José Manuel Fernandes leu no seu antigo jornal uma reportagem baseada na tese de doutoramento de Raquel Varela sobre a acção do PCP em 1974-75 e não apreciou o teor da peça. O ex-director do Público lançou-se então numa tosca busca googliana e - vileza suprema! perversão imunda! - descobriu que a historiadora também tem currículo político. Esta estranha ideia de que historiadores não podem ter activismos sociais ou políticos já foi muito bem escalpelizada pelo Zé Neves. É de facto curioso perceber como os nossos autoproclamados liberais, no momento em que deveriam sê-lo - o que neste caso passaria por se sentar numa poltrona, com um copo de uisque ao lado e a gravata ligeiramente desapertada, a ler atenta e criticamente o livro da Raquel Varela - optam por anatemizar o outro à boa maneira estalinista. Onde antes estavam a classe social e os inimigos do povo, hoje está a militância (desde que seja à esquerda). Há coisas fantásticas, não há?
Seria muito interessante fazer a história não do 25 de Abri, mas do 25 de Novembro de que ninguém nada sabe. Quem é que deu ordem para que os páras que saíssem de Tancos? há quem diga que foi o capitão Costa Martins (agente activo do KGB). Esta questão é ainda um mistério que convinha esclarecer.
Ora, na verdade, Cunhal de patriota não tinha nada, era apenas um agente do KGB na Península Ibérica. No pós-25 de Abril, Cunhal tinha como objectivo prioritário levar as colónias à independência e que ficassem na esfera de influência da URSS. Para os Soviéticos, ou seja, para Cunhal, como obediente à URSS, apenas lhe interessava que Angola ( rica em todo tipo de matérias-primas) que esta passasse para a União Soviética, o que aliás veio a se verificar, nunca, mas nunca esteve nos interesses da URSS e de Cunhal tomar o poder em Portugal. O que a URSS e Cunhal estavam interessados era radicalizar a situação em Portugal para “assustar” os EUA, o que aliás veio a acontecer. EUA negociou Angola pelo regime democrático em Portugal. È aqui que entra Costa Martins e o 25 de Novembro. Não é por acaso que a independência de Angola se dá a 11 de Novembro e o golpe de direita extrema-direita em Portugal se dá no dia 25 do mesmo mês. Porque é que os comandos quando tomaram o meu quartel, defendido pelo capitão Sobral Costa, mandaram perfilar os soldados sargentos e praças e não prenderam nenhum activista comunista? Outros que nada tinham a ver com assuntos políticos-militares foram presos. Porquê? Porque estava no acordo entre a USA e a URSS. Passa pela cabeça de alguém que se os americanos não quisessem os cubanos alguma vez desembarcariam em Angola, tal como aconteceu? Ainda por cima, as tropas cubanas mal preparadas e mal armadas? O desembarque dos cubanos estava também nas negociações entre a URSS e a USA. Neste caso, como em tantos outros, a extrema-esquerda (UDP, etc.) fizeram apenas o papel de idiotas úteis. Quando Jaime Neves pediu a prisão dos comunistas, estava a pedir o impossível, porque fazia parte do acordo entre a URSS e USA.
Em suma, Cunhal não queria que o PCP tomasse o poder em Portugal, apenas desejava radicalizar o país para que servisse moeda de troca para que a URSS ficasse com um país incomensuravelmente mais rico, Angola, capaz de salvar a crise do regime comunista que então já era muito grave. Foi pelo internacionalismo proletário que Cunhal traiu a Revolução e traiu Portugal e os Angolanos.
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