Quarta-feira, 23 de Março de 2011
por Andrea Peniche
Por Robert Fisk, The Independent
 

Então, vamos tomar «todas as medidas necessárias» para proteger os civis da Líbia, não é? Que pena não termos pensado nisso nos últimos 42 anos. Ou 41 anos. Ou… bem, vocês sabem o resto. E não dos deixemos enganar com o que significa realmente a resolução da ONU. Mais uma vez, será uma mudança de regime. E, tal como no Iraque – para usar uma das únicas frases memoráveis de Tom Friedman nessa altura – quando o último ditador se for, quem sabe que tipo de morcegos sairá do caixão? Uma coisa que podemos fazer é localizar os futuros Khadafis e Saddams que estamos a criar neste momento - os futuros sádicos das câmaras de tortura.

 

E depois da Tunísia, depois do Egipto, tem que ser a Líbia, não tem? Os árabes da África do Norte estão a exigir liberdade, democracia, libertação da opressão. Sim, isso é o que têm em comum. Mas o que estas nações têm em comum também é que fomos nós, o Ocidente, que alimentamos as suas ditaduras década após década após década. Os franceses andaram aos abraços com Ben Ali, os americanos fizeram festas a Mubarak e os italianos trataram bem de Khadafi até que o nosso próprio glorioso líder [Tony Blair] o foi ressuscitar de entre os mortos políticos.

 

Seria por isto, interrogo-me, que não ouvimos falar de Lord Blair de Isfahan recentemente? Sem dúvida que deveria estar ali, aplaudindo com júbilo uma outra intervenção humanitária. Talvez só esteja a descansar num intervalo. Ou talvez, como os dragões no «Reino das fadas» de Spenser, esteja a vomitar em silêncio panfletos católicos com todo o entusiasmo de um Khadafi em pleno jorro.

 

Então saquemos a cortina só um pouco e olhemos a escuridão por atrás dela. Sim, Khadafi está completamente balhelhas, descabelado, um chanfrado ao nível de Ahmadinejad do Irão ou de Lieberman de Israel - que uma vez, a propósito, se pôs com baboseiras sobre como Mubarak podia «ir para o inferno», mas tremeu de medo quando Mubarak foi de facto atirado nessa direcção. E existe um elemento racista em tudo isto.

 

O Médio Oriente parece produzir estes pândegos – ao contrário da Europa, que nos últimos cem anos, só produziu Berlusconi, Mussolini, Estaline e aquele tipo baixinho que tinha sido cabo na infantaria da reserva do 16° regimento bávaro e que realmente ficou marado quando foi eleito chanceler em 1933 - mas agora estamos a voltar a limpar o Médio Oriente e podemos esquecer o nosso próprio passado colonial neste recreio. E por que não, quando Khadafi diz ao povo de Bengasi que «iremos 'zenga, zenga' (ruela a ruela), casa a casa, quarto a quarto». Sem dúvida isto é uma intervenção humanitária que é mesmo, mesmo, mesmo uma boa ideia. Ao fim e ao cabo não haverá «tropas no terreno».

 

[Continua aqui]


por Andrea Peniche
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21 comentários:
web/sniper

Todas as conjecturas são subjectivas.
Dentro desse clima de subjectividade a pergunta que me "incomoda" é a seguinte:
- Se acaso G. W. Bush fosse ainda o presidente dos States teria sido possível a resolução 1973 do CS da ONU?

Claro que o "se" é uma conjectura [absurda].
Mas a questão líbia é mais um atoleiro para Obama a acrescentar ao Iraque, Afeganistão, aos prisioneiros de Guantámano,...
O problema terá sido o dito "Ocidente" ter acreditado que Obama seria um novo Messias... E que a política externa americana deixaria de ser influenciada por os eternos interesses estratégicos e militares.
Na verdade, acreditar em políticas messiânicas cansa e desilude. O artigo de Robert Fish, no Independent, não é mais que o retrato dessa profunda desilusão que grassa...pelo Mundo.

deixado a 23/3/11 às 20:14
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Leo

Essa profunda desilusão grassa apenas nalguma intelectualidade do Ocidente. A maior parte do mundo já o despreza.

Obama expandiu a guerra no Afeganistão, prolonga a ocupação do Iraque, triplicou os ataques por drones no Paquistão, envolveu-se numa guerra no Iémen e agora lança uma brutal guerra aérea na Líbia.

Obama é um narcísico sem princípios, que aceitou um Nobel da Paz e que renegou todas as promessas eleitorais a começar pela de encerrar o Campo de Concentração de Guantanamo. Não só não o fez como por lá continuam centenas de cidadãos sem culpa formada desde há 10 anos, alguns deles tinham apenas 12 anos quando os raptaram e lá os prenderam.


deixado a 24/3/11 às 07:28
link | responder a comentário | início da discussão

raja
é extremamente triste e vergonhoso o que esta passando na libia,os ocidentais não tem mínimo de vergonha para saquear os bens dos pobres alegando a desefa dos civis para se a poderarem do petroleo? que maldade ate quanto? os africanos estão independentes com autonomia suficiente para resolver seus problemas, será que foram os Europeus e Americanos que acabaram com o regime de Apartheid na Africa do Sul? a resposta é não foram os proprios africanos nos deixem livres por favor! o Fidel de Castro governou quantas decadas? e quem assumiou o poder depois dele? oque foi feito contra Cuba?

deixado a 13/7/11 às 14:10
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Por muito que não se goste de Berlusconi, misturá-lo com os outros tiranos é um insulto ao bom senso.

deixado a 23/8/11 às 19:53
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