Segunda-feira, 6 de Maio de 2013
por Daniel Oliveira

 

Seguindo a ordem inversa dos acontecimentos, tratarei hoje do discurso de Paulo Portas ao País e guardarei para amanhã a análise do novo pacote de austeridade apresentado por Passos Coelho.

 

Paulo Portas tem numa unha mais inteligência política que Pedro Passos Coelho no corpo inteiro. E um dos principais sinais de inteligência que um político pode demonstrar é não subestimar os cidadãos. Porque não é parvo, Portas, ao contrário do verdíssimo Passos, não nos toma a nós por parvos. Não tentou, por isso, vender este pacote como se fosse uma reforma do Estado que, obviamente, não é. Nem, com exceção de uma ou de outra medida, como uma imposição de soluções mais justas para o conjunto da sociedade.

 

Portas assumiu, sem grandes rodeios, que ele resulta da simples necessidade de apresentar qualquer coisa que permita uma sétima avaliação da troika positiva. Na esperança de ganhar tempo para uma mudança na Europa, que, no seu otimismo, permita uma alteração de metas e de políticas. Uma mudança que ninguém vislumbra mas que ele acredita que o descontentamento em vários países (mas não no nosso) conseguirá.

 

Esta é a primeira vantagem de Portas sobre Gaspar e Passos. Não assume o discurso da troika. Pelo contrário, critica-o. Não assume a narrativa alemã desta crise. Pelo contrário, avisa para os seus perigos. Não se assume, numa posição de vergonhosa subserviência e até falta de patriotismo que caracterizam os discursos de Gaspar e Passos, como representante da troika juntos dos portugueses. Pelo contrário, tenta, aos olhos do País, surgir como representante dos portugueses junto da troika.

 

Uma das coisas que se percebe no seu discurso é que, ao contrário de Gaspar e Passos (e a ordem de poder é esta), Portas sabe que esta receita não nos retirará da crise. Tende, pelo contrário, a aprofundá-la. Apesar de ser inconsequente, Portas até introduziu no seu discurso a ideia de que se bateu por medidas "menos recessivas" e não por medidas de crescimento. E deu-se ao luxo de dizer que quer ver "esses senhores" (da troika) o mais depressa possível fora de Portugal. Introduzindo no governo um vocabulário que trata os representantes do FMI, BCE e Comissão Europeia, não como nossos aliados, mas como um problema. Bem distante das palavras de Passos, que disse que não podemos querer que a Europa continue a estar disponível para resolver os problemas que nós criamos.

 

Do ponto de vista formal, a intervenção de Portas seria, se tivesse alguma consequência prática, digna de um estadista. De um estadista de direita, claro. Mas de alguém que não se presta, com as devidas distâncias que as metáforas permitem, a comportar-se como uma versão nacional de Pétain.

 

Para, perante mais um violentíssimo pacote de austeridade que lançará o País ainda mais depressa para o abismo (disso tratarei amanhã), poder sustentar este discurso, Portas construiu para si próprio um conveniente papel nesta trama. Como nos interrogatórios policiais, ele, na companhia de alguns ministros do PSD, seria o polícia bom. Aquele que nos explica que o seu companheiro de coligação é irascível e violento e que, se mostrarmos abertura para ceder, lá estará ele para aliviar o nosso sofrimento.

 

E foi exaustivo na enumeração dos seus préstimos. Sem ele, a idade de reforma seria aos 67 anos (coisa que, apesar de ser da responsabilidade de um ministro do CDS, terá sabido pelos jornais). Sem ele, haveria muito mais despedimentos. No meio, quis, numa cambalhota lógica, explicar que estes poderiam ser bons para a criação de emprego, argumentar que aconteceriam num momento melhor do nosso mercado de trabalho e fingir que acredita que o "mútuo acordo" não se fará por via da chantagem da perda progressiva de salário. Mas a sua participação nesta desgraça é benigna.

 

Sobre o que evidentemente não poderia ser pior, atirou para o PS e para a UGT a responsabilidade de conseguir o que ele não conseguiu. A estratégia do "polícia bom" no seu esplendor: tu cedes, eu ajudo e ele poupa-te.

 

Até que chegou à contribuição extraordinária de sustentabilidade, um imposto escondido, permanente e cumulativo com outros entretanto criados. Portas até recordou o nome com que alguns a batizaram: "a TSU dos reformados e pensionistas". É esta nova taxa que o impede de completar, sem cair no ridículo, a ideia de que sem ele até seria pior. Em vez de cortes na despesa, teríamos mais impostos, diria ele sem esta medida. E, ainda por cima, é um imposto sobre os reformados, onde grande parte da base eleitoral do CDS se encontra.

 

Porque não se fazem milagres, Portas foi, chegado aqui, menos eficaz na retórica. Chutou para a frente. Dizendo, basicamente, que é matéria não fechada que pode ser substituída por outras fontes de rendimento. Ou seja, que a guerra ainda não acabou. Como tem sido evidente para todos, Portas perdeu todas as batalhas no interior do governo. Nada consegue contra o todo-poderoso Vítor Gaspar. Resta-lhe, por isso, dizer aos portugueses que tudo tentou e vai continuar a tentar. E esperar assim ter as vantagens de estar no governo e na oposição.

 

Portas terminou a sua comunicação com uma tirada mais ou menos intimista, confessando-se entalado entre as suas "obrigações" e a sua "consciência". Convenientemente, ficamos a saber que, apesar de ceder em tudo, com mais ou menos números trágicos e amuos inconsequentes, Portas acha que tem uma consciência. A pergunta que resta é esta: e isso muda a vida de quem? Talvez a dele, na procura da quadratura do círculo: como participar nesta tragédia sem pagar o preço eleitoral pelas suas responsabilidades. É que a rábula, de tão repetida, começa a não funcionar.

 

Em todas as tragédias humanas, há sempre, entre os seus responsáveis, os que têm maior ou menor consciência do mal que provocam. Mas, ao contrário do que Portas quer que se pense, os piores culpados são os que sabem do erro que cometem. Os outros são apenas inconscientes.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (48) | partilhar

Sábado, 4 de Maio de 2013
por Sérgio Lavos

 

Vamos então falar dos filhos da puta, ignorando os cretinos e idiotas úteis que os apoiam, nos jornais, nas televisões e nos blogues. São os filhos da puta que conduziram o país à situação em que ele está: défice descontrolado, dívida pública a crescer a um ritmo nunca antes visto, desemprego a bater nos 20% e, acima de tudo, uma cada maior assimetria entre mais pobres e mais ricos, dado que o rendimento destes praticamente se mantém intocado ou foi fortalecido. Um bom exemplo de um filho da puta é alguém que inferniza a vida a velhos, reformados, desempregados e pobres para que os ricos possam continuar a alimentar os seus vícios.

 

Pedro Passos Coelho mentiu ontem, mentiu tanto e de maneira tão descarada, que podemos dizer que perdeu toda a vergonha na cara. Mentiu quando disse que a maioria dos trabalhadores da OCDE trabalha 40 horas semanais. Mentiu quando afirmou que o adiamento dos prazos para cumprimentos das metas se deve ao cumprimento do Governo, quando é precisamente por o Governo não ter cumprido que os prazos para cumprimento têm de ser adiados. Mentiu quando disse que as rendas excessivas da energia e os contratos das PPP foram renegociados com sucesso. Mentiu quando disse que a idade da reforma se manteria nos 65 anos, sabendo que quem se reformar com essa idade sofrerá penalizações. Mentiu quando disse que não iria haver despedimentos da função pública, falando em rescisões por mútuo acordo - e a expressão "mudança de actividade", aplicada à situação em que os despedidos da função pública vão ser colocados é um excelente exemplo do uso da novilíngua no discurso deste Governo. Mentiu quando afirmou não ir aumentar os impostos - a taxa sobre as pensões é um imposto. Mentiu ao preparar-se para fazer tudo o que tinha prometido não fazer em campanha: despedir funcionários públicos, cortar salários, taxar pensões. E mentiu, finalmente, ao dizer que tudo o que está a ser feito irá fazer com que a economia volte a crescer; mentiu prometendo que da destruição que está a ser ensaiada irá nascer um novo país. Vou esperar sentado pelo "fact checking" dos media a esta inacreditável sucessão de mentiras.

 

Mas antes das mentiras de ontem, relembremos o que trouxe Passos Coelho aqui. Os cortes de 4800 milhões nada têm a ver com a decisão do Tribunal Constitucional, por muito que ele mencione nas suas declarações esta instituição. O corte estava decidido desde a quinta avaliação da troika, em Setembro passado, e foi uma contrapartida do Governo ao aligeirar da meta do défice para 2012. O Governo, em Agosto no ano passado (quando Passos Coelho prometeu a inversão económica para 2013), sabia que não iria conseguir atingir um défice de 4.5%. Não iria conseguir porque as políticas de Gaspar conduziram o país à pior recessão em democracia, a caminho de uma depressão. Não iria conseguir porque a ideia de implementar austeridade além da troika em 2011 (9000 milhões em vez de 4000 milhões) correu mal, destruindo a procura interna e aumentando de forma imparável o desemprego. Este corte de 4800 milhões deve-se única e exclusivamente à incompetência do Governo, é sua responsabilidade. Mais: o corte, como várias vezes repetiu Passos Coelho, corresponde ao que ele sempre quis. O memorando da troika sempre foi considerado com uma oportunidade. Oportunidade de acabar com o Estado Social e eliminar 40 anos de progresso trazido pela revolução de 1974. Não tenhamos dúvidas disto.

