida em França, tudo na mão: a maioria das autarquias, a maioria da Assembleia Nacional e do Senado e, claro, a Presidência. Gorada uma verdadeira mudança política na Grécia, é exclusivamente de Hollande que depende a alteração das políticas europeias. Certo? Errado.

 

Se há coisa que a Grécia nos prova, como escrevi ontem, é que esperar pela coragem dos governantes é um erro. A maioria dos governos, eleitos ou não, responde apenas a um perigo: ao de perder o poder que tem. E nisso, os políticos não são diferentes da maioria das pessoas. O que fez a Nova Democracia grega dar uma volta de 180 graus no que defendia na sua relação com a troika não foi a evidência do descalabro da austeridade. Foi a possibilidade do Syriza vencer as eleições. O que impedirá Hollande de seguir a velha tradição socialista europeia, de, chegada ao poder, se acobardar, será a pressão dos franceses. Sem ela, os governantes tratam de si.

 

"Uma nêspera estava na cama, deitada, muito calada, a ver o que acontecia. Chegou a Velha e disse: olha uma nêspera e zás comeu-a! É o que acontece às nêsperas que ficam deitadas, caladas, a esperar o que acontece!" O poema de Mário Henrique Leiria também nos pode recordar que, em democracia, não somos clientes. Nem temos sempre razão, nem estamos aqui para ser servidos. Ou servimos a democracia ou outros se servem dela. Quem fica deitado, calado, a ver o que acontece, terá sempre um triste fim.

 

Acredito na democracia representativa. Se não fosse por convicção, seria pela mera constatação dos factos: ainda não conheci nenhuma sociedade livre em que ela não existisse. Mas também sei que ela não chega. Que entregar todo o exercício da democracia aos eleitos, julgando que o papel dos cidadãos é apenas esperar pelos resultados do seu voto, é desistir da democracia.

 

Se os franceses não fizerem nada, antes de, também eles, serem engolidos pela crise, François Hollande nada fará. Será, nas palavras que usou para se distinguir de Sarkozy, um "presidente normal". E a Europa, no estado em que está, não precisa de líderes normais. Precisa de quem, substituindo a pior geração de políticos que liderou a Europa desde o pós-guerra, seja tão arrojado como foi a incompetência dos seus antecessores. Mas para seguir o caminho inverso. E isso só acontecerá se a pressão popular mantiver o poder sempre em risco.

 

A estratégia que mais sucesso tem em Portugal é a da nêspera: ficarmos deitados, calados, a ver o que nos acontece. Na esperança que todos percebam que não somos a Grécia. Assim como os espanhóis esperam que todos percebam que eles não são os portugueses. E os italianos esperam que todos percebam que eles não são os espanhóis. E os franceses esperam que todos percebam que eles não são os italianos. Até serem todos comidos.

 

Da mesma forma que Hollande não enfrentará Merkel se os franceses a isso não o obrigarem - a política vive da economia de esforço e de risco -, Portugal, Irlanda, Grécia ou Espanha não se salvarão apenas porque a França mudou de presidente e este decidirá, sabe-se lá porquê, ser nosso advogado de defesa.

 

O governo português está deitado, muito calado, a ver o que acontece. Apoia a Alemanha, em tudo o que esta defenda, incluindo em matérias onde a sua posição é naturalmente oposta aos interesses nacionais - como nos eurobounds -, na esperança de ver o seu bom comportamento premiado. Não duvido que, se o poder hegemónico na Europa fosse francês, seria a França a merecer o nosso constante e acrítico aplauso.

 

O povo português tem estado deitado, calado, a ver o que acontece. Na esperança que isto passe e achando que enquanto nos fingirmos de mortos a realidade se vai esquecer de nós. Não resulta. Enquanto este governo sentir que o seu poder não está em perigo, enquanto os que se servem do Estado para fazer os seus negócios poderem continuar a tratar de si, nada mudará.

 

A posição dos portugueses e do seu governo é coincidente: a da nêspera. Passos espera que, perante a sua obediência, os outros reconheçam a nossa insignificância e, na hora do naufrágio, nos arranjem um lugar no barco salva-vidas. Os portugueses esperam que, não fazendo ondas e garantindo esta paz podre, alguém nos venha salvar desta agonia. Só que a estabilidade política que vive da apatia dos cidadãos e da bovina obediência das Nações nada pode trazer de bom a um povo. As nêsperas nascem e vivem para ser comidas. Se insistirmos em ficar quietos, à espera de Merkel ou de Hollande, dependendo da convicção ideológica de cada um, é esse o destino que nos espera. Chega a velha e zás!

