Quarta-feira, 21 de Julho de 2010
por João Rodrigues


A lógica da disciplina é o movimento de transformação institucional, assente, como sempre, numa combinação de ideias e de interesses, que tendeu a remover da esfera democrática áreas cruciais da pilotagem das economias capitalistas nas últimas décadas – da regulação dos mercados à política monetária. Estas foram crescentemente entregues a novas entidades protegidas do escrutínio democrático por uma ordem jurídica idealmente blindada pela imaginação de economistas e de juristas: os guardiães da ordem neoliberal em construção política.

O BCE é um dos melhores exemplos deste processo. Mandatos de oito anos e nenhuma interferência democrática formal nas decisões políticas que dizem respeito a uma das dimensões mais importantes da soberania – a moeda. A subordinação da política monetária aos interesses e às urgências do capital financeiro, a contrapartida da "independência" política, parece agora natural. Imaginem que as decisões de política orçamental, das receitas às despesas, iam pelo mesmo caminho. A que ficaria reduzida a democracia? Pois, a pouco. E não é que foram…

O florescimento das forças do mercado global só é compatível com uma democracia cada vez mais limitada no seu alcance. Uma democracia limitada por uma arquitectura de governo conforme com a ameaça permanente da fuga de capitais, esta última só possível devido a um aturado trabalho de abolição de todos os controlos. A selectiva impotência dos governos constrói-se.

Estes arranjos só contribuíram para gerar maiores desigualdades socioeconómicas, acumulação de rendas e de crises financeiras, elevados níveis de desemprego: uma crise de distribuição, em suma. Um novo impulso democrático e igualitário pode dar origem, na esteira de Karl Polanyi, a novos "contra-movimentos" de protecção  face à insustentabilidade desta ordem económica. Só assim se pode abrir espaço a uma outra arquitectura de governo e à hipótese de uma correspondente reconstrução das economias capitalistas, tornando-as democraticamente mais impuras. Contra a lógica da disciplina, a lógica da democracia. O impulso, é claro, pode bem ser outro…

por João Rodrigues
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Como já começou a passar do alinhavo ao pesponto, tentarei ludibriar um pouco a atenção de um vigiliante implacável (chamado relógio), para lhe esclarecer algumas imprecisões:

- não fiz julgamentos sobre ninguém; repare que eu uso o pronome indefinido "quem", referindo-me a quem pensa de certa maneira, em termos políticos, não formulando qualquer juízo de valor sobre quem conduz, ou interfere (ou se abstém de influenciar ou criticar), as chamadas políticas monetárias (está a cumprir o seu papel, não tem que ser alvo de juízos éticos ou morais);


- muito menos o procurei "ofender" a si, já que no final do meu comentário estava a dirigir-me especialmente aos que, como eu, têm uma visão de Esquerda e que, na minha óptica, parecem estar como que "adormecidos", políticamente, desde o surgimento da designada "Terceira Via" (é todo um outro debate que agora não é oportuno...);


- ao contrário do que afirma, a Poesia de José Gomes-Ferreira nada tem de lirismo e o verso que cito pertence até ao poema «Acordai!», que é muito mais épico do que lírico (tendo sido musicado por Fernando Lopes-Graça e incluído num ciclo de Canções denominadas, precisamente, "Heróicas").


Resumindo, a minha crítica ao seu comentário não era mais do que um pretexto para esboçar uma crítica à desatenção da Esquerda europeia, como me parece ter ficado claro. E nem me parece que Keynes se sentisse "ofendido" por ser associado a Marx neste contexto, como igualmente Marx não se sentiria decerto ultrajado por eu o misturar com um "utópico" como Rousseau. Haja alguma liberdade poética numa discussão sobre monetarismo...

deixado a 23/7/10 às 10:55
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