Repito o que escrevi, já esta loucura económica ia avançada: perante a austeridade, que também se combate com a apresentação de alternativas, o discurso das esquerdas sobre a política económica está à altura das circunstâncias quando não assenta apenas em propostas de justiça social focadas nas questões estruturais dos défices de equidade do sistema fiscal, traduzidos nos favores fiscais à banca e ao restante capital financeiro, ou na predação dos recursos públicos, por exemplo, através de ruinosas privatizações ou parcerias público-privadas, promotoras de um controlo privado de serviços e infra-estruturas públicas que só acentua os maus hábitos da nossa elite económica.
É preciso recusar a lógica da austeridade – reduzir salários diretos e indirectos através do alastramento da insegurança laboral –, mesmo que esta pudesse ser mais simétrica na distribuição dos fardos entre os diferentes grupos sociais. É preciso tentar mudar a assimétrica estrutura europeia que a gera, através de um sobressalto colectivo das até agora subalternas periferias, que coloque a Alemanha perante as suas reponsabilidades, quando a tentação é esquecê-la e propor remendos, acabando a subscrever o grau zero da política como acção colectiva para a reforma estrutural (a esquerda tem de reconquistar esta expressão): têm de criar empresas...
Acontece que a opção de política económica em curso amputa o mercado interno, uma das pernas necessárias ao crescimento e ao optimismo empresarial que leva ao investimento, acentua a desindustrialização, mina as possibilidades de crescimento qualificado no longo prazo e atola duradouramente o país numa taxa de desemprego de dois dígitos. Assim se favorece a precariedade e se perpetua um capitalismo medíocre porque sem contrapoderes laborais fortes. Como afirma José Gusmão, e este é só um dos muitos argumentos contra a desrgulamentação das relações laborais:
“A ideia é a que assiste a toda a ideologia da precariedade: se for mais fácil despedir, os empresários contratarão mais e o emprego aumentará. Simples e claro, primário até. É uma pena a realidade desmentir esta teoria tão cabalmente. É que quando uma economia não cresce, ninguém contrata. Se há menos procura, a economia não cresce. E se as empresas despedem com maior facilidade, os trabalhadores consomem menos. É menos simples (e já simplifiquei muito), mas tem mais suporte na realidade.”
As alternativas para um crescimento sustentável são um dos elementos centrais do manifesto dos economistas aterrados, e já não aterrorizados, que será lançado em livro no final deste mês. Depois de ter andado à volta deste texto com o Nuno Serra, mais convencido fico que o problema da esquerda é político, ou seja, é questão de poder. As alternativas razoáveis de política económica andam por aí.
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