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 18 de Junho de 2012
por Pedro Vieira

 

 

rabiscos vieira


por Pedro Vieira
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por Daniel Oliveira

Pintura de Sónia Carvalho

 

Realiza-se amanhã, dia 19, no Teatro São Luiz, em Lisboa, um debate público sobre a cultura e o futuro. Será às 18h e contará com intervenções de José Luís Ferreira, diretor artístico do Teatro São Luíz, António Capelo, ator, Catarina Martins, atriz e encenadora (deputada do BE), Nuno Artur Silva, autor e produtor, Kalaf, músico e poeta, João Canijo, realizador, Inês de Medeiros, atriz e realizadora (deputada do PS), António Pinto Ribeiro, programador geral Programa Gulbenkian Próximo Futuro e Raquel Henriques da Silva, investigadora e professora universitária. Terá imagens de Pauliana Valente Pimentel, fotógrafa.

 

Este é o texto que serve de ponto de partida para este debate:

 

Carta: Cultura e futuro (podem ver os subscritores da carta aqui)

 

 

O património cultural e o acesso à criação artística contemporânea constituem valores de civilização inerentes às democracias modernas. Os direitos à identidade e à diversidade cultural, à participação na vida cultural, à livre criação e fruição artísticas, à cooperação cultural internacional, são direitos culturais reconhecidos pela UNESCO, que investe os Estados na responsabilidade de construir políticas públicas que assegurem o seu pleno exercício. No Portugal democrático, a efetivação dos direitos culturais constitui uma tarefa fundamental do Estado, a par dos direitos económicos e sociais e da promoção do bem-estar, da qualidade de vida da população e da igualdade real entre portugueses, conforme estipulado na Constituição da República.

 

 


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

 

Alexis Tsipras, eleito líder do Synaspismos (principal partido da coligação Syriza) há três anos e sério candidato a primeiro-ministro da Grécia nas últimas eleições, com apenas 38 anos, conseguiu um feito extraordinário: multiplicou por seis (tinha 4,6%) a percentagem do seu partido, em apenas três anos, e, desde as últimas eleições, há dois meses, passou de 17% para 27%. Mas tudo isto não chegou para ganhar as eleições. Os eurocratas e a senhora Merkel suspiraram de alívio. A chantagem a que se dedicaram, numa desenvergonhada e nunca vista ingerência na vida política de um país membro da União Europeia, não retira às eleições gregas as sua legitimidade democrática. Não foi ontem que a Europa sentiu o abalo de que urgentemente precisa para não se autodestruir.

 

Antes de coisas mais importantes, três lições menores destas eleições. A primeira: os comunistas ultraortodoxos do KKE baixaram, em dois meses, de 8,5% para 4,5%. O sectarismo de se recusarem a participar num governo de esquerda paga-se caro. Até na tradicionalmente sectária vida política grega. A segunda: os neonazis, mesmo depois das extraordinárias agressões na televisão, mantiveram a sua percentagem. O desespero de um povo torna o impensável aceitável. A terceira: segundo uma sondagem, entre os 18 e os 34 anos, 33% dos eleitores votaram no Syriza, e apenas 20% votaram na Nova Democracia; entre os 35 e os 54, 34% votaram no Syriza e 24% na Nova Democracia; acima dos 55, 39% votou na Nova Democracia e 20% no Syriza. Foi o eleitorado tradicionalmente mais temeroso da mudança que garantiu a vitória de Samaras. E a jovem Grécia, que quer emprego, não quer emigrar, e é a única que tem condições para fazer o país avançar, quer mudar de vida.

 

Mas não se julgue que tudo está na mesma na Grécia. Os coveiros da Grécia, que a faliram e que a entregaram à troika, Nova Democracia e PASOK, juntos, conseguem a maioria dos deputados, graças ao extra de cinquenta deputados para o partido mais votado. Mas os partidos que defendem o memorando têm apenas 41% dos votos. O governo, que o pode continuar a impor à Grécia, se chegar a existir, será extraordinariamente fraco e sem a maioria dos votos dos gregos. Com uma agravante: com o Syriza com uma votação tão próxima da Nova Democracia (apenas menos 3%), há, sempre à espreita, uma alternativa clara.

