Não me vou envolver numa discussão que não me diz respeito. Apenas gostava de dizer que é interessante verificar que alguma clarificação começa a acontecer entre a chamada direita liberal. De um lado, liberais com os quais não concordo, mas que assumem alguns princípios básicos para qualquer pessoa que não queira abastardar a coisa: a laicidade do Estado e o distanciamento em relação às mais tenebrosas memórias da direita. À esquerda, algumas destas clarificações são também necessárias. Do outro: o sectarismo mais delirante, o fundamentalismo religioso, o conservadorismo agressivo, a intolerância em todos os domínios da vida e a simpatia não disfarçada pela mais troglodita extrema-direita. No meio, infelizmente, ainda quase todos.

Ao Tiago Mendes, Pedro Marques Lopes e CAA desejo boa sorte, apesar de não ser muito optimista. Gostava, um dia destes, de debater as grandes clivagens entre a direita e a esquerda (o futuro do Estado Providência, o papel do Estado na sociedade e na economia, os limites do mercado e por aí adiante) e deixar de perder tempo com matérias que deviam estar resolvidas há pelo menos cem anos. Tornava o debate mais difícil para a esquerda mas muitíssimo mais interessante. Tiago, Pedro e Carlos serão seguramente meus adversários políticos. Mas daqueles com quem vale mesmo a pena debater.


Sem respostas ao post “Direita na blogosfera”  

  1. 1 1  Bang Bang

    Muito bem dito.

  2. 2 2  Nuno Costa

    Eu gosto tanto de ver estes posts onde o Daniel nos ajuda a distinguir a direita com quem se pode falar da direita com quem não se pode falar; a direita admissível da direita inadmissível.Sempre na boa tradição do camarada Vasco a distinguir a «Revolução» da «Reacção». Bem haja Daniel por nos iluminar a todos… Não lhe beijo os pés, mas agradeço-lhe encarecidamente este serviço que de forma tão altruísta e desinteressada presta aos seus adversários políticos.

  3. 3 3  Daniel Oliveira

    Bolas, Nuno, também não é preciso plagiar os posts que o trouxeram a este. Venham daí uma palavrinhas da sua autoria. Tenho a certeza que consegue.

  4. 4 4  Pedro Sá

    Concordo em absoluto.

  5. 5 5  Luís Lavoura

    Se o Daniel gostava de debater com eles, faça-lhes a seguinte proposta: um blogue com eles os três, o Daniel e mais 2 ou 3 esquerdistas da sua escolha. E prontos, teríamos nós, os leitores, um blogue com gente séria a discutir. Sem merdosos nem de direita nem de esquerda - que os há em ambos os lados, claro.

  6. 6 6  Nuno Costa

    Caro Daniel:
    Como pede educadamente vou tentar deixar-lhe algumas palavras da minha autoria, desculpando desde já a minha falta de originalidade com o estado de confusão mental em que a exibição do nosso clube contra o Leiria me deixou.

    A minha posição é simples - o Daniel o que leva a cabo neste post é um exercício de sectarismo idêntico ao que tanto critica no André Azevedo Alves. Muitos dos posts do AAA procuram fazer com o BE exactamente o que o Daniel aqui faz, que é lançar as posições de que discordamos para fora do admissível no debate político. Quando se lê o que o Daniel escreve, o que se lê é que com esta gente não é possível conversar, não há debate, não há troca de ideias possível, não há nenhum ponto em comum. Esta é uma posição simétrica a muitas que podemos encontrar no Insurgente a propósito de sí e do Bloco de Esquerda (posso, por exemplo, lembrar-lhe uma infeliz sondagem em que se perguntava se o BE era um perigo para a democracia maior do que o PNR). Ora eu considero que este tipo de extremar de posições é a antítese da democracia e que quanto maiores fatias do espectro político são objecto destes anátemas, mais perto estamos de passar de um combate político em que se podem resolver de forma pacífica as divergências no seio da sociedade para um combate político que pretende unicamente subjugar os adversários. Mais perto estamos do totalitarismo.
    Este tipo de posts vindos de uma área política que também tarda a fazer as pazes com as suas «memórias tenebrosas» (vejam-se as diversas formas de “abordar” a revolução de Outubro e as memórias do que foram as «experiências» comunistas do séc. XX) seriam mais profícuos, e já agora corajosos (uma característica a que sei que atribui muito valor), se fossem virados para dentro, para quem está próximo.
    Além disso, se o Daniel estivesse verdadeiramente interessado na supremacia da direita liberal «boa» sobre a direita «má», teria percebido que nesse aspecto o seu post não podia ser mais contraproducente. Se no meio entre estas duas direitas estão, como refere, «quase todos», a sua declaração de apoio não vem ajudar nada pois não? Com amigos destes quem é que precisa de inimigos?

