Era a grande esperança dos EUA. Um símbolo da luta pelos direitos civis. Poderoso na retórica, carismático dentro e fora de portas, o fim do pesadelo que tinham sido os oito anos de Bush. O primeiro ano foi marcante: conseguiu que a Saúde chegasse a quem nunca tinha tido acesso a ela. A sua eleição também conseguiu que acontecesse algum apaziguamento na política americana, que a dureza do confronto ideológico se desvanecesse. Até que começaram a aparecer as primeiras dificuldades. Na ressaca da crise financeira de 2008, não conseguiu que a economia americana arrancasse nem que o desemprego baixasse. Entretanto, a maioria Democrata foi destronada na câmara dos representantes por um partido Republicano tomado de assalto por uma facção de extrema-direita, radical e racista, o Tea Party. O seu poder enfraqueceu. O carisma quase messiânico era uma coisa do passado. E Guantánamo continua a existir.
O que fazer? O mesmo do que quase todos os presidentes americanos antes dele: virar-se para o exterior, reafirmar os EUA como uma potência em perda, começar uma guerra. O primeiro ensaio foi a intervenção na Líbia - mas quem comandou a operação foi a França, e o conflito parecia ter uma natureza diferente. Agora, a escalada recomeça para os lados do Médio Oriente. A táctica, contudo, parece ser a mesma do que na Líbia: deixar que os aliados no terreno façam o trabalho sujo que as tropas americanas não podem fazer. Há um relatório que supostamente vai provar que o Irão prepara-se para produzir armas nucleares; onde é que já ouvimos isto? O aliado promete bombardear o Irão. O belicismo de uma nação que é origem de grande parte da violência do pós-guerra, directa ou indirectamente, a única nação do mundo que pode afirmar, sem censura generalizada, ir construir novos colonatos em território que não lhe pertence, a única nação, Israel, que coloniza um território, mais de trinta anos depois das últimas colónias africanas terem obtido a independência.
O Médio Oriente é um vespeiro, todos sabemos. Israel parece estar com vontade de cutucar os vizinhos, como se não houvesse já ebulição suficiente no mundo. E Obama, a grande esperança, anui, aceita, incentiva. Mais do que uma desilusão, um sonho desfeito, uma desgraça. Esperemos que não consiga ultrapassar em feitos o seu antecessor, W. Bush. Mas nunca se sabe: as eleições americanas estão perto no tempo. Tudo é possível.
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