Sábado, 16 de Julho de 2011
por Sérgio Lavos

Em tempos, no meu outro blogue, respondi a uma daquelas correntes que andam de vez em quando pela blogosfera. Na altura, pediram-me cinco filmes da minha vida. Para tornar o desafio mais aliciante, escolhi cinco cujo título em inglês começasse pelas letras do meu apelido. Como estamos no Verão, tempo de reprises, retomo o texto, começando pelo L:

 

Lost Highway, de David Lynch - não é o meu preferido dele, mas Lavos não contém um M. Se tivesse de dizer apenas uma razão para estar nesta lista, é o facto de, passados 10 anos, muitos visionamentos e alguns textos teóricos depois, ainda não ter entendido o filme no seut todo. Há pistas, claro, e quase que percebo por que razão o Mistery Man aparece em dois lugares ao mesmo tempo. Não é isso o mais importante, de resto. A ideia dos duplos estabelecendo pontos de contacto entre tempos e camadas de consciência é apenas um pretexto. Acima de tudo, o tema é a elegante esquizofrenia do desejo masculino. Soberbo.
Apocalypse Now, de Francis Ford Copolla: o melhor do bando à parte do cinema americano dos anos 70 (com milhas de avanço em relação a Scorcese) realizou aquele será, durante os séculos vindouros, o melhor filme de guerra de sempre. E o problema para a concorrência é que o filme nem sequer é de guerra - é uma majestática ópera sobre a natureza humana (as Valquírias não estão lá por acaso).
Vertigo, de Alfred Hitchcock: cada mulher é sublimação, arquétipo, na cabeça de um homem. Todas as mulheres são uma só. E cada mulher repete-se em cada nova mulher que se ama. Misoginia? Uma condenação, uma miserável deficiência ditada pelo gene Y que partilhamos. E Madeleine/Kim Novak (a Scarlett Johansson de Hitchcock) sabe tudo, desde o início. Trágico destino da inferior raça masculina, o engano.
On The Waterfront, de Elia Kazan: podia ter aqui a primeira parte do Padrinho, só para falar da cena da morte de Don Vito Corleone e da improvisação do outro mundo de Marlon Brando. Mas como tem de ser um filme começado por "O" (e poderia ser também "On Connait la Chanson" ou "One Flew Over the Cuckoo's Nest"), falo do gingar e do rodopiar do estivador Brando em volta da loura pálida Eva Marie-Saint, na rua, a caminho da imortalidade. Assentemos nisto: James Dean era um menino chorão que deitou fora cedo de mais o pouco talento que tinha. Marlon Brando era grande. Enorme. Maior do que alguma vez o seu ego aguentou - e sempre sem fazer caso disso, em esforço. O Maradona da representação.

Some Like it Hot, de Billy Wilder: já vi vezes suficentes este filme para conhecer todas as cenas de cor e ter deixado de lhes achar piada. Mas isso não aconteceu ainda. A melhor comédia de sempre (para alguns - eu diria que está a par de Monty Python e o Cálice Sagrado) continua tão eficaz como da primeira vez. E claro, Marilyn Monroe mostra que consegue mais do que ser, simplesmente, a da espécie. Sabe representar. Gozar com a imagem que o mundo tem de si. A mão de Wilder seria certeira mais vezes; mas nunca com o estado de graça deste filme. Há alguns que conseguem ser perfeitos.

 

*Por sugestão de um comentador, a corrente pode ter continuação na caixa de comentários. Deixem as vossas escolhas aqui em baixo.

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por Sérgio Lavos
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24 comentários:
Pedro Martins II
O Lynch é um génio, o Lost Highway é muito menosprezado e esquecido mas também é dos meus filmes preferidos.

deixado a 16/7/11 às 04:56
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PPS
Boas escolhas.

Suponho que o post também tenha o sentido da troca de escolhas, portanto cá vão as minhas. Note-se que tentei ter o único critério possível numa ciclópica escolha como estas: escolher os cinco melhores filmes dos meus cinco realizadores preferidos. Assim sendo os meus cinco filmes seriam "Amacord", de Frederico Fellini, "Tempos Modernos" de Charles Chaplin, "Lágrimas e Suspiros" de Igmar Bergman, "Fahrenheit 451" de Francois Truffaut e "Intriga internacional", de Alfred Hitchcock.

deixado a 16/7/11 às 08:12
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Pão Metálico
Muito bom.

deixado a 16/7/11 às 09:47
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Once Upon a Time in America

La passion de Jeanne d'Arc

Yol

One from the Heart

El método

 

Não vale a pena dizer que faltam aqui pelos menos mais cinquenta e que quatro estão na sua lista.


deixado a 16/7/11 às 12:13
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ramila
nenhuma lista é válida se não tiver pelo menos um filme com a Genna Rowlands.

deixado a 16/7/11 às 14:38
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Gentleman
Um artigo que se poderia resumir como: a Esquerda Radical rendida a Hollywood... 

deixado a 16/7/11 às 15:52
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Pois, como se não houvesse gente de esquerda em Hollywood.

deixado a 16/7/11 às 18:21
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xxx
O Apocalise Now é geracionalmente incontornavel, mas ainda assim em A, All about Eve.

deixado a 16/7/11 às 18:16
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Carlos Marques
Uma ego-trip com bom gosto.

deixado a 16/7/11 às 18:57
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João Cerqueira
Apenas não aprecio a última escolha.
Os restantes são realmente filmes de grande qualidade. E também concordo que Estrada Perdida é de facto uma obra de arte genial, desconcertante, impossível de entender.
Apocalipse Now é outro dos meus filmes preferidos - e muito melhor do que o livro de Conrad que o inspirou.
Quanto à última escolha, trocava por Laranja Mecânica, os dois primeiros Padrinhos, Blade Runner, A sombra do guerreiro.

deixado a 16/7/11 às 18:58
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Ana
Excelentes escolhas, retirava a última e colocava em seu lugar dois filmes, porque não sabia em qual optar: Macth Point- W.Allen e Eduardo Mãos de Tesoura- Tim Burton.

deixado a 16/7/11 às 21:00
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