Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012
por Sérgio Lavos

 

Ler este texto do Nuno Serra:

As pessoas passaram a achar que têm direito a todas as prestações sociais e dão-no como adquirido. E portanto muitas vezes - isso verificou-se nos últimos anos - preferem até ir para o subsídio de desemprego do que ter um emprego, ainda que ele seja menos bem pago. Porque sabem que vão ter essa prestação no final do mês: ou o rendimento social de inserção ou o subsídio de desemprego. Ora, isso veio trazer alguma perversidade neste tipo de fórmulas, que são fórmulas de emergência e que deviam ser reduzidas ao máximo. Mas sobretudo para fazer com que este montante que é afectado a estas prestações sociais não atingisse níveis incomportáveis e insustentáveis para o Estado. (...) [o Estado] mete-se demais em coisas em que não deve». (da entrevista da TSF e do Diário de Notícias a Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar contra a Fome).

Num momento em que há cada vez mais famílias a viver em situação dramática; em que a economia colapsa e o desemprego dispara; em que as iniquidades se aprofundam (num país que é o terceiro mais desigual da OCDE); e em que salários e prestações sociais (já de si dos mais baixos na Europa) sofrem cortes brutais, Isabel Jonet decide juntar-se à miséria moral e ao populismo demagógico que grassa em certos meios conservadores e que marcará, de forma inapagável, a governação da actual maioria PSD/PP.

O Banco Alimentar é uma instituição que, de um modo geral, os portugueses consideram. Muitas famílias beneficiam dos bens distribuídos, tornando possível minorar o sofrimento, a angústia e a falta de horizonte em que um número cada vez maior de pessoas se encontra. Dir-se-ia até que o Banco Alimentar conhece, como poucos, os contornos mais precisos que a carência económica assume em Portugal. E é por isso impensável que a presidente do Banco Alimentar desconheça que a taxa de risco de pobreza seria de 43% no nosso país, caso as transferências sociais não a restringissem a 18% (isto é, a menos de metade). Ou seja, se o Estado não «se metesse demais em coisas que não deve» - como defende Isabel Jonet - cerca de 4 em cada 10 portugueses encontravam-se em risco de pobreza (e não 2 em cada 10, como as estatísticas demonstram).

Não se tratando portanto de ignorância em relação à profunda crise social e económica que o país atravessa, nem em relação aos traços estruturais da pobreza em Portugal, as declarações da presidente do Banco Alimentar só podem ser interpretadas de duas formas: ou Isabel Jonet decidiu surfar, de forma obscena e repugnante, a onda de populismo e miséria moral que se instalou; ou a economista que preside ao Banco Alimentar está apenas a tratar da sua vidinha e dos seus negócios. Isto é, a mostrar sinais de interesse em contratualizar com o Estado uma qualquer parceria público-privada no «sector» da pobreza (que se encontra em vertiginosa expansão), criando simultaneamente condições que favoreçam (ainda mais) o aumento da «procura» (pela redução, «ao máximo», das tais «fórmulas de emergência»: RSI e Subsídio de Desemprego). E não é de excluir, obviamente, que estas duas interpretações se complementem."

Adenda: as declarações citadas têm cerca de um ano, mas ainda recentemente a sra. Isabel Jonet se veio pronunciar favoravelmente sobre as mexidas na TSU, o que mostra que o seu "pensamento social" não mudou significativamente. Ver aqui.


por Sérgio Lavos
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47 comentários:
Nuno
Lembro-me de ela dizer isto, mas já há bastante tempo atrás... repetiu as palavras?

deixado a 20/9/12 às 14:14
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Joe Strummer

 O BA passou a Banco de Fomento da Fome. Miseravel.

deixado a 20/9/12 às 14:24
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Clarisse
Por acaso ela até disse que a TSU é um mal menor, ouçam-na a viva voz:

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=2771227


 

deixado a 20/9/12 às 14:34
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jjt
concordo com todo o raciocínio e análise que é feita aos potenciais interesses da i. jonet. é impossivel não o fazer mas... as declarações têm 1 ano. será que ela ainda pensa/diz o mesmo?

deixado a 20/9/12 às 14:40
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Joe Strummer

Já agora e ainda a proposito de pornografia, vivemos tempos complicados. Em França é proibido ver as mamas de uma princesa inglesa (not so nice boobs by the way) mas é motivo de orgulho e exaltação de liberdade publicar cartoons com intuitos claramente provocatorios. Nesta escala de valores o que é  "sacralizado" são as mamas da Kate e não os valores e crenças de uma comunidade. Claro q os cartoons têm q ser publicados mas porque não as mamas da Kate? Onde esta aqui a pornografia, afinal?

