Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
por Sérgio Lavos


Dois dos livros que li recentemente surgiram em sequência - a leitura do segundo como complemento do primeiro. O caminho faz-se quase sempre em ziguezague – não gosto de impor programas, ordem, às minhas leituras – mas acaba por haver um ponto de contacto ao longo do percurso. Despertou-me primeiro a atenção Ernestina, de J. Rentes de Carvalho, agora mais conhecido por cá, depois dos merecidos artigos em jornais aproveitando a republicação da sua obra pela editora Quetzal. Dele já lera um livro ou outro e fui sendo leitor fiel do seu blogue, que leva o título de um dos seus volumes memorialistas, Tempo Contado. Um mestre pouco conhecido, para não dizer desconhecido, apesar de cada livro por ele publicado na Holanda (país onde vive desde os anos 60) vender o suficiente para continuar a ser editado. Não sei se a falha será colmatada – seria bom que o fosse, que o reconhecimento é sempre bem-vindo.


Ernestina é um livro de memórias que acompanha os primeiros anos de vida do escritor e termina na adolescência, um período de tempo que vai desde antes do seu nascimento, em 1930, até aos anos 40. O que é mais notável no livro é a descrição, viva, hábil, fluida, de um tempo de transição no país. Esqueçamos, no entanto, implicações políticas; Rentes de Carvalho conta apenas a sua história – se acaso aparece uma ou outra referência aos tempos conturbados que se viviam, é por meras razões de ordem biográfica. Nascido numa aldeia de Trás-os-Montes, Estevais, e tendo partido cedo para viver com os tios em Vila de Nova de Gaia, Rentes de Carvalho conseguiu ultrapassar as barreiras da ruralidade e da pobreza, para “chegar longe”, expressão que não é apenas um lugar-comum mas um mote para a sobrevivência do povo transmontano.

A consciência subtil de que uma vida é uma superação de vidas anteriores, dos pais e dos avós, é também um dos temas principais de As Pequenas Memórias, de José Saramago, o ponto seguinte no meu percurso de leitor. Saramago nasceu em Azinhaga, aldeia do concelho da Golegã erguida da lezíria do Tejo, à beira do Almonda que no rio maior vai desaguar. Aos quatro anos de idade foi viver com os pais para Lisboa, mas as visitas à aldeia onde nasceu eram regulares – o livro vai saltando de episódio em episódio, na cidade e no campo, ao ritmo incerto da memória do escritor. O estilo é o de sempre – um primor clássico que me parece inultrapassável na literatura portuguesa contemporânea, apesar de Mário de Carvalho – e Saramago quase nunca cai naquele tom moralmente opinativo que lhe é característico. Poder-se-ia esperar que, tendo crescido no meio da pobreza – quartos alugados para três em Lisboa, casas de chão de terra no Ribatejo -, Saramago optasse por um ponto de vista vagamente influenciado pela ideologia que lhe é cara; assim não sucede. Não há romantismo na infância, e a principal força do livro reside na fragmentação temporal – não há uma continuidade temporal na narrativa, o livro tenta imitar o funcionamento da memória. Em duas passagens deliciosamente metaficcionais, Saramago chega a corrigir factos que antes tinha enunciado, pedindo desculpa pelas imprecisões cometidas.

De Ernestina, nome da mãe de Rentes de Carvalho, à avó de Saramago, a distância é curta. Mais curta do que o caminho percorrido pelo comboio que leva Rentes de Carvalho à sua aldeia – horas e horas a levar com a fuligem da locomotiva a vapor e o cheiro da comida das gentes que também regressam à aldeia. Mais curta do que a distância que vai da Azinhaga a Santarém, a pé e levando uma vara de porcos para venda numa feira, a viagem que Saramago e um tio fizeram para trazer algum dinheiro mais à família. O tempo que agora parece fugir durava mais antes – os dois escritores, de outro tempo, sabem bem medir, distorcer, a vida que por eles passou. E servir o resultado a nós, leitores, de forma primorosa. Aprisionar o tempo.
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por Sérgio Lavos
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13 comentários:
João Cerqueira
Sérgio Lavos,

Relativamente, a propósito de Saramago, à frase do seu texto «quase nunca cai naquele tom moralmente opinativo que lhe é característico», gostaria de dizer o seguinte:
Na minha opinião, a escrita de Saramago não pretende tanto uma forma de julgamento moral das personagens ou da sociedade _ muito menos imbuído da ideologia política que professa _ quanto uma reflexão desapiedada sobre a condição humana.
Não conhecendo toda a obra do escritor, pelo menos em O ano da morte de Ricardo Reis, no Memorial do Convento e sobretudo no Ensaio sobre a Cegueira, aquilo que para mim sobressai é um retrato do lado menos nobre e mais negro do homem, não sendo sequer poupadas as classes mais baixas.
E isso foi o que mais me admirou _ certamente devido a uma ideia pré-concebida _ quando descobri como, por exemplo, os pedintes e miseráveis são descritos enquanto Ricardo Reis perambula por Lisboa.
Saramago não tem fé em Deus, mas parece não a ter tão pouco no homem.
Dito isto, considero-o um dos maiores escritores, admirando particularmente os seus complexos encadeamentos de ideias onde amiúde entrelaça o conhecimento erudito com a sabedoria do povo.

deixado a 14/1/10 às 02:07
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fernando f
Obrigado, particularmente pela indicação do blog, pois de Rentes de Carvalho, só muito esporadicamente se tem notícias. Só sabia dele pelo Expresso.

deixado a 14/1/10 às 11:32
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cafc
Meu caro Sérgio Lavos

Tal como escreveu o fernando f, obrigado. Sobretudo, porque considero que nos ensinas a ler.
Que magnífico exemplo, sobretudo para alguns intelectuais "recomendadores" de livros aos molhos.

Retenho, em particular, a expressão para "chegar longe". Revela um conhecimento profundo do que se costuma chamar "a alma de um povo".

Um grande abraço.

deixado a 14/1/10 às 12:36
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Manuel Monteiro
Belo Texto.
João Cerqueira: eu, que pertenço ao proletariado, fico f... quando me chamam "classe baixa"...
Manuel Monteiro

deixado a 14/1/10 às 22:05
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Sérgio Lavos
Agradeço os comentários.
Caro João:

julgo que o é verdade o que diz: Saramago não acredita no ser humano até certo ponto, apesar da história de amor de Baltasar e Blimunda, apesar da redenção final de Ensaio Sobre a Cegueira. Mas a denúncia que ele faz de todas as atrocidades que nós somos capazes de cometer acaba quase sempre por cair num moralismo, isto é, ele não se limita a denunciar, tem um ponto de vista, uma opinião sobre o sucedido - acho que enfraquece um pouco alguns livros dele, por exemplo, O ensaio sobre a lucidez, que parece não ter um objectivo maior do que o apontar de um defeito das democracias actuais - o défice de participação democrática. Mas tirando isto e pouco mais, a obra de Saramago é admirável.

deixado a 14/1/10 às 22:58
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João Cerqueira
Caro Sérgio

Não li o Ensaio sobre a lucidez, mas quanto a esse livro, realmente, todas as críticas foram nesse sentido.
Na minha opinião, o pessimismo de Saramago pode advir não apenas do conhecimento da História mas igualmente da consciência que o autor tem da falência do modelo político que toda a vida apoiou.
Quanto a outras obras que gostei de ler, por me surpreenderem, foram Todos os nomes e O homem duplicado.

E já que estamos a debater livros, tomo a liberdade de recomendar a leitura de dois livros de que gostei muito:
As confissões de Nat Turner, de William Styron _ narra a rebelião de um grupo de escravos no sul dos Estados Unidos cujo líder se inspira no Antigo Testamento para conceber um plano destinado a matar todos os brancos; mas que acaba a descobrir que lhe falta a coragem para sujar as mãos com sangue. Além do interesse da história, a qualidade da escrita de Styron é elevada.
e
Os espiões de Luís Fernando Veríssimo _ a tentativa que um editor e seu grupo de amigos boémios faz para tentar resgatar uma escritora (Ariadne) de uma cidade do interior do Brasil que julgam estar ameaçada de morte _ a Operação Teseu _, acabando todavia confundidos com gente do futebol que pretende subornar o craque local Mandioca. Um verdadeiro delírio, da primeira à última página, não faltando sequer um professor perito em tudo que afirma que Dostoyevsky era mulato e faz sexo tântrico com prostitutas, sem contacto físico.

deixado a 15/1/10 às 00:58
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João Cerqueira
Manuel Monteiro

Não foi certamente ao senhor que me dirigi.
O termo não pretende ser pejorativo, nem sequer para os personagens do livro.
Mas, se prefere, da próxima vez poderei escrever Pobres.

deixado a 15/1/10 às 01:09
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Sérgio Lavos
Caro João Cerqueira:

Obrigado pelas sugestões. Gosto bastante do Luís Fernando Veríssimo e tenho alguma curiosidade em conhecer o romancista. O resumo soa um pouco na Rubem Fonseca, talvez, talvez...
Quanto ao Styron, deve ser bom, com certeza. A Escolha de Sofia, do qual foi feito um filme, é um excelente romance.

deixado a 15/1/10 às 01:16
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cafc
Meus caros Sérgio Lavos e João Cerqueira

É um prazer assistir a este género de debates. Obrigado a ambos.
Permitam-me, apenas, uma ligeira intromissão, em relação ao "Ensaio sobre a lucidez". A minha interpretação é, num ponto, diferente da do Sérgio. Em vez de défice de participação democrática, existe uma votação massiva (e repetida) "em branco".
Este facto liga o livro ao "Ensaio sobre a cegueira" (branca, como sabemos) e conduz o Governo ao desespero de, pela calada da noite, se retirar (com armas e bagagens) para outra cidade.
Quase me atreveria a ver um apelo, implícito, a que os abstencionistas passassem a utilizar o voto em branco, como "arma verdadeiramente incómoda".

Meus caros, um abraço para ambos.

deixado a 15/1/10 às 10:27
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Manuel Monteiro
João Cerqueira
Perante a elevação do debate que, a propósito de Saramago e de Rentes de Carvalho, aqui se trava, a questão das "classes baixas" é um pormenor sem grande interesse. Nem é minha intenção desviar a atenção de um tema, a análise à obra de Saramago, que me é tão cara...
Mas a questão é que, antigamente, tanto os intelectuais de esquerda como os de direita, designavam as classes com os termos marxistas, aceites por todos: proletariado e burguesia. Depois havia havia uma divisão por classes: Grande Burguesia, média burguesia, pequena burguesia; proletariado, campesinato pobre, lumpem proletariado, etc.
Agora os teóricos, até os de esquerda, designam as classes por: classe alta, classe média, classe baixa. E uma pessoa, ao ser classificada por classe baixa, não toma o pequeno-almoço com muito boa disposição.
Com amizade
Manuel Monteiro

deixado a 15/1/10 às 14:17
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