Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010
por Sérgio Lavos


Havia um tijolo literário que me estava atravessado na garganta. Peguei nele diversas vezes, folheei, espreitei parágrafos, li páginas inteiras, frases, confirmei que a dupla de tradutores é de qualidade (li outros livros trabalhados por eles), deixei de parte, fui debicando os milhares de caracteres debitados em todo o tipo de publicações insuspeitas - e outras menos, como blogues - elogiando tal obra, tecendo loas que, aqui e ali, não desmereciam uma qualquer ode de Píndaro, voltei a insistir, uma e outra vez, até que desisti e decidi fazer uma espécie de introdução ao autor.

Aqui há uns meses, comecei a ler, prenhe de expectativa, O Terceiro Reich, do omnipresente Robert Bolaño, que é dele que falo. Aquilo a início pareceu-me estranho - um alemão amante de jogos de guerra perdido numa aldeia balear espanhola? Insisti, até porque recordo com prazer as horas passadas, na minha adolescência, debruçado sobre um tabuleiro onde soldados de plástico evoluiam em território inimigo conquistando regiões e países à velocidade ditada pelas pintinhas dos dados que eram atirados ao sabor de um ressalto provocado pela irregularidades do terreno - a mesa da sala. No livro, os dias vão passando entre o ritmo de um jogo ensaiado com uma personagem sinistra, pele queimada e mistérios por contar (oooooh) e a vida nocturna da localidade - que todos os que fizeram viagens de finalistas a Benidorm ou Ibiza saberão reconhecer, enlevados pela doce música da nostalgia. Comecei a pensar, a determinada altura, nos prós e contras do livro: jogos de tabuleiro - um pouco silly (se fosse xadrez, sempre poderíamos perdoar o lugar-comum) mas de algum modo reconfortante; praia - bom, mas, por amor de Zeus, não as da costa espanhola; personagens sinistras de pele queimada - humm... Dan Brown não escreveu uma coisa parecida? E por aí fora, por entre uma namorada que não chega a existir enquanto personagem, dois espanhóis que são o cliché de qualquer coisa, uma dona de hotel teutónica que desperta sonhos adormecidos no jogador e vagas - e óbvias - analogias à 2ª Guerra Mundial. Também há sonhos contados minuciosamente, que deve ser uma das coisas mais aborrecidas que nos podem acontecer, tanto na vida real como na literatura (Duarte Calvão explica melhor), e uma técnica narrativa comum a muitos estudantes de escrita criativa, a narrativa na primeira pessoa em forma de diário (isto não é um elogio). E o estilo, claro, o estilo, ausente, zero, sem uma metáfora marcante ou uma frase cantante, estilo seco, tão seco como um pau no deserto ou a pele do Queimado (juro que Bolaño usa, algures, esta imagem), e não falo do estilo de um Hemingway, lacónico e certeiro, ou de um qualquer escritor de policiais hardboiled - nestes casos, a simplicidade da linguagem visa um objectivo que acaba por ser concretizado. Em Bolaño, há várias tentativas de embelezar o texto que falham. A secura, parece-me, é o resultado da rapidez de escrita. Mas ler duzentas e tal páginas sem um brilho que seja, chegando ao fim sem perceber muito bem o propósito daquela narrativa - a tal referência aos "horrores" da 2ª Guerra Mundial, que, mais para a frente, se torna explícita, é a única segunda leitura que se pode fazer do romance - será pedir demasiado. E o resto?

Sendo assim, admito a minha derrota - concordando com o João Gonçalves e discordando de meio mundo, incluindo gente que muito prezo. Não avançarei pela noite escura de 2666. A perda irreparável, se quiserem, fica apenas comigo. Ninguém é perfeito.
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