 

Claro que a recessão que um corte desta ordem vai provocar - segundo os cálculos do FMI, 4800 milhões de corte pode provocar um impacto na economia de até 8160 milhões (multiplicador de 1,7) - será um fardo para as próximas gerações. Chegaremos, mais cedo do que tarde, aos números do desemprego de Espanha e da Grécia, e rapidamente recuaremos em todos os índices de desenvolvimento. Cortes de 10% em todos os ministérios significam uma redução drástica nos serviçoes públicos, a começar pela Saúde, pela Educação e pela Segurança Social. Tudo irá piorar e será muito difícil a qualquer Governo que se siga a esta trupe de fanáticos incendiários recuperar e reconstruir tudo o que está a ser destruído. Filho da puta, muito sinceramente, é pouco. Começam a faltar palavras para descrever o mal que está a ser feito ao país. E, lá do seu Olimpo pessoal, Cavaco observa tudo. Ele joga num campeonato da filhadaputice muito próprio. A História fará juz a tão fracas e perigosas figuras que nos governam.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (150) | partilhar

por Daniel Oliveira
Numa comunicação cheia de eufemismos e meias palavras, Passos Coelho anunciou: Mais desempregados para ajudar à crise, um imposto escondido sobre os reformados, um aumento da idade de reforma que aumentará o desemprego jovem. Nenhuma medida que afecte as verdadeiras sanguessugas do Estado (a negociação das PPP é uma anedota, as rendas da energia continuam intocadas, os benefícios fiscais de grandes empresas e banca mantêm-se). De todas as medidas apresentadas, apenas as mexidas na ADSE merecem um debate sério. De resto, o governo finge que reforma o Estado quando apenas corta, cobra, retira rendimentos às famílias e acrescenta crise à crise.

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (109) | partilhar

por Sérgio Lavos
O pequeno filho da puta
é sempre
um pequeno filho da puta;
mas não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho da puta.
no entanto, há
filhos-da-puta que nascem
grandes e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho da puta.
de resto,
os filhos da puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o pequeno filho da puta.
o pequeno
filho da puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno
filho da puta.
no entanto,
o pequeno filho da puta
tem orgulho
em ser
o pequeno filho da puta.
todos os grandes
filhos da puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno
filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.
dentro do
pequeno filho da puta
estão em ideia
todos os grandes filhos da puta,
diz o
pequeno filho da puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.
o pequeno filho da puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem
e semelhança,
diz o pequeno filho da puta.

é o pequeno filho da puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que
ele precisa
para ser o grande filho da puta,
diz o
pequeno filho da puta.
de resto,
o pequeno filho da puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho da puta:
o pequeno filho da puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja,
o pequeno filho da puta.

II

o grande filho da puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho da puta,
e não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.

no entanto,
há filhos da puta
que já nascem grandes
e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho da puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o grande filho-da-puta.
o grande filho da puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho da puta.
por isso
o grande filho da puta
tem orgulho em ser
o grande filho da puta.
todos
os pequenos filhos da puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.
dentro do
grande filho da puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos da puta,
diz o
grande filho da puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos da puta,
diz
o grande filho da puta.
o grande filho da puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho da puta.

é o grande filho da puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa para ser
o pequeno filho da puta,
diz o
grande filho da puta.
de resto,
o grande filho da puta
vê com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho da puta:
o grande filho da puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja,
o grande filho da puta.

 

 

Alberto Pimenta


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (31) | partilhar

Sexta-feira, 3 de Maio de 2013
por Daniel Oliveira

DL n.º 111/2012, de 23 de Maio, que disciplina a intervenção do Estado na definição, conceção, preparação, concurso, adjudicação, alteração, fiscalização e acompanhamento global das parcerias público-privadas. Artigo 48.º, ponto 5: "Da aplicação do presente diploma não podem resultar alterações aos contratos de parcerias já celebrados, ou derrogações das regras neles estabelecidas, nem modificações a procedimentos de parceria lançados até à data da sua entrada em vigor." Visto e aprovado em Conselho de Ministros de 22 de março de 2012. - Pedro Passos Coelho - Vítor Louçã Rabaça Gaspar.


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (25) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

O futuro de Portugal como país desenvolvido só é verdadeiramente sustentável com um Estado Social mais robusto e mais qualificado, com a valorização do trabalho e o combate ao desemprego. É preciso vencer a crise, sim. Vencê-la com o Estado Social e com a democracia. Inscreva-se na Conferência vencer a Crise com o Estado Social e a Democracia, irá decorrer no Fórum Lisboa, a 11 de Maio, aqui.


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

por Sérgio Lavos

 

A política adora eufemismos. Eufemismo é uma palavra que é, ela própria, um eufemismo, quando aplicada à política. Poderemos, sem esforço, considerar os eufemismos políticos como termos da novilíngua. Para quem não sabe, novilíngua é o glossário inventado pelo regime descrito por George Orwell em 1984, um conjunto de palavras que o estado totalitário usa para melhor espalhar a propaganda que faz passar aos cidadãos. O slogan "Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força", multiplicado até ao infinito pelas máquinas de difusão do regime, é a cola que consegue manter calados todos os opositores.

 

Orwell compreendeu bem os perigos dos regimes totalitários, do nazismo ao comunismo. Mas não são apenas as ditaduras que recorrem à manipulação linguística com forma de controlo das massas. Qualquer regime, mesmo a mais liberal democracia, precisa de inventar um léxico para controlar, de algum modo, o que as pessoas pensam. A linguagem como meio de distorção de uma realidade sempre foi uma das principais preocupações dos políticos. Numa sociedade global, na qual a informação circula a velocidades estonteantes, o Estado já não precisa de controlar a informação e a sua circulação. A manipulação é mais subtil, mais difusa. Os Governos contratam agências de comunicação que gerem a cada minuto o que, quando e como os governantes dizem. Os meios de informação limitam-se a ser - e ainda mais, em tempo de crise gravíssima dos media - mais um canal por onde escorre a propaganda dos regimes. O excesso de ruído, de canais de informação e de informação produzida, produz o mesmo efeito que a censura produz nos regimes totalitários tradicionais: a ocultação da verdade. O que antes as pessoas não sabiam por causa da censura, agora sabe-se, mas a verdadeira informação está tão diluída no meio do lixo comunicacional, que passa quase sempre despercebida. Podemos ter acesso a mais fontes de informação, mas não temos os meios de distinguir o essencial do acessório, a verdade da manipulação, a realidade do mundo virtual onde vivemos. 

 

 

 

tags: ,

por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (16) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Vítor Gaspar foi ao Parlamento para mostrar aos deputados como o anterior governo endividou, com os famosos swaps, as empresas públicas em mais de três mil milhões de euros. Só que, como bem recordou a deputada Ana Drago, segundo um relatório do seu próprio Ministério, em junho de 2011, as perdas ainda estariam, nessa altura, em menos de 1500 milhões. Durante estes dois anos duplicaram. E o ministro, apesar de saber o que se passava, nada fez.

 

Quando chegou ao governo, cortou em subsídios, criou taxas e aumentou impostos. Nenhum contrato com os trabalhadores e com os reformados, nenhum compromisso com os contribuintes, nenhuma lei da República, incluindo a Constituição, o fez vacilar. Mas quando estavam em causa os bancos e milhares de milhões de euros, ficou dois anos a avaliar. Este mês, enquanto corria com membros do governo, deixou a sua secretária de Estado do Tesouro no lugar. Isto apesar da Refer, de que ela era administradora executiva com a responsabilidade pela área financeira, ter perdido 40 milhões com estes contratos. Vantagens de ser juiz em causa própria.

 

Às perguntas da deputada, Vítor Gaspar começou por se mostrar incomodado com uma "acusação": que ele fora eleito para o lugar. "Não fui eleito coisa nenhuma", disse, não conseguindo disfarçar o orgulho. Há uns meses, dirigindo-se aos deputados do PSD e do CDS, terá usado, segundo sei, esta curiosa expressão: "os vossos eleitores".

 

Os vossos eleitores? Não saberá Gaspar que só toma as decisões que toma porque os eleitores elegeram uma maioria que lhe dá legitimidade para governar? Que sem ela, continuaria a ser um anónimo assalariados do BCE? Não, não sabe.Gaspar não tem um mandato. Tem uma missão. Não faz escolhas políticas. Toma decisões técnicas. Não tem um programa de governo a seguir. Aplica modelos. Não depende da lei, da legitimidade do voto, da democracia. Limita-se a executar o que não se questiona, porque a dúvida não tem qualquer validade na cabeça de um fanático. E não há pior fanático do que aquele que se julga um mero executor da fria técnica. A história está cheia deles e dos seus sinistros legados.

 

Acontece que, mesmo como técnico, Gaspar foi, até agora, uma desgraça. Quase todos os indicadores orçamentais e económicos estão muito piores do que estavam quando ele entrou, pela primeira vez, no Ministério das Finanças. E piores do que em todas as previsões do memorando.A realidade pode ser madrasta e não reconhecer o brilhantismo do génio. Ela consegue ser mais fria do que Gaspar. E destruiu de forma impiedosa, em apenas dois anos, a delirante autoimagem que Gaspar levou uma vida inteira a construir de si próprio.

 

Nada que atormente Gaspar. No Documento de Estratégia Orçamental volta às estimativas delirantes: teremos, em 2017, um crescimento de 2,2% (este ano foi de -2,3%), um desemprego de 16,7% (era, em Março, 17,5%), um défice de 0,2% (foi de 6,4% em 2012) e uma dívida de 115% (está nos 126% este ano). Com mais austeridade cresceremos, criaremos emprego, ajustaremos as contas públicas sem receitas extraordinárias e reduziremos a dívida.

 

Ao contrário dos que se sabem políticos, Gaspar não se atormenta com as consequências práticas e a responsabilidade política pelos seus atos. Isso é coisa para medíocres. Porque só medíocres dependem dos humores da turba popular. Só eles dependem dos códigos rasteiros da democracia. Nunca passou, "coisíssima nenhuma", pelo banho de humildade que é a conquista do voto. Nunca passou pela humilhante prova de ver o seu trabalho avaliado por eleitores sem qualificações académicas. É por isso que todos os ministros deviam ser, como são no Reino Unido, eleitos deputados antes de ocupar o lugar. Não garante gente decente e competente. Mas livra-nos, quase sempre, de perigosos predestinados.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (40) | partilhar

Quinta-feira, 2 de Maio de 2013
por Pedro Vieira

rabiscos vieira


por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (6) | partilhar

por Daniel Oliveira

"O que ficou por esclarecer [no discurso de António José Seguro no XIX Congresso do PS] é com “quem” estará disponível para fazer alianças; porque o PS não se pode aliar a qualquer um, como se todos os partidos fossem ideologicamente iguais, ou como se já não existisse “esquerda” e “direita”. Preocupa-me que haja dentro do Partido Socialista quem aceite a hipótese de coligações com qualquer dos partidos da direita portuguesa (como se o propósito do PS fosse, quase em exclusivo, a conquista e consequente manutenção do poder), que defendem um ideal de sociedade oposto àquele pelo qual os socialistas sempre lutaram. (...) Mas além de razões ideológicas são sobretudo razões de ordem democrática que devem fundamentar a recusa do Partido Socialista de promover qualquer frentismo centrista – a nossa democracia perderá força se os dois maiores partidos governarem, juntos, Portugal."

