Domingo, 13 de Novembro de 2011
por Sérgio Lavos

 

O sentido da história repete-se à medida que a crise vai alastrando: é preciso suportar a austeridade para recuperar o país. Mario Monti, o ditador de mão de Merkel e dos mercados, repetiu hoje a deixa, pedindo um esforço colectivo ao povo italiano. Na Grécia, Papademos falara do mesmo, ao ser mandatado por alguém que não os gregos para liderar um Governo de unidade nacional. Por cá, a mensagem é antiga: os portugueses precisam de ser "responsáveis" e ter "maturidade cívica", podem manifestar-se, mas dentro dos limites da ordem.

 

O extraordinário esforço de propaganda dos gabinetes ministeriais por essa Europa fora tem obtido resultados: nos países ricos, as pessoas assimilaram a ideia de que os europeus do Sul são preguiçosos, irresponsáveis e despesistas, e portanto não merecem o dinheiro dos seus impostos. Nos países mais pobres, do Sul, ouvimos o discurso passivamente, aceitando que andámos anos a viver acima das nossas possibilidades e que é preciso empobrecer o país para reentrarmos no caminho do crescimento - a evidência tautológica desta ideia daria para rir, se não fosse tão triste. A culpa foi de quem nos governou, é uma culpa individual, mas o esforço é de todos - excepto os de sempre, claro -, colectivo. A manipulação é tão eficaz que a maior parte das pessoas, apesar de ter uma péssima imagem dos governantes, continua a votar de eleição para eleição no mesmo tipo de ideias políticas; no fundo, a maioria vota nos políticos que detesta numa espécie de auto-flagelação pelos pecados consumistas dos últimos vinte anos.

 

Quando passar a tempestade, e o Euro tiver implodido, e a União Europeia passar à História, teremos os países do Norte mais fortalecidos e os países do Sul depauperados por medidas que os estão a fazer retroceder socialmente décadas e décadas. É uma situação win/win para a Alemanha, a França e os outros países do Norte, e lose/lose para a Grécia, para Portugal, para a Itália, talvez para a Espanha. Mas os países de que falamos não são abstrações num papel ou números num quadro: os países? Somos nós, nós que aceitamos comodamente que nos estejam a impôr o fim de conquistas de décadas, que acreditamos na culpa que aqueles que nunca têm nada a perder nos querem inculcar.

 

Vivemos acima das nossas possibilidades? Certamente que os 13 por cento de desempregados e o milhão que vive no limiar da pobreza não concordam. A verdadeira "maturidade cívica" deste povo apenas poderá evidenciar-se na revolta, na rejeição da culpa alheia. Fazendo greve, manifestando-se e recusando um modo de vida cada vez mais injusto, mas próximo de países com quem não deveríamos querer ter nada a ver, como a China. O esforço colectivo deve existir, sim, mas contra políticas erradas e empobrecedoras. Só assim seremos responsáveis perante o nosso país, e estaremos à altura das conquistas de outrora. 


por Sérgio Lavos
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