Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011
por Daniel Oliveira

 

Felizmente, longe vão os tempos em que ao se entrar na Universidade já se era "doutor". E que ser "doutor" era uma espécie de título nobiliárquico da República, perante a qual a plebe respeitosamente se vergava com um "senhor doutor" em cada frase. A Universidade, democratizada e aberta a muitíssimo mais gente, perdeu a capacidade de oferecer aos seus estudantes prestígio social. E foi aí que, fora da cidade de Coimbra, começou a inventar-se uma tradição. A tradição académica. Mas até aqui tudo bem. Amigo não empata amigo. Cada um veste os trajes que entender e ninguém tem nada a ver com isso.

 

Compreendo esta necessidade de ritualizar aquele momento da vida. Para muita gente a entrada na Universidade não é uma mera continuação dos estudos. É motivo de orgulho familiar. Resultado de enormes sacrifícios de pais e filhos.No momento em que entram na Academia muitos daqueles caloiros acreditam que conseguiram dar o primeiro passo na sonhada ascensão social. Serei o último a julgar.

 

Bem diferente é a praxe. Também ela pretende dar àquele momento uma importância que não tem. É um ritual de passagem sem qualquer tradição na maioria das faculdades - também elas recentes. Bruno Moraes Cabral acompanhou este momento. Em Lisboa, Santarém, Coimbra, Setúbal e Beja. E fez um documentário que estreia, no DocLisboa, na próxima sexta-feira (Culturgest, Pequeno Auditório, 21h). Chama-se "Praxis", a origem grega da palavra "praxe". Tudo o que filmou foi com autorização dos envolvidos. Ali não está, portanto, aquilo que os próprios podem ver como um abuso ou um excesso. É a versão soft da praxe.

 

O que vemos é uma sucessão de humilhações consentidas - ou toleradas por quem, estando fora do seu meio, não tem coragem de dizer que não. A boçalidade atinge níveis abjectos. Os gritos alarves , a exibição de simulações forçadas de atos sexuais, o exercício engraçadinho do poder arbitrário de quem, por uns dias, não conhece qualquer limite. Tudo isso impressiona quem tenha algum amor próprio e respeito pela sua autonomia, liberdade e dignidade. Mas a questão é mais profunda do que a susceptibilidade de cada um. É o que aquilo quer dizer.

 

Como o documentário não é um mero ato de voyeurismo, mostra-nos o outro lado. Como a esmagadora maioria dos caloiros se sente bem naquela pele. Porquê? Porque, como já disse, aquilo marca o início de um momento que julgam que mudará a sua vida. Mas, acima de tudo, porque os "integra". E não se trata de uma mentira. De facto, naqueles rituais violentos e humilhantes, conhecem pessoas e sentem-se integrados num grupo. Eles são, naquele momento, rebaixados da mesma forma. Não há discriminações. São todos "paneleiros", "putas", "vermes". Na sua passividade e obediência, não se distinguem. Até, quando deixarem de ser caloiros, terem direito à mesma "dignidade" de que gozam os que bondosamente os maltrataram. Aceitam. Porque, como escrevia Jean-Paul Sartre, "é sempre fácil obedecer quando se sonha comandar".

 

Sim, a praxe integra. A questão é saber em que é que ela integra. Porque a integração não é obrigatoriamente positiva. Se ela nivela todos por baixo deve ser evitada a todo o custo. Perante o que é degradante os espíritos críticos distinguem-se e resistem. Não se querem integrar.

 

Ingénuos, supomos que a Universidade deveria promover o oposto: a exigência, o sentido critico, a capacidade de recusar a tradição pela tradição, a distinção. A Academia que aceita o espírito bovino da obediência está morta.Porque será incapaz de inovar, de pôr em causa e de questionar o resto da sociedade. A universidade que, através de rituais (que têm um significado), promove o seguidismo e a apatia, não é apenas inútil para a comunidade. É um problema para o conhecimento e para a cidadania.