 

Pedro Nuno Santos, deputado do partido Socialista


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (38) | partilhar

por Pedro Vieira




por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Não será na Cova da Iria. Será no canal Q, a 13 de Maio. Estreia "Sem Moderação", um programa de debate sem moderador e sem senadores. Eu, o João Galamba e o Francisco Mendes da Silva. Todas as segundas-feiras. Ao sábado continuo no "Eixo do Mal", claro.

A ESTREIA SERÁ, AFINAL, A 20 de MAIO


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (27) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Não podemos permitir que aqueles que conduzem aos maus resultados andem sempre de espinha direita como se nada fosse com eles. Não podemos permitir que todos aqueles que estão nas empresas privadas ou que estão no Estado fixem objectivos e não os cumpram. Sempre que se falham os objectivos, sempre que a execução do Orçamento derrapa, sempre que arranjamos buracos financeiros onde devíamos estar a criar excedentes de poupança, aquilo que se passa é que há mais pessoas que vão para o desemprego e a economia afunda-se. Quem impõe tantos sacrifícios às pessoas e não cumpre, merece ou não merece ser responsabilizado civil e criminalmente pelos seus atos?

 

Não se assustem. Não estou a defender que Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar vão para choça depois de, ao longo de dois anos, terem falhado todas as suas previsões e compromissos orçamentais e a única coisa que hoje nos têm para dizer é "ou esta desgraça ou desgraça maior". Não estou a dizer que a continuação de mais sacrifícios, cortes e impostos que nunca cumprem os objetivos devem colocar o primeiro-ministro perante um juiz. Não estou a defender que o aumento brutal do desemprego e das falências e a catástrofe que se abateu sobre a nossa economia devem ser resolvidos nos tribunais. Sou dos que pensa que o tribunal da política são as eleições. Dos que não aceitam que juízes substituam os cidadãos.

 

Estou a falar da forma como se faz política. Das coisas inacreditáveis que se dizem para ganhar eleições e das coisas tão diferentes que se fazem depois de as ganhar. É que, ficam as minhas desculpas pela ausência de aspas, todo o primeiro parágrafo deste texto não é de minha autoria. São palavras de Pedro Passos Coelho a 6 de Novembro de 2010. Sem uma vírgula a mais.

 

Olhamos para o défice e para a execução orçamental, não com derrapagens, mas com autênticos despistes. Olhamos para os impostos criados para compensar o desastre dos dois últimos anos. Olhamos para o desemprego e para a economia. Olhamos para os sacrifícios, que, muito para lá dos limites que Passos dizia que deviam ter, fizeram com que Portugal fosse um dos países do mundo que mais caiu, entre 2011 e 2012, no Índice de Desenvolvimento Humano. Olhamos para a dívida pública que, apesar disto, aumenta 131 milhões por mês, estando em 126% do PIB, quando segundo o memorando de entendimento deveria estar nos 113%. 

 

Comparemos tudo isto com os compromissos. metas e promessas deste governo. E percebemos que as incendiárias palavras de Passos lhe assentariam como uma luva. Dirão que foi a herança. Mas se a culpa fosse dela teríamos de recordar que grande parte das previsões para a economia e para os seus resultados orçamentais foram feitas no pleno conhecimento da dita herança, já Passos estava no governo. E saíram todas furadas. Dirão que é a crise europeia e internacional. Mas em Novembro de 2010 ela já existia e poderia servir de argumento tão válido como hoje.

 

O que choca não é que Passos tenha dito uma coisa e feito outra. Isso já se sabe e está longe de ser o primeiro. O que choca é recordar a violência verbal que naquele tempo o líder do maior partido da oposição usava. Até onde ia na sua excitação política, ao ponto de, implicitamente, exigir a prisão do primeiro-ministro. Até onde foi a direita no seu discurso supostamente moralizador. E comparar a retórica populista que usava com os resultados práticos da sua governação.

 

Há quem se queixe da oposição e diga que ela está radical. Apenas porque não quer consensos com um governo onde manda Gaspar e pede a sua queda e eleições, perante a agonia do País. Há até quem se queixe da "crispação". Mas se Seguro, Semedo ou Jerónimo proferissem, hoje, quando a situação é muitíssimo mais grave do que naqueles tempos, declarações deste género, o que seria dito por comentadores, jornalistas e políticos? E por Passos Coelho?

 

Na realidade, a oposição a este governo e o comportamento da comunicação social perante o primeiro-ministro são de uma extraordinária suavidade. Os negócios e a vida de Passos Coelho não foram espiolhados até ao último pormenor. Não foram lançados boatos sobre a sua vida sexual. Não foi verificada cada compra de casa que fez, cada negócio em que se envolveu. A Presidência da República não inventou conspirações e escutas para o incriminar. Ninguém pede que enfrente a justiça pelo desastre que significaram os dois anos em que governou. Apenas se pedem responsabilidades políticas por opções políticas. Que um dos mais impopulares governos de sempre seja julgado pelos eleitores. Que seja respeitada a Constituição e que não se massacrem mais os desempregados e os reformados. Tudo, nos argumentos e nas consequências que se defendem, no estrito plano da política. Pode agradecer Passos Coelho por ter uma oposição tão civilizada. Tão diferente do que foi o seu comportamento e o das suas hostes nos seis anos anteriores a ter chegado a São Bento.


Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (39) | partilhar

por Bruno Sena Martins

George Steiner, 'Um Prefácio à Bíblia Hebraica', Paixão Intacta (1996)

 

'O Antigo Testamento e o Novo são acumulações de mitos, fábulas, lendas, códigos legislativos, tratados morais, escritos eróticos, litúrgicos e rituais, crónicas históricas com intentos políticos e sagas tipológicas alinhavadas umas às outras, mais ou menos contingentemente, no decurso de longos séculos em cenários sócio-étnicos completamente diferentes e por uma multidão de mãos. Essa montagem abunda em disparates, autocontradições, barbaridades arcaicas, repetições, desigualdades de talento discursivo-espiritual, de molde a tomar a mera noção de autoria divina e de harmonia completamente ridículas. Homens e mulheres — alguns, sem dúvida, de rara visão moral e habilidade literária — produziram estes textos diversos de maneiras perfeitamente natural e, por consequência, inteiramente comparáveis com os de outros grandes pensadores, poetas, historiadores e legisladores, em numerosas culturas e épocas. Podemos estar a olhar para material cuja data e proveniência permanecem sem solução. Mas trata-se de material mundano, no sentido exacto da palavra. E inteiramente do nosso mundo, e da nossa imaginação e composição.'

Passagem prodigiosa de Steiner sobre a Bíblia. O reconhecimento da mundanidade da Bíblia (ou de outros livros sagrados) não carrega o ímpeto de desqualificação da fé, mas sim de desqualificação dos poderes (arbitrários) erigidos sobre a 'palavra de Deus'.

 

Publicado em Avatares de um Desejo


por Bruno Sena Martins
link do post | comentar | ver comentários (14) | partilhar

Quarta-feira, 1 de Maio de 2013
por Daniel Oliveira

Gaspar diz que teremos, em 2017, um crescimento de 2,2% (-2,3% este ano), um desemprego de 16,7% (17,5% este ano), um défice de 0,2% (6,4% em 2012) e uma dívida de 115% (123% este ano). O delírio nas previsões continua. Nunca aprender com a realidade, é a regra de qualquer fanático.


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (32) | partilhar

Terça-feira, 30 de Abril de 2013
por Sérgio Lavos

 

O entendimento que Vítor Gaspar tem da democracia que o colocou no lugar que ocupa está bem espelhado na resposta que deu a Ana Drago, na audição de hoje na Comissão de Economia: "Eu não fui eleito coisíssima nenhuma!". Ora, cá está, Gaspar sabe qual é o seu papel na história de terror que o país está a viver. Não foi eleito, claro que não, foi o homem que o poder financeiro colocou a gerir a sua dívida em Portugal. Vítor Gaspar não é apenas um inimputável que está a destruir o país. Desconfio mesmo que o seu nome foi indicado pela troika para ocupar o lugar de ministro das Finanças. Encerrado numa redoma autista que faz perder a paciência ao mais santo franciscano, Gaspar prossegue o seu caminho, imperturbável. A democracia, o governo do povo, não lhe diz nada, porque não foi eleito. E irá manter a seu lado a secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Alburqueque, que enquanto foi administradora da Refer realizou contratos "swap" mais gravosos para o Estado do que outros que levaram à demissão de dois secretários de Estado. Tudo perfeitamente normal, é este o estado de excepção em que vivemos.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (93) | partilhar

por Sérgio Lavos

 

A nossa seita liberal é dona de uma excentricidade muito própria, especial e com um pensamento transformista que se vai adaptando na perfeição às decisões tomadas pelos Governos de direita que vão passando pelo poder. Desde deputados do CDS-PP que dão palestras sobre liberalismo ao mesmo tempo que estão no Governo que impôe a mais pesada carga fiscal de sempre, até defensores da austeridade custe o que custar, para além de qualquer limiar razoável - e esse limiar deveria ser, para um liberal, o ponto em que a recessão destrói a economia livre e as pequenas e médias empresas em benefício dos monopólios e das empresas que vivem à conta do Estado. Há mesmo liberais que defendem impostos ainda mais elevados como forma de sairmos da crise, até a um ponto em que, imagino eu, todo o rendimento disponível passará a ser gerido por Gaspar, em função dos interesses dos nossos sacrossantos credores, que no fundo são o alfa e o ómega de toda a economia e, em última análise, de toda a existência. E claro, quase todos estes liberais são profundamente conservadores no que diz respeito a questões de direitos humanos - é vê-los a vociferar de tempos a tempos contra o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a liberalização das drogas. João César das Neves e João Carlos Espada são os heróis desta facção "liberal" da nossa inteligentsia.

 

Rui Albuquerque, por exemplo, vem defender neste post que os patrões possam utilizar os ordenados dos seus trabalhadores para gerir as contas da empresa. Fenomenal proposta. E, evidentemente, perfeitamente liberal, apesar de em teoria o liberalismo económico ser bastante darwinista no que diz respeito ao funcionamento da economia - apenas as melhores empresas podem sobreviver. Se pensarmos bem nas coisas, como elas são, de facto uma empresa pode ter bastante maior liquidez para investir e crescer se simplesmente deixar de pagar aos seus trabalhadores. Vamos lá ver: os trabalhadores devem pensar no bem-estar da empresa que faz o favor de lhes "oferecer" trabalho (no fundo, uma maneira de verem o seu tempo ocupado, como em tempos sugeriu Fernando Ulrich). Podem muito bem abdicar dos seus ordenados para manter as máquinas em funcionamento. Apenas com tal sacrifício e abnegação da massa colaboradora poderão as empresas continuar a distribuir dividendos pelos seus accionistas no final do ano.

 

A proposta de Rui A. colhe, de resto, em bastantes empresários portugueses. Quando os trabalhadores da empresa onde eu estava decidiram fazer greve para protestar por dois meses de salário em atraso, foram acusados de traição. Com toda a razão, pois claro. Se tivéssemos continuado a trabalhar, resistindo à vil tentação de recebermos um ordenado pelo nosso trabalho, a empresa teria tido muito mais flexibilidade para manter uma frota de automóveis topo de gama ao serviço dos administradores e os accionistas teriam recebido mais pelo seu hercúleo esforço. Fomos, na realidade, gente mesquinha, que apenas queria a desgraça de quem nos emprega. Onde já se viu, exigirmos receber pelo trabalho que produziu a mais-valia para o patrão?

 

Não, Rui, indigna não é a entrevista na qual o inspector-geral do trabalho defende a criminalização do atraso no pagamento de salários. Indigno é haver patrões que acham que podem gerir as suas contas particulares e as dos accionistas com os salários dos trabalhadores. Até será admissível que pontualmente possam existir atrasos e que se utilize os salários alheios para equilibrar as contas da empresa. Mas quando o atraso é reiterado, sistemático e a empresa apresenta lucros que contradizem a falta de liquidez, é crime, sim, e se não está na lei, deveria estar. Indigno é também termos empresas que estão a aproveitar-se da crise para desrespeitarem sistematicamente as pessoas que empregam, a começar pela principal forma que estas têm de defender a sua dignidade: receber o salário devido pelo trabalho realizado.

 

Razão continua a ter Karl Marx, quando escreveu: "A economia política olha para o proletário... como um cavalo - ele tem de receber apenas o suficiente para que consiga trabalhar. Quando não está a trabalhar, o proletário não chega a ter o estatuto de ser humano."


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (21) | partilhar

por Pedro Vieira

rabiscos vieira


por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (7) | partilhar

por Daniel Oliveira



Aviso: se está sem tempo, guarde esta leitura para mais tarde. O texto é longo.


A direita que levou a Islândia à maior crise financeira que todo o mundo alguma vez conheceu num país, pelo menos nos últimos cem anos, venceu, para espanto de muitos, as eleições. Há um ano, quando lá fui fazer uma reportagem para o EXPRESSO, esperavam-se as eleições presidenciais, o julgamento do ex-primeiro-ministro e muitos suspeitavam que seria este o resultado eleitoral nas legislativas seguintes. Eu próprio fiquei convencido disso. O Presidente, um dos poucos políticos respeitados na Islândia, foi reeleito, o ex-primeiro-ministro foi absolvido e a direita voltou ao poder.

 

Porque tem tão pesada derrota um governo que consegue conter, depois de uma hecatombe financeira, o desemprego próximo dos 7%, consegue que a economia cresça acima da média europeia, consegue que o FMI já se tenha ido embora e deixa, no essencial, o poderoso Estado Social islandês intacto? Porque apesar de tudo isto nos parecer extraordinário, não lhes parece a eles? Porque não estavam preparados para viver esta crise e porque esperavam muito mais deste governo, depois de, pela primeira vez na sua história recente, se terem realmente mobilizando por uma mudança. As coisas não pioraram como podiam ter piorado, é verdade. Não pioraram como aqui. Mas não mudaram no fundamental. Porque vivem na Islândia e não aqui, os islandeses não terão a consciência do que teria sido a crise se tivesse sido outro o caminho. Mas sabem o que poderia ter sido a mudança se o governo tivesse acompanhado o sentimento social saído da "revolução das frigideiras". Ou pode dar-se o caso das pessoas estarem de tal forma frustradas com esta crise que não haja resposta política possível para esta ansiedade e decepção.

 

"O anterior governo caiu por causa de nós e isso deu-nos a sensação de ter poder. Reconheço tudo: que podíamos estar muito pior, que há julgamentos, que, ao contrário de outros, não usámos o dinheiro dos contribuintes para salvar bancos. Mas julgávamos que isto ia muitíssimo mais longe." Foi isto que uma das pessoas com quem falei me explicou para dizer porque era impopular este governo e porque não conseguia animar tanta gente afundada em dívidas aos bancos. O escritor Einar Már apontou o principal erro do governo de esquerda: "Quando os sindicatos americanos exigiram mais a Roosevelt, ele respondeu: rapazes, eu não posso fazer isso por vocês, mas vocês podem obrigar-me a fazê-lo. O nosso governo disse o contrário: vão para casa, não nos perturbem."

 

Deixo aqui, na íntegra (e sem os cortes que, por razões de falta de espaço, tive de fazer para edição impressa), a reportagem que então publiquei na revista do EXPRESSO. É jornalismo, sem qualquer opinião. Talvez a dimensão do texto não seja a ideal para publicar online, mas pode ajudar a compreender as razões deste resultado num país que, quando lá estive, não vivia em festa, mas em ressaca.

 

A minha estada na Islândia, assim como este resultado eleitoral que, como podem ver na reportagem, apesar de me entristecer não me surpreende muito, não muda a opinião que formei sobre os caminhos acertados que a Islândia seguiu. Apenas confirma que os processos políticos de ruptura não dependem exclusivamente de soluções de poder. Precisam de ser acompanhados por um processo social e têm de ser tão mobilizadores que contrariem a enorme desconfiança que as pessoas sentem hoje em relação à política. Uma reflexão para a esquerda. Sendo certa uma coisa: a direita pode ter ganho, mas a Islândia não deixa, depois de ter feito algumas opções que nem os que agora regressam ao poder se atrevem a contestar, de estar bem melhor do que Portugal, Irlanda ou Grécia. Segue a reportagem de Maio de 2012.

 


 

 


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (11) | partilhar

por Daniel Oliveira

"Não há mesmo possibilidade de as oposições gizarem programas para o futuro imediato, salvo o que nós próprios temos definido já."
1. Pedro Passos Coelho
2. Aníbal Cavaco Silva
3. António Oliveira Salazar


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (13) | partilhar

Segunda-feira, 29 de Abril de 2013
por Daniel Oliveira

 

O governo está chocado com os negócios de alto risco que os gestores de empresas públicas andaram a fazer com o nosso dinheiro, através da troca (swap) de taxas de juros variáveis por taxas fixas. A coisa, do ponto de vista do devedor, parece, quando os juros estão a subir (e foi o caso do momento em que a maioria destes contratos foram assinados), previdente. Sendo um ato comum de gestão, à época, é bom negócio se os juros sobem, uma tragédia se eles descem.

 

Só que, na realidade, porque não se tratava apenas da fixação de uma taxa de juro fixa, mas de um produto tóxico bem mais complexo para especulação financeira com dinheiros públicos, a coisa é um pouco mais grave. Seja como for, a Euribor desceu e as empresas estão a pagar juros muito acima dos praticados e têm dívidas muitíssimo superiores ao que lhes foi emprestado. Porque as instituições financeiras são hoje casinos e nos casinos o cliente perde sempre. 

 

O PSD e o CDS vão abrir uma comissão parlamentar de inquérito. Querem saber o que Sócrates andou a fazer, claro. Não estarão muito interessados em saber o que os governos de Santana e Durão fizeram quando usaram este mesmo expediente. E já se livraram dos seus secretários de Estado que aprovaram essas operações quando eram gestores de empresas. Para que as coisas não pareçam o que são: responsabilidade de um bloco central de gestores e políticos. Agora, que a bomba lhes rebentou nas mãos, é preciso fazer o jogo do costume: atirar as culpas para o lado de lá e no meio ainda apanhar alguns inimigos internos da maioria.

 

O governo diz que está fulo com os bancos. Quer renegociar e, quem sabe, levar as coisas à justiça. Não pagar a parte especulativa de um negócio que só pode resultar da cumplicidade que sempre existiu, e continua a existir, entre o sector financeiro e a política (quantos ex-ministros estão em administrações de bancos?), não lhes passará pela cabeça.

 

Ainda assim, há uma evolução: os bancos que lucraram com esta desgraça já não são apenas os nossos credores, com os quais temos de cumprir os nossos compromissos, que assinámos de livre vontade. Já não ouvimos o discursomoralista, as comparações com a economia doméstica das famílias, a ética do bom pagador submisso que fez asneira e tem de pagar por ela. Já não nos dizem que se tivesse corrido bem estaríamos a lucrar e como correu mal temos de pagar. Já não se põem no lugar do homem honrado que cumpre o que assina.

 

Afinal, a relação dos Estados, dirigidos por gente sem coluna vertebral e à espera de boas carreiras no privado, com a finança tem mesmo sido a de um jogo em que há um lado que ganha sempre e outro que se lixa: o contribuinte. Afinal, os que desconfiam que alguns "compromissos" que os Estados firmaram com os credores não são mais do que uma forma extorsão não são "caloteiros" e "irresponsáveis".

 

Curioso ver como a cândida fé nos mercados e na banca se evaporou no segundo em que o governo percebeu que uma bomba lhe rebentaria nas mãos e ela não poderia, de forma fácil, ser vendida como responsabilidade exclusiva da outra parte do bloco central. Claro que o governo está a tentar vender a mesma história de sempre. Mas, azar dos azares, entre os que assinaram estes negócios ruinosos para as nossas empresas públicas, que sugaram mais dinheiro do que aquele que os insuportáveis aumentos nas tarifas dos transportes públicos, estava gente deste governo.

 

Exposto o bloco central, resta a retórica indignada contra a banca. Que suspeito que acabará em nada. Mas talvez faça escola. Talvez finalmente se perceba que o jogo está viciado. E que em jogos viciados não se aplicam as regras que funcionam entre cavalheiros. Talvez seja altura de, percebendo que é assim que as coisas agora funcionam, abandonarmos os velhos discursos da ética do devedor. E mandarmos o jogo abaixo. Ou eles, ou nós, assim deveria pensar quem nos representa. Governos que se batessem pelos interesses dos cidadãos até às últimas consequências. Usando todo o poder que têm e que ainda é, se quiserem, algum.

 

Estes swaps não são um escândalo, uma anormalidade, um abuso. São tão escandalosos comi a impossibilidade do BCE financiar diretamente os Estados que o sustentam para que estes sejam obrigados a se entregar à especulação com as dividas soberanas, engordando os bancos, que compram a dívida dos Estados para os BCE lhes comprar a eles. São tão anormais  como as agências de notação que, com interesses diretos nesta especulação, brincam ao sobe e desce dosratings em momentos convenientes. São tão abusivos como a nacionalização dos prejuízos dos bancos a quem o jogo, mesmo quando está viciado, corre mal.

 

Os swaps são a normalidade no casino em que se tornou o capitalismo financeiro. Uma normalidade que foi aceite por aqueles que ocupam lugares que deveriam servir para defender os nossos interesses. Por isso, não se façam, por favor, de virgens escandalizadas e de pregadores de bons costumes. Afinal de contas, são clientes habituais deste bordel. Seus acérrimos defensores. Para não dizer que são seus funcionários.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (52) | partilhar

Domingo, 28 de Abril de 2013
por Sérgio Lavos









Stephen Colbert convidou para o seu programa o estudante de economia que pôs a nu uma das maiores fraudes académicas recentes, o trabalho dos economistas de Harvard, Rogoff e Reinhardt, usado desde 2010 como justificação para a austeridade, e que continha erros crassos de Excel e manipulações grosseiras de dados. A ler também este artigo do El País:

"Cuando la deuda de un país supera el 90% del PIB, el crecimiento de la economía es inviable. El aserto, nacido de dos cerebros de Harvard y sobre el que se asientan las políticas de austeridad que están a punto de dinamitar los pilares del Estado de bienestar en medio mundo, ha resultado tan falaz como las armas de destrucción masiva que sirvieron para justificar la invasión de Irak.

“Es exagerado hacer la comparación, pero acepto la analogía porque es cierto que se están adoptando políticas a partir de premisas que son falsas”. Quien habla es Thomas Herndon, el estudiante de 28 años que, en su camino para sacarse un doctorado en Economía en la Universidad de Massachusetts, ha desenmascarado la mentira macroeconómica más significativa de los últimos años, y sobre la que EE UU y Europa se han apoyado en su campaña por la austeridad fiscal y el recorte drástico del gasto. (...)"


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (64) | partilhar

Sábado, 27 de Abril de 2013
por Sérgio Lavos

Este texto de Paulo Gaião mostra quem é Cavaco Silva, alguém que apenas poderá ser comparado, em carácter e no modo de actuar, a Miguel de Vasconcellos, o traidor defenestrado na revolução de 1640:

 

"Cavaco Silva fez a vida negra aos governos da AD de Pinto Balsemão em 1981 e 1982,  um ano antes da assinatura de mais um pacote de ajuda do FMI a Portugal (o primeiro tinha sido em 1978).

 

Os executivos Balsemão tinham uma maioria no Parlamento mas Cavaco não se importou com isso. 


Conspirou, escreveu cartas abertas, fez reuniões secretas no Banco de Portugal, na sua vivenda algarvia Mariani (de Maria e Anibal). Até em traineiras de pesca com sardinhada ao almoço conspirou.

 

Destruiu mas nunca apresentou alternativas. Na hora da verdade, não apresentava listas nos órgãos nacionais do PSD.

Contribuiu fortemente para a instabilidade política, que levou os governos Balsemão à queda, e nesta medida, é também responsável pela degradação na altura das condições económicas do país e pelo recurso inevitável ao FMI para se evitar a bancarrota.  

 

Em Fevereiro de 1983, com o PSD em fanicos e o país aflito, a três meses de ser resgatado, Cavaco nem se dignou ir ao Congresso laranja de Montechoro. Preferiu ficar no bem-bom da Mariani, a 200 metros da assembleia magna do PSD.

Nem quis participar na campanha para as eleições de 25 de Abril de 1983.


Durante o governo do Bloco Central, entre 1983 e 1985, Cavaco recusou negociar enquanto quadro do Banco de Portugal com as equipas do FMI que estiveram no país.


Quando Mota Pinto lhe pediu para expor, num Conselho Nacional do PSD,  a politica económica do governo, primeiro não quis e depois acabou por fazer um discurso muito crítico para a política do governo, que fez tremer o executivo e ameaçou o  cumprimento do programa de assistência internacional.     

 

De vez em quando Cavaco dava apoio mitigado à direcção do PSD, fazendo jogo duplo com Mota Pinto e o governo do Bloco Central. Tinha o único objectivo de se manter à tona, à espera do melhor momento para aparecer, após os outros terem feito o trabalho difícil da recuperação do país.

 

Em 1985 chegou essa hora. Venceu o Congresso da Figueira da Foz e rompeu o acordo do Bloco Central, o que conduziu à realização de eleições antecipadas que já sabia que ia ganhar, esmagando o PS com a ajuda de Ramalho Eanes e do seu novo PRD.

 

É este homem, hoje Presidente da República, que fala no 25 de Abril na necessidade imperiosa de acabar com a crispação política,  gerando consensos e "condições estruturais de governabilidade" para evitar um segundo pacote de resgate e critica quem explora "politicamente a ansiedade e a inquietação dos nossos concidadãos"... "


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (66) | partilhar

por Sérgio Lavos

 

O que acha a direita neoliberal dos investimentos de risco feitos pelos administradores das empresas públicas? Acha bem, acha muito bem. Por isso, tem-se mantido mais ou menos silenciosa desde que voltaram aos media as notícias sobre este tipo de investimentos, os chamados "swap".

 

É claro que a direita neoliberal prefiriria que as empresas públicas que investiram em produtos financeiros que podem custar ao povo português até 3000 milhoes de euros fossem privatizadas. Desse modo, os gestores poderiam perfeitamente aumentar os preços dos bilhetes - estamos a falar de empresas de transporte -, reduzir carreiras, piorar o serviço prestado ao público, receber indemnizações compensatórias do Estado e chegar ao fim do ano com lucro, de maneira a que os accionistas pudessem receber a sua parte. 

 

Mas recordemos: os 3000 milhões que poderemos pagar, resultado das operações financeiras de risco ensaiadas pelos gestores nomeados pelo Estado, não irão ser imputados a ninguém. Bem pode o Governo demitir secretários de Estado, que o fundamento do problema nunca irá ser resolvido. Quem investiu nestes produtos de risco sabia o que poderia correr mal. Se não sabia, era incompetente, e tem de pagar por isso. Se sabia, e mesmo assim decidiu arriscar o dinheiro dos contribuintes nesse investimento, tem de ser investigado criminalmente por essa decisão. 

 

As empresas públicas não são, não podem ser, uma coutada dos seus gestores. Se uma empresa privada decide investir em produtos tóxicos e perde dinheiro, quem perde é a empresa, e a responsabilidade é exclusiva dos gestores que tomam a decisão. As perdas são dos accionistas. Mas uma empresa pública não pode ser gerida como uma privada. Uma empresa pública deve servir em primeiro lugar o público - uma empresa de transportes tem de prestar um serviço que cubra as necessidades das pessoas, independentemente dos lucros ou da viabilidade financeira das carreiras e dos serviços. É claro que um bom gestor precisa de manter o equilíbrio entre este serviço público e o financiamento. Mas a prioridade deverá ser sempre as necessidades da população, que é quem paga esse serviço, via impostos. Quando um gestor, nomeado pelo estado, decide pegar no dinheiro dos nossos impostos e fazer investimentos que têm uma grande probabilidade de fracasso, está a agir com dolo.  O principal objectivo de uma empresa pública não é, não pode ser, obter lucro, mas servir a população.

 

O problema é que os sectores da economia que nunca deveriam ser objecto da especulação e das mesmas regras das empresas privadas começaram a ser, há muitos anos, ou privatizados - por isso pagamos agora pelos combustíveis muito mais do que antes da privatização da Galp e da Petrogal - ou geridos como se fossem uma empresa privada, seja através de concessões, de parcerias público-privadas ou de gestão empresarial das empresas públicas. Não devemos negar que em alguns casos a fórmula resulta - quem recorre a hospitais do sector empresarial do Estado sabe que o funcionamento é bastante mais racional e eficiente do que antes. Mas em nenhum caso deveria ser permitido que estas empresas públicas ultrapassassem o âmbito da sua existência, isto é, servir o público. A especulação financeira sai claramente deste âmbito. Não resultará nada de novo e importante se este Governo, a par com a investigação em curso sobre investimentos passados, não proibir definitivamente as administrações destas empresas de jogarem na bolsa e actuarem como meros actores privados. Estará isso a ser feito?Sinceramente, duvido. O interesse público é, quase sempre, o oposto do interesse privado. E este Governo não sabe, até prova em contrário, distinguir os dois. E favorece sempre, mas sempre, o interesse privado. Foi para isso que eles se alçaram ao poder, ninguém poderá ter dúvidas.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (24) | partilhar

Sexta-feira, 26 de Abril de 2013
por Sérgio Lavos

 

Pacheco Pereira, na Quadratura do Círculo, referiu um episódio que passou despercebido a quase toda a gente: Álvaro Santos Pereira, numa entrevista dada a seguir ao anúncio do programa de revitalização da economia, diz que quando um seu secretário de Estado saiu, houve gente que abriu garrafas de champanhe. 

 

A quem estava ele a referir-se? A Henrique Gomes, o homem que ousou enfrentar os lobbies da energia em Portugal e que pretendia fazer baixar as rendas excessivas da EDP. Extraordinário país, este, em que um ministro admite em público que um dos seus secretários de Estado foi demitido por tentar defender o Estado (que somos todos nós) dos interesses privados que o parasitam. E por quem foi ele demitido? Pelo primeiro-ministro, claro. A história é simples, e contada pelo próprio Henrique Gomes: duas horas após ter sido entregue ao primeiro-ministro o relatório onde se defendia uma taxa sobre as rendas da EDP, já António Mexia, um dos homens mais poderosos do país, conhecia o seu conteúdo. Henrique Gomes tinha o apoio do seu superior directo, o ministro, mas deparou-se rapidamente com as dificuldades inerentes ao estado corporativo em que vivemos. Passos Coelho (ou alguém por ele), assim que vislumbrou algo que de facto poderia fazer poupar muito dinheiro ao Estado, apressou-se a contactar quem na realidade ele serve, o poder económico e financeiro. É claro que Mexia não poderia tolerar tal afronta, e rapidamente o secretário de estado foi exonerado, e apresentada uma pífia razão para o seu afastamento.

 

Numa democracia avançada, este caso por si só seria razão para a queda do Governo. Imaginemos por exemplo o escândalo que não seria Obama afastar um membro da sua equipa por influência de um dos poderosíssimos lobbies de Washington. Pois. Mas não vivemos. Este é o pais que, de ano para ano, vai caindo mais no ranking internacional sobre a percepção da corrupção. Este é o país em que a direita sobe ao poder no meio de uma gravíssima crise de sobreendividamento e consegue ir buscar 21 000 milhões de euros à classe média e aos mais desfavorecidos, deixando os intocáveis e inimputáveis do país continuarem a prosperar e a fazer os seus negócios. Esta direita que nos governa é a direita do BPN, e é a direita que privatiza a EDP colocando no conselho de administração vários dos seus homens de mão - Catroga, Arnaut, etc. É a direita que renegoceia as parcerias público-privadas aumentando os encargos do Estado - o que antes era responsabilidade das concessionárias, a manutenção das vias rodoviárias, passou a ser obrigação do estado, em troca de míseras poupanças. É a direita que nunca irá tocar nas rendas energéticas que beneficiam a EDP e outras empresas privadas, porque os seus aliados naturais são a banca e as corporações que vampirizam o país.

 

Poderemos continuar a empobrecer e a regredir, que continuaremos a ter dos combustíveis mais caros do mundo, assim como a electricidade, a água, o gás e as telecomunicações a preços incomportáveis para o nosso nível de rendimentos. Bem pode a troika, pela voz de Abebe Selassie, surpreender-se por não baixarem os preços nestes serviços: isso não irá acontecer porque não existe verdadeira concorrência nestes sectores da economia, o capitalismo em Portugal é uma brincadeira - as leis do mercado, na realidade, não funcionam. Estas corporações são e serão protegidas enquanto esta direita se mantiver no poder. Haveremos de estar a pão e água, que a EDP, a Galp, as empresas de telecomunicações e os bancos continuarão a manter as suas rendas, benesses e lucros intocados. Nada é mais certo do que isto, custe o que nos custar.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (56) | partilhar

por Daniel Oliveira



A palavra "inevitável" só cabe na retórica dos cobardes. Quem trata sempre de si e apenas de si, nunca se comoverá com a liberdade. Dedico estas imagens ao Presidente da República. Porque há 39 anos derrubaram o paternalismo autoritário que Cavaco tanto aprecia, dispenso ser "consciencializado" pelo poder e os consensos para calar a democracia.


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (48) | partilhar

por Daniel Oliveira

"Com este resultado, o CDS é o segundo partido da oposição que mais reforça a sua posição eleitoral, a seguir à CDU"

Da notícia sobre os resultados do barómetro do jornal "i".


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (10) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Quando, há 39 anos, um conjunto de oficiais de baixa patente, apenas munido dos mais rudimentares conceitos ideológicos e sem qualquer experiência política, derrubou um regime que já mal se aguentava de pé, prometeu, num programa genérico, três coisas: descolonizar, democratizar e desenvolver Portugal.

 

Pior ou melhor, a descolonização tardia foi feita. A democracia, depois de um período conturbado mas pacífico quando comparado com outras revoluções, foi aceite por todos. E o desenvolvimento, a mais difícil das três tarefa, superou as melhores expectativas.   

Em menos de meio século, Portugal deu um salto assombroso. Um país atrasado, isolado, miserável e semianalfabeto chegou rapidamente ao restrito clube do primeiro mundo. Pobre entre os ricos, é verdade. Mas em tudo um contraste com o seu passado.

 

O saneamento básico e a eletricidade chegaram a todo o território. Foram construídas infraestruturas. A segurança social foi generalizada. Acabou-se com trabalho infantil. As barracas foram praticamente erradicadas. A pobreza e a desigualdade, que subsistem, não são comparáveis à miséria em que vivia grande parte da população. Passámos de um País de emigrantes para um País de imigrantes. Nasceu um Serviço Nacional de Saúde gratuito e universal. Os nossos indicadores de mortalidade infantil passaram dos piores para os melhores da Europa. O analfabetismo é hoje marginal e a nova Escola Pública formou a geração mais bem preparada, culta e instruída que Portugal conheceu em toda a sua história.Quem desmerece o que conseguimos nestas quatro décadas comete a pior das injustiças: a ingratidão consigo próprio. Em 40 anos fizemos o que a maioria das nações europeias levaram mais de um século a construir.

 

Os três d's não eram três partes de um programa. Eram todos a mesma coisa. Não seria possível desenvolver Portugal e ter um Estado Democrático se teimássemos na guerra colonial. Num país tão atrasado e desigual, o desenvolvimento só foi possível porque os portugueses o exigiram no uso da sua liberdade. E a construção da democracia, numa nação que nunca a conhecera realmente, só prevaleceu porque trouxe bem estar. E o Estado Social foi o mais poderoso motor desta democratização tardia.

 

Quem acredita que a democracia vingaria no meio da miséria julga que ela se impõe pela sua indiscutível bondade. Que a história é justa e os povos sábios. Não, ela só resiste se conseguir garantir as condições materiais para o seu exercício.

 

Nenhuma democracia sobrevive à destruição da classe média e ao empobrecimento geral da população. Nem à completainstabilidade social, imprevisibilidade pessoal e insegurança laboral. Nenhuma democracia sobrevive sem a confiança dos cidadãos no Estado e essa confiança depende, pelo menos em Portugal, do Serviço Nacional de Saúde, da Segurança Social e da Escola Pública. Nenhuma democracia sobrevive a um discurso castigador do poder, à ausência de esperança, a uma intervenção externa sem fim à vista e ao discurso da inevitabilidade, que torna as eleições numa mera formalidade sem conteúdo.

 

Quando se diz que os valores do 25 de Abril estão em perigo constata-se uma evidência: se o nosso caminho é empobrecer, temos de nos preparar para viver sem liberdade. Porque uma nação é como uma cidade: se à nossa volta só houver a miséria e o caos, até os mais ricos estão condenados a viver cercados por muros.

 

Sobre o esclarecedor discurso de Cavaco Silva no Parlamento escreverei na edução de amanhã do Expresso. 


Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (55) | partilhar

Quinta-feira, 25 de Abril de 2013
por Sérgio Lavos

 

Trinta e nove anos. Trinta e nove anos desde a revolução que derrubou o poder fascista que dominou o país durante demasiado tempo. Trinta e nove anos de democracia, de eleições, de liberdade, de progresso social, de maior igualdade, de justiça. Trinta e nove de valores de Abril, ou pelo menos a vontade de aplicar esses valores de Abril da melhor maneira possível.

 

E durante trinta e nove anos, a direita que derrubámos foi aceite no seio do regime. A direita que promove a desigualdade, o darwinismo social e que existe para manter e proteger os interesses instalados. A direita que luta contra o progresso, a justiça e a possibilidade de quem nasce pobre chegar a ter algum conforto material e felicidade. A direita que prefere ver serviços que devem ser públicos - a saúde, a educação - nas mãos do lucro privado. A direita das corporações, herdeira da direita salazarista que durante cinquenta anos protegeu um reduzido número de grandes empresas que viviam à sombra do Estado. A direita que prefere o respeito pelas instituições ao direito ao protesto, o consenso às eleições, a manutenção de uma paz podre a dar voz ao povo que não se revê em quem nos governa. A direita que, pela voz de Cavaco Silva - o antigo colaboracionista do Estado Novo que sempre se regeu pelo rancor, pela mesquinhez e pelo ódio à democracia - acaba de proferir na Assembleia da República o mais despudorado discurso anti-democrático que alguma vez se ouviu em democracia

 

Sejamos claros: esta direita não é a direita social-democrata, a direita do PSD de Francisco Sá-Carneiro. Mesmo os adversários políticos deste lhe reconheciam sólidos fundamentos democráticos. Esta direita já nada tem a ver com Sá-Carneiro. Esta direita é a direita revanchista, a direita que escarnece e desdenha o 25 de Abril em favor do 25 de Novembro - porque este significou uma oportunidade de regresso ao 24 de Abril. É a direita que reconhece implicitamente nos valores de Abril uma ameaça para o poder a que aspira. É uma direita que não merece usar os cravos na lapela que hipocritamente ostenta nesta data. É a direita que fecha as galerias da casa da democracia ao povo, porque tem medo dele. É uma direita que trai, a cada segundo de permanência no poder, os valores de Abril. 

 

Este é o momento em que a democracia está verdadeiramente suspensa. O momento em que existe um consenso alargado no país, sim: contra o Governo e os ditames externos, contra o Presidente da República. Este é o momento em que a direita, apesar de saber que já não tem o apoio da maioria da povo, da opinião pública, dos partidos, teimosamente se vai aguentando com a cumplicidade de um presidente que hoje abdicou definitivamente de ser o presidente de todos os portugueses para passar a ser o último garante deste Governo. Este é o momento em que a direita mais próxima está de Salazar, recusando a legitimação democrática e perpetuando um estado de emergência nacional, desrespeitando a Constituição e obedecendo apenas a interesses estrangeiros, inimigos da vontade do povo e do interesse nacional.

 

Esta direita tem nomes: Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar, Paulo Portas, e, acima de tudo, Cavaco Silva. Esta direita é um cancro da democracia, um perigo que precisa de ser rapidamente afastado. A esquerda precisa, mais do que nunca, de se unir para combater esta ameaça séria ao futuro do país. O 25 de Abril, mais do que nunca, tem de ser reavivado, retomado, ressuscitado. Os nossos filhos não nos perdoarão se nada fizermos.


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (103) | partilhar

Quarta-feira, 24 de Abril de 2013
por Daniel Oliveira

 

Excelente intervenção de José Reis (director da Faculdade de Economia de Coimbra) no jantar de 19 de Abril, em nome do Congresso Democrático das Alternativas


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (38) | partilhar

por Miguel Cardina

 

Não Acredite em Tudo o Que Pensa. Mitos do Senso Comum na Era da Austeridade. Coord. de José Soeiro, Miguel Cardina e Nuno Serra. Edições Tinta-da-china.

 

Temos vivido acima das nossas possibilidades? (Ana Cordeiro Santos); Gerir um país é como gerir uma casa? (Ricardo Sequeiros Coelho); O Estado deve ser gerido como uma empresa? (José Castro Caldas); Temos de pagar a dívida? (Mariana Mortágua); O desemprego é uma oportunidade? (Elísio Estanque); Baixar os salários é o caminho para salvar a economia? (Francisco Louçã); Os direitos dos mais velhos estão a bloquear os dos mais novos? (José Soeiro); O que faz falta é sermos empreendedores? (Luís Fernandes); Há professores a mais e alunos a menos? (Nuno Serra); Quem pode deve pagar mais pela saúde? (António Rodrigues); A Segurança Social é insustentável? (Sílvia Ferreira); O RSI é um estímulo à preguiça? (Paulo Pedroso); A Cultura pode viver do mercado? (Catarina Martins); Na escola de antigamente aprendia‑se mais do que na de hoje? (Manuel Jacinto Sarmento); No tempo de Salazar é que era bom? (Fernando Rosas); Os ciganos é que não querem integrar‑se? (Maria José Casa-Nova); A culpa é dos políticos? (Manuel Loff); Isto não vai lá com manifestações? (Miguel Cardina).

 

Dia 3 de Maio nas livrarias do país.


por Miguel Cardina
link do post | comentar | ver comentários (35) | partilhar

por Sérgio Lavos

Fica aqui a reacção de Santana Castilho, especialista em educação e cronista do Público, à entrevista pejada de mentiras que Nuno Crato deu à RTP:

 "Reajo, a quente e indignado, a uma entrevista que acabo de ver em directo, na RTP1, no Telejornal das 20.00. Nuno Crato pode revogar autocraticamente o programa de Matemática para o ensino básico. Porque a Lei não tipifica o crime pedagógico. Pode asnear em público, porque a asneira é livre. Pode escravizar os professores, até que eles consintam. Pode ir mais ao bolso dos pais, se eles não reagirem. Mas não mente sem pudor, nem manipula a opinião pública com descaro, porque eu não deixo. Por dever cívico.

Crato disse que o programa que anulou estava datado e era antigo. Crato mentiu. Pode não gostar dele, mas não pode apagar a actualidade científica e pedagógica que o informa. Datadas e ridículas são as metas que tem parido. As de Matemática, as de Português, as de História, todas. Bafientas. Exalando naftalina. Inaplicáveis. Inúteis, como ele.

 

Questionado pelo jornalista quanto ao êxito, internacionalmente reconhecido, dos nossos resultados em Matemática, Crato disse que estávamos a ser comparados com os medíocres e continuávamos abaixo da média. Crato mentiu. Fomos 15º em 50 países. Ficámos muito acima da média. Fomos o país do mundo que mais progrediu nos resultados em Matemática. Ultrapassámos a Alemanha, Irlanda, Áustria, Itália, Suécia, Noruega e Espanha, entre outros. É intelectualmente desonesto dizer o que Crato disse.

 

Falando da palhaçada do concurso que tem em mãos, Crato recordou que em 2009 abriram 30.000 vagas, para entrarem poucos mais que 300 professores. Crato mentiu. Foram cerca de 20.000 as vagas de 2009. Quanto aos que vão entrar agora … veremos, adiante, o logro que está a congeminar.

 

Interrogado sobre os manuais que irão para o lixo e sobre as actividades de enriquecimento curricular que os pais passarão a pagar, Crato foi artista e saiu de fininho, como um vulgar cínico.

 

Parafraseando Almada-Negreiros, o Crato é um soneto dele próprio! Deplorável!"

(Via Facebook.)


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (54) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

A generalização das atividades de enriquecimento curricular foi das melhores medidas do governo anterior. Uma das poucas que me mereceu um elogio sem reticências a uma ministra por quem nunca morri de amores: Maria de Lurdes Rodrigues. Com ele, o horário completo nas escolas públicas passou a ser finalmente possível. Tratou-se de uma revolução na vida das famílias.

 

Para a classe média, teve efeitos evidentes. Uma das mais poderosas razões para fugir para o ensino privado desapareceu, criando assim condições para uma escola pública interclassista e, por essa via, de qualidade. O que a classe média poupou - seja no pagamento das mensalidades das escolas privadas, seja no pagamento de ATL e de atividades extraescolares, foi muito mais do que o Estado gastou. Ou seja, o rendimento disponível que esta medida garantiu foi maior do que o dinheiro dos impostos que foi gasto. No deve e haver, ficámos todos a ganhar: mais dinheiro para economia.

 

Para os mais pobres a mudança foi ainda mais radical. É a diferença entre tercrianças sozinhas a ver televisão ou na rua e ter crianças a crescer e a aprender. É que, ao contrário do que Nuno Crato pensa, o ensino não se resume a aprender a ler e contar. É, para os que fazem contas à vida, a diferença entre se sentir que se têm condições para ter mais filhos e perceber-se que isso é uma impossibilidade prática. Para um País que tem na sua crise demográficaum grave problema social, económico e até de sustentabilidade da sua segurança social, é uma diferença poderosa.

 

O governo está a pôr a possibilidade de, para poupar 100 milhões de euros, exigir a comparticipação em 50% das atividades de enriquecimento curricular no 1º ciclo. Com a atual crise, esse pagamento será virtualmente impossível para a maioria dos pais, sejam pobres, sejam de classe média.

 

Para quem o pagar, é um novo imposto. Sim, repito o que já escrevi várias vezes: pagar serviços públicos tem o mesmo efeito de um imposto, com a diferença de não ser, ao contrário do IRS, progressivo. E isso significa menos dinheiro para o mercado interno. E mais crise.

 

Para os que não possam mesmo pagar, isto significa uma ginástica dificílima, que deixará os filhos sem qualquer acompanhamento durante uma parte razoável do dia. Sobram os avós (quando existem), que, com os cortes nas reformas, têm cada vez menos capacidade de cumprirem o papel que lhes tem sido reservado: a verdadeira segurança social familiar deste país.

 

Para os que pensem ter filhos e não tenham folga financeira (quase metade dos jovens está desempregada), isto é mais um argumento para adiar a decisão, aumentando ainda mais um insustentável desequilíbrio demográfico com efeitos devastadores na economia e nas contas públicas.

Aqui está um exemplo de uma medida de contabilidade estúpida que parece ser um corte e é uma despesa. Que parece equilibrar as contas públicas mas as desequilibra. Que parece libertar dinheiro para a economia mas retira dinheiro à economia. E que é socialmente injusta, reduzindo a igualdade de oportunidades num dos mais desiguais países da Europa. Para quem tem "bom berço", teatro, desenho, desporto e jogos. Para quem nasceu pobre, televisão e rua.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (35) | partilhar

por Sérgio Lavos

 

O génio discreto que dá pelo nome de Nuno Crato continua na senda de uma revolução silenciosa. Não interessa que as mudanças que foram acontecendo nos últimos anos tenham levado a que Portugal fosse subindo paulatinamente nos rankings internacionais de educação. Não importa que, por exemplo, os resultados mais recentes de alunos portugueses em testes internacionais de matemática tenham mostrado que a aposta em programas de aprendizagem progressiva, inspirados nos sistemas finlandês e sul-coreano, tenha vindo a ser um assinalável sucesso. Não, Nuno Crato  tem um problema com a realidade (e nisto limita-se a ser igual aos seus comparsas de Governo). Ele acha, sinceramente acredita, que a melhor maneira de aprender matemática é através da memorização. O seu fascínio pelos métodos do antigamente é, na verdade, exemplar. Já o tinha mostrado ao introduzir exames da 4.ª classe (e não na mesma escola que frequenta, não vá a miudagem decidir investir na fraude), ao apostar no ensino profissional desde o 5.º ano, ao acabar com o apoio a alunos com dificuldades - quem não conseguir acompanhar o ritmo, que vá para açougueiro. Agora, é o regresso às tabuadas e a uma aposta na memorização como método. Não surpreende. Não queremos que as crianças de hoje tenham espírito crítico e compreendam aquilo que lhes estão a ensinar. Se isto acontecesse, onde poderia Miguel Gonçalves recrutar o novo Homem, pronto a embarcar no maravilhoso mundo do empreendedorismo?

 

Quem tem filhos neste momento a estudar sabe que até que ponto o discurso que tanta gente comprou, contra o "eduquês", é uma fraude propagandística absoluta. Os programas que neste momento são ensinados no ensino básico e secundário são bastante mais intensos, complexos e exigentes, sobretudo ao nível da compreensão e do raciocínio, do que eram há vinte ou trinta anos. E certamente preparam melhor as crianças para o mundo em que vivemos do que preparava a escola salazarista. Os programas do 5.º ano (estudados pelo meu filho numa escola pública), por exemplo, contemplam matéria e metas curriculares a que eu apenas tive acesso no 8.º ano. Outro exemplo: a notícia do Público cita Filipe Oliveira, um dos autores do novo programa de matemática para o ensino básico. Este diz que esta mudança vai levar a que as calculadoras deixem de ser usadas. Ora, em cinco anos de ensino público, nunca o meu filho, ou os seus colegas, precisaram de usar calculadoras. Portanto, ou o responsável, lá do seu pedestal universitário, mente (e é lamentável que o Público dê destaque à mentira de Filipe Oliveira), ou foi mal informado, ou os professores não seguem os programas. Peguemos no exemplo em questão, as tabuadas. Crato sonha com miúdos a debitarem de cor os números, em jeito de lenga-lenga, como acontecia durante o Estado Novo. A memorização da tabuada, que até pode ser útil em determinados casos, limita-se a repetir processos de automatização do pensamento. O actual método insiste na compreensão da operação de multiplicação. Uma criança sabe que oito vezes sete é igual a cinquenta seis porque a ensinam que oito conjuntos de sete unidades dá a soma de cinquenta e seis. Este raciocínio pode ser aplicado a qualquer operação de multiplicação. A simples memorização permite que apenas se saiba de cor as tabuadas até ao nove. A partir daí, o cálculo encalha, como saberá qualquer pessoa que tenha decorado a tabuada sem a entender.

