Sexta-feira, 1 de Março de 2013
por Daniel Oliveira

 

A campanha de reeducação de massas, veiculada no sitevisitportugal.com, é uma coisa tão bafienta, tão neo estado-novo, tão “Ó tempo volta p'ra trás”, que não me admirava que os verso da Grândola (sem eu querer) começassem a aparecer pelo meio deste texto (ver vídeo aqui).

O filme começa com dois estrangeiros suspirando pela Ana. “Ai a Ana, ai a Ana”, dizem. “O melhor de Portugal foi a Ana.” E quem é a Ana? Uma rameira? Uma portuguesa comum? A sua filha?

 

Desconfio que se trata da sua filha, caro leitor. E o Turismo do governo de Portugal quer que ela e os outros portugueses todos, para além do couro e do cabelo que dão aos credores, dêem também o corpo e o conho a quem nos visita.

 

Este parece ser o objectivo desta indigna campanha, assumida, pelo próprio Turismo, como campanha interna. Uma campanha que visa (imagine-se) educar os portugueses na servidão. É uma campanha que nos incentiva a sermos rameiras e gigolôs ao serviço de quem vem de fora. Uma campanha que reforça a ideia de Portugal como país de serventes sorridentes e lavados, prontos para todo o serviço; que reforça a ideia de um povo criado para ser criado; uma ideia enraizada já por esse mundo fora e que, como estudos demonstraram (como se não bastasse o bom senso), nos retira valor. Uma imbecilidade, portanto.

 

Mas apostar no valor económico da subserviência parece ser a estratégia do Turismo do governo de Portugal. E para tal, vai de fazer o impensável: uma campanha de doutrinação e reeducação de massas; à boa maneira nazi/estalinista.

 

No filme, para além dos bifes que suspiram de saudades pelo docinho da Ana, ainda se vê uma holandesa que, vinda a Portugal jogar golfe, acabou enrolada com um português; vêem-se duas francesas a recordar a maneira delicada como o senhor António arrumava as toalhas e tinha as camisas bem passadas e tratava da casa-de-banho; vê-se o pobre do Avillez a servir à mesa, tão simpático, tão deferente, tão pouco chef e tão criado; vê-se um senhor de meia idade que sofre de uma estranha compulsão para a subserviência e se manifesta a fazer de guia a uma família de brasileiros. Vêem-se criados. Criados. Só criados, nada mais. Nada de digno, criativo, inteligente, elevado, aspiracional. Só criados.

 

Esta indecorosa ofensa, esta imbecilidade, esta falta de competência, bom senso, valores e escola, conclui-se com uma citação de Fernando Pessoa. Mas não é bem uma citação de Fernando Pessoa. É um sucedâneo, uma citação tipo-Pessoa. Em vez de “Põe quanto és no mínimo que fazes”, lê-se o erro “ Põe tudo o que és na mais pequena coisa que fazes”.

 

Tudo o que aquela gente do governo de Portugal é, pôs nesta campanha; e não é nada de bom.

 

Nunca me senti tão envergonhado com uma coisa feita em meu nome.


Pedro Bidarra

Publicitário, sociólogo e autor


por Daniel Oliveira
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49 comentários:
António Madeira
Não vejo mal nenhum em apelar à hospitalidade. Só com muito má vontade se pode interpretar o vídeo de outra forma.

deixado a 2/3/13 às 00:54
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já se sabe que os Portugueses são muito hospitaleiros, por isso o vídeo deve fazer parte de uma campanha para transformar os portugueses noutra coisa. Diga-me uma coisa em que outro país da Europa vê os responsáveis pelo turismo a fazer uma campanha destas ? E note-se que a maioria bem precisava pois olha para os turistas com misto de indeferença e desdém.


zézé camarinha
10 milhões ? bolas atão a concorrência brasuca e moldava agora é global?

querem pôr agente no desemprego

40 anos a dar o coiro pela nação

deixado a 3/3/13 às 03:23
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Pagar a uns actores estrangeiros de quinta categoria para dizerem que somos uns porreiraços é das formas mais rasteiras e desesperadas de elogio que podem existir. Faz lembrar aquela personagem do "American Pie" que andava a pagar a uma rapariga para espalhar pela escola rumores abonatórios e hiperbólicos sobre as suas capacidades como amante.

Enfim, só tenho pena que se tenham esquecido do Joaquim, o taxista que vai sempre pelo caminho maior, do Abílio, o garanhão que vai engatar estrangeiras e que não sabe que "no" quer dizer não em inglês e que "fuck off" não quer dizer "és muito sexy, queres ir dar uma volta?" e do Alfredo, que acha que se falar português devagarinho os estrangeiros também percebem. 

Fora de brincadeiras. A ideia é boa e espero que muitos turistas tenham tido esta experiência em Portugal. Hospitalidade não é nem "enrolar-se com um turista", nem subserviência. Se gosto de ser bem recebido, também gosto que sejam bem recebidos no meu país. 

deixado a 2/3/13 às 01:14
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johnes
A minha filha, Ana, vem já desde pequenina, foi sempre uma moça de estampa .

deixado a 2/3/13 às 01:33
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mai vale dá-lo aqui
que ir dá-lo na holanda que é frio

bolas um país que importou romenas russas checas moldavas e brasileiras para consumo nacional

e nigerianas para os escravos importados....

é injustiça poética ache...

deixado a 3/3/13 às 03:28
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buganvilia
E, aqui o relvas estremou-se, ou será o passos de coelho? Criados deles, tipo rudolfo rebelos, sem caráter, sem falta ...

deixado a 2/3/13 às 01:41
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João Cerqueira
A campanha não será certamente muito inspirada, mas com um começo destes -''Enrola-te com o turista'', ''rameira'' -  a crítica não lhe fica atrás. Afinal essa relação da Ana não passou de amizade - e se tivesse beijado o tipo? Que grande escândalo.
Depois, é promovida a simpatia, a comida, a praia, o golfe - enfim, os principais motivos porque somos vistados.

Poderia a campanha incidir também sobre a nossa história - se calhar também seria criticada por recuperar valores salazarentos - ou sobre a cultura contemporânea - desde que não mostrassem Joana Vasconcelos. Mas centrou-se apenas no gosto das massas e mostrou tão só a realidade: os turistas apreciam a nossa hospitalidade, gostam da nossa gastronomia e do nosso sol.
E por que motivo se associa os criados a algo indigno?
As pessoas com as quais a maioria dos turistas se vai relacionar são de facto empregados de hotelaria, restauração e doutros sectores turísticos - e, é verdade, às vezes com algumas Anas ou grandes sedutores algarvios.

Na verdade, deveriam era ter feito uma campanha para o exterior com o senhor Zézé Camarinha passando a mensagem que em cada jovem ou senhor português há uma fera pronta a devorar estrangeiras. Aposto que até o aeroporto de Beja voltava a funcionar, tantas as candidatas a umas férias inesqueciveis .
 E assim, relativamente às alemãs, esta invodora campanha teria um significado simbólico de alcance revolucionário muito superior ao Que se lixe a troika!

deixado a 2/3/13 às 02:17
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Gato Preto
Sinceramente, aquilo é mau de mais. Quem terá sido a luminária que o produziu? Será que foi o mesmo "boy" monárquico que produziu aquele vídeo horroroso que o Marcelo pediu para divulgar na Alemanha? Estava tão bom que o "tio" Marcelo nunca mais falou nele!...
Estes tipos acham-se, provavelmente, muito cosmopolitas. Mas todo a filosofia subjacente ao vídeo é de um provincianismo atroz. Não percebem que hospitalidade é uma coisa, subserviência é outra.
A verdade é que aquela coisa só reforça os estereótipos que muitos estrangeiros têm de nós: aquela das francesas a elogiar a forma como o senhor tratou da roupa é para reforçar a ideia dos/as criados/as portugueses/as, a da holandesa é tentar mostrar que somos "machos latinos" e a dos rapazes inglês e alemão sobre a Ana que as nossas mulheres são bonitinhas, simpáticas e submissas. Como é possível que alguém ainda se reveja nessas trampas?

deixado a 2/3/13 às 03:00
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Nightwish
Meu Deus, absolutamente patético.
Deviam deixar a propaganda para as mentiras do costume, funciona melhor e ainda há muito quem acredite.

deixado a 2/3/13 às 03:33
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Observatório Da Esquerda Fracturante
"Tudo o que aquela gente do governo de Portugal é, pôs nesta campanha; e não é nada de bom.
 Nunca me senti tão envergonhado com uma coisa feita em meu nome."




Para encontrarmos pior não é preciso ir longe...basta pegar no que o próprio Pedro Bidarra fez, em seu nome, ainda não há muito tempo atrás.


A solução de Pedro Bidarra para a crise, explicada pelo próprio, é bastante simples e é a negação do titulo que o Daniel Oliveira deu ao post - Portugal 9 séculos de história. Sugere o Pedro Bidarra que Portugal devia simplesmente desaparecer definitivamente e ser integrado no Brasil como mais um estado brasileiro. E é esta gente que depois tem estas indignações patrióticas, a que o Daniel se apressa a dar cobertura.



Video do Bidarra propondo a sua solução da integração de Portugal no Brasil, como sua ilha da madeira...



http://www.youtube.com/watch?v=RrN01bC-CeQ



http://bbdolab.blogspot.pt/2009/11/pedro-bidarra-vamos-fundir-portugal.html

deixado a 2/3/13 às 04:55
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Comunista
Já tínhamos sido humilhados pela paspalhice do 31 da Armada em conjunto com o Prof. Marcelo que andou a implorar, em nosso nome, para ser exibido na Alemanha e antes disso com o vídeo que foi dedicado também em nosso nome à Finlândia.

deixado a 2/3/13 às 04:55
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humilhados?
um país que casa lá fora ou deixa a legítima por cá e arranja uma bifa por fora nã se humilha...põe-se a milhas

deixado a 3/3/13 às 03:31
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Joe Strummer

 Uma indecência. Se mudarmos o texto e em vez de poortugal colocarmos manpower, teríamos um sério pretendente a um Leão em Cannes para a área de recursos humanos, indiferenciados. Cheap and low.

deixado a 2/3/13 às 07:24
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