Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
por Arrastão
Como já aconteceu noutros momentos, pedimos a uma pessoa externa ao blogue uma contribuição para o debate. No caso, sobre as eleições que hoje se realizam em Moçambique. Paulo Granjo é antropólogo, investigador do ICS e professor. Passa longas temporadas naquele país. Tem um blogue e muito trabalho de campo em Moçambique, o que lhe dá um especial conhecimento da realidade política e social moçambicana. Aqui fica então um texto de um observador privilegiado que pode ajudar a compreender o que está em causa nas eleições de hoje. A ilustração é do Pedro Vieira


© rabiscos vieira



Moçambique vai hoje às urnas. Provavelmente, com bastante menos entusiasmo que iria há mês e meio atrás. A expectativa que então se sentia em Maputo e na Beira era, de facto, justificada.

Desde há 17 anos (com o fim da guerra civil e a substituição de um regime que se considerava socialista pelo multipartidarismo e políticas neo-liberais) que as muitas mudanças ocorridas são sentidas como “mais do mesmo”.

A oligarquia governativa não se alterou, criando algo que nem as mais caricaturais visões de Marx puderam imaginar. O Estado não é "o conselho de administração delegado da burguesia", mas o próprio posto de trabalho dos maiores empresários – que o são porque já ocupavam o poder, e que o ocupavam por terem ajudado a conquistar a independência.

Entretanto, o país tem mais ONGs registadas do que médicos, vive fundamentalmente da recirculação do dinheiro vindo do exterior (através das ONGs ou do Orçamento Geral do Estado, custeado na sua maioria por governos estrangeiros) e é enorme o contraste entre um Maputo com melhor parque automóvel que Lisboa e o resto do país, onde a 20Km de uma vila já não há nada para comprar.

Mas também a capital vive a duas velocidades, entre os restritos salários mais altos que na Europa e a ausência de empregos – que, a existirem, podem pagar entre 25 e 50 euros. Nos bairros populares, a maioria das famílias contam com alguém que revende, na rua, alguma coisa às restantes.

Contudo, o desagrado popular com uma elite político-económica que "come sozinha" e "não liga às nossas necessidades" não tem encontrado alternativas.

O peso parlamentar da Renamo foi-se paulatinamente erodindo ao longo das sucessivas eleições, em grande medida por não ser vista como alternativa a um governo de direita com retórica popular. Mas também por insistir num discurso agressivo, violento e revanchista, que desperta receios e memórias urbanas das barbáries da guerra civil que a opôs à Frelimo e que toda a gente quer sepultar no passado.

O sentimento popular (e dos políticos) de que ficaria sempre tudo na mesma foi, no entanto, abalado nas últimas eleições autárquicas. A reeleição de Deviz Simango – presidente do município da Beira que transformou uma das cidades mais sujas de África na mais limpa do país – foi vetada pela direcção da Renamo, devido a queixas de notáveis partidários locais, por ele lhes recusar favorecimentos ilegais. Recandidatou-se como independente e reforçou muito o seu resultado, também à custa de 17% das pessoas que votaram Frelimo para a Assembleia Municipal. Foi, para o cidadão comum, a Frelimo e a Renamo, a descoberta de que os votantes não são propriedade dos partidos e de que não há baluartes eleitoras eternos.

Desta dinâmica local veio a nascer um novo partido (MDM), que despertou um inusitado entusiasmo quer na frelimista Maputo (sobretudo entre os menos idosos e as classes médias emergentes), quer nas renamistas zonas rurais do centro do país. Mais curiosa ainda é a generalizada simpatia nas zonas pobres das cidades, mesmo entre os velhos votantes dos partidos tradicionais.

O que está em causa não são grandes opções ideológicas – que talvez o próprio MDM não tenha.
O conciliador e pacífico discurso de Deviz Simango centra-se na honestidade, na competência e na distribuição mais justa (em termos sociais e regionais) do dinheiro e meios que entram no país. Mas é isso que as pessoas querem ouvir. E é isso que não acreditariam, se fosse outra pessoa a dizer.

Com tudo isto, o MDM representou até há bem pouco a esperança real de uma alternativa àquilo que de mais desagradável as pessoas encontravam no governo e na oposição.

Entretanto, a actualização do recenseamento encontrou, nas zonas centro-norte, sistemáticas dificuldades técnicas a que foi poupada nas mais fortes zonas da Frelimo. Em seguida, a CNE excluiu o MDM de 9 dos 13 círculos eleitorais, num processo de contornos obscuros que suscitou queixas judiciais de extravio de documentos de legalização das candidaturas…

Há dois meses, discutia-se em Maputo a possibilidade bem real de que, roubando votos a ambos os lados, o MDM retirasse à Frelimo a maioria absoluta, forçando-a pela primeira vez a negociar a governação e revolucionando a vida política do país. Hoje em dia, sem que a esperança colocada num futuro mais longínquo pareça ter esmorecido, discute-se se a Frelimo não conseguirá os 2/3 que lhe permitiriam alterar sozinha a Constituição.

