Já aqui disse que a receita da austeridade é desastrosa. E já aqui escrevi que em Portugal tem sido mais desastrosa para os pobres. É normal que assim seja. Portugal é o País mais desigual da Europa. E a desigualdade tem a capacidade de se replicar prementemente. Incluindo nas políticas do Estado. Porque maior desigualdade social traduz-se sempre em maior desigualdade política.
A Comissão Europeia fez um estudo sobre a aplicação das suas próprias recomendações nos Países em crise. Em análise, as medidas de austeridade entre 2009 e Julho de 2011. Quase tudo antes deste governo. Ou seja, novo estudo só poderia ter resultados ainda mais escandalosos. Analisadas as medidas na Grécia, em Portugal, em Espanha, no Reino Unido, na Irlanda e na Estónia conclui-se isto: Portugal é o único País onde as medidas de austeridade têm exigido um esforço financeiro superior aos pobres do que o que é pedido aos mais ricos.
As medidas fizeram os 20% mais pobres perder entre 4,5% e 6% dos seus rendimentos. Quando estes tenham filhos as perdas podem ter ido até aos 9%. Os 20% mais ricos perderam apenas 3% dos seus rendimentos. Isto leva o estado a dizer que "Portugal é o único país com uma distribuição claramente regressiva" dos sacrifícios. E aquele onde a distribuição do esforço é mais assimétrica. Note-se que no estudo não estão incluídos os cortes nos serviços públicos que, como é evidente, afectam muito mais os pobres. Ou seja, as conclusões até serão simpáticas para o Estado português.
Este estudo não tem ainda em conta as medidas impostas pela troika. Por isso, temos de concluir duas coisas: que nem a injustiça começou com a troika nem começou com Passos Coelho. Agravou-se. O Partido Socialista tem de fazer um sério exame de consciência ao seu comportamento social. E para criticar o criminoso comportamento deste governo está obrigado a, depois de uma séria autocritica, virar a página.
Publicado no Expresso Online
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