
No seu artigo no jornal Sol, Paulo Portas indignou-se este fim-de-semana contra Hugo Chávez. Diz que «quer ser um presidente vitalício» e que é «um ditador anunciado e só não vê quem não quer». Que «prende opositores» e «fecha televisões». Fico contente por os direitos humanos e o combate às ditaduras terem ganho, em tão pouco tempo, um novo defensor. Passo a explicar:
Como saberão, na Tunísia, a liberdade de expressão e associação são uma miragem, vários membros da União dos Jornalistas Tunisinos são regularmente intimidados e presos pela polícia. Centenas de pessoas estão presas por delito de opinião, algumas há mais de 14 anos. Há relatos de tortura nas prisões. Os activistas das organizações de defesa dos direitos humanos e da oposição são presos e espancados. Não há independência do sistema judicial, apesar dos repetidos protestos de advogados e defensores dos direitos civis, que pagam pela sua ousadia. Depois de 22 anos de poder, garantidos por farsas eleitorais, um referendo a uma emenda constitucional acabou com a limitação de mandatos para o senhor Ben Ali. Podem ler os relatórios da
Amnistia Internacional e dos
Repórteres Sem Fronteiras.

Quem esteve, uns dias antes de escrever o seu artigo no “Sol”, no Congresso da União “Democrática” Constitucional, dirigida com mão de ferro pelo senhor Ben Ali?
Nada mais nada menos do que Paulo Portas, que não gosta de referendos a emendas constitucionais que acabem com limites de mandatos se forem na Venezuela, mas não o incomodam se forem na Tunísia, que não gosta que se encerrem televisões na Venezuela, mas a prisão de jornalistas na Tunísia não merecem o seu incómodo, que se indigna com futuros ditadores mas aplaude ditadores de longa data. Paulo Portas tem pouco critério na sua indignações e nenhuma autoridade. Não se limitou a ficar calado. Esteve lá, no Congresso do partido do ditador.
