A semana passada não postei os meus dois textos do “Expresso”. Hoje postei o dessa semana e da última. Manuela Ferreira Leite e as dificuldades que Sócrates pode esperar, o PCP e Angola, o regresso de Santana e o filme “Tropa de Elite”. Está tudo na página do Arrastão para os artigos no Expresso. O texto (com um trailer) sobre o filme brasileiro fica também aqui, para debate.

Tropa de elite

O filme mostra as favelas do Rio de Janeiro pelos olhos de um agente do Batalhão de Operações Policiais Especiais, a tropa de elite da Polícia Militar. Baseado num relato na primeira pessoa, ganhou prémios por todo o mundo. O filme não é apenas um retrato do estado de guerra em que se vive no Rio. É um manifesto em defesa da lei sem lei como única forma de combater a criminalidade. Um manifesto contra as explicações sociais para a delinquência. Um manifesto que não se limita a justificar, antes defende de forma explícita, as execuções sumárias e a tortura. Que trata os brasileiros das favelas como gente que vive em terreno inimigo e por isso é inimiga. Gente com quem não há pontes possíveis.

Seria de esperar o choque e a indignação. No Brasil, a aceitação foi quase geral. Muito mais entusiasmo do que com ‘Cidade de Deus’, que vê as favelas pelos olhos dos favelados. Além da adrenalina, ‘Tropa de Elite’, de José Padilha, que acabará por estrear em Portugal e já tem a sua versão literária disponível nas livrarias, dá uma resposta rápida ao medo, quando não há resposta nenhuma. E a resposta é a bala. É assim quando deixamos que a injustiça crie uma multidão de miseráveis à nossa volta. Podemos fechar-nos nas nossas fortalezas para nos escondermos do caos. Mas os que têm de viver todos os dias paredes-meias com o crime acabarão por aceitar que, “na brincadeira sinistra de polícia e ladrão, não se saiba ao certo quem é herói ou vilão, não se saiba ao certo quem vai e quem vem na contramão”, como diz o polícia narrador num dos seus poucos assomos de hesitação moral. Porque no momento certo, perante o medo sem remédio, todos temos um fascista na nossa cabeça. Todos cedemos à resposta do desespero. Todos queremos ver sangue.

Outros textos aqui.


36 respostas ao post “Artigos do Expresso”  

  1. 1 1  António de Almeida

    -A verdade é que as patrulhas do BOPE passaram a ser aplaudidas nas ruas do Rio de Janeiro pelo cidadão comum, que está FARTO de marginais. A verdade é que Roma elegeu pela primeira vez um político de direita para liderar o seu município, o qual fez da segurança a bandeira de campanha. Por cá também gostaria que o governo criasse uma força policial constituida por voluntários, bem treinada e armada, com tácticas militares, para declarar guerra civil aos criminosos em bairros problemáticos, mas em Portugal, forças policiais com autoridade só mesmo a ASAE e a GNR-BT, está bom de ver porquê, há que encher os cofres do estado. Anteontem um vizinho meu que estacionava um automóvel na rua, á porta do prédio, foi vítima de carjacking, e o que acontece quando são apanhados? Soltos de imediato. Endurecer as penas, atemorizar criminosos é algo que a opinião pública portuguesa irá pedir cada vez mais, porque entrar no mundo do crime também é uma questão de escolha e falta de caracter, ainda há dias vi uma peça sobre jovens do “moinho da juventude” na Cova da Moura, pessoas que estão longe de poderem ser consideradas priviligiadas, mas optaram por outra vias, e não têm lá no bairro a vida facilitada, bem pelo contrário, mas são dignos e honestos. Escumalha é escumalha, aqui ou na China, se prescindem de viver em sociedade, porque não há-de a sociedade prescindir dos direitos desses marginais?

  2. 2 2  mariaarroba

    Concordo - A miséria é um dos principais causadores da violência e da criminalidade e as execuções sumárias devem merecera todos todo o repúdio - as dos favelados e as dos polícias. Mas não acho que fosse de esperar dos brasileiros o choque e a indignação ao filme.Não porque ” todos temos um fascista na nossa cabeça” ou porque “todos queremos ver sangue” mas sim porque é dificil a um cidadão aceitar ser agredido em nome da miséria que o estado não combate ou das injustiças que os governos não resolvem apesar de lhe cobrar impostos e impor obrigações sociais. É humano.
    ps-nas favelas brasileiras não há só miséria. há gangues intrincheirados que se dedicam ao tráfico de droga a larga escala.

  3. 3 3  Vítor

    Para mim, pobreza não é sinónimo de criminalidade. Se assim fosse, antes da entrada na união europeia éramos todos criminosos. Se uns bandalhos não respeitam a minha liberdade não merecem nenhum respeito da minha parte, por muito infelizes que tenham sido.

    Na minha humilde opinião as pessoas tem de começar a ser verdadeiramente responsabilizadas e a criminalidade começar a ser fortemente reprimida.

    Prefiro um grande ditador como o Sr. Salazar a pequenos ditadores como os criminosos. Certamente teria mais liberdade com o 1º.

  4. 4 4  Nuno Góis

    Concordo com muito do que está escrito, contudo o filme revela realidades que existem e às quais não podemos fugir, como seja a autêntica guerra civil que se vive em algumas favelas. Por outro lado, há uma parte do filme que me parece interessante e merece reflexão: Quando o jovem polícia na faculdade culpa aquela classe média alta ou classe alta por tudo o que se passa neste sub-mundo. Trata-se de uma classe que vai pondo paninhos quentes enquanto fuma “maconha” da favela, sem nada fazer ou lutar seriamente.
    Gostei muito mais da cidade de deus ou do filme Carandiru, este é mais blockbuster, mas devemos reflectir sobre ele.
    Abraço

  5. 5 5  João Costa

    Lá vem o discurso do politicamente correcto mais uma vez. Está-lhe no código genético não é Daniel? O mesmo discurso redondo de sempre na defesa das soluções “globais e profundas” que nunca dão em nada. Fácil, muito fácil.

    Não lhe ocorre questionar-se porque razão o filme foi aplaudido em quase todo o mundo, e mais ainda no Brasil? Definitivamente na sua cabeça, o mundo está todo a revelar a sua verdadeira faceta, medrosa e fascizante. Haja paciência para tanta arrogância.

    Por acaso ocorre-lhe que o que se passa no Brasil, onde em 2007 foram assassinadas 44.663 pessoas (sim leu bem, mais de 120 por dia), as pessoas estejam um pouco cansadas de ouvir discursos como seu? O que se passa nas favelas, está longe de ser apenas um problema de pobreza. Os traficantes de droga há muito que assumiram o controlo dos morros e não só. Para estes, a única divisa é: MATAR quem se intrometer no seu caminho.

    Deixo-lhe apenas mais um dado para reflexão: morrem todos os dias no Brasil, vítimas de assassinato, mais pessoas do que no Iraque e Afeganistão, vítimas da guerra. Acha então que estamos apenas perante um problema de pobreza extrema? Não, não estamos. Guerra ao crime organizado é do que se trata. O resto são tretas.

  6. 6 6  troca letra

    Estou ansioso para ver este filme

  7. 7 7  Daniel Oliveira

    João Costa, quer assim dizer que para atalhar o discurso redondo se deve defender execuções sumárias e tortura? É que é disso que o filme fala e que eu estou a falar. Pensa que assim resulta? Defende isso? Se não, está de acordo comigo. Se sim, não está. Quanto ao mais, se acha que a criminalidade, independentemente de dever ser combatida (eu digo no texto que não deve?), não tem razões sociais, então são quais? Qual a razão dos níveis de criminalidade no Rio? Está-lhes no sangue? É do clima?

    Tudo o que digo no texto me parece uma evidência. Se quer esquecer a cassete do anti-politicamente correcto e contestar alguma coisa em concreto, faça favor.

  8. 8 8  JD

    O comentador António de Almeida não percebeu o que ele próprio escreveu: a solução não são as tropas de elite mas os moinhos da juventude. Fazer guerra aos guetos é gerar sentimentos de revolta, que facilmente levam os mais jovens a percepcionar a “outra” sociedade como inimiga. Ademais, e cá vai a chamada cassete, que por acaso é defendida pela sociologia, quando a sociedade aponta como razão da existência humana sucesso na obtenção de bens de consumo, como esperar que alguns daqueles que lá não possam chegar pelos meios legais não o façam de outra forma?
    Combater o crime sem antes conceder a todos os cidadãos condições para poderem viver com dignidade, nunca teve sucesso, em qualquer parte do mundo. E falo em dignidade, não em caridade.
    É o capitalismo, estúpido! (esta não é dirigida a ninguém em especial)

  9. 9 9  rosinha dos limões

    Espero para ver e nalisar as reacções ao filme em Portugal.
    Também por cá se vai fazendo a apologia da “Lei da Bala”… devido ao aumento da criminalidade e à insegurança que se vive!
    A segurança dos cidadãos tem tido poouca discussão séria!E quanto a mim, pouco empenhamento do Governo!..
    Veja-se que a propósito de um vídeo de um aluno, se gerou um debate até à náusea,e há dois dias ,3 alunos violaram, ou abusaram de uma colega, e ninguém fez nada,!!! Os alunos continuam na Escola a amedrontar os outros…
    A aluna deixou de ir às aulas, e pronto!
    Não foi dentro das instalações da Escola, não é com eles!!! Mas devia ser…Aqueles alunos deviam ser imediatamente suspensos..
    Não consigo deixar de pensar se fosse a minha filha, o que faria, já que ninguém actua…

  10. 10 10  Arquiduquesa de Grayskull

    “Entrar a matar” significa uma só coisa: perda total e absoluta de controlo. Perda de todas as dimensões da dignidade humana. Significa que tudo falhou. Tudo. Do estado social, à educação, às forças de segurança. Tudo. Onde não há esperança, há vazio e morte.

    A propósito do post Daniel, sugiro-lheFavela Rising . Um retrato documental e esperançado das favelas brasileiras. A história de um homem que, escapando ao mundo das quadrilhas, encontra na música não só a sua tábua de salvação como a de centenas de miúdos da favela. Projectos socias como o de Favela Rising , levados a cabo por gente das favelas, que as conhece como as palmas das mãos e que só quer trabalhar e viver honestamente, é que deveriam merecer o apoio financeiro e logístico das autoridades. Não a tropa de choque.

    Há muito que a violência das favelas se tornou um ícone pop . Para cineastas, guionistas, produtores de televisão e espectadores ocidentais. O que vende vende e como a favela vende, “exotismo” por um lado, e “violência” por outro, o filão tem rendido. Tudo normal quando se alertam consciências. Grave, quando se pega no tema apenas pelo seu apelo visual e plástico. A filmografia brasileira está cheia de bons e maus exemplos e o documentário é sempre preferível à ficção.

    Em 2005 existiam no Brasil 52 milhões de “favelados”: 5 x Portugal inteiro a viver numa favela. Sem saneamento básico. Sem escolas. Sem uma única aposta social viável que desse alternativas reais aos seus habitantes, muitos dos quais menores, muitos dos quais orfãos. A única aposta visível é a tropa de choque, solução viciada à partida. Num submundo interminável de quadrilhas, desnorte e toxicodependência, traficar é muito mais rentável do que ter um trabalho honesto. Quer para polícias quer para ladrões. “Entrar a matar” (não haja dúvidas) é o fim do caminho. Para além disso, não há mais nada. Nem paz. Nem normalidade. Nem rigorosamente mais nada.

  11. 11 11  PC

    Obviamente que a pobreza não é sinónimo de criminalidade, se não veja-se, Inglaterra sendo um dos países mais ricos da Europa é também aquele com a mais alta taxa de criminalidade!

    Mas a combinação explosiva entre, pobreza, desigualdades sociais extremas, baixos níveis de escolaridade em guetos sem lei e sem condições de vida de certo ajudam.

  12. 12 12  Pedro Pereira

    Eu vi o filme e gostei. Provavelmente pelas razões que no fim enumerou.

    Mas o que me traz a esta caixa é a lista de blogues regionais. Então não é que em Guarda/Sabugal tem o capeiaarraiana?! Logo o blog do regime!

    Vá lá Daniel, emende lá isso e acrescente o Sabugal Tarrento.

  13. 13 13  Pereira

    Poder-se-à argumentar que não é com BOPEs ou outras forças para militares de natureza similar que se resolvem os problemas ligados à marginalidade, violência, tráfico de droga, etc…
    Constitui sempre um exercício de correcção política afirmar que violência gera violência e que sem a intervenção do estado a nível da fonte dessa violência,não se vai longe…é sabido que o Brasil apresenta grandes desigualdades na distribuição do rendimento e que as favelas são umas das expressões de tais desequilíbrios sociais graves…
    No entanto face à onda geral de violência e criminalidade que soluções adoptar ?
    A acção do BOPE será só uma das soluções mais imediatas, mas contudo necessárias…ou será que é mais fácil defender a continuação do caos social urbano no RJ ? Sim, porque é disso que se trata…
    A filosofia do BOPE é.:
    “pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos”…
    Ou seja depois da “limpeza”, a acção social de apoio àqueles que não são bandidos…
    A questão é complexa e de difícil resolução, por isso não existem medidas absolutas, mas sim possíveis modelos de intervenção combinada.
    Mais uma vez o debate em aberto…

  14. 14 14  João Costa

    Em primeiro lugar, estamos a falar de um filme e não de um documentário. Em 2º lugar, o filme não faz apologia de nada, limitando-se antes a acompanhar o percurso de um oficial do B.
    O.P.E. (Capitão Nascimento), com todas as suas angústias e contradições. A execução sumária de um “bandido” no final, não é apologia de nada, é cinema, já ouviu falar? Deste os westerns aos filmes sobre gangsters, são retratadas situações em que existem herois e vilões. Nestes filmes, é frequente a vitória do heroi sobre o vilão, morrendo este no final. Na sua cabeça, este tipo de desfecho só pode ser obra de um guião elaborado por um fascista e apologista de execuções sumárias.
    Tropa de Elite é um filme, nada mais do que isso, que por acaso ganhou o Festival de Cinema de Berlim, certamente por haver no juri uma maioria de fascistas e medrosos, claramente defensores de execuções sumárias.

    Quato à origem da criminalidade (leia-se tráfico de droga) nas favelas do Rio de Janeiro, a resposta é suficientemente complexa para que possa ser justificada apenas pelas assimetrias sociais. É evidente hoje, para qualquer carioca, que o problema ja ultrapassou ha muito a mera desigualdade na distrubuição do rendimento, estando muito mais ligado ao crime organizado e às ligações a carteis Sul-Americanos. É de multinacionais do crime que se trata e não de gente miserável que vende droga à classe média para sobreviver.

    Por fim, quero dizer-lhe que não defendo execuções sumárias. Apenas compreendo que no ambiente descrito no filme haja situações limite em que o desespero e a raiva conduzam a actos condenáveis. Acha o Daniel que alguém no Juri do Festival de Berlim concorda com aquele tipo de execuções?

  15. 15 15  Vítor

    Julgo que em Portugal já se provou que dar condições (casa e rendimento mínimo) a algumas pessoas não resolve o problema.
    Alguém que mate ou torture alguém por pura ganância não merece outra coisa que não seja a tortura e a excussão independentemente das suas condições de vida.

  16. 16 16  Daniel Oliveira

    João Costa, o filme é baseado no livro do capitão em causa, que é autobiográfico. Talvez não saiba, mas o BOPE já matou centenas de pessoas no Rio. E deve te estado distradido. Morrem bastantes no filme. Ouviu o filme com som? Ouviu a voz off.

    De resto, se leu o meu texto, verá que eu também compreendo. Se não não acabava o texto como acabei.

    Eu por acaso disse que o filme era mau ou que não merecia o prémio? Os prémios não são uma avaliação política, são uma avaliação cinematográfica. Mas isso não impede que se faça uma leitura política do filme. E quando se discorda do conteúdo político de um filme não se está a condenar o filme.

  17. 17 17  João Costa

    Sim, há várias mortes no filme, algumas delas provocadas pelos traficantes. Eu referia-me à única execussão sumária praticada pelo BOPE no fim do filme. As outras execussões sumárias no filme são praticadas pelos bandidos. Todas as outras mortes resultam de tiroteios insanos.

    Sei também que o BOPE já matou dezenas de pessoas desde a sua criação, mas certamente bem menos do aquelas que foram mortas pelo seu “alvo”. Não estou a defender os métodos do BOPE, mas apenas a constactar um facto, num cenário de “guerra”.

    Quanto ao filme e à suposta apologia da violência, é a sua opinião. Na minha, o filme retrata apenas a insanidade a que se chega num cenário daqueles, de parte a parte.

    Lembra-se de filmes como Apocalipse Now (Francis Coppola) e The Hunter (Michael Cimino)? Na altura ambos foram severamente criticados pela ambiguidade com que retratavam o Vietname e pela utilização da violência como elemento estético. Dou de barato que Tropa de Elite contém ambiguidades, mas não mais do que isso. Está longe de ser um panfelto de apologia da violência.

  18. 18 18  Minhoto

    O Bloco de Esquerdalha está bem representado no filme! O BOPE faz falta, é a esperança das pessoas sérias, honestas e trabalhadoras que vivem na favela e são escravizadas pelos barões do crime.
    ps: espero que os nossos GOE aprendam muito no Brasil agora que vão lá!

  19. 19 19  Daniel Oliveira

    João Costa, sou dos que acha que a polícia não deve ser comparada com os criminosos. E nisso respeito-a mais do que muitos que chamam sempre por ela. E esse é o debate importante sobre este filme. Qual é a fronteira a partir da qual deixamos de distinguir o criminoso da autoridade.

  20. 20 20  Minhoto

    Nas favelas do Rio está bem presente a terceira lei de Newton! “sou dos que acha que a polícia não deve ser comparada com os criminosos” onde nos BOPE isso acontece? Que eu saiba quando sobem o morro vão para prender, se são recebidos com rajada o que fazer, voltar para trás? ah já sei! manda-se o instituto de reinserção social!

  21. 21 21  x

    Mais completo:
    Tropa de Elite Trailer Preview - English Subtitle
    http://www.youtube.com/watch?v=hyAG8DWq7xw

  22. 22 22  mariaarroba

    como e que se resolve o problema da violência no Brasil onde a questão assume proporções enormes? Estancando a miséria, muito bem. Mas como essa política leva décadas a implementar e séculos a produzir efeito, o que é que o Daniel acha que se deva fazer entretanto de forma a não viver em pânico em cidades como o rio, por exemplo?

    ps- repito - é claro que se condenam veementemente todas as execuções sumárias…

  23. 23 23  Miguel Pereira

    A realidade é bem diferente do que filosofar sobre como deveria ser. O BOPE é asim porque tem de ser assim, ou pensam que a polícia pode entrar nas favelas pedindo licença? É matar ou morrer…

  24. 24 24  toulixado

    O que mais me ressalta do filme, para além da violência do BOPE, é corrupção da polícia (regular) .

  25. 25 25  JV

    «quando a sociedade aponta como razão da existência humana sucesso na obtenção de bens de consumo, como esperar que alguns daqueles que lá não possam chegar pelos meios legais não o façam de outra forma?»

    Pura mistificação: virtualmente nenhum jovem das favelas brasileiras - ou dos bairros sociais portugueses - faz parte de um agregado familiar com um rendimento suficiente para lhe garantir o consumo de bens e serviços caros: e a verdade é que a juventude do Turano e da Buraca não anda toda, em bloco, a assaltar casas e a vender droga. Há entre eles os tipos decentes, os que foram devidamente educados, os que perceberam da malignidade intrínseca de determinadas acções - os crimes.
    Pelo que o Mal (de que o delito é apenas uma expressão) não radica em questões sociais, como quer vender a «cassete» de que fala: radica, como já Platão dizia, na ignorância, numa deficiente educação para o Bem e para a Ética. Sobre isto poder ler Tiago Neves (A defesa institucional numa instituição total : o caso de um centro de internamento de menores delinquentes, Análise Social, 2007), e atirar às urtigas as suas interpretações ideológicas do que a Sociologia diz. A pobreza nunca fez um criminoso - a falta de educação fê-los todos.

  26. 26 26  Patfranca

    “Tropa de Elite” não pretendeu ser “um manifesto em defesa da lei sem lei como única forma de combater a criminalidade”. Eu vi-o como uma provocação que saiu frustrada. “Tropa de Elite” deveria ter servido para despertar consciências, para espicaçar a revolta, para debater. Em vez disso vimos fardas de Carnaval com o distintivo do BOPE. Criou-se um cinismo generalizado: “a aceitação foi quase geral”. Sim, de facto. Mas “Tropa de Elite” não dá resposta nenhuma, fizeram dele um bastião fascista quando apenas tinha a pretensão de iniciar o debate público. A todos é permitido interpretar da maneira que entenderem. Mas numa questão fundamental Daniel Oliveira tem razão: ainda não há resposta nenhuma.

    O simples facto de Daniel Oliveira trazer a público as questões fundamentais que o filme deveria ter gerado, há quase um ano, aquando da sua estreia no Brasil, é por si só um ponto positivo do filme. Isto fez-me lembrar a recente defesa da edição comentada do livro Mein Kampf na Alemanha, onde ele continua a ser proibido.
    Ainda que o filme seja visto como uma fácil resposta fascista ao problema da criminalidade no Brasil, ele permite ainda - ainda- manter (ou reiniciar) o debate.

    Mas - ainda - continuam a faltar respostas.

  27. 27 27  Lavadex

    Caros bloguistas,

    A nossa sociedade (portuguesa) caminhará, daqui a alguns bons anos, para uma provável “favelização” e à qual só poderemos resistir atacando estes criminosos na mesma moeda…e porque? Porque estes são os mesmos criminosos que assaltaram ontem, são presos hoje a amanhã serão libertados. Haverá alguma inteligência neste planeta, mesmo einsteiniana, que percebe esta maneira de fazer justiça?
    Nós, o povo (ainda) moderado e calmo, vemos isto e achamos incrivel…A incompetência para a justiça destes juizes e afins será no futuro o pretexto para o ataque em larga escala a esta escumalha (como bem disse um outro blogueiro).
    Para mim a vida é feita de escolhas dificeis, as mais importantes, e a falta de dinheiro ou outra falta qualquer não justifica a opção pela criminalidade. Eliminem-se tais criminosos!

  28. 28 28  A. Vicente

    “o filme é baseado no livro do capitão em causa, que é autobiográfico.”
    Infelizmente, o filme retrata, apenas, a parte pior do livro (tiros, sangue…) e esquece, completamente, a forte crítica que os autores do livro tecem à polícia e instituições (federais, estaduais, municipais) . O realizador do filme optou pelo lado blockbuster da coisa; o filme tem muito pouco do livro.

  29. 29 29  PC

    Sinceramente preocupo-me mais com a corrupção Policial do que com os métodos do BOPE… O ambiente que se vive entre traficantes e o BOPE é quase de guerra, infelizmente com isso morrem também inocentes!

    Não sei se se lembram mas há cerca de um ano e qualquer coisa esquadras da Polícia de São Paulo foram atacadas por grupos de traficantes, com armas só vistas em cenários de guerra e bem mais potentes e modernas do que aquelas que os Polícias usam… A situação no Brasil não é normal e não se espere que alguma vez resolva com métodos normais.

  30. 30 30  JV

    esquece, completamente, a forte crítica que os autores do livro tecem à polícia e instituições

    O amigo desculpe, mas não viu a parte do chefe de esquadra que todas as semanas ia cobrar o «arrego» do jogo do bicho? Não viu a parte em que os polícias se digladiam porque um deles é pago pelo dono de um bar para não multar os carros que estão mal estacionados naquela rua? Não viu a parte em que a polícia anda a atirar cadáveres e uma zona para outra, de forma a boicotar a estatística que a personagem Matias (o negro que acaba por substituir Nascimento na chefia do grupo Alfa do BOPE) quer fazer sobre as áreas mais problemáticas da cidade? Não viu a cena em que Fábio é levado para o Babilónia para que os colegas lhe «passem o rodo» posto que se suspeitava que ele tinha desviado o arrego do chefe da esquadra? Não se apercebeu do mod como não havia nenhum aparelho da esquadra de polícia que funcionasse a menos que fosse para ir fazer o carregamento A, o transporte B, ou participar de qualquer outra ilegalidade?
    O crime retrata, e bem, o modo como a polícia brasileira é corrupta. E ela está ali em representação das instituições nacionais. Mas também mostra - e é isto que causa urticária aos esquerdistas - que nas favelas há uma coisa chamada Comando Vermelho, e uns certos «Baianos» que mantêm a população residente feita refém da sua organização narcoterrorista. E que ainda homens com H grande que estão dispostos a ir para a guerra para libertar essas zonas. E para abater, sem pena, esses canalhas.

  31. 31 31  carlos vieira reis

    1. Pretender que o filme é “um manifesto em defesa da lei sem lei como única forma de combater a criminalidade” é um disparate imenso. Quanto muito o filme mostra que há quem pense que a lei sem lei é a única forma de combater a criminalidade, mas não é um manifesto de jeito nenhum. Só mesmo quem não conhece Padilha, nem nunca o ouviu falar, ou quem nunca viu o seu documentário Ônibus 174 é que poderá dizer algo de semelhante.

    2. Eu percebo que se queira falar do filme, dê por onde der, mas um filme destes obriga a ver outros tantos. Obriga, sobretudo, a ver o notável documentário Notícias de Uma Guerra Particular (1999), de Kátia Lund e João Moreira Salles, onde toda esta história começou. O termo “guerra” é lá que nasce, alcunhado pelo verdadeiro capitão Nascimento, o capitão Rodrigo Pimentel. Metade desta mística e histeria à volta do “homem de preto” desaparece na hora…

    3. E pretender que o livro Elite da Tropa, de Luiz Eduardo Soares, é a versão literária do filme Tropa de Elite (precisamente o contrário!) é igualmente não estar a perceber nada de nada…

    4. … mas também achar que A Cidade de Deus é “vê as favelas pelos olhos dos favelados”, bom, só dá vontade de rir.

    5. Os filmes não servem (ou não devem servir) para confirmar, ou não confirmar, as nossas ideias, as nossas maneiras de ver e de reagir ao mundo à nossa volta. Mas ao ler este seu texto fico com a sensação de que o mesmo já estava escrito há bem muito tempo, muito antes de ter visto o filme. Isso é triste e redutor. Os filmes servem para muito mais do que isso. Mas para isso é preciso respeitá-los.

  32. 32 32  Patfranca

    Acabo de ler a notícia do ElPaís com o seguinte título “Brasil entra en el club de los países seguros”. Deixo aqui o link: http://www.elpais.com/articulo/internacional/Brasil/entra/club/paises/seguros/elpepuint/20080502elpepuint_1/Tes

  33. 33 33  Pedro

    Inteiramente de acordo com o Carlos Vieira Reis. É um enorme abuso dizer que o filme “defende de forma explícita, as execuções sumárias e a tortura”. O filme, que considero excelente, não defende coisa nenhuma, não é uma tese, seja ela qual for, sobre a criminalidade. O que o filme faz é mostrar — e muito bem, pelo me que me pareceu — uma certa realidade sobre o combate ao crime no Brasil. Até parece, Daniel, que sua cabeça que só sabe ver política.

  34. 34 34  Daniel Oliveira

    Nada, muito menos um filme, se limita a mostrar a realidade. Porque a realidade não é apenas uma e não há formas neutras de a mostrar. A mesma realidade pode ser mostrada de milhares de maneiras contraditórias entre si.

    De resto, o filme é absolutamente político e no Brasil é um debate político que está a levantar. É preciso ter a cabeça completamente despolitizada para isso não saltar à vista. Os debates na Universidade têm aliás essa função: deixar claro que se trata de um filme político. O que é excelente. Eu posso gostar de um filme com o qual não concordo. Mas parece-me que tem mais interesse ler o que eu acho politicamente do filme do que eu acho dele do ponto de vista cinematográfico. Aliás, se o filme não fosse político seria só tiros e pouco mais. E seria mau. Debater o seu conteúdo (não fiz aqui uma crítica cinematográfica, apesar de achar que o filme, como obra, não é nada mau - também não chega a ser excelente) é tratar o filme com dignidade. Dizer que se limita a mostrar a realidade é insultar o filme. E a inteligência das pessoas.

    O filme escolhe personagens e dá-lhes contornos fortes (no caso das pessoas que fazem trabalho social na favela, por exemplo, o olhar é bastante maniqueístas, para dizer a verdade, e toda essa parte do filme é muito fraca, porque apela mais ao preconceito do que à inteligência). O filme é o ponto de vista de um polícia do BOPE, que será seguramente diferente do ponto de vista de qualquer outra pessoa.

    Tudo isto são escolhas para mostrar a mesma realidade que Cidade de Deus mostrou. E Tropa de Elite fá-lo, através da voz of e das personagens, de uma forma bastante empenhada. É um filme político. E eu fiz-lhe uma crítica política. Parece que isso hoje em dia é coisa que não se faz. Parece que os filmes já não podem servir para começar debates. Servem apenas para dar estrelas. E para “mostrar a realidade”.

  35. 35 35  André Militão

    Discussões sérias em torno do “Tropa de Elite” fazem-me rir… ahahahhaha

    O filme está engraçado e tem alguns ditos espirituosos (bota na conta do papa!), mas como crítica social está muito, mas muito fraquinho! Sobretudo quando comparado com “Cidade de Deus” que oferece um insight incomparavelmente maior da realidade nas favelas brasileiras.

    Uma espécie de BEM (BOPE) contra o MAL (a malta TODA das favelas e os estudantes maconheiros), em que o BEM se vê forçado a combater fogo com o fogo. Felizmente, o espectador está tão envolvido na complexidade do enredo (ao nível do Rambo) que até se ri quando os simpáticos caveiras estão a partir a boca a menores e a sufocá-los : CADÊ O BAIANO PÔ!

    Para quem está a assistir o filme o BOPE não é uma simples polícia de elite, mas sim o equivalente à Justice Legue brasileira… Ora vejam:
    - os policiais são todos corruptos, excepto o BOPE
    - os policiais morrem todos na “guerra”, excepto o BOPE
    - tribunais e acção social é para muleques, excepto o BOPE
    - os policiais não fazem frente aos traficantes, excepto o BOPE
    - os estudantes maconheiros devem ser mortos, excepto o BOPE
    - os policiais não garantem a segurança do Papa, excepto o BOPE

    Um gajo vê o filme, curte a porrada, os tiros e as explosões e sai do cinema sem perceber como é surgiram favelas no Brasil e como os traficantes obtiveram tamanho arsenal bélico e mesmo o apoio de grande parte dos habitantes das favelas. Também não percebemos a ânsia (nem o próprio Cap. Nascimento entende) de mandar o BOPE para dentro das favelas (i.e. pá guerra) nem de que maneira isso vai resolver o problema da existência das ditas…

    Enfim… o filme, para mim, até estava muito bom dentro do género, mas não compreendo como é que fizeram disto um bicho de sete cabeças.

    Será que o Daniel Oliveira também chora quando o Rambo mata o Comunismo (com um arco e flecha note-se) e o considera um manifesto ao imperialismo americano?

    E os fachos residentes que tanto elogiam o BOPE-da-treta (i.e., o BOPE da tropa de elite), também ficam todos excitados a ver o Stallone arrancar as traqueias aos mauzões com as suas próprias mãos?

    Se não, parem de dizer disparates! O BOPE não é o salvador da pátria e a sua utilidade é extremamente reduzida. Fazem umas operações de resgate aqui e ali (que algumas vezes correm pessimamente mal), apreendem alguma droga (gotas no oceano) e sobretudo, dão muitos tiros porque estão “em guerra”.
    Caso não saibam, Portugal também tem divisões de operações especiais e garanto-vos que não hão-de ser assim tão diferentes no modo de pensar e actuar relativamente ao BOPE (evidentemente com menos experiência).

    Não obstante, eu cá não contava com eles para vos safarem de um assalto ou de um carjacking.

    Por mais que o tentem esconder, é evidente que a principal causa deste tipo de criminalidade é a má integração social (=guetização) e a desigualdade na distribuição da riqueza. Por mais cap. Nascimento que vocês queiram semear cá em Portugal, a criminalidade será sempre superior à da Dinamarca ou da Suécia, as quais têm menos polícias por habitante que nós.

  36. 36 36  Pedro

    Claro, há muitas maneiras, todas elas selectivas mas umas mais interessantes do que outras, de mostrar a mesma coisa. E nada a opor à ideia dos filmes como motivo para debate. O Tropa da Elite oferece seguramente muito bom material para discussão e esse é um dos seus méritos. Eu só rejeito a ideia de que o filme tem o carácter de uma tese, de uma defesa, ainda para mais explícita, das execuções sumárias e da tortura. O Daniel pensa isso porquê? Porque a narrativa se desenvolve a partir do ponto de vista de um polícia de um BOFE? E depois? O Laranja Mecânica também se desenrola do ponto de vista de um sádico, mas isso não transforma o filme numa defesa do sadismo. Além disso, a maneira como o filme mostra a vida do polícia — uma vida miserável e destroçada — não funciona propriamente como um convite à adopção da sua perspectiva.

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