Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
por Daniel Oliveira

 

 

Assustado com a queda da Grécia para o abismo e com a iminência da entrada da Itália e da Espanha no grupo dos leprosos, o Conselho da Comissão Europeia alterou os termos da "ajuda" financeira a Portugal e à Irlanda, baixando as taxas de juro e estendendo os prazos de maturidade dos empréstimos. Também ontem a troika anunciou que a sexta tranche do plano de "assistência" que está a matar a Grécia será libertada.

 

Parecem ser boas notícias. Para nós, mesmo vindo tarde, são. Só que continuamos a travar uma epidemia do século XXI com mezinhas do século XIX. A Europa chega sempre tarde demais e sem os medicamentos necessários para atacar a doença.

 

O problema da Europa é muito mais profundo do que a crise de cada País. Perante as dimensões desta crise, o Fundo Europeu de Estabilização Financeira, mesmo com um novo funcionamento e mais recursos, serve de muito pouco. Não podemos continuar à espera, sempre que há alguma coisa a fazer, que os políticos alemães e o seu tribunal constitucional se entendam. A Europa não pode continuar refém dos ciclos políticos da Alemanha. É que a incapacidade dos alemães perceberem o que está em causa não está a pôr em perigo apenas a Europa. Está a atirar o Mundo para um cataclismo económico.

 

Basta pensar no que foi o princípio dos problemas na Grécia, ver o tempo que se demorou a reagir, e como teria sido tudo bem mais fácil e barato se a intervenção fosse decidida e imediata, para perceber como a Europa tem um Ferrari (o euro) com um motor de uma Famel (as instituições europeias).

 

A Europa precisa de um governo económico. Mas um governo económico não se resume, como parece estar agora em voga, a instituir sanções mais pesadas para quem não cumpra os limites do défice (que, como se sabe, nunca foram aplicadas aos países do diretório). Um governo económico só existe com um orçamento europeu digno desse nome, com a emissão de títulos da dívida europeus, com a mudança do estatuto do Banco Central Europeu e compolíticas fiscais e financeiras comuns. E tudo isto exige a união política que a Europa tem recusado. O problema da lógica dos "pequenos passos" é que, com a união monetária, a Europa caminha sempre demasiado devagar para a rapidez que o euro exige. E este desfasamento entre a união monetária e a união política está a criar perversões insustentáveis. Não é possível dar pequenos passos com uma perna e enormes saltos com a outra. Tão simples como isto.

 

Para que isto seja possível é necessário que a Alemanha perceba que não se pode ter Sol na eira e chuva no nabal.Não se pode ter uma moeda continental desenhada ao gosto dos seus interesses nacionais. Não se pode ter as vantagens de uma moeda competitiva e ficar a salvo do contexto económico da Europa e dos atrasos estruturais das periferias. Não se pode ter o mercado dos pequenos e não ter as consequências da destruição da sua capacidade produtiva. Ou a Alemanha e a França aceitam que estão integradas na Europa, com Estados que não têm a sua pujança económica; que as taxas de juro decididas pelo BCE devem ter em conta a conjuntura europeia, e não apenas a dos seus países; e que não é possível continuar a crescer à custa da contração do consumo e das importações de produtos dos restantes países europeus; ou então mantêm as suas soberanias intocadas, sem as vantagens de estarem integradas num espaço de centenas de milhões de consumidores, e regressam ao marco e ao franco.

 

Não se trata aqui de descobrir vilões e inimigos externos. Trata-se de aceitar o óbvio: a crise do euro muda tudo para a Europa. Feito o balanço, o euro foi, em geral, negativo para as economias periféricas, com menos argumentos competitivos e por isso mais penalizadas por uma moeda demasiado forte para a sua realidade económica. E foi excelente para as economias mais fortes. Ou as coisas se invertem um pouco e os países do diretório aceitam que também têm de se sacrificar para salvar esta moeda, ou mais vale desistir desta aventura. Porque à medida que a crise alastra a toda a periferia engrossa o exército de europeus com vontade de desistir da União. E aí, sabem os alemães informados, a economia germânica tem os dias contados. Ela foi a que mais lucrou com o euro e com a União. Ela será a que mais perderá com o seu fim. Ou a Europa se refunda ou definha. E com ela uma boa parte do Mundo.

 

Claro que se se continuar a impor a ideia de que a crise resulta do despesismo de uns quantos países e não é uma crise estrutural de uma moeda mal concebida nada de relevante se fará. Os eurocratas e os troikocratas continuarão a dedicar-se com todo o zelo à supervisão do comportamento orçamental dos malandros do sul enquanto a Europa se afunda. Põe-lhe um termómetro na boca e dão-lhe aspirinas a ver se o cancro já melhorou. Acrescentam austeridade à austeridade, porque é assim mesmo que aprenderam nos manuais. Acabarão por rever a matéria com o cadáver europeu nos braços.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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Ana
O Daniel expõe a nu a burocracia, a falta de liderança e até uma certa incompetência das entidades europeias, com Angela a ser rotulada a toda a hora de Burra. Mas uma questão, se é a Alemanha que mais perde com o Euro (se o DO sabe isso, eles também sabem) porque não tomam a medidas certas? Se o filme é como está aqui descrito porque as medidas certas, não avançam? A justificação de puxão de orelhas não pega quando está em causa a Economia alemã. Penso que a historia não está toda aqui descrita há outras razões e questões que não foram abordadas.


 

deixado a 12/10/11 às 12:36
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cafc

Cara amiga Ana


Um pouco mais abaixo, enviei esta frase ao amigo A.R.A:


«Vivemos numa época em que os “Donos” escolheram uma “pastora alemã” para manter o “rebanho europeu no redil”.»


Como sabes, eu pertenço ao grupo dos “teóricos da conspiração”, que “inventaram” as “estórias” das Sociedades Secretas, com o objectivo de obrigarem as criancinhas a comerem a sopa toda. O “Clube Bilderberg” não existe, Balsemão é outra “invenção”, Clara Ferreira Alves nunca saiu de Portugal e o Daniel Oliveira… ainda não “digeriu” a Madeira.


Amiga, o plano para a destruição das Economias Mundiais entrou na fase de “marcha acelerada”. Angela Merkel tem, única e simplesmente, o “papel” que lhe atribuí. A “Nova Ordem Mundial” está pronta para instalar o “Neo-Esclavagismo do Século XXI”. Se o que eu “disse” não “tiver ponta por onde se lhe pegue”, agradecia que alguém fornecesse uma resposta mais “realista” às questões que colocaste. Mas, não esperem até verem os “troncos” e sentirem as “chibatadas”…


Beijocas das pirralhas.


Aquele grande abraço.


Carlos


deixado a 13/10/11 às 17:48
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