deixado a 20/9/12 às 14:49
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Eu bem digo que o problema está no “arquitecto.”


deixado a 20/9/12 às 15:00
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Joe Strummer

Certo. A caridade é uma obrigação, a solidariedade é uma partilha. Deus é fodido.

deixado a 20/9/12 às 16:45
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anónimo
O nível de fascismo desta senhora ultrapassou todos os limites.
Já não há dúvidas, o centro foi completamente renegado pela direita portuguesa. Agora só temos extrema direita.
E já agora, o Mário Crespo que de jornalista nada tem, esqueceu-se de escrever um texto com o título  "O Palhaço"?

Neste caso, o grande Palhaço é ele e quem lhe dá emprego.
Aliás, se a Ordem dos Jornalistas funcionasse em Portugal e o seu Código Deontológico fosse respeitado, esse senhor, já tinha perdido a carteira profissional e podia ser porta voz do seu partido.

Ainda bem que em Portugal ainda não criaram Fascismómetros ou passávamos o dia a ouvir explosões.

deixado a 20/9/12 às 15:04
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xuxu
Esta gentalha está  há 38 anos a tentar voltar a pôr a cabeca de fora.

deixado a 20/9/12 às 15:08
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Ana Paula
Com toda a repugnância que a "caridadezinha" me causa, não se considera que ela (a Isabel Jonet) conheça mesmo a realidade de que fala? Eu desconto e assumo que tenho a obrigação de descontar para os que precisam: eu tenho a obrigação moral de pagar por uma mãe que tem a filha entrevada na cama e não pode trabalhar e a quem o estado não garante o apoio que devia. Mas convenhamos: quantos não merecem? Na dúvida, entre beneficiar quem não precisa e prejudicar quem precisa, não tenho a mínima dúvida que, sem todos os dados, escolho a primeira. Mas que é (ou era, quando ainda se podia!) preciso uma rigorosa avaliação, reavaliação, redistribuição, para que acabemos com a dúvida de que estamos a alimentar "preguiças" reais em vez de canalizarmos a nossa, moralmente obrigatória, contibuição para quem precisa efectivamente.  

deixado a 20/9/12 às 15:09
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lobisomem
Despesas com o RSI em 2010:

519.908,7€

Rendas pagas pelo Estado nas PPP´s:

40 mil milhões de €

Que se lixe o mexilhão


JgMenos
Leva a conta a Paris ou ao Largo do Rato, que logo te explicam o caso, e te dizem que tem mais pronto a servir!


HRoque
Pois, esses bandidos promoveram, e estes gatunos executam.
É como o gajo da seringa responsável pela injecção letal lá para os lados dos istaites: não foi dele a decisão, mas é ele que dá o golpe de misericórdia (alías como o paulinho da cabeleira loira: não está a favor da "tsu", mas o "apelo patriótico" é superior a tudo demais.
É certo e sabido que para a malta da gatunagem as gorduras do estado são precisamente, e passo a citar o sino pantelhos catroga, as despesas "acessórias" ou correntes do estado: salários, RSI, subsídio desemprego e pouco mais...
Medidas em concreto está quieto: caça aos larápios filósofos, aventaleiros, a malta do cilício, etc coisa e tal.

deixado a 21/9/12 às 14:24
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Obelisco isntavel
Só por curiosidade, alguém sabe quanto custam as reformas antecipadas a ex-detentores de cargos públicos?

deixado a 21/9/12 às 22:54
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Um bloguista
Nºs RSI: vindos da Pordata
Nºs Rendas pagas pelo estado: sonhados e manipulados

Objectivo: Os carneiros que seguem o blogue votarem em neo-estalinistas



lobisomem
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/opiniao/paulo-morais/parcerias-extincao

Quando te sentires violento alivia-te, esgalhando.


Um bloguista
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=566083

Não te esqueças de seguir o que recomendas aos outros


lobisomem
"Ernst & Young diz terem sido detectadas insuficiências no que diz respeito à selecção da proposta mais vantajosa, qualificação dos concorrentes e na análise a alternativas do projecto."

Para não falar no Tribunal de Contas.

Afinal segundo este artigo são apenas 18mil milhões, mas vá lá saber-se o valor real!

Mas tens razão fui grosseiro e sigo agora para a WC

deixado a 23/9/12 às 20:22
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"Pirralha...eu?"

Espero que as declarações da Isabel Choné não se repercutam negativamente na Instituição presidida pela Isabel Jonet…


Cristina


deixado a 20/9/12 às 15:10
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