Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011
por Daniel Oliveira

Nada mais perigoso do que um animal que luta pela vida. E é isso que a besta agonizante que durante anos oprimiu os egípcios está a fazer: a lutar pela vida. Não abandonará o poder sem deixar um rasto de destruição no seu caminho. E sabendo que ainda está muito em aberto lançou os seus cães de guarda nas ruas do Cairo.

 

Hosni Mubarak sabe que só tem uma possibilidade de se salvar: lançando um caos no País. Espera que o caos político, social e económico assuste muitos egípcios, que perante a incerteza da democracia optam pela segurança da ditadura.

 

Espera que os militares acabem por aceitar que o regime desabará com ele. Não é um pormenor. Os generais fazem parte da oligarquia que se alimenta da ditadura. Querem salvar o que der para salvar das suas vantagens, não hostilizando o povo e tutelando a transição. A oposição parece aceitar que essa talvez seja a única forma de chegar a bom porto sem um banho de sangue. Mubarak quer deixar claro que só o defendendo o podem garantir. Os militares esperam quietos. Até porque a violêcia lhes poderá dar argumentos para travar o processo democrático e serem eles a decidir sozinhos quem sucede a Mubarak.

 

E, por fim, quer assustar a comunidade internacional. O Egito é uma das maiores potências da região. Fundamental para todos os equilíbrios. Se a isso juntarmos o Suez e a fronteira com Israel, percebemos porque ninguém quer ali um Estado ingovernável. E Mubarak precisa de exibir ao mundo toda a violência. Dizer: sem mim, é isto que terão.

 

A tática de Mubarak não é nova. Esperemos que os egipcios consigam resistir à sua selvajaria. O que se joga ali não é apenas importante para eles. É importante para todos nós. Um Mundo Árabe democrático é o único travão eficaz aos que, no Ocidente e nos países islâmicos, apostam no choque de civilizações.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

26 comentários:
xico
Faz-me impressão ver as esquerdas europeias, que mantinham estes ditadores nos seus clubes (internacional socialista), face às manifestações das populações, passá-los de bestiais a bestas.
Vejo antigos presidentes da república, comovidos até às lágrimas, a falarem em 25 de Abris, esquecendo que os ministros dos governos que apoiam participam, com o dinheiro dos contribuintes, em festas protagonizadas por esses ditadores como foi o caso da Líbia.
Quando o povo exigir na Argélia o retorno à democracia e a entrega do poder a quem ganhou as eleições, o que vai escrever o Daniel?

deixado a 4/2/11 às 09:33
link | responder a comentário | discussão

Anónimo
Xico
Não poderei estar mais de acordo consigo.
Esta trupe das Esquerdas não tem mesmo juízo nenhum.
Nem sequer os exemplos da Direita (que não tem feito outra coisa pelo mundo que é derrubar ditaduras com flores como armas e implantar democracias - às vezes à bomba - os inspira.
(Não é preciso dar exemplos, ou será?)
Estúpidos que são estes Esquerdistas.
Manuel Henrique Figueira


xico
A ironia fica-lhe mal. Não constestei nem critiquei as manifestações. Nem me posiciono à esquerda ou à direita. Acontece que quer o presidente do Egipto quer o da Tunísia pertencem a partidos da Internacional socialista, logo de esquerda. Por isso parecem-me lágrimas de crocodilo quando antigos e actuais dirigentes do PS vêm comovidos à TV falar de 25 de abris e esquecem a participação dos nossos governantes em festas comemorativas dessas ditaduras como foi a da Líbia. E parece-me oportunista que o Daniel chame agora besta a Mubarak.
No entanto também eu gostava de ser tão optimista como o Daniel se revela no último parágrafo, mas não consigo esse optimismo e lembro sempre de Khomeini que até lia Camus.
Quer que seja mais claro?

deixado a 4/2/11 às 19:33
link | responder a comentário | início da discussão

Não será este o momento (guerra civil ) dos norte - americanos intervirem no sentido de implementar a Democracia?


O Egipto não tem armas de destruição massiva? 

deixado a 4/2/11 às 10:58
link | responder a comentário

Um Mundo Árabe democrático é o único travão eficaz ...

Por favor, ao escrever no Expresso caia um bocadinho na realidade e deixe as fantasias para o nãoseiquantos.net.

Nunca em sítio nenhum do Mundo um país muçulmano (sim eu sei que o senhor disfarça com o "mundo árabe") será democrático.

Deixe a Irmandade do Sangue tomar conta do que restar e vai ver a bela democracia que os egípcios(egitos?) vão levar pela tola abaixo.

Ou Alá não fosse muito misericordioso.

deixado a 4/2/11 às 12:11
link | responder a comentário | discussão

Anónimo
Fado Alexandrino:
Se eu não tenho raciocínio de loira, está a dizer que para evitar os regimes fundamentalistas islâmicos o melhor será manter as ditaduras.
Boa!
O Xá do Irão é o melhor exemplo.
Este Daniel Oliveira é mesmo... eu nem digo.
Quanto a não haver democracias muçulmanas, A Indónésia pós Shuarto é o melhor exemplo.
Manuel Henrique Figueira


xico
Mas foi exactamente o que aconteceu na Argélia com a anuência de todas as esquerdas e direitas. Não terá o raciocínio de loura mas tem memória de caracol.


Anónimo
Xico:
Eu não tenho memória de caracol, mas há quem tenha o raciocínio semelhante à velocidade de deslocação dos ditos.
O ponto era:
1- manter as ditaduras para evitar o fundamentalismo (o Irão de Reza Palevi e agora a Tunísia e o Egipto, - e os que se seguirão - mostram que não é esse o caminho);
2 - defender o exercício da democracia (até agora o regime onde melhor se podem praticar as conquistas civilizacionais da Liberdade e dos Direitos Humanos), correndo-se o risco de haver novas Argélias.
Apesar destes perigos, eu prefiro o 2.º caminho, porque as Argélias fundamentalistas só momentaneamente se travam do exterior (basta ver o Bouteflika acagaçado a levantar o estado de sítio à pressa, após 19 anos em vigor, coitado dele).
Para que se evitem as Argélias, tem que se jogar outro jogo - o da democracia -, ajudando as forças internas não fundamentalistas que sustentem valores universais (Liberdade, Direitos Humanos, Igualdade para as mulheres, etc.)
É um caminho estreito, mas há sinais suficientes em vários países islâmicos que dão esperança, começa a haver elites esclarecidas.
O caminho que o Ocidente seguiu até agora (1.º com as Direitas, depois com algumas Esquerdas vencidas da vida, acomodadas ao sistema), de apoiar tudo quanto tresanda a ditadura (da América Latina dos anos sessenta aos países muçulmanos, passando por outras latitudes) para evitar o pior, tem dado nisto - precisamente no pior -, no colapso dessas ditaduras e na ascensão daquilo que não queriam (seja Hugos Chavez, Ayatollahs Komeini, FIS ou Irmandades Muçulmanas).
Não sei se fui extenso e rápido de mais para o seu raciocínio.
Manuel Henrique Figueira


xico
Como sou muito lento, deixe ver se percebi.
Para fazer o jogo da democracia, há que derrubar as ditaduras do Egipto e da Tunísia (ninguém tinha dado por elas!) e fazer o que manifestações populares querem dando de bandeja o poder a outras ditaduras, porque as elites, essa formam-se em dois ou três dias nas praças da liberdade deste mundo?
Quem tinha de se sentar no banco dos réus é a internacional socialista que nada fez para que essas ditaduras fossem formando as tais elites.
Daquilo que disse ficou claro que prefere correr o risco de outras Argélias. Acontece que se esse risco acontecer não serão os direitos civilizacionais que ficam em causa, é a própria civilização.

deixado a 6/2/11 às 17:09
link | responder a comentário | início da discussão

Anónimo
Xico:
Eu não tenho memória de caracol, mas há quem tenha o raciocínio semelhante à velocidade de deslocação dos ditos.
O ponto era:
1- manter as ditaduras para evitar o fundamentalismo (o Irão de Reza Palevi e agora a Tunísia e o Egipto, - e os que se seguirão - mostram que não é esse o caminho);
2 - defender o exercício da democracia (até agora o regime onde melhor se podem praticar as conquistas civilizacionais da Liberdade e dos Direitos Humanos), correndo-se o risco de haver novas Argélias.
Apesar destes perigos, eu prefiro o 2.º caminho, porque as Argélias fundamentalistas só momentaneamente se travam do exterior (basta ver o Bouteflika acagaçado a levantar o estado de sítio à pressa, após 19 anos em vigor).
Para que se evitem as Argélias, tem que se jogar outro jogo - o da democracia -, ajudando as forças internas não fundamentalistas que sustentem valores universais (Liberdade, Direitos Humanos, Igualdade para as mulheres, etc.)
É um caminho cheio de espinhos, mas há sinais suficientes em vários países islâmicos que dão esperança, começa a haver elites esclarecidas.
O caminho que o Ocidente seguiu até agora (1.º com as Direitas, depois com algumas Esquerdas vencidas da vida, acomodadas ao sistema), de apoiar tudo quanto tresanda a ditadura (da América Latina dos anos sessenta aos países muçulmanos, passando por outras latitudes) para evitar o pior, tem dado nisto - precisamente no pior -, no colapso dessas ditaduras e na ascensão daquilo que não queriam (seja Hugos Chavez, Ayatollahs Komeini, FIS ou Irmandades Muçulmanas).
Não sei se fui extenso e rápido de mais para o seu raciocínio.
Manuel Henrique Figueira

deixado a 5/2/11 às 23:28
link | responder a comentário | início da discussão

Obrigado.
O que estou a dizer é que se a Irmandade do Sangue tomar conta do Egipto que já anunciou como primeiro ponto o eliminar Israel e tudo indica que é a unica força organizada, os egípcios mais depressa do que demora a recitar o primeiro verso do Corão, vão suspirar pelo que tinham antes.


deixado a 4/2/11 às 20:36
link | responder a comentário | início da discussão

"Nunca em sítio nenhum do Mundo um país muçulmano (sim eu sei que o senhor disfarça com o "mundo árabe") será democrático."


Essa é que é essa !!!!!

deixado a 4/2/11 às 16:34
link | responder a comentário | início da discussão

Dazulpintado
O Daniel já está à procura de uma justificação para se a coisa não der certo. De uma justificação e de culpados. Que perda de tempo Daniel, os culpados não são eles próprios a justificação?

deixado a 4/2/11 às 12:58
link | responder a comentário

Henrique Morais
Deus queira que tenha razão e que o mundo árabe se vire para a democracia.... Infelizmente não sou muito optimista em relação a isso.


Mas uma coisa eu sei. As mulheres daquelas regiões devem ter preocupações acrescidas....

deixado a 4/2/11 às 13:27
link | responder a comentário

E porque será que quem (Obama) está a negociar a saída do Mubarak, não exige que ele peça às pessoas que se acalmem? Através da televisão e em conjunto com o Mohamed ElBaradei. E porque não lhe entrega o Governo provisório do país até às eleições? Isto tem que parar, não é? Porque não assim? 

deixado a 4/2/11 às 14:20
link | responder a comentário

Atenção, apenas se cortam as consoantes mudas, continua-se a dizer Egipto e a escrever Egipto.

deixado a 4/2/11 às 14:28
link | responder a comentário

Mouzinho
"no Ocidente e nos países islâmicos, apostam no choque de civilizações." falta dizer que no Ocidente são os não ocidentais que o fazem

deixado a 4/2/11 às 14:50
link | responder a comentário

Pedro Lourenço
Hoje mais um episódio grotesco na AR.

Chumbado um texto de apoio ao povo egípcio.

Cada vez olho para o povo de Felgueiras com mais admiração. Aquilo é gente visionária.

deixado a 4/2/11 às 14:54
link | responder a comentário

SlowDriver
vi um presidente profetizar ao povo que  - sem ele, seria o caos-.  agora não me lembro se foi o Hosni Cavaco Mubarak, ou o Cavaco Mubarak Silva ? 

deixado a 4/2/11 às 15:00
link | responder a comentário

Comentar post

pesquisa
 
TV Arrastão
Campanha
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador