Em tempos, no meu outro blogue, respondi a uma daquelas correntes que andam de vez em quando pela blogosfera. Na altura, pediram-me cinco filmes da minha vida. Para tornar o desafio mais aliciante, escolhi cinco cujo título em inglês começasse pelas letras do meu apelido. Como estamos no Verão, tempo de reprises, retomo o texto, começando pelo L:
Lost Highway, de David Lynch - não é o meu preferido dele, mas Lavos não contém um M. Se tivesse de dizer apenas uma razão para estar nesta lista, é o facto de, passados 10 anos, muitos visionamentos e alguns textos teóricos depois, ainda não ter entendido o filme no seut todo. Há pistas, claro, e quase que percebo por que razão o Mistery Man aparece em dois lugares ao mesmo tempo. Não é isso o mais importante, de resto. A ideia dos duplos estabelecendo pontos de contacto entre tempos e camadas de consciência é apenas um pretexto. Acima de tudo, o tema é a elegante esquizofrenia do desejo masculino. Soberbo.
Apocalypse Now, de Francis Ford Copolla: o melhor do bando à parte do cinema americano dos anos 70 (com milhas de avanço em relação a Scorcese) realizou aquele será, durante os séculos vindouros, o melhor filme de guerra de sempre. E o problema para a concorrência é que o filme nem sequer é de guerra - é uma majestática ópera sobre a natureza humana (as Valquírias não estão lá por acaso).
Vertigo, de Alfred Hitchcock: cada mulher é sublimação, arquétipo, na cabeça de um homem. Todas as mulheres são uma só. E cada mulher repete-se em cada nova mulher que se ama. Misoginia? Uma condenação, uma miserável deficiência ditada pelo gene Y que partilhamos. E Madeleine/Kim Novak (a Scarlett Johansson de Hitchcock) sabe tudo, desde o início. Trágico destino da inferior raça masculina, o engano.
On The Waterfront, de Elia Kazan: podia ter aqui a primeira parte do Padrinho, só para falar da cena da morte de Don Vito Corleone e da improvisação do outro mundo de Marlon Brando. Mas como tem de ser um filme começado por "O" (e poderia ser também "On Connait la Chanson" ou "One Flew Over the Cuckoo's Nest"), falo do gingar e do rodopiar do estivador Brando em volta da loura pálida Eva Marie-Saint, na rua, a caminho da imortalidade. Assentemos nisto: James Dean era um menino chorão que deitou fora cedo de mais o pouco talento que tinha. Marlon Brando era grande. Enorme. Maior do que alguma vez o seu ego aguentou - e sempre sem fazer caso disso, em esforço. O Maradona da representação.
*Por sugestão de um comentador, a corrente pode ter continuação na caixa de comentários. Deixem as vossas escolhas aqui em baixo.
Once Upon a Time in America
La passion de Jeanne d'Arc
Yol
One from the Heart
El método
Não vale a pena dizer que faltam aqui pelos menos mais cinquenta e que quatro estão na sua lista.
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