    Por fim, não resisto a uma provocação. Acho graça que o Daniel queira «debater as grandes clivagens entre a direita e a esquerda («o futuro do Estado Providência, o papel do Estado na sociedade e na economia, os limites do mercado e por aí adiante») quando no Barnabé foi incapaz de o fazer com o Bruno Cardoso Reis que é uma pessoas de esquerda. Aí, confrontado com opiniões de esquerda diferentes da sua (e onde estavam em causa o futuro do Estado Providência e o papel do estado na economia e na sociedade), se bem me lembro ao debate o Daniel preferiu a desistência.

    Melhores cumprimentos:
    Nuno Costa

  7. 7 7  Daniel Oliveira

    Caro Nuno,

    Duas coisas rápidas: há pelo menos uma grande diferença entre mim e o AAA: eu não faço juízos de carácter em relação às pessoas com quem discuto e que não conheço pessoalmente. Ou pelo menos tento não faze-lo. Reconheço com a maior das facilidades que quem defende posições diferentes das minhas o faz, na maior parte dos casos, com as melhores motivações, incluindo o AAA.

    Segunda: eu não quero ser aliado de direita liberal contra a direita conservadora nem dar-lhes uma ajudinha. Primeiro porque, como diz, seria contraproducente. Segundo, porque seria esquizofrénico.

    Limito-me a fazer o normal: estive com CAA, Pedro Marques Lopes, Vasco Rato ou Tiago Mendes na campanha pela despenalização do aborto, construindo (por minha iniciativa) um blogue colectivo. Em coisas concretas - nas coisas que deviam estar resolvidas há tanto tempo - encontrei-me e poderei, noutras oportunidades, voltar a encontrar-me. Noutras (na maioria), estarei do lado oposto da “barricada”. Não escolhi a “boa direita”. Escolhi, como tenho escolhido tantas vezes na vida, quem está do mesmo lado que eu em coisas concretas. Um dia, quem sabe, até poderia ser AAA, num qualquer assunto (agora não me ocorre nenhum, mas deve haver). A minha fronteira é apenas uma: não me junto com quem use, no presente, da violência para impor as suas posições. E não me junto a racistas. Coisas minhas e que ultrapassam em muito a política. As mesmas que me levam a dizer à minha filha que será tudo o que quiser e que só ficaria muito triste se se dedicasse a odiar pessoas porque são diferentes dela. O resto, é tudo discutível.

    Eu dizer que gostava que a direita portuguesa mudasse não quer dizer que eu ache que por eu o dizer ela mudará. Mas acho que posso ajudo (quase nada) a direita (e a esquerda e o centro e tudo o mais) a mudar quando me bato pela laicidade do Estado ou pelos direitos dos homossexuais, para pegar apenas em dois exemplo. As vitórias do lado de lá mudam-nos. Não foi a esquerda que me convenceu a deixar de ser comunista. Foi a realidade e seguramente muita gente de direita contribuiu com os seus actos para isso. As influências não estão definidas à partida e isto não são claques de futebol.

    Acho por isso que não deve confundir acutilância com sectarismo. Não sou sectário, como qualquer pessoa que tenha feito política comigo lhe poderá testemunhar.

    E chegamos ao terceiro ponto, que tem a ver com isto. Eu posso, como é evidente, discutir com o Bruno Cardoso Reis. Já o fiz, depois do Barnabé, em caixas de comentários. Se posso discutir com tanta gente de direita (e até fazer blogues com eles) seria estranho que não o fizesse com BCR. O que esteve em causa no Barnabé era a própria identidade do blogue e não a minha capacidade de discutir com o Bruno. Eu não pedi nem quis que o BCR saisse do blogue. Não faltava mais nada. Quis sair, porque o blogue tinha uma identidade própria e ela estava a perder-se. Felizmente na blogosfera não precisamos de estar juntos nos blogues para discutir e debater. E note que não me repugnava nada estar num blogue com o BCR ou com o CAA ou com o Paulo Pinto Mascarenhas. Seria é um blogue diferente. O Barnabé não era, na minha cabeça, isso. E não sendo usei do meu direito de sair. Depois, até participei num blogue onde esteve o Rodrigo Moita de Deus. Não era é o Barnabé, nascido com outros objectivos. Preferia, confesso-lhe, ver morrer o Barnabé a ve-lo perder a imagem que então tinha. Mas, como saberá, não participei na decisão de o matar. Não foi minha. A minha foi apenas perceber que o Barnabé, como tinha nascido, já não existia. Ponderar se queria participar naquele novo blogue e concluir que não. O drama aconteceu mais pela visibilidade extraordinária que o Barnabé então tinha (até entrevistas dei sobre o assunto, tal a dimensão que a coisa tomou), do que pela situação. O que ali aconteceu acontece quase todos os dias na blogosfera. O fim foi violento? Um pouco. Mas isso sim, fazia parte da identidade daquele blogue.

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