 

Compreendendo isto, o PASOK (que caiu ainda mais um bocadinho) quer amarrar o Syriza a um governo que aceite a continuação deste caminho. Os socialistas perceberam que, continuando a cumprir o papel que têm tido, se condenam à extinção. E querem o resto da esquerda no governo, assegurando-se que não há alternativa. Esta é a primeira vitória do Syriza: deixar claro, para o PASOK e para toda a social democracia desistente, que ou escolhem um lado e honram o seu legado histórico, ou outros tomarão o seu lugar.

 

Sabendo da insustentabilidade da aplicação desta receita suicida, Antonis Samaras prometeu uma renegociação dos termos do memorando. Esta foi a segunda vitória do Syriza: ao apresentar-se como real alternativa de poder conseguiu, mesmo perdendo por "uma unha grega", que a direita recuasse nas suas posições. Se a vitória da ND tivesse sido extraordinária, até podiam dar o dito por não dito. Assim, não chegará uma operação de cosmética para se manterem no poder. Lá estará um forte partido da oposição para pôr o governo em perigo e substitui-lo.

 

A Europa não mudou ontem. Tenho pena. Mas, com este resultado histórico e com o recuo a que obrigou os partidos da troika, o Syriza conseguiu que não ficasse tudo na mesma. A Grécia não conseguiu dar o empurrão para uma refundação das políticas europeias, mas pregou um susto que terá efeitos.

 

Ao contrário do que muitos pensam, a vitória da ND é um passo mais rápido para a saída grega do euro do que seria a vitória do Syriza. Não obrigando a Europa, que terá mais dificuldade em livrar-se da Grécia - pelos efeitos de contágio que isso provocará - do que se julga, a mudar de rumo, a austeridade tratará de fazer o que a direita julgava que um governo de esquerda faria. Estas eleições foram, desse ponto de vista, uma oportunidade perdida. Em vez de a travar, a Grécia apenas terá abrandado a loucura alemã. Mas todos os que o quiserem perceber, perceberam: paira sobre a Europa o espectro da revolta. O tempo do mais estúpido dos consensos - o da austeridade - acabou. Ela poderá continuar. Mas está cada vez mais frágil.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos

 

E a estrela renasce. Eu nunca duvidei, digam o que disserem as más línguas. O Messi? Há um ano estava a ser eliminado na Copa América sem um único golo marcado. Agora, é tempo do Nani aprender a não falhar golos feitos...

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por Sérgio Lavos
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Domingo, 17 de Junho de 2012
por Daniel Oliveira

Resultados com mais de 99% dos votos apurados

 


Nova Democracia           129 deputados (incluindo 50) 29,66 %
Syriza                           71 deputados 26,89 %
Pasok                            33 deputados 12,28 %
Independentes Gregos  20 deputados 7,51 %
Aurora Dourada            18 deputados 6,92 %
Esquerda Democrática  17 deputados 6,25 %
KKE                               12 deputados 4,50 %



por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

Os apoiantes do Syriza têm uma piada: “Fechem os vossos avós no domingo para eles não irem votar”. Os apoiantes do Nova Democracia têm outra: “Se estiver bom tempo os jovens vão nadar e não votar”.

Do jornal "Público"


por Daniel Oliveira
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Sábado, 16 de Junho de 2012
por Sérgio Lavos

A um dia das eleições gregas, o poder imperial da Alemanha na Europa faz-se sentir através de um vergonhoso editorial do Financial Times alemão a apoiar a Nova Democracia e de mais um apelo implícito de Angela Merkel ao voto nos partidos pró-troika gregos

 

Não sabemos qual o resultado das eleições de amanhã, mas já há algum tempo conhecemos as intenções da Alemanha de Merkel: o domínio da Europa de facto através da economia. Mas se estas eleições correrem tão bem a Merkel como aconteceu nas presidenciais francesas - o apoio explícito da chaceler a Sarkozy terá afastado muitos potenciais votantes - a Grécia, e sobretudo a Europa, poderão esperar melhores dias. O fim das políticas de austeridade e sobretudo uma esperança de regresso da democracia e da soberania aos países europeus, suspensas durante tempo indeterminado por um diktat financeiro conduzido pelo reich alemão, estão nas mãos dos gregos. Esperemos que falem claro, para que a mensagem seja entendida. 

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por Sérgio Lavos
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