Sou ateu. Mas considero o meu ateísmo uma questão pessoal e por isso não me passa pela cabeça fazer dela uma causa ou algo que me junte a outros. A defesa da laicidade, pelo contrário, é do domínio público e político. A defesa da laicidade do Estado é a defesa da democracia. Num país islâmico, hindu ou cristão.

Esta semana, excepcionalmente, escolho dois blogues como blogues da semana. Dedicam grande parte dos seus posts aos mesmos assuntos, apesar de terem perspectivas um pouco diferentes: o Esquerda Republicana e o Diário Ateísta. Revejo-me mais no primeiro do que no segundo, mas os dois têm cumprindo um papel importante. E, para dizer a verdade, os bloggers repetem-se num e noutro.

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O Esquerda Republicana está no ar desde 10 de Março de 2005. Rezava assim o seu post inicial: «O Estado nada tem com o que cada um pensa acerca da religião. O Estado não pode ofender a liberdade de cada qual, violentando-o a pensar desta ou daquela maneira em matéria religiosa.». Uma citação de Afonso Costa. Pelo menos parte dos seus participantes (serei corrigido se estiver errado) pertencem à Associação República e Laicidade. Participam no blogue Ricardo Alves, Ricardo Carvalho, João Vasco (que também escrevem no Diário Ateísta) e Filipe Castro.

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O Diário Ateísta está no ar desde Julho de 2003 e atingiu hoje o primeiro milhão de visitas. Para além de Ricardo Alves, Ricardo Carvalho e João Vasco, conta com os escritos de Francisco Burnay, Helder Sanches, Carlos Esperança, Bruno Miguel Resende, Admin, Ricardo Silvestre, Daniel Sottomaior e Ricardo José.

Apesar das piadas que vou escrevendo sobre Igreja Católica, raramento com outro objectivo que não seja a provocação e a vontade de que os católicos ganhem o o fair play a que já foram obrigados noutros país (nas suas reacções provam que ainda não se habituaram à ideia de que não merecem um estatuto de excepção na crítica e no humor) e do facto de não ser uma instituição que tenha uma história que me mereça especial admiração, não milito contra a Igreja, muito menos contra os cristãos e ainda menos contra a religião. Foi talvez entre católicos que conheci as pessoas mais generosas e desinteressadas no seu empenhamento social. Distingo os católicos que encontram na repressão moral e na imposição a toda a sociedade das suas convicções dos católicos que descobrem na sua fé um incentivo à solidariedade e empenhamento social.

Por isso, não participaria em nenhum destes blogues, demasiado marcados por um anti-clericalismo em que não me revejo. Tenho a vantagem de ter crescido entre ateus. A Igreja é-me demasiado distante. Mas reconheço que quer um blogue quer o outro cumprem um papel importante na nossa democracia: defender a laicidade e a liberdade religiosa. Que inclui, antes de mais, a liberdade de não ter religião nenhuma e de não ver a religião dos outros imposta a todos por via do Estado. Por isso, o Esquerda Repúblicana e o Diário Ateísta são os blogues da semana.


18 respostas ao post “Esquerda Republicana e Diário Ateísta”  

  1. 1 1  Euroliberal

    Há 9 estados europeus que não são laicos, mas confessionais:

    Todos os nórdicos (Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia e Islândia), o Reino Unido, a Grécia, o Lichtenstein e o Vaticano !

    Nos EUA o dólar e o Presidente dizem: “In God we thrust”…

    Isso da laicidade é uma desacreditada herança jacobina. O que é preciso é muita religião e muito respeito. De rebaldaria estamos todos fartos…

  2. 2 2  Justicialista

    Eu não sou religioso (o que não significa que não acredite numa autoridade superior ao Homem), embora respeite e não denegue qualquer religião. Não sou religioso porque penso que a correcção, honradez e honestidade do Homem não têm de vir artificialmente do temor de uma suposta sanção de Deus a quem não tenha essas qualidades. A honestidade é uma qualidade que advém da razão humana. Não se pode pretender controlar os maus morais inerentes ao homem com a crença de uma autoridade que reprime após a morte.
    De qualquer forma, penso que o Mundo não se esgota no Homem e que há um criador da espécie humana, da mesma forma que nós criamos várias coisas em série. Mas não passam de suposições.

  3. 3 3  Xico

    Apesar de ser católico, fico mais satisfeito se viver num estado laico, mas o anticlericalismo sempre me pareceu um absurdo.
    É claro que aqui não é o lugar próprio para argumentar contra algumas ideias aqui postas sobre a religião.
    Também eu gosto e brinco com as coisas da religião e da minha própria. Se algumas vezes aqui me insurgi não foi por falta de humor mas por sentir por vezes o complexo de superioridade implícito nesse humor.
    Ao contrário do Daniel acho a história da igreja objecto de grande admiração.
    Talvez a diferença em Portugal seja o facto de a extinção das ordens religiosas que ocorreu no século XVIII e XIX ter entregue o país nas mãos de párocos sem grande preparação e ter fechado instituições que foram muitas vezes espaços de pensamento e discussão dentro do seio da Igreja.
    Há algo que se esquece frequentemente. O legado clássico greco-latino, jamais teria sido salvo sem a Igreja católica e isso formou a Europa como a conhecemos, e Portugal então nem se fala…Esquecer isso é reescrever a história à moda sino-soviética!

  4. 4 4  Xico

    Respondendo ao justicialista.
    A religião não pode ser por temor mas por amor. Essa foi a loucura do Cristo crucificado.
    Li há pouco num livro sobre a idade média ibérica, a história de uma mulher muçulmana sufi que queria apagar o inferno e o céu, para ver quem verdadeiramente amava a Deus!
    Quando se ama fazem-se coisas pelos que se amam. Quando se ama Deus forçosamente quer-se bem à sua criação! Não é nem pode ser por temor! Embora por vezes seja!
    Só por amor conseguimos a renúncia de nós próprios. Essa é a ideia da religão.

  5. 5 5  Justicialista

    Xico, concerteza. Em relação ao Cristianismo, tenho só a dizer para demonstrar a falta de coerência com os princípios que apregoa que uma religião em que Deus traz ao mundo o seu filho com a cor de pele “branca” não pode depois defender a igualdade de raças. Ou será que Deus é de cor branca, para Jesus o ser também? Como se pode apregoar o amor ao outro, quando surgimos em superioridade?

  6. 6 6  Xico

    Caro Justicialista
    Talvez um Cristo arco-íris?
    Mas isso provocaria outras interpretações!!!…
    Já não bastava a Nossa Senhora ter um filho que não era do marido, queria agora que ele aparecesse escurinho? Coitada da Senhora! Oh homem, agora que estamos em tempo de vindimas, sempre lhe digo que conheço um vinho óptimo que cura esse estado de espírito.

  7. 7 7  Tárique

    Para desmascarar as falsidades do EuroLiberal:

    http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/b/bc/State_Religions.png

    As igrejas Ortodoxa e Luterana finlandesas não são nem se consideram a si próprias Igrejas do estado. A população finlandesa é das mais seculares do mundo, e abandona estas duas instituições (a que até há pouco era obrigatório pertencer) à taxa de 1% por ano

    Na Noruega, está a dar-se neste momento o processo de separação entre Igreja e o Estado, tendo o Sínodo Geral votado maioritariamente (63 contra 19) a favor da separação da Igreja e do Estado neste país. O processo de laicização da Noruega fará com que este estado em que apenas 12% pratica a religião oficial seja, daqui a 6 anos, um estado laico.

    A Suécia é um estado laico e secular desde 2000, em que 78% da população afirma que “Não acredita na existência de Deus”. (é o país mais ateu da Europa).
    O primeiro-ministro conservador sueco é um ateu convicto.

    Pois é, Deus não sobrevive muito tempo à falta de miséria e ignorância.

  8. 8 8  Justicialista

    Sendo os países nórdicos seculares ou confessionais, a verdade é que têm um Ministro dos Assuntos Eclesiásticos (Dinamarca) ou dos Assuntos da Igreja (Noruega) nos respectivos governos.

  9. 9 9  The Studio

    ” Apesar das piadas que vou escrevendo sobre Igreja Católica, raramento com outro objectivo que não seja a provocação (…)”

    Acho muito bem que a Esquerda moralista e eticamente superior o assuma. Se compararmos esta posição relativamente à posição que manifestaram a propósito das caricaturas de Maomé, está tudo dito a vosso respeito.

  10. 10 10  Euroliberal

    Obrigado ó Tarique, afinal há mais 3 estados confessionais na Europa: Monaco, Malta e Chipre ! Tal como os outros que indiquei, todos mais desenvolvidos que nós… Será coincidência ? Ser ateu é careta… já era.

  11. 11 11  JS

    Eu não percebo porque teima em tentar habituar os católicos ao “humor”. E já não acha piada nenhuma quando o “humor” é com homossexuais, grupos étnicos ou outros.
    Daniel, creio que tem capacidade para distinguir humor de outras coisas que só por fazerem rir alguns são bem diferentes de humor.
    No dia em que usar a mesma bitola para os outros grupos, que quer usar para os católicos então estará a falar de humor. Caso contrário está a esconder ideologias (neste caso quase “católicofobias”) atrás da palavra humor. Mas humor não é nada disso.
    Esse tipo de “humor” é apenas uma forma eficaz de passar preconceitos, sem necessária reflexão ou objectividade. Aconselho a ouvir o que diz Gabriel o Pensador na sua música Lavagem Cerebral. Nessa música o tema é outro, mas a forma de propagação do preconceito é o mesmo: a “piada”
    A esquerda conhece bem as potencialidades desse fenómeno, do “humor”. Ainda recentemente um sketch fez “mais” por um referendo do que um debate alargado, participado e democrático. Esse tipo de eficácia bem (mal) aproveitada constrói uma cena política vez menos democrática e cada vez mais populista.

  12. 12 12  Ricardo Alves

    Obrigado, Daniel. Não contava com isto.

    Terei mais qualquer coisa a comentar (mais tarde).

  13. 13 13  delavictoria

    A sua posição e a forma como a sustenta acho muito equilibrada, não deixo de achar caricato que escolha o diario ateísta como blogue semanal pois aquilo está ao nível de um blogue de fascista-ateu, repare no refocilar de ofensas gratuitas e todo o género de baixarias que regorgitam contra as religiões e os religiosos em geral ( o caso do dalai-lama é um exemplo) a forma como quase todos os administradores tentam ofender quem lhes responde de forma perfeitamente boçal é incrível e não é preciso muito para ver como distorcem factos reconhecidos com a maior da má-fé. Não acho que gente dessa tenha a ver com o arrastão e o Daniel.

  14. 14 14  Daniel Oliveira

    JS, quer saber porquê? Porque não há nenhum humorista, nenhum “colega lá do escritório”, nenhum utente de taberna ou clube, nenhum aluno de escola ou faculdade, nenhum trolha ou empresário que não mande piadas sobre homossexuais. E que não os insulte com piadas ou comentários, na rua, no emprego, na escola. Será assim com os católicos?

    Passeie pelos blogues, leia os posts com piadas homofóbicas. Vá lá e revolte-se para levar imediatamente com o rótulo de politicamente correcto e estar quase sozinho. Depois experimentegozar com os católicos e espere pelas reacções. Há toda a diferença em gozar com a maioria e com a minoria. Toda.

  15. 15 15  Bruno Miguel Resende

    Obrigado pela referência e pela alusão à importância da Laicidade, parece que ela apenas vem à baila em situações de perigo para a Democracia, recentemente foi considerada como o bastião da Democracia no México devido aos enormes problemas instigados pelas hierarquias católicas. Tal importância não se reveste exclusivamente de importância a nível nacional, até porque as religiões não possuem fronteiras definidas, nomeadamente as abraâmicas, se em Portugal se pode conviver tentar conviver harmoniosamente a democracia com o catolicismo, o mesmo não se passa em excessivos sítios. Tanto a condenação do preservativo, o relatório “ciêntifico” enviado do Vaticano para todo o mundo defendendo que os vírus e o esperma passa pelos poros do preservativo exponenciam morbidamente a vaga de mortandade no mundo, nomeadamente na África. Também temas como a tentativa de islamização do mundo devem ser seriamente debatidos, obviamente que não existem budistas a rebentarem-se com bombas à cintura em nome de Allah, seja portanto uma complexidade de análise das diferentes crenças, como ateu e anarquista defendo a plena liberdade individual, infelizmente a religião é o factor mais sectário das sociedades ao imprimir aos seus seguidores visões diferentes do mundo. Aproveitando a alusão feita ao Delai Lama, (tenho uma enorme admiração pelo budismo, jainismo e hinduísmo enquanto filosofias de vida) é fácil verificar a Laicidade ténue que se vive, a não recepção do líder espiritual pelo governo por razões óbvias (seria a laicidade?) enquanto que na cerimónia oficial de comemoração dos 50 anos da RTP o Presidente da Républica aparece acompanhado de um “representante” religioso que entre outras coisas efectou rituais religiosos violando a Lei de Liberdade Religiosa. De resto aparecem os erros comuns na visão do ateísmo, as pessoas identificam-se como atingidas quando o debate se prende com ideologias, também a alusão ao “fascismo-ateu” é completamente disconexa, denunciar as atrocidades islâmicas perante as mulheres, as lavagens cerebrais efectuadas a crianças preparando-as para as guerras santas, defender os direitos humanos básicos supondo obviamente a luta contra os ideais obscurantistas de homófobia e sectarismos religiosos vários apresenta-se na escala social como defesa da Liberdade e não o contrário. Para finalizar, parece-me de extrema importância preservar as liberdades individuais, e criticar as ideologias que as tentam repremir.

    Parabéns pelo Arrastão (foi a primeira vez que por aqui passei) e cumprimentos a todos.

  16. 16 16  João Vasco

    Sou leitor habitual deste blogue, e fico contente pela referência, mesmo que não me reveja nalguns dos aspectos com que é feita…

    O blogue “esquerda republicana” fala mais sobre laicidade do que qualquer outro blogue de esquerda que tenho lido, mas ainda assim creio que o principal tema são mesmo as ideias de esquerda em geral (e não só a questão da laicidade).

    Quanto ao blogue “Diário Ateísta”, ele é realmente marcado por anti-clericalismo, mas “clericalismo” (ao contrário do que o nome sugere) é uma palavra que quer dizer “promiscuidade entre o clero e o poder”, por isso qualquer um que seja a favor da separação entre a igreja e o estado (como muitos católicos) é “anti-clericalista”, e duvido, pelo que escreveu, que o Daniel não o seja.

    Posto isto, volto a agradecer a nomeação :)

  17. 17 17  JS

    Conheço minorias bem mais opressoras e perigosas do que muitas maiorias.
    Daniel, estou totalmente de acordo com não gostar desse tipo de “piadas”, e até que há alguma diferença entre gozar com uma minoria ou com uma maiora. Alguma, não toda a diferença. O que acho é que não está a ver que as piadas que eu chamo católicofóbicas (que é bem diferente do que fazer humor com religião, bem diferente) têm o mesmo efeito discriminatório e superior e propagador de ideias sem reflexão ou consciência. E nesse sentido não é por serem praticadas por um (ainda) menor número de pessoas (mas seguramente pessoas com mais voz) que passam a ser mais benévolas. Aliás as outras “piadinhas” já são ilegais, creio, e estão em baixa de popularidade, e não as vê nos media. Enquanto estas, estranhamente continuam em crescendo e até a ser consideradas por si como de certa forma úteis, fruto e fonte de luz quando na verdade são tão fonte de escuridão como as outras. Se ainda são pequenas, é uma questão de tempo. A sua luta é pelo bom humor dos católicos? ou contra os católicos?
    E já agora há blogs e blogs. Há blogs de certa forma de referência (mesmo para ideologias diferentes) no qual este se inclui, e blogs de trazer por casa. Não vale a pena justificar o que se escreve nos de referência com o que escrevem nos outros. Só mais um reparo, ver os católicos como uma “maioria” poderosa, ou até como simples maioria, é capaz de ser uma visão um pouco anacrónica, e onde eventualmente possam ser maioria duvido que sejam uma maioria ameaçadora. (Estou a falar de católicos, não de outras igrejas).

    Poderei presumir, pela defesa que faz das minorias, que no dia em que o BE for (fosse) maioria começará a fazer piadas sobre o mesmo?

    Não é apenas o número que diz da sua “perigosidade” de um grupo ou ideologia. Quase sempre um virus é mais perigoso do que um grande predador.
    Conheço minorias bem mais opressoras e perigosas do que maiorias.
    E o Daniel não conhece?
    Perigoso é não pensarmos, e não tomarmos consciência. Se é por piadas ou é por outras formas, que achamos ou difundimos as opiniões pré-cozinhadas, tipo fast-opinion, isso importa pouco. O resultado não será diferente.

  18. 18 18  ROGÉRIO PERDIGÃO

    Sei que não existe deus algum, mas cada um acredita no que quiser…

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