José Sócrates e Pedro Passos Coelho não partilham só o facto de terem assinado o memorando da troika e se disponibilizarem a aplicá-lo com zelo. Une-os também um percurso de vida semelhante: passos políticos iniciais numa juventude partidária (ambos na JSD, curiosamente), um lugar precoce como deputado, ligações directas ou indirectas ao mundo dos negócios. Estão igualmente irmanados por um sinuoso percurso académico tardiamente concluído em universidades privadas - Sócrates na extinta e polémica Independente; Passos Coelho na Lusíada, conhecida por acolher muitos políticos do PSD. Isto, dirão alguns, é espuma intriguista. Para estes importa sobretudo o acinte comicieiro de logo à noite, a frase no telejornal, a dramatização dos acólitos. O espectáculo pós-democrático.
A verdade é que nunca as escolhas foram tão claras e a política tão urgente. E - precisamente por isso? - nunca o confronto entre os dois partidos do grande centro soou tão plástico. Com Portas pelo meio, imaginando-se já num lugar de vice-rei independentemente do partido vencedor, fala-se muito para ter de dizer nada. Discute-se acaloradamente alterações ao memorandum para não debater o seu conteúdo; fala-se de "honrar os compromissos" para não abordar o tema da renegociação da dívida; agita-se a bandeira do "grande esforço nacional" para não dizer que esta crise, criada pela especulação financeira, vai ser paga pelos cidadãos, pelo desmantelamento do estado social e por um pacote de privatizações irracionais. Este domingo vota-se e uma coisa é certa: as coisas só mudam se escolhermos efectivamente mudar.
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