Sexta-feira, 18 de Março de 2011
por João Rodrigues

 

Repito o que escrevi, já esta loucura económica ia avançada: perante a austeridade, que também se combate com a apresentação de alternativas, o discurso das esquerdas sobre a política económica está à altura das circunstâncias quando não assenta apenas em propostas de justiça social focadas nas questões estruturais dos défices de equidade do sistema fiscal, traduzidos nos favores fiscais à banca e ao restante capital financeiro, ou na predação dos recursos públicos, por exemplo, através de ruinosas privatizações ou parcerias público-privadas, promotoras de um controlo privado de serviços e infra-estruturas públicas que só acentua os maus hábitos da nossa elite económica. 

 

É preciso recusar a lógica da austeridade – reduzir salários diretos e indirectos através do alastramento da insegurança laboral –, mesmo que esta pudesse ser mais simétrica na distribuição dos fardos entre os diferentes grupos sociais. É preciso tentar mudar a assimétrica estrutura europeia que a gera, através de um sobressalto colectivo das até agora subalternas periferias, que coloque a Alemanha perante as suas reponsabilidades, quando a tentação é esquecê-la e propor remendos, acabando a subscrever o grau zero da política como acção colectiva para a reforma estrutural (a esquerda tem de reconquistar esta expressão): têm de criar empresas...

 

Acontece que a opção de política económica em curso amputa o mercado interno, uma das pernas necessárias ao crescimento e ao optimismo empresarial que leva ao investimento, acentua a desindustrialização, mina as possibilidades de crescimento qualificado no longo prazo e atola duradouramente o país numa taxa de desemprego de dois dígitos. Assim se favorece a precariedade e se perpetua um capitalismo medíocre porque sem contrapoderes laborais fortes. Como afirma José Gusmão, e este é só um dos muitos argumentos contra a desrgulamentação das relações laborais:

 

“A ideia é a que assiste a toda a ideologia da precariedade: se for mais fácil despedir, os empresários contratarão mais e o emprego aumentará. Simples e claro, primário até. É uma pena a realidade desmentir esta teoria tão cabalmente. É que quando uma economia não cresce, ninguém contrata. Se há menos procura, a economia não cresce. E se as empresas despedem com maior facilidade, os trabalhadores consomem menos. É menos simples (e já simplifiquei muito), mas tem mais suporte na realidade.”

 

As alternativas para um crescimento sustentável são um dos elementos centrais do manifesto dos economistas aterrados, e já não aterrorizados, que será lançado em livro no final deste mês. Depois de ter andado à volta deste texto com o Nuno Serra, mais convencido fico que o problema da esquerda é político, ou seja, é questão de poder. As alternativas razoáveis de política económica andam por aí.


por João Rodrigues
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7 comentários:
JPT
A questão quando se lê estas coisas é sempre a mesma: alguma destas pessoas trabalha no mundo real? E por trabalhar no mundo real quero dizer - não são estudantes, ou professores ou investigadores, ou políticos profissonais, ou "all of the above" (há muito mais "classes excluídas" do conceito de trabalhar no mundo real, mas vou ficar por aqui). Não sei quem são os Senhores (presumo Doutores, arrisco até Professores Doutores) Rodrigues, Serra e Gusmão. Não faço ideia, nem os "googlei". Mas aposto o meu testículo direito em como nunca tiveram que contratar ou despedir um trabalhador, nunca se empenharam para renovar um escritório, um restaurante ou uma mercearia, nunca sequer foram ao staples comprar papel, esferográficas e clips ou ao Recheio comprar o café mais reles. Mas, apesar disso, debitam (tinha outro verbo, confesso) estas valentes sentenças, que nada querem dizer, com fórmulas patetas dignas de colegiais ("as alternativas andam por aí"? isso veio do Sérgio Godinho ou dos Ficheiros Secretos?). Francamente, isto está tudo a abanar, os "robber barons" do PS, o PSD e o PP alternam-se no saque à coisa pública e a única alternativa é esta conversa de chacha (tinha outro substantivo, confesso), estas redacções de liceu? Se é isto a alternativa, não há alternativa. Vote-se nos nazis ou nos fundamentalistas ou no Dr. Kumba Yala, porque antes isso que este imenso nada.

deixado a 18/3/11 às 20:22
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Reaccionário
"Mas aposto o meu testículo direito em como nunca tiveram que contratar ou despedir um trabalhador, nunca se empenharam para renovar um escritório, um restaurante ou uma mercearia, nunca sequer foram ao staples comprar papel, esferográficas e clips ou ao Recheio comprar o café mais reles."

Acho que devia aprender um bocado sobre a vida de um professor universitário antes de apostar testículos. Aprenderia, que sim, têm que contratar e despedir pessoas, têm que ir muitas vezes eles comprar material de escritório porque como «este ano» o governo reduziu o financiamento, a prioridade teve que ir para manter um bolseiro até ao fim do seu doutoramento e por isso a secretária foi despedida. Se quiser comprar uma só estante que seja para o seu escritório tem que pedir autorizações a 350.000 secções distintas da universidade, etc., etc.
Algumas pessoas devem achar que os professores universitários (que ganham praticamente o mesmo do que os do ensino básico e secundário, e tirando os que estão mesmo no topo da carreira - carreira essa que só vai evoluindo por cumprimento de objectivos cada vez mais restritos - não têm emprego garantido para a vida como estes) vivem numa torre de marfim só a olhar para o infinito e a ter ideias para livros e artigos.

deixado a 19/3/11 às 01:17
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Mas por que carga de raios acha toda a gente que os professores não trabalham no mundo real? Universitários, secundários, primários e «infantários», em que mundo acham os senhores que trabalhamos? De onde pensam que vêm os nossos alunos? De Marte? Onde pensam que se situam as escolas? No paraíso terreal? Os professores não compram material para trabalhar - na Staples , também - e, quantas vezes, para os alunos trabalharem? Nunca andaram na escola?! Ou passaram por lá e nem se molharam?!Começo a descobrir que, a haver alguém que não anda no mundo real, são mesmo estas estranhas criaturas...

deixado a 22/3/11 às 13:25
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FP
Peço ao Senhor JM qualquer coisa que entregue, de imediato, o testículo que apostou.
É que a realidade não se limita à ida à Staples, à compra de café ou à contratação e despedimento de trabalhadores. A investigação felizmente faz parte da realidade e ao longo da História tem  sido um fundamental alicerce para a procura e construção de soluções. Já agora, em vez da sugestão política que propõe, uma vez que se predispôs a disponibilizar parte do seu corpo por qualquer coisa muito redutora, aproveite a convalescença para ler um bocadinho de História para ver o que os seus amigos nazis, que como o senhor, gostavam pouco de gente que reflectisse a realidade, de livros e de vozes discordantes, fizeram à Humanidade.

deixado a 19/3/11 às 02:27
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betinha

sabe que a gente não liga peva a economistas , não sabe? a economia faz-se trabalhando , não é falando. é que letras , só na sopa servem para alguma coisa. letras ideológicas nem na sopa devem servir , indigestão segura.
não compreendo como no se callam e  não nos largam a breguilha , depois de se ter constatado que valem tanto como a maya ( tanto não , que essa ainda faz rir).

deixado a 19/3/11 às 23:28
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betinha

desculpe , mas só agora vi : 50000 vendidos em frança !!! diz tudo sobre  a "ciência económica"  hoje. querem vender , né? mas ninguém quer os vossos serviços. sociedades de serviços passou a ser igual a sociedades decadentes.  agora o que está a dar são os sectores primários e secundários. ainda vão a tempo de se reconverterem a alguma profissão que a gente precise mesmo. agricultor ou torneiro mecânico têm futuro. pergunte lá à maya se não é verdade.

deixado a 19/3/11 às 23:34
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FP
Cara Betinha

Desculpe a minha ignorância, mas as suas afirmações baseiam-se em que dados? Ou será só a sua «experiência de vida», o seu achismo, a sua «intuição feminina» que a levam a proferir tais afirmações?

FP

deixado a 20/3/11 às 20:29
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