Sábado, 3 de Março de 2012
por Sérgio Lavos

 

E enquanto vamos ficando todos mais pobres, há quem continue a não sentir os efeitos das medidas de austeridade, e até lucra com elas. A história divulgada esta semana é exemplar: uma das primeiras decisões do Governo depois de tomar posse foi introduzir portagens na ponte 25 de Abril durante o mês de Agosto, acabando com uma tradição antiga que beneficiava os lisboetas que não têm dinheiro para ir passar férias longe da cidade e apenas podem frequentar as praias da Costa da Caparica. A ideia seria aumentar a cobrança dos impostos pagos nas protagens mas sobretudo poupar na indemnização compensatória paga à Lusoponte pela quebra nas receitas, no valor de 4.4 milhões de euros. O problema é que a Lusoponte, cujo presidente é Joaquim Ferreira do Amaral, dirigente do PSD e antigo ministro das Obras Públicas que saiu directamente do executivo de Cavaco Silva para a administração desta empresa, exigiu ao Governo esses 4.4 milhões. Este Governo, já sabemos, existe para pisar e roubar os mais fracos e ceder perante os mais fortes, para mais quando estamos a falar de alguém como Ferreira do Amaral, um dos amigos da quinta da Coelha e abutre do regime durante as horas de trabalho. Em Novembro, depois do secretário de estado dos Transportes ter pedido um esclarecimento aos seus superiores no Governo, foi decidido que esse dinheiro seria pago à Lusoponte pelas Estradas de Portugal, por sinal uma das empresas públicas que pior desempenho tiveram em 2011. E assim esta comovente história acabou por ter um final feliz: a Lusoponte cobrou portagens em Agosto e recebeu a indemnização por não cobrar portagens, o que só demonstra como determinados paradoxos de sentido são possíveis caso realmente o Governo se esforce para isso. O BE pediu a presença do secretário de estado dos Transportes, e fez bem. Mas não sei porquê acho que vai tudo ficar em águas de bacalhau - não estou a ver como é que agora se irá obrigar a Lusoponte a devolver o nosso dinheiro, oferecido com todo o despudor pelo Governo. Bom, deve ser disto que o primeiro-ministro e a cinderela da lambreta falam quando se lembram das ajudas aos mais carenciados. Os 4.4 milhões de euros correspondem exactamente a quantos subsídios de Natal? Vá lá, não sejam piegas, há sempre alguém que precisa mais do que nós.


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