Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011
por Sérgio Lavos

 

O populismo quando nasce é para todos. E Cavaco, com a queda nas sondagens, também decidiu abocanhar a sua fatia. Pena é que o tenha feito recorrendo ao, como dizê-lo, enviesamento de classe. O homem que repete 30 vezes - 30 - a palavra "povo" num discurso apoia-se num mito que está muito distante da verdade, para não dizer que se baseia na pura mentira. Nasceu em Boliqueime, é certo, mas a Cavaco certamente não interessará que seja divulgado que a sua família pertencia à pequena burguesia rural, que os seus pais viviam do comércio de frutos secos e de combustíveis e eram proprietários num tempo e lugar em que poucos o conseguiam ser. "Vir do povo", no caso de Cavaco, significa ter conseguido prosseguir os estudos com a ajuda da riqueza familiar, significa ter sido excepção, privilegiado, numa época em que poucos, na sua aldeia, o eram. Mas que isso não impeça os spin doctors que lhe escrevem as falas de continuar a cavalgar a onda populista; a imprensa suave por cá continuará a não fazer um dos seus trabalho de casa: desmontar o discurso engenhoso e oportunista do "candidato do povo".

 

- Vídeo via Provas de Contacto -


por Sérgio Lavos
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68 comentários:
Sérgio, se não associa os níveis de literacia com a capacidade económica e classe social no Portugal de há 60, 70 anos não sei que lhe diga.

Duvido, sinceramente, que Cavaco queira passar a imagem de um antigo indigente ou pobrezinho, toda a gente sabe que ele não o foi. Nunca o ouvi queixar-se que passou fome. Mas não é isso que não o faz do "povo". Creio que ele quer reforçar o facto de ter sido criado num meio rural e humilde, de pessoas simples, com alguns privilégios como os que falou, mas sem tantos outros de quem sempre viveu na grande cidade. Claro que há aqui estratégia eleitoralista, mas não com a leitura que lhe faz. Francamente, acho que a sua questão não é questão.


Se formos pelo nível de literacia, aí Cavaco "perde", porque chegou onde ninguém do "povo" chegava: e concordo consigo: não há questão, nem pode haver; mas o discurso do povo para o povo é dos mais demagógicos que pode haver, mais ainda quando não há um fundo de verdade nesse discurso. Mas colhe, senão Cavaco não o faria.

deixado a 15/1/11 às 01:02
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"Sérgio, se não associa os níveis de literacia com a capacidade económica e classe social no Portugal de há 60, 70 anos"

A minha avó tem só a quarta classe (penso que a mesma formação do pai de Cavaco Silva) e pertencia a uma família de médios proprietários rurais (numa aldeia, aliás, vizinha de Boliqueime) - não me parece que isso só seja sirva para classificar a classe social de alguém.

No caso de Teodoro Silva, um dos principais comerciantes de frutos secos da região nos anos 60, dono de uma bomba de gasolina e com empregados (creio que o pai do presidente da CM de Albufeira trabalhava para ele), creio que podemos facilmente classificá-lo como pequena ou até média burguesia.

Agora, isso tudo depende do que entendermos por "povo" (dá-me a ideia que para alguns a questão é mais de ambiente cultural - "povo": meios rurais, pouca instrução formal; "elite": grande cidade, "doutores" - do que de estrato económico).


Ze de Fare
Critique-se Cavaco por aquilo que ele nunca deixou de ser. Um Neoliberal de armário que joga a pedra e esconde a mão. E quando fez governo governou-se a ele e aos amigos, todos eles de bem com a vida. Trabalho rural e praças de jorna são coisas que o velho Teodoro nunca soube o que eram.

deixado a 15/1/11 às 09:32
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