 

De uma coisa podemos estar certos: se este Governo tiver a oportunidade de aplicar estas mudanças retrógadas no ensino, assistiremos a médio prazo a um retrocesso enorme. Os progressos das últimas décadas - podiam ter sido sempre mais, claro - irão ser desbaratados, de uma penada. Eu sei que há muitos professores que aplaudem estas mudanças; sobretudo os que se formaram sem espirito crítico e que na verdade nunca se adaptaram ao ensino dos novos métodos que permitiram a evolução. É fácil de entender porquê: é mais simples, e mais rápido, obrigar um aluno a decorar tabuadas do que explicar-lhe os passos que levam ao resultado final. No fundo, o sonho de Crato é ter um país de autómatos a ensinarem, na linha de montagem, os autómatos que virão. O maior perigo que neste momento o país corre é este: deixarmos de ter um futuro. E Nuno Crato está a dar o seu melhor para que isto aconteça.

 

Adenda: Sobre o uso de calculadoras no ensino básico, é muito interessante ver este estudo publicado no site da associação americana de professores de matemática. Não é que os alunos que usam calculadores têm melhor relação com a matemática do que os que não usam? (Via twitter do Pedro Magalhães.)


por Sérgio Lavos
link do post | comentar | ver comentários (59) | partilhar

Terça-feira, 23 de Abril de 2013
por Daniel Oliveira

“Tenho que admitir que este Governo não merece o povo que governa. (…) A decisão do Ministro das Finanças de congelar as despesas mostra que, de facto, ele, embora não viva cá, deve estar de partida para outro lugar. Desejo-lhe boa viagem.” Quem o escreveu, a 8 de Abril, foi Fernando Alexandre, novo secretário de Estado Adjunto da Administração Interna de um governo que "não merece o povo que governa".


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (22) | partilhar

por Pedro Vieira

 

rabiscos vieira


por Pedro Vieira
link do post | comentar | ver comentários (7) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

A remodelação a prestações continua. E esta semana foi-nos dado a conhecer o estado em que se encontra este governo. Para secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação entrou Francisco Almeida Leite. O leitor é capaz de não conhecer a figura, mas trata-se de um ex-jornalista do "Diário de Notícias" conhecido pelos pouco discretos, muito comentados e embaraçosos fretes ao então líder da oposição Pedro Passos Coelho.

 

A fama vinha de longe, ainda Passos fazia oposição interna a Ferreira Leite.O que levou, a 4 de Março de 2009, Pacheco Pereira a referir-se a este jornalista como "especialista na intriga interna do PSD" e a integra-lo num grupo de bloggers (quase todos do DN) que frequentemente "atacam Manuela Ferreira Leite e apoiam Passos Coelho".

 

Com Passos já no governo, os fretes continuaram, o que lhe valeu, há um ano, uma reprimenda do então Provedor do Leitor, por publicar informações dadas pelo governo (sobre as férias dos motoristas da Carris) sem cuidar de ouvir mais ninguém. E tendo, coisa inédita, como única fonte um "relatório interno que funciona como uma espécie de argumentário do Governo de resposta à greve" (palavras do jornalista). O moço de recados já nem disfarçava.

 

Não sendo este currículo jornalístico merecedor de grande orgulho, sobra o currículo político e técnico. Político? Tirando estes favores, zero. Currículo técnico para o cargo? Não se lhe conhece nenhum. A não ser ter aterrado, em junho do ano passado, pela mão de Passos Coelho, no Instituto Camões, diretamente vindo do DN. Uma queda para a política externa ou política cultural que surpreendeu todos. Talvez tivesse sido por causa da sua passagem pela "Guia TV Cabo". Sem rodriguinhos: esta subida meteórica não é mais do que um vergonhoso pagamento de favores a um jornalista pouco escrupuloso que ajudou o candidato à liderança do PSD, o candidato a primeiro-ministro e o primeiro-ministro. Ponto final, parágrafo.

 

Um governo que convida Francisco Almeida Leite para secretário de Estado só pode estar no fim da linha. Ou seja, está em estado de desintegração. Recordo que este lugar foi ocupado por Durão Barroso e Luís Amado. As duas figuras não me inspiram especial simpatia. Mas convenhamos que serem sucedidos por Francisco Almeida Leite é uma indecência.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (32) | partilhar

Segunda-feira, 22 de Abril de 2013
por Daniel Oliveira

Primeira boa notícia desta remodelação a prestações: o PSD respeita a independência da comunicação social. Se noutros tempos os partidos que estavam no poder punham pessoas da sua confiança no “Diário de Notícias”, o PSD vai tirando de lá os seus mais fiéis amigos. Carla Aguiar, Eva Cabral, Francisco Almeida Leite, João Baptista, Licínio Lima, Luís Naves, Maria de Lurdes Vale, Paula Cordeiro, Pedro Correia e Rudolfo Rebelo. São estes os 10 jornalistas que passaram do DN para o governo. Quando voltarem, podem formar uma secção do PSD. Deu-lhes lugares de assessores, administradores de institutos, diretores-gerais. Alguns conheço, eram bons jornalistas e nunca fizeram favores a ninguém. Não é definitivamente o caso de Almeida Leite. Por isso, para o mais dedicado de todos os jornalistas às causas laranjas guardou um lugar de secretário de Estado (depois de uma breve passagem pelo Instituto Camões, plenamente justificada pela sua experiência cultural na "Guia TV Cabo"). Esta é a segunda boa notícia: o PSD não é ingrato e lembra-se dos serviços prestados, guardando o melhor lugar para o mais dedicado. A terceira boa notícia é que um governo que convida Francisco Almeida Leite para secretário de Estado só pode estar no fim da linha.


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (26) | partilhar

por Daniel Oliveira

 

Sei pouco sobre o novo secretário-geral da UGT. Sei, entre outras coisas, que o porta-voz oficioso do governo, Luís Marques Mendes, dedicou-se, no sábado, a fazer-lhe ataques violentos na SIC, enquanto deixava um desprestigiante elogio a João Proença. Dizia um dos três ex-líderes-comentadores do PSD na televisão, entre outros ataques menos elegantes, que a força da UGT é a de negociar. Se se dedica à luta de rua deixa de cumprir o seu papel.

 

Esta análise sobre o papel dos sindicatos, vinda quase sempre de quem nunca os apreciou, parte de uma visão estranha da própria ideia de negociação. Negociar é confrontar objetivos diferentes para chegar a algum lado. Para dessa negociação surgir um resultado justo e equilibrado é preciso que as várias partes tenham poder negocial. O do governo sabe-se qual é: ter o poder de fazer as leis e definir as políticas. O das associações patronais também: o poder sobre aqueles que contrata e as empresas. O dos sindicatos é apenas o de terem ao seu alcance as formas de luta que a lei lhes garante. E para isso têm, quando é necessário, de os usar. Lutar sem querer negociar é um grito de alma. Negociar sem querer lutar é anunciar a desistência logo à partida.

 

O papel da UGT, pelo menos desde que é dirigida por João Proença, limitou-se a ser o de assinar qualquer acordo que lhe fosse posto à frente. A preocupação com o equilíbrio dos acordos firmados e com o seu real cumprimento foi nula. Para Proença, assinar um acordo, por pior que fosse, tornou-se, por si só, em sinal de vitória. Isto foi especialmente evidente no último acordo assinado, que até quem anda distante dos pontos de vista dos sindicatos considerou dificilmente aceitável por qualquer central sindical. Como se isto não bastasse, a UGT recebeu como agradecimento de Passos Coelho e Vítor Gaspar, um olímpico desprezo. Sem que esse desrespeito tivesse qualquer efeito na sua postura.

 

A relação umbilical da CGTP com o PCP é um problema grave para a credibilidade dos sindicatos portugueses. Mas vale a pena recordar que a UGT, tendo sido criada de cima para baixo nas sedes do PS e do PSD, sofre do mesmíssimo pecado, com efeitos agravados pela sua muitíssimo menor implantação social. O comportamento de Proença nos últimos anos retirou à UGT o já pouco poder social (e por isso negocial) que tinha. Proença, com a sua subserviência à mesa de negociações, limitou-se a transformar a UGT numa triste irrelevância. E isso é péssimo para os sindicatos e dá às correntes mais sectárias da CGTP o argumento ideal para ficarem sozinhas na defesa dos direitos dos trabalhadores. E é péssimo para o seu peso negocial. Quanto mais irrelevante, piores serão para quem representa os acordos que assinará.

 

O pouco que sei sobre Carlos Silva e os compromissos que deixou no Congresso - alterar a sua postura de subserviência ao governo e a vontade de trabalhar com uma convergência com a CGTP -, permite-me ter esperança que, num momento em que todos os direitos dos trabalhadores e todas as funções sociais do Estado são postas em causa, haja da parte desta central sindical uma posição um pouco mais firme (mesmo que não resistindo a convidar Álvaro Santos Pereira para a abertura do Congresso, naquela velha confusão entre Estado e sociedade civil que herdámos do regime corporativista).

 

Que Marques Mendes ache a partida de Proença e a chegada de Carlos Silva uma tragédia para o movimento sindical só reforça o meu otimismo. Ter uma CGTP amarrada a deliberações partidárias e a UGT anestesiada pela vontade de fazer o papel de bem comportada serve bem a agenda de Marques Mendes. Mas não serve os sindicatos e aqueles que eles devem representar. Se a UGT portuguesa passar a ter um papel semelhante ao da UGT espanhola talvez a CGTP passe a ser um pouco mais parecida com as Comisiones Obreras. E talvez passe a ser um pouco mais habitual vermos, como vemos por toda a Europa, as duas centrais sindicais a, com as suas diferenças, remarem para o mesmo lado.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (33) | partilhar

Domingo, 21 de Abril de 2013
por Daniel Oliveira


por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (46) | partilhar


pesquisa
 
TV Arrastão
Campanhas
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador