Sexta-feira, 25 de Março de 2011
por Daniel Oliveira

 

Os mercados reagiram mal ao anúncio de eleições. Os mercados não gostam muito de eleições. Mas estou convencido que, perante as garantias que Passos Coelho vai dando de que fará o mesmo que Sócrates, os mercados tenderão a acalmar. Os mercados suportam a alternância mas ficam apreensivos perante alternativas. Ainda assim, os eleitores devem ser cuidadosos. Irem votar pode ter a sua utilidade, mas é fundamental não aborrecer os mercados. É bom haver uma clarificação política. Mas clarificação em excesso pode cegar os mercados.

 

Aqui fica um breve guia que o eleitor deve seguir no dia em que for votar:

 

1 - Um eleitor consciente deve votar em quem aceite que o papel social do Estado é um problema para os cidadãos, apesar de aparentemente os cidadãos serem beneficiados pela sua existência. E deve evitar votar em quem queira um Estado interventivo na economia. Se lhe dizem que a desregulação económica é insustentável, o eleitor tem obrigação de ser moderado e aprender a viver com esta dificuldade. Se lhe dizem que o Estado Social é insustentável, o eleitor tem obrigação de ser radical e cortar o mal pela raíz.

 

2 - Um eleitor consciente deve votar em quem queira flexibilizar as leis laborais, apesar da maior parte dos eleitores ser favorecida pelas garantias que essas leis hoje lhe dão. Um eleitor responsável sabe que se é legítimo que as empresas defendam os seus interesses, é irresponsável que o trabalhador faça o mesmo.

 

3 - Um eleitor consciente não deve votar em quem queira taxar transações financeiras, obrigar a banca a pagar os mesmos impostos que as restantes empresas ou acabar com offshores. Os mercados, como a generalidade dos cidadãos, não gostam de pagar impostos. O eleitor deve atender, antes de mais, às necessidades dos mercados. E apenas depois disso às suas. Para quê taxar a banca quando se tem o IVA para aumentar? Sejamos razoáveis.

 

4 - Um eleitor consciente não deve, em caso algum, votar em quem defenda nacionalizações. A iniciativa privada é sagrada. Deve aceitar uma excepção a esta regra: se um banco estiver à beira da falência, um Estado responsável deve socializar o prejuízo. A banca é fundamental para a iniciativa privada. E a iniciativa privada é sagrada.

 

5 - Um eleitor consciente deve votar em quem defenda as privatizações. Um Estado grande esmaga a liberdade dos cidadãos. Não deve votar em quem defenda a regulação dos mercados. Mesmo que essa regulação seja a única forma de garantir a liberdade dos cidadãos. No fim de tudo, não devemos esquecer, o que é bom para os mercados é bom para os cidadãos.

 

6 - Um eleitor consciente não deve votar em quem defenda qualquer tipo de protecionismo económico. Vivemos num Mundo globalizado e isso tem sido bom para a humanidade. Pode, no entanto, votar em quem queira impedir a entrada imigrantes. Não devemos ser líricos e pensar que é possível viver com as fronteiras escancaradas.

 

7 - O voto ideal de um cidadão consciente é em quem esteja disponíveis para participar em governos alargados ou de salvação nacional. Os mercados gostam de estabilidade. E não há nada mais estável do que ter a certeza de que é indiferente quem vence as eleições. Os mercados florescem nas democracias. Mas gostam mais daquelas em que não se corre o risco do povo escolher entre diferentes opções.

 

Se seguir estas regras simples o nosso País ainda se pode salvar. Os mercados não ficam tensos. E a calma dos mercados é a melhor garantia para o nosso futuro. Eles agradecem com juros um pouco mais altos. Mas não tão altos como podiam ser. Está revoltado? As coisas são mesmo assim. E não faltava mais nada que o voto servisse para mudar a forma como as coisas são.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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12 comentários:
Ana
Na verdade vivemos sempre em ditadura, lutamos por democracias, pela liberdade de expressão, uma imprensa livre e caímos numa ditadura dos mercados.
Estas eleições não trazem nada de novo mas só de ver os boys e girls assustados com a hipótese de perder os lugares tem a sua piada, sim porque esperança que seja o PSD a resolver a questão não há ilusões vamos ter mais do mesmo.
Infelizmente nesta matéria a esquerda tem as suas responsabilidades porque do lado do BE e PC temos também mais do mesmo - protesto e só protesto sem uma plataforma de entendimento e sem alianças a uma esquerda mais moderada e capaz de implementar uma nova economia. Não há na politica inocentes desde o PC ao CDS e quando chegar novos impostos e cortes não venha o BE reclamar porque até agora o seu papel deixa muito a desejar em matéria de resolução dos problemas do pais.

deixado a 25/3/11 às 12:33
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