 

Mais do que as cenas dignas de muito do telelixo que nos entra em casa, o que impressiona é a relação que a comunidade mantém com aquilo. São raros os que põem em causa tão estúpida tradição sem tradição nenhuma. E é normal. Vemos no documentário como as estruturas universitárias - corpo diretivo e docente - não só toleram como promovem a boçalidade. As autarquias emprestam meios. As empresas de bebidas patrocinam. E até membros do clero vão lá benzer a coisa, perante jovens de caras pintadas ou com penicos na cabeça. Não se trata apenas de um momento de imbecilidade de alguns jovens e adolescentes. Porque é aceite por todos, porque é mesmo assim que as coisas são, foi institucionalizada e parece ser vista por todos como um momento que dá dignidade à Universidade.

 

Assim, com pequenos gestos simbólicos, se forja a alma de cidadãos sem fibra. Incapazes de dizerem que não. Incapazes de se distinguirem dos demais. A praxe é a iniciação de uma longa carreira de cobardia. Na escola, perante as verdades indiscutíveis dos "mestres". Na rua, perante o poder político. Na empresa, perante o patrão. A praxe não é apenas a praxe. É o processo de iniciação na indignidade quotidiana. O pior escravo é aquele que não se quer libertar. E que encontra na escravidão o conforto de ser como os outros. Os caloiros que aceitam a praxe não são ainda escravos. Apenas treinam para o ser.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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111 comentários:
jb
Texto exemplar que deveria ser divulgado em muitas universidades!

deixado a 19/10/11 às 11:06
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Muito bom. Concordo em absoluto. Odiei a praxe e nunca hei-de por razão as pessoas gostam. Porque a maioria gosta, sem dúvida. Alguns até vão para casa com as orelhas de burro. Sou de Vila do Conde e ainda há uns dias vi uns no Metro a chegar assim vindos do Porto.

deixado a 19/10/11 às 11:15
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A mim praxaram-me durante meia-hora. Depois acabou. Nunca praxei ninguém e nunca permiti que alguém fosse praxado contra vontade. Um nojo, esta "tradição".

deixado a 19/10/11 às 11:52
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Na escola, perante as verdades indiscutíveis dos "mestres". Na rua, perante o poder político. Na empresa, perante o patrão. Nos partidos políticos perante os directórios (editado).

Parabéns.

Um texto que é um grito de revolta e que vai esbarrar no muro da boçalidade e dos direitos adquiridos.

Fizeram-me ontem farei amanhã, se possível pior.

É a evolução da humanidade.


deixado a 19/10/11 às 11:26
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paula leão
que tristeza me invadiu ao ler o seu texto...
 















deixado a 19/10/11 às 11:36
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Carlos Marques
O Sr. Oliveira sabe o que se faz aos novatos que passam a linha do Equador de navio? Chama-se rito de passagem. Entrar no Ensino Superior é uma conquista - ainda que a peneira tenha ficado muito lassa nos últimos anos, especialmente com as infames Nova Oportunidades.

A praxe académica, desde que não magoe fisica ou psicologicamente, é uma tradição já com muitos anos - aposto que já existia quando o Sr. Oliveira frequentou uns anos de Ensino Superior.

Gostava de saber quantos dos que agora se indignam com as praxes se indignam com a violência dos gangues, a violência dos djambés (que também é um tradição recente em Portugal) ou se indignaram com aqueles moços e moças que foram alegremente dar cabo do milharal de um agricultor.
 

deixado a 19/10/11 às 12:13
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jb

É óbvio quem que se indigna contra as praxes é a favor da violência dos gangues. Eu pessoalmente tenho um grande apreço e admiração pelos gangues da linha de Sintra, e de malta que destrói campos agrícolas  Já quanto aos djambés tenho algum receio pois são extremamente perigosos. 


O que está mal é o espírito que se incute nos caloiros quando entram na universidade. " Se não participares não vais ter amigos, não vais ter apontamentos, não vais poder vestir traje (que tragédia!)". O espirito de ou entras no sistema ou estás frito...

Custa ver as pessoas correrem como carneiros sem qualquer espírito critico a fazerem cânticos do mais estupidificante possível, acharem muita graça a frases "só penso em bebedeiras não quero saber de fazer cadeiras" 


Não me parecendo que magoe física ou psicologicamente (eles gostam mesmo) acho piada que os conservadores defendam a simulação de práticas sexuais em pleno campus, e da presença de pessoas com ovos esmagados na cabeça  e com cuecas do lado de fora (ah que barrigada de riso). 


Carlos Marques
Ah, sim?! E então as paradas gay não são muitas vezes ridículas e atentatórias da dignidade de alguns que nelas participam?

Nunca ouvi o Sr. Oliveira a manifestar-se contra o mau gosto do costume nas paradas gay.

E o Carnaval?
O Carnaval é uma idiotice também? Devia proibir-se o Carnaval, então. O povo, para esta gente, é em geral muito mal educado, rude, grosseirão... Carvanal só se for como em Veneza ou no sambódromo. Torres é uma pirosice, coisa de pobre.

Que tal uma ASAE da moral e dos bons costumes?

O snobismo e a mania de que são os donos do bom gosto une os betos da esquerda e os betos da direita.

Live and let live, my dear.


jb

Tem toda a razão. Realmente é incrível  a quantidade de pessoas que todos os anos são coagidas a participarem em paradas gay e no Carnaval da Mealhada...

"Betice" é comprar uma fatiota de 300 euros, por os óculos escuros e sentir-se o maior. 


Registo com agrado o  "Live and let live, my dear". 







Carlos Marques
90% dos praxados já sabem que vão ser praxados e não se sentem coagidos, mas integrados. Os outros 10% são os suspeitos do costume e um ou outro menino ou menina da mamã.


Anónimo
E você fala em nome desses 90%? Pois...

deixado a 20/10/11 às 00:04
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Von
Carlos, você devia ser praxado. Diariamente!!!


Carlos Marques
Comigo não terá sorte, amigo. Tente com outro.

deixado a 19/10/11 às 23:34
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anonimo
A um amigo meu ,na passagem do equador estavam-lhe a ir ao cu,contra a sua vontade...


Carlos Marques
Ah, sim? E ele contou-lhe isso? São amigos íntimos ou esse "um amigo meu" era o senhor anónimo?

deixado a 20/10/11 às 09:31
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Infante D. Henrique
O teu amigo era o Carlos Marques?


Carlos Marques
Qual Carlos Marques? O amigo íntimo da tua mãe?

deixado a 20/10/11 às 14:31
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Hernani
Espero que a praxe nao se torne trangenica. Eu 'curto' do car-jacking, mas os djambes dao-me cabo dos ouvidos...

deixado a 19/10/11 às 19:41
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João Cerqueira
Post muito oportuno!

Tal como existe, a praxe não passa de um ritual de humilhação, onde o mais forte impõe a sua lei ao mais fraco - infelizmente com a colaboração deste.
É uma vergonha que se repete todos os anos por esta altura, não havendo terriola que escape.
Mas, para mim, o mais perturbador disto tudo é ver que os jovens supostamente mais bem preparados e cultos não concebem outra forma de receber os seus novos colegas que não seja a da humilhação - e, também, que entre estes haja tanta gente disposta a se deixar humilhar.

O Movimento Ant-Tradição Académica teve a amabilidade de publicar isto, um excerto onde satirizo tais comportamentos -

http://blogdomata.blogspot.com/2009/10/o-que-eu-penso-das-praxes-por-joao.html

deixado a 19/10/11 às 12:25
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cafc

Meu caro João Cerqueira


Penso que não seria necessário exprimir a minha concordância com o seu comentário. Porém, o “link” que nos indicou “obrigou-me” a uma “viagem” pela NET. E que surpresas…


Estou convicto que o seu doutoramento foi um sucesso. Há, mais ou menos 30 anos, comprei “Variações Camonianas” e para “aguçar o apetite” de quem estiver interessado (embora as condições não sejam boas), coloco este link”:


http://www.pervegaleria.eu/home/index.php/component/phocagallery/21-CT/detail/238-gg000215.html?tmpl=component (http://www.pervegaleria.eu/home/index.php/component/phocagallery/21-CT/detail/238-gg000215.html?tmpl=component)


Aquele grande abraço.


Carlos


NOTA: Curiosidade, a minha ascendência, pelo lado materno, é de Valença do Minho.



João Cerqueira
Caro Carlos

Agradeço as suas amáveis palavras - como sempre sucede.
Estou a tentar convencer alguma editora a publicar uma livro de arte contemporânea a partir do tema da tese - Por mares antes navegados: José de Guimarães na rota dos Descobrimentos e do Encontro de culturas.
Mas não está nada fácil...
Se quiser ver o texto, está aqui

http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/55085/2/tesedoutjoaocerqueira000123691.pdf

Um grande abraço

ps: Em Valença come-se o melhor cabrito e lampreia do mundo, com ou sem Alvarinho.


cafc

Meu caro João Cerqueira


Eu é que fico grato pela prenda antecipada de Natal que me (nos) enviou. Já a coloquei nos Favoritos, porque este tipo de obras requer uma leitura atenta e 400 páginas não se “digerem” em um dia, nem uma semana. Acresce que o título deu origem ao “soar de uma campainha” (esse “antes”…). Desejo que as dificuldades sejam ultrapassadas e que, em breve, tenhamos mais um livro publicado.


Aquele grande abraço.


Carlos


NOTA: Por estas paragens, eu sou o apreciador único de lampreia e quanto ao cabrito, deparo-me com uma “transmontana fanática”.  



João Cerqueira
Carlos,

É sempre um prazer conversar consigo.
Quanto à lampreia, nos dias de hoje, é algo apenas para iniciados. Quanto ao cabrito assado, o do restaurante Camelo bate-se com qualquer um.
Vamos mantendo o contacto,

Um abraço

deixado a 21/10/11 às 16:10
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JP
Erro !! Em MONÇÃO come-se o melhor cabrito e lampreia :) com alvarinho de preferência 

deixado a 1/4/12 às 12:50
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Completamente de acordo! Estive na praxe (como caloiro) e só aprendi a "respeitar" a autoridade e a baixar os olhos em vez de me defender. E sim, é mesmo utilizada a justificação de que estamos a aprender competências essenciais para a vida. A praxe é uma fábrica de conformismo, perpetua valores totalitários e, na minha opinião, está na origem de muita da apatia que existe ao nível de estudantes do ensino superior (na minha faculdade ao mesmo tempo que estavam 3 estudantes numa RGA estavam 50 na praxe). O triste é que os praxistas têm muito poder ao nível do ensino superior e estão "infiltrados" no movimento associativo. Serão uma causa ou um sintoma de uma geração conformista que já nos deu "líderes" como Passos Coelho ou António José Seguro?

deixado a 19/10/11 às 12:27
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Gaita...Passei uma hora a escrever um texto tão comprido no meu blogue e depois venho aqui e vejo um comentário tão pequeno que resume na perfeição aquilo que penso...

deixado a 21/10/11 às 02:37
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cam
é realmente uma cobardia fascistoide que mostra que a maioria da população tem alma de carneiro.

deixado a 19/10/11 às 13:11
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Dazulpintado
Muito bom Daniel, parabéns.

deixado a 19/10/11 às 13:17
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Tiago M.
Queria primeiro de tudo felicitar a autora por um texto tão bem redigido. Eu considero que uma pessoa, para se poder considerar bem formada, deve aceitar todas as opiniões que sejam bem fundamentadas. Contudo eu passei por essa estúpida tradição" fiz muitas amizades, deverti-me imenso, e penso que não gerou em mim um espírito subserviente como o que aqui é descrito. A personalidade de uma pessoa é algo bem mais complexo, não penso que leve a um trauma profundo generalizado o facto de alguém nos berrar para irmos jogar futebol sem bola, acho que se retiram bastantes coisas positivas, tais como espírito de liderança, a desinibição de falar em publico, e ate o espírito de trabalho em equipa. Não digo que tudo foi positivo, ou que aprendi estas coisas todas no meu ano de caloiro, aprendi isto bem mais a frente já usando as vestes pretas. Vivemos em tempos diferentes a praxe já não é obrigatória e já não existe a exclusão social por não se passar pelo ritual académico , tenho muitos amigos que sempre odiaram a praxe, que não concordam com ela e mais uma vez aceito os seus argumentos. Contudo quero realçar que falo da minha experiencia, uma experiencia que considero ter sido bonita e que guardo com muito carinho na minha memoria. Achei que também era importante alguém que teve uma boa experiencia com a praxe vir aqui deixar o seu testemunho, não me revejo no texto, mas entendo que quando qualquer tipo de poder é dado para as mãos de jovens adultos que procuram ainda o seu espaço no mundo, que seja difícil prever o resultado.
Cumprimentos

deixado a 19/10/11 às 13:18
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