Texto de Paulo Granjo

por Arrastão
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43 comentários:
Xatoo:

A minha imprestável erudição não me parece, antes de mais, assim tão erudita.
Sei apenas aquilo que saberá qualquer pessoa interessada acerca do assunto, que goste de saber de que é que fala antes de falar e que não esteja para gastar neurónios a matutar acerca daquilo que não conhece.
E tem, pelo menos para mim, o préstimo que acabo de referir.

Quanto a não ter existido pacto com os capitalistas, até por estes não existirem, estava a referir-me, claro, a Moçambique.
Isso é evidente não só pela posição da frase no texto, como por ter referido no comentário anterior (como uma das diferenças entre os dois casos) que na África do Sul se mantiveram as mesmas estruturas capitalistas que já existiam durante o apartheid.

Mas é livre, claro está, de "afirmar" veementemente o que quiser, independentemente de factos ou argumentação que sustentem essas opiniões.
Afinal, como dizia o Dirty Harry do Eastwood, "opinions are like assholes; everibody has its own".


António Cunha:
O que lhe posso dizer é que a Frelimo abandonou formalmente o "marxismo-leninismo" em 1996, é membro da Internacional Socialista e aplica uma política governativa neo-liberal, liderada pelos empresários mais ricos do país.
Por alturas do 1º de Maio, o Marcelino dos Santos costuma fazer umas declarações acerca dos trabalhadores e da justiça social, mas os colegas não lhe levam a mal.

Quanto aos convites para a Festa do Avante ou aos encontros bilaterais, só lhe posso sugerir que pergunte ao PCP.

Meio a brincar, até pode ser que se trate de "encontros de velhos amigos"...
Afinal, entre os bons amigos moçambicanos que tenho e que convido para minha casa há vários quadros e militantes da Frelimo. Por vezes, divertimo-nos até, se não houver nada melhor para conversar na altura, a discutir este tipo de coisas.
E é verdade que, independentemente dos caminhos que cada partido seguiu, há por lá uma grande simpatia e respeito pelo PCP - devido precisamente às solidariedades anti-coloniais e anti-fascistas, que também são coisas fulcrais na vida daquelas pessoas e da Frelimo. A par de muito pragmatismo.
Tal como, da parte do PCP, talvez os afectos por movimentos de libertação que foram velhos companheiros de luta façam secundarizar as suas políticas actuais.
Não sei. É perguntar-lhes.

deixado a 30/10/09 às 15:59
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Leo
"Então pode-me explicar porque motivo foi convidado o partido FRELIMO para o Avante em 2006 ? E em 2009 ?" ???? Só? Nunca reparou que TODOS os antigos movimentos de libertação das ex-colónias são convidados TODOS os anos para as Festas do Avante? É que temos com eles uma amizade histórica, que vem de antes do 25 de Abril. E apesar de todos esses antigos movimentos pertencerem hoje à Internacional Socialista, mantemos as relações de amizade com todos eles. E é com gosto que os visitamos quando nos convidam. Nós também os convidamos para os nossos congressos e sempre para a Festa do Avante.

deixado a 30/10/09 às 16:16
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41 Paulo Granjo
Como me pareceu ter ficado implicito nos meus comentário anteriores, considero Moçambique um grão de areia incapaz de se escapar da lei da gravidade imposta na África Austral pela África do Sul; "nos finalmente" as coisas foram dar ao mesmo (o neoliberalismo) embora por caminhos um pouco diferentes; e o assassinato de Machel que põe termo em definitivo à tentativa de imposição da politica marxista acontece precisamente em território sul-africano. E depois há a adesão à Commonwealth...
posto isto,
"não ter existido pacto com os capitalistas, até por estes não existirem quando se estava a referir, claro, a Moçambique" aplicar-se-á igualmente aos dois paises, em todo o caso, se dúvidas houver, deixo duas perguntas: se não havia capitalistas com quem se entenderam e quem vendeu armas e financiou a Renamo para desencadear a guerra civil?
E não haveria também capitalistas na partilha do poder quando decidiram sentar-se à mesma mesa e pôr fim ao conflito?
Não me diga que não reconheceu aqui o principio de uma bela amizade, como dizia o Ricky ao policia francês de Casablanca?

deixado a 31/10/09 às 01:06
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