Terça-feira, 3 de Agosto de 2010
por João Rodrigues


Ontem ficámos a saber, através de João Ramos de Almeida do Público, que a eficácia do combate à evasão fiscal das empresas tem estado estagnada nas últimas duas décadas (apenas 36% das empresas declaram ter proveitos para efeitos de IRC). No mesmo dia, o novo gestor do PSD de Passo Coelho, Pedro Reis, deu uma esclarecedora entrevista ao i: "Os salários e os impostos estão 15% acima do que deviam". Já não há paciência para esta fraude económica travestida de utopia constitucional.

No entanto, como a fraude se repete volto ao tema dos salários. Os nossos bem remunerados gestores, sempre acima da média europeia, olham para o umbigo e falam como se tivesse ocorrido um regabofe salarial generalizado em Portugal. Na realidade, o crescimento da produtividade tem estado mais ou menos alinhado com o crescimento dos salários reais em Portugal (mais para o menos, em termos médios…). Entre 2004 e 2008, os salários reais aumentaram 0,3% ao ano em Portugal, abaixo da média da União Europeia (2,2%).  Como indica o Ricardo Paes Mamede neste contributo, desde 1995 que "os salários reais por empregado cresceram abaixo da produtividade, levando a uma estagnação do peso dos salários no rendimento nacional, apesar do aumento do emprego total durante o período" (p. 18). 

O argumento dos liberais costuma centrar-se nos chamados custos unitários do trabalho nominais (relação entre crescimento dos salários, em termos nominais, e o crescimento da produtividade). Eu e o Nuno Teles já argumentámos que este é indicador é enganador. No entanto, mesmo se o usarmos, e seguindo uma das últimas intervenções do insuspeito Vítor Constâncio (p. 37), veremos que os CUT nominais têm sido revistos em baixa. Isto leva o liberal Constâncio a afirmar que a “competitividade custos” não explica a nossa frágil posição externa (p. 49). João Ferreira do Amaral já tinha indicado o mesmo num importante artigo: “a proposta de redução salarial no sentido de melhorar a competitividade não tem qualquer fundamento técnico-económico sólido e revela que quem a sugere não fez um mínimo de cálculos sérios sobre o assunto.” Um dos problemas dos nossos liberais é não ligarem muito a certos números…

É claro que os nossos liberais continuam a falar em “flexibilizar o mercado de trabalho”. A palavra flexibilização é uma peça da fraude conveniente em que se transformou uma certa economia. Isto e a política económica recessiva com escala europeia, que mantém o desemprego nos dois dígitos, à pala da suposta preocupação com as finanças públicas, pretendem assegurar um dos objectivos centrais da nossa lumpemburguesia e dos seus representantes: os trabalhadores, os seus salários e condições de trabalho, que paguem a crise. Doses adicionais de medo e de despotismo patronal. Alguém acredita que uma economia civilizada, que motive quem trabalha, pode ser baseada nestes dois ingredientes?

por João Rodrigues
link do post | comentar | partilhar

13 comentários:
GESTRUNDINO MALAQUIAS DO COIRO CALHAU
João Rodrigues,

O Mundo ideal é aquele em que se trabalhe pouco e ganhamos muito.

Não é isso que acontece em Portugal onde o número de horas trabalhadas está entre os maiores da Europa.

O problema está na produtividade.

E isso deve lançar de imediato a desconfiança sobre a qualidade da liderança empresarial em Portugal que é em regra de qualidade fraquíssima.

É fundamental lançar um programa de formação de empresários em grande escala pago pelo Orçamento de Estado.

Não é mens verdade que os salários na função publica devem descer em tarefas que não estejam relacionadas com a saúde.

Os serviços que produzem estão a ser sobre-pagos.

É fundamental criar incentivos para que se trabalhe e se crie empresas no sector privado.

Vamos a criar músculo no sector privado começando pela qualidade dos empresários....que é muito fraca para as necessidades de competitividade externa de Portugal.

deixado a 3/8/10 às 11:12
link | responder a comentário

Cross
Fui ler a entrevista do dito cujo ao Público e o que se me oferece dizer, para além das ideias (velhas e fedorentas ideias) que o entrevistado veicula nessa entrevista é que há um trabalho a desenvolver pela esquerda portuguesa nos próximos tempos: informar com objectividade e clareza o povo do que estes tipos mais à direita no centrão se preparam para fazer caso acedam ao poder.
O povo tem que estar ciente de que, com esta gente no poder, o poder de compra dos salários vai diminuir, o desemprego tenderá a aumentar, o serviço nacional de saúde será desmantelado e a escola pública bombardeada até à destruição completa.
O povo tem que acreditar que é o que eles farão, mesmo que jurem o contrário antes das eleições.
O povo tem que saber que o que esta gente propõe é um caminho que potencia a acumulação ainda mais fácil de capital por parte de quem já tem muito em detrimento de quem com tão pouco vive, já hoje.
O povo tem que saber que, ao contrário dos bons exemplos de economia mista que acontecem pela Europa (vulgo Escandinávia) e pelo resto do Mundo esta gente quer seguir os exemplos mais acabados daquele selvagem capitalismo que, por exemplo, nos trouxe à dramática situação em que vivemos actualmente(situação de crise criada pelos ricos, cuja factura está a ser paga pelos pobres).
Não têm vergonha os indivíduos, como este entrevistado, de defenderem publicamente este caminho: CAMINHO DO APROFUNDAMENTO DA EXPLORAÇÃO DOS POBRES EM FAVOR DOS MAIS RICOS.
Bardamerdas
Saudações
Cross

deixado a 3/8/10 às 12:16
link | responder a comentário

[...] Visit link: Arrastão: Quais são as razões atendíveis para a fraude económica? [...]

deixado a 3/8/10 às 15:14
link | responder a comentário

Daniel
Caro João Rodrigues,

só esqueceu uma coisa, ou também sofre da mesma doença "ligar muito a certos números…":

dos 64% que não pagam IRC, a maioria é porque não tem dinheiro para pagar devido a crise e arrastar de pés da economia.

Por outro lado, se existem tantas duvidas no sistema de IRC podiam repensar o sistema e aplicar uma taxa directa como se fazia na 1ª republica: o barbeiro tem 4 cadeiras paga x, o taxista tem 3 carros paga Y, etc. Talvez seja uma medida mais honesta, justa e equitativa.

Cumprimentos.

deixado a 3/8/10 às 16:13
link | responder a comentário

Marques Vieira
Caro Sr. Rodrigues

Pode continuar a discorrer contra os "bem renumerados gestores sempre acima da média europeia" e contra os neoliberais (ainda estou para saber o que é que isto quer dizer) o tempo que quiser, mas o facto é que esse discurso continuará a ser aborrecidamente inúcuo. O diagnóstico está cá para quem o quiser ver:

Temos este problema (http://media.economist.com/images/images-magazine/2010/17/eu/201017euc357.gif)

Provocado em grandíssima medida por isto
(http://en.wikipedia.org/wiki/File:OECD_Productivity_levels_2007.svg)

Portugal não é competitivo não porque os salários são baixos mas sim porque o trabalho não é produtivo. Logicamente a chave está em fomentar a produtiva e aí há imensa margem para divergir quanto aos instrumentos a utilizar para isso.

Chega de cassetes por favor o prec já foi há quarenta anos.

deixado a 3/8/10 às 16:28
link | responder a comentário

Alexandre Carvalho da Silveira
Sr João Rodrigues: explique-nos por favor, se fosse o Sr a mandar, como é que fazia para desenvolver este pobre país.
35 anos de Democracia ( burguesa, é verdade) deveriam ter sido suficientes para chegarmos a niveis de riqueza colectiva, e de bem estar social que os paises europeus usufruem há decadas.
Ainda não consegui perceber o que é que falhou.

deixado a 3/8/10 às 16:38
link | responder a comentário

Cross
#5

Só para te dizer que está na cara o que falhou!

Se foram sempre os mesmos a mandar nestes últimos 35 anos (PSD e PS) e se, por outro lado, os trabalhadores portugueses são desejados e estimados por todo o mundo onde trabalham, o que falha aqui é a qualidade de quem na política e nas instituições (patronais, judiciais...) tem revelado uma trágica incompetência.
:)
Saudações
Cross

deixado a 3/8/10 às 17:39
link | responder a comentário

GESTRUNDINO MALAQUIAS DO COIRO CALHAU
Dou uma mão ao Rodrigues em jeito de resposta a si Alexandres:

- Justiça de ferro e eficiente.

- Fortissima aposta na Marca Portugal como potencidor de crescimento económico e captação de turismo.

- Aposta fortíssima em tudo o que possa estar ligado ao mar.

- Combate fortíssimo à corrupção com penas pesadíssimas.

- Educação de rigor alto com forte carácter internacional.

- FORMAÇÃO DE E DOS EMPRESÁRIOS DESTE PAÍS.

- Redução para o limite minimo dos deputados e de coadjuvantes no governo.

- Aposta na natalidade.

E podíamos continuar aqui a noite toda...nada disto foi feito...cumprimentos para a saúde que foi uma excelente aquisição desta democracia.

deixado a 3/8/10 às 18:34
link | responder a comentário

Daniel
Caro Couro Calhau,

concordo com a totalidade dos pontos que mencionou, contudo esqueceu-se do cancro que corroí tudo o que defende: combate à oligarquia.

deixado a 3/8/10 às 23:05
link | responder a comentário

Leonel Nogueira
isto são apenas expedientes de matreirice de economistas para dispersar as atenções do que realmente causou a crise, criando falsos remendos.
na cultura que temos de bater no ceguinho fica sempre bem falar mal do funcionário público ou tirar no salário da senhora da limpeza e esse é um subterfúgio sabiamente usado por economistas/políticos atarantados.

se apenas 36% declaram lucro é porque se calhar as restantes são empresas em regime de subsistência, sem dimensão ou em vias de fechar as portas.(o sr onde tomo o café de manhã não está a ostentar riqueza.)

os salários estarem 15% acima do que deveriam também é uma falsa questão para esconder a falta de capacidade para uma eficaz distribuição de riqueza.

estes srs que fazem estas contas vivem numa realidade aparte pois não lhes passa pela ideia o que possa ser viver a pão e laranja. (esta é a geração toranja que vive na ilusão que sabe o que é uma laranja)

penso que só generalizando uma cultura em prol da qualidade com certificação de bens serviços mecanismos, uma melhoria dos processos com apoio de auditorias consultadorias e e afins pode levar a bom termo as listas do Sr. CALHAU. eu sou daqueles que gostaria de ver um governo com Qualidade certificada. (e com políticos a full time e tudo)... enfim um governo que seja bom exemplo (bom pagador etc).

o problema da dimensão das empresas terá de ser resolvido trabalhando e generalizando sinergias de corporativismo e criação canais de cooperação estratégicas com universidades e institutos (...quiçá também com os malfadados funcionários públicos).

deixado a 3/8/10 às 23:59
link | responder a comentário

Comentar post

pesquisa
 
TV Arrastão
Campanha
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador