Sexta-feira, 23 de Julho de 2010
por Daniel Oliveira


Se a proposta de os políticos entregarem vinte por cento dos seus salários (não pagam impostos como os outros?) aos pobres viesse de qualquer outra pessoa, ninguém com o mínimo de juízo hesitaria em denunciar o mais desbragado populismo. Porquê os políticos e não todos os outros? Em dizer que em tempo de crise cai sempre bem fazer este género de discurso. Mas como foi um bispo, tem tudo de fingir que estamos perante uma proposta digna de debate.

Uma proposta tão populista como a de, por exemplo, dizer à Igreja dos pobres deveria entregar as suas riquezas. Citando D. Carlos Azevedo, isso sim, "era um testemunho concreto". Mais populista do que recordar que a preocupação com os pobres deveria ter feito o clero português nunca ter aceite estar isento do pagamento de impostos. E muito mais populista do que lamentar que tão severo rigor com os políticos cristãos lhe tenha faltado quando vivíamos numa ditadura e, com algumas excepções, a hierarquia da Igreja andava de braço dado com o poder não eleito e criminoso.

A justiça social faz-se com políticas fiscais redistributivas. Sim, os que ganham mais - todos - devem pagar mais. Contamos com a Igreja para essa luta? Faz-se com combate à corrupção. Faz-se com o reforço do Estado Social. Não se faz com demagogia barata que tenha a democracia como alvo.

Na imagem: os sapatos Prada do Papa. Todos sabemos ser demagogos.

por Daniel Oliveira
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136 comentários:
Claro, a esquerda reclama a demagogia só para si.

No entanto parece-me que ainda ontem o BE votou favoravelmente um decreto-lei que prevê a redução em 5% do vencimentos dos detentores de cargos públicos.

"O Parlamento aprovou hoje a proposta do CDS-PP para reduzir em 5 por cento os vencimentos dos gabinetes do Governo, presidentes e vereadores de Câmaras Municipais, Presidência da República, Governos Regionais e representantes da República e Governos Civis."

deixado a 23/7/10 às 14:26
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Depois de ler esta noticia, até pensei que o Daniel viria escrever um post enaltecendo as palavras do Bispo, e considerá-lo o novo Padre Max, o padre vermelhusco.

Senão vejamos as suas palavras. Ele até usa a expressão "ultrapassar o capitalismo neoliberal"

"Todos têm um contributo a dar", enfatizou Carlos Azevedo, considerando que numa época de crise os empresários têm a "obrigação moral em investir".

Sublinhou, contudo, que esse investimento desse ser feito em "bens verdadeiramente úteis" e não em "realidades virtuais" que estiveram na base da crise financeira mundial.

Nessa linha, observou que é preciso "ultrapassar o capitalismo neoliberal", pois a crise é também uma "crise de valores".

O bispo auxiliar de Lisboa, que apelou a um "pacto social justo", apontou "desigualdades gritantes" e "realidades dramáticas" que afetam os mais desfavorecidos e lembrou que o rendimento de inserção social é uma "ajuda fundamental" para muitos ultrapassarem a sua pobreza profunda.

Um trabalho "de educação das consciências e das mentalidades para algo novo", uma "alteração dos hábitos de consumo cada vez mais enraizados" e uma maior "partilha de bens" e solidariedade com os mais pobres foram outros caminhos traçados.

Carlos Azevedo afastou a ideia que este encontro tenha sido uma resposta ao ante-projecto de revisão constitucional do PSD, alegando que a reunião já estava marcada há muito tempo.

Excesso de consumismo

Por outro lado, comentou a abertura prolongada das grandes superfícies comerciais ao domingo, decidida hoje pelo Conselho de Ministros, dizendo que é algo "em linha com um estilo de vida baseado no consumo".

Criticou também o apelo ao consumo feito por alguns bancos que, em seu entender, "é obsceno".

A Comissão lembrou também que situações extremas de pobreza e fome podem conduzir à revolta e à violência, numa sociedade de desigualdades, em que gestores ganham "ordenados fabulosos" e pessoas que cometem atos lesivos de "milhões de euros" ficam sem castigo.

deixado a 23/7/10 às 14:30
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Lisboeta
Os gajos da ICAR têm cá uma lata... Já que querem ser tão caridosos, por que carga d'água não fazem coro com aqueles que acham que os bancos deveriam pagar de IRC o mesmo que todas as outras empresas pagam ?!

deixado a 23/7/10 às 14:52
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Pedro M.
baratinhos portanto ... não tem vergonha de escrever isso?

deixado a 23/7/10 às 15:02
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João Silva
Hahaha. E a deputada que, inquirida acerca do assunto, responde mais ou menos assim "...isto é um apelo à esmola e não vai adiantar nada. Eu até dou umas esmolinhas de vez em quando...". E são estes os "nossos" representantes na casa da democracia!

deixado a 23/7/10 às 15:09
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Não é a mesma coisa, Cunha. É uma regra geral para todos.

deixado a 23/7/10 às 15:13
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Assino por baixo. Não sou católico e considero-me de esquerda. Mas há que evitar a resposta reflexa que não separa um grupo de uma circunstância: aquela em que o bispo disse coisas que próprio o bloco poderia ter dito.

Daniel, desculpe, mas caiu na armadilha do grupismo, o que é raro, diga-se em seu favor.

deixado a 23/7/10 às 15:16
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Basicamente, concordo com o texto do Daniel.
Dei umas boas gargalhadas com aquela do "padre vermelhusco" do António Cunha e quanto ao que diz alguém que "trabalha" para o Vaticano que se fosse um País, seria o mais pequeno mas o mais rico do mundo, onde nem se aplica a regra do salário mínimo, tendo as pessoas que por lá trabalham arranjar um emprego fora do Vaticano, para não morrerem de fome e onde as indumentárias têm aquele ouro todo pendurado e aneis nos dedos, francamente, quando se fala em esmolas e não de justiça social, não é mesmo para se levar a sério.
Quando a esmola está dependente da consciência e da humanidade de cada um, está-se mesmo a ver que tamanho terá porque egoismo e satisfação pessoal imediata é o que, agora, está na moda.

deixado a 23/7/10 às 15:47
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Desculpe Daniel, mas agora perdi-me....

Explique lá isso sff

deixado a 23/7/10 às 16:29
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Bolchevike
Se os deputados e os teóricoas do Bloco de Esquerda ajudassem o próximo como a Igreja ajuda os mais pobres, certamente a nossa sociedade estaria muito melhor....

deixado a 23/7/10 às 16:38
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