Nada mais perigoso do que um animal que luta pela vida. E é isso que a besta agonizante que durante anos oprimiu os egípcios está a fazer: a lutar pela vida. Não abandonará o poder sem deixar um rasto de destruição no seu caminho. E sabendo que ainda está muito em aberto lançou os seus cães de guarda nas ruas do Cairo.
Hosni Mubarak sabe que só tem uma possibilidade de se salvar: lançando um caos no País. Espera que o caos político, social e económico assuste muitos egípcios, que perante a incerteza da democracia optam pela segurança da ditadura.
Espera que os militares acabem por aceitar que o regime desabará com ele. Não é um pormenor. Os generais fazem parte da oligarquia que se alimenta da ditadura. Querem salvar o que der para salvar das suas vantagens, não hostilizando o povo e tutelando a transição. A oposição parece aceitar que essa talvez seja a única forma de chegar a bom porto sem um banho de sangue. Mubarak quer deixar claro que só o defendendo o podem garantir. Os militares esperam quietos. Até porque a violêcia lhes poderá dar argumentos para travar o processo democrático e serem eles a decidir sozinhos quem sucede a Mubarak.
E, por fim, quer assustar a comunidade internacional. O Egito é uma das maiores potências da região. Fundamental para todos os equilíbrios. Se a isso juntarmos o Suez e a fronteira com Israel, percebemos porque ninguém quer ali um Estado ingovernável. E Mubarak precisa de exibir ao mundo toda a violência. Dizer: sem mim, é isto que terão.
A tática de Mubarak não é nova. Esperemos que os egipcios consigam resistir à sua selvajaria. O que se joga ali não é apenas importante para eles. É importante para todos nós. Um Mundo Árabe democrático é o único travão eficaz aos que, no Ocidente e nos países islâmicos, apostam no choque de civilizações.
Publicado no Expresso Online
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