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Sobre a confissão do novo Governador de Nova Iorque, David Patterson, revelando que quer ele quer a mulher tinham tido casos extra-conjugais, escreveu José Vítor Malheiros um excelente texto que me tinha escapado. Aqui fica um excerto, via O Tempo das Cerejas: «recusar aos políticos a reserva da sua vida privada é recusar a própria dignidade do que é privado».
Pelo seu interesse, permito-me citar na íntegra o parágrafo final desta crónica:«O segredo não é uma característica do vergonhoso como defendem os inquisidores, mas um direito e uma condição de liberdade. Não é que tenhamos o direito de não responder a estas perguntas. Temos o direito de não ser interrogados sobre elas. Temos o direito a que ninguém (na esfera pública) nos pergunte se dormirmos com outra mulher ou com outro homem. E temos o direito e o dever de combater o totalitarismo. O gesto de Patterson exigiu coragem, mas foi também um gesto de concessão ao que de mais venenoso existe nas nossas democracias. Se todos os políticos admitirem esta intromissão na sua vida privada, se admitirem aos rivais, aos media e aos vizinhos este escrutínio da sua esfera íntima, que valores defenderão ? E que garantias nos dão de que irão defender as nossas liberdades, quando chegar a nossa vez?».


12 respostas ao post “Defender a privacidade, obrigação do cargo público”  

  1. 1 1  Fado Alexandrino

    I can take no allegiance to a flag if I don’t know who’s holding it.
    Sir Peter Ustinov

    Há aqui muita confusão.
    Não é nada de admirar num país onde a nomeação de uma pessoa para um cargo na administração pública levanta um coro de dúvidas e insinuações se o infeliz tiver como apelido um nome igual ao de um ministro.

    Mas curiosamente os mesmos que atiram um calhau sobre um fulano ou fulana apressam-se a colocar paninhos quentes se um alto quadro que até pode ser um ministro tiver uma postura imoral.

    Vocês desculpem o palavrão mas eu acho que há coisas morais e imorais.

    E portanto se um alto governante for casado e tiver um/uma amante isso é relevante.
    Como é que eu posso ter confiança numa pessoa que leva uma vida dupla?

    Claro que se um jornalista tiver a mesma postura isso para mim não interessa absolutamente nada.
    Limito-me a esperar que não escreva sobre as alegrias do matrimónio.
    E se escrever chamo-lhe mentiroso.

  2. 2 2  Ze Lib

    A coisa não é assim tão simples - ou já estaria resolvida há muito. Ora vejamos: por mais que sejam liberais as modas há sempre interditos (ou não haveria quase prazer, nem modas). Esses interditos - e mesmo que se considerem aleatórios e «infundados» não deixam de ser interditos podem - e foram - aproveitados para chantagem: podem ser um ponto fraco. O presidente da república francesa tem uma filha ilegítima de uma cidadã alemã, o presidente dos USA tem um filho ilegitimo de uma irmã de Bin Laden, a ministra da guerra portuguesa dorme com um espia de uma potência inimiga (espanhol, no caso). W. presidente tