João Miranda costuma explicar-nos, através de máximas pedagógicas, como as leis do mercado determinam tudo. No entanto, há uma coisa que me escapa: João Miranda escreve no Blasfémias sem receber nada em troca, para ser lido gratuitamente. Para justificar este estranho fenómeno do mercado, só há três hipóteses:
1 – Havendo várias pessoas que recebem para escrever, concluímos que João Miranda tem valor de mercado nulo. João Miranda é um fenómeno antieconómico que sobrevive por um processo de voluntarismo socializante.
2 – Os textos de João Miranda não têm valor de mercado nulo mas podem ser fornecidos gratuitamente porque são de alguma forma subsidiados. Escrevendo João Miranda de borla, e sendo, no entanto, o tempo e o talento bens escassos, outro tipo de actividades profissionais de João Miranda pagam esta sua escrita, sem que isso tenha qualquer beneficio para quem lhe paga. Ou seja, João Miranda fornece por custo zero porque alguém, que não os seus consumidores, paga esse custo. Se João Miranda trabalhar para o Estado, então concluímos que o subsidio é público. Seja como for, João Miranda é um fenómeno de distorção do mercado.
3 – João Miranda está a tentar valorizar a sua opinião, para que possa vir a rentabiliza-la. Os seus textos são um investimento.
O meu caso (ou de
Helena Matos,
Rui Tavares ou
Pacheco Pereira) é absolutamente diferente. Escrevemos noutros lugares e os rendimentos recbidos permitem escrever gratuitamente em blogues. Poderá dizer-se que fazemos aqui concorrência aos produtos que o “Expresso” e o “Público” nos compraram para vender. Mas também podemos dizer que ao fornecer gratuitamente produtos similares aos que comercializamos estamos a criar novos mercados para os nossos produtos. É aceitável, do ponto de vista das regras do jogo. Mas João Miranda não está no mercado. Não vende produtos. A sua situação só é compreensível se a terceira hipótese for verdadeira. Se assim não for, ou rentabiliza o seu blogue ou revê todos os seus princípios.
PS – Esta distorção de mercado é extensível a todos os neo-liberais que gratuitamente escrevem em blogues.