Segunda-feira, 9 de Outubro de 2006
por Daniel Oliveira
Ontem vi uma reportagem rara na SIC (“A Primeira Escola”, de Miriam Alves). Falava mesmo da escola. Não, não falava da violência em algumas escolas mais complicadas. Não, não falava dos professores e do Estatuto da Carreira Docente. Não, não falava da ignorância dos alunos. Falava de uma coisa rara: daquilo para que serve a escola. Para aprender e para gostar de aprender. Do ensino, das técnicas de ensino, do que é e do que foi a sala de aulas nos últimos duzentos anos. Entrevistavam Nuno Crato, claro. Mas, pela primeira vez, não ficavam por aí. Ouvíamos o contraponto de gente do Movimento Escola Moderna que nos recordava que a escola, ao contrario de quase tudo o resto, pouco mudou, no essencial, no último século. E falava das técnicas para o ensino da escrita e da leitura. É reconfortante ver alguém a dar-se ao trabalho de ir para lá do homem que mordeu o cão, do folclórico e do chocante. Como pai, é aquilo que mais me interessa.

Mas uma reportagem de televisão é pouco. Porque o meio não favorece a profundidade. Falta em Portugal um debate a sério sobre educação, para lá do sindicalismo docente e das frases bombásticas de Fátima Bonifácio, Maria Filomena Mónica e António Barreto. A esquerda tem de discutir a escola. Não se ficar pela dignidade dos professores (que não é um pormenor) e dos seus problemas profissionais. Discutir a escola pública e responder à avalanche ideológica conservadora que inunda os jornais, dos opinadores às prioridades editoriais. Perder o combate da escola é perder décadas de conquistas civilizacionais.

Para começar aqui uma discussão, gostava de receber opiniões, para as publicar e entrar em debate. Venham os contributos para danielo arroba natcabo ponto pt.

por Daniel Oliveira
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9 comentários:
Caro Daniel,
acho que pode ser um debate interessante e em breve escreverei sobre o assunto. De qualquer forma aqui deixo um link do blog do André Levy que resume 15 anos de política de educação:

http://jangada-de-pedra.blogspot.com/2006/09/propinas-no-emprstimos-tambm-no.html (http://jangada-de-pedra.blogspot.com/2006/09/propinas-no-emprstimos-tambm-no.html)

deixado a 15/10/06 às 13:35
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Também vi esta reportagem, a qual achei muito boa. O tema, tal como o Daniel refere, trata do mais fundamental na educação, os temas leccionados e a forma como o fazem. 3 maneiras distintas de trabalhar: a tradicional, a moderna e a privada/elitista. Pareceu-me a mim que é indispensável + formação para os professores do 1º Ciclo, e acima de tudo regras mais claras sobre a forma como queremos que os nosso alunos cresçam ...

deixado a 11/10/06 às 15:14
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António
Povavelmente pode começar pelo debate sobre como se aprende, aproveitar o conhecimento de quem investiga na área, era interessante trazer para a discussão o conhecimento e não os "acho que" de todos os dias.

deixado a 11/10/06 às 11:37
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Budapeste
O Movimento da Escola Moderna há um século que diz a mesma coisa...

Mas as generalizações de escolinhas de elite, quando chegam à realidade das nossas escolas nunca funcionam...

São como o Rousseau que escrevia sobre (contra-)educação para compensar ter abandonado os filhos TODOS num orfanato...

Muita parra e pouca uva...

deixado a 10/10/06 às 22:34
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No Sábado passado, com o puto ao colo, assisti ao programa SMS, da Serenela Andrade, na RTPI. Trata-se de um concurso anódino, sem grandes pretensões culturais, como todos os concursos da televisão portuguesa. No entanto, neste caso os concorrentes são alunas e alunos do Secundário, aí pelo 9°. ano. Para além disso, são alunos que passaram por um processo de selecção, escolhidos por entre aqueles que tiveram melhor rendimento escolar no ano anterior.
Agora vem a anedota: Na primeira pergunta de Geografia, pretende-se saber em que distrito fica Matosinhos. Resposta do concorrente, após aturada reflexão: “Fica no distrito de Bragança”.
Em seguida, passa-se para a segunda pergunta de Geografia: “Em que distrito fica Mirandela”. E o concorrente da outra equipa responde: “No Alentejo”!...
De quem é a culpa, não sei. Mas que algo está mal no sistema...

deixado a 10/10/06 às 21:09
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LCastelo
Sugiro uma visita ás novas técnicas implementadas no Reino Unido como por exemplo a escola interactiva, o desaparecimento dos quadro de ardósia, a substituição dos manuais por CDROM’s.
Pegar nos rankings e dotar as escolas do fim da tabela com as melhores condições materiais e humanas, e começar a observar os resultados ano após ano.
Perceber o que se passa com os manuais escolares (em particular os do 1º ciclo que chegam a assustar de tão maus que são) e eu até pude escolher aquela que acho ser uma boa escola para os meus filhos, por isso nem imagino que manuais não circularão pelas restantes escolas do país.
Enfim ideias não faltam………..

deixado a 10/10/06 às 17:37
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para começar a discussão envio-te este texto que foi em tempos publicado no meu blogue


"Ensino privado ou ensino público: o lugar da esquerda

Existem pessoas que julgam que ser de esquerda é uma espécie de fetichismo do que é público. Essas pessoas põem em causa modelos educativos que passem fundamentalmente por um sistema de ensino privado subsidiado pelo Estado chamando-lhes nomeadamente modelos neoliberais. Penso que neoliberalismo é sobretudo os ricos poderem frequentar boas escolas estando reservadas aos pobres as escolas (públicas) em que os professores, na sua maioria, não se sentem minimamente motivados para trabalhar porque se consideram detentores de uma espécie de renda mensal que nada tem a ver com o seu trabalho.

O fetichismo com a escola pública trata-se de facto de um pseudo-esquerdismo. Porque razão actualmente todos estamos de acordo (mesmo a esquerda mais radical) que a economia de mercado, desde que devidamente regulada, é um excelente instrumento de realização da liberdade e que conduz à produção de bens e serviços de elevada qualidade e baixo preço e, depois, abrimos uma excepção precisamente para a área em que a qualidade mais necessária é, isto é, na formação das gerações futuras?

A moral deve regular a economia. Os fracos devem ser protegidos. A riqueza deve ser distribuída pois todos os homens têm igual dignidade e uma mesma boca para comer. Por isso, o Estado deve utilizar todas as vias ao seu dispôr para uma tendencial igualdade de recursos à disposição de todas as pessoas, segundo as necessidades de cada uma.

Mas esta moral igualitária que deve presidir à actuação do Estado nas áreas económicas e sociais nada tem a ver com uma moral de "protecção do ensino público" de per se. Os interesses dos sectores mais pobres da população não são necessáriamente, bem pelo contrário, os interesses da camada que vive à sombra da "escola pública".

O Estado deve exercer um papel de regulador, de garante e de financiador no sistema educativo do mesmo modo que o deve fazer no resto da sociedade: de modo a assegurar a igualdade de oportunidades (e não só de oportunidades mas também na qualidade e quantidade dos recursos disponíveis) e a combater as desigualdades resultantes de mecanismos automáticos do funcionamento dos sistemas sociais em que a procura e a oferta funcionam livremente.

O Estado, no seu papel de regulador, no seu papel de controlo, e no seu papel de financiador, deverá intervir num modelo de ensino baseado em escolas privadas de modo a assegurar o acesso do ensino a todas as classes sociais em igualdade de circunstâncias e a uniformidade na transmissão de conhecimentos e valores (uniformidade esta necessária para assegurar a coesão social de um povo).

Como, em concreto?

Em primeiro lugar, o Estado deve legislar (regular) – e garantir a aplicação dessa legislação – sobre o nível e tipo dos conhecimentos e dos valores a transmitir pelas escolas, em termos de qualidade e de quantidade desses conhecimentos e valores.

Segundo, o Estado, no seu papel de financiador, deverá fornecer um cheque-educação a todas as famílias, cheque este que cada família poderá utilizar na escola que quiser e sempre de modo a garantir a gratuitidade total do ensino.

Terceiro, o Estado deve garantir o acesso de todos os alunos a todas e cada uma das escolas de um modo tal que as escolas não possam seleccionar os alunos que elas querem. Eventualmente com a existência de critérios, aleatórios ou impostos pelo Estado, que obriguem as escolas a respeitar exigências de diversidade, de nível intelectual, inter-geográficas, inter-étnicas, inter-classistas, etc. Isto para impedir que as boas escolas invoquem um reduzido número de vagas relativamente à procura para só aceitarem alunos de muito bom nível, cavando-se assim cada vez mais um fosso classista na educação. Uma selecção absolutamente aleatória imposta pelo Estado parece-me a priori que seria o melhor método.

Todas as escolas teriam assim alunos de vários níveis intelectuais, de várias classes e de várias proveniências. E assim seria possível aferir de um modo inteiramente objectivo (porque não dependente de uma distorção do nível dos alunos) as boas escolas. As boas escolas seriam aquelas que, exactamente com a mesma matéria-prima das outras, conseguissem um melhor produto final.

Um dos obstáculos levantados pelos defensores do modelo de ensino público (o de que um modelo baseado em escolas privadas tenderia a cavar o fosso entre as classes) cairia assim pela base.

Relativamente ao outro obstáculo levantado pelos defensores do modelo de ensino público relativamente a um modelo de ensino baseado em escolas privadas, o seu financiamento, também já aqui respondi: seria inteiramente pago pelo Estado (como já é agora no ensino público) pois as despesas de educação nas escolas privadas seriam pagas com um cheque-educação fornecido pelo Estado (que corresponderia grosso modo à despesa pública na educação actualmente efectuada no ensino público).

Resta um último obstáculo que os defensores do modelo de ensino público costumam levantar relativamente a um modelo de ensino baseado em escolas privadas: como evitar que as escolas privadas ensinem aquilo que lhes der na real gana com os consequentes riscos de desintegração social e cultural?

Como disse anteriormente, os valores e os conhecimentos transmitidos nas escolas privadas terão que ser (pelo menos em grande parte) os aprovados pelo Estado, pois este exerce o seu poder de aculturação e socialização mínimas decorrentes da existência do homem em sociedade, numa comunidade portanto, com a legitimidade democrática que mais nenhuma instituição possui.

Os programas de ensino terão portanto que ser aprovados pelo Estado e o nível da transmissão, em termos qualitativos e quantitativos, dos conhecimentos e dos valores (constantes dos programas de ensino) deverá também estar submetida ao controlo do Estado.

Neste sistema parece-me que desaparecem todos os inconvenientes normalmente apontados pelos defensores do modelo de ensino público relativamente a um modelo de ensino baseado em escolas privadas."

deixado a 10/10/06 às 12:23
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Dentro do mesmo tema, vejam http://educacaocor-de-rosa.blogspot.com/2006/10/os-alunos-esto-cada-vez-mais-arrogantes.html (http://educacaocor-de-rosa.blogspot.com/2006/10/os-alunos-esto-cada-vez-mais-arrogantes.html)
obrigado e boa continuação... para o arrastão!

deixado a 9/10/06 às 22:11
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Renato Teixeira
www.raivosos.blogspot.com

Gostei muito do trabalho da Jornalista em causa, especialmente na reportagem que tratou da fabrica em Arcos de Valdevez.

Este último, da escola, tinha um defeito terrivel.

Não saiu das escolinhas de cara lavada, não foi aos pré fabricados, nem aos "galinheiros".

Essas andam a fechar, ou, na agonia inquietante a que tudo neste país está sujeito, fora das grandes cidades, andam a definhar.

Aquelas crianças, não são as crianças que temos!

Foi uma reportagem sobre alguma escola, não foi uma reportagem sobre a escola que temos.

deixado a 9/10/06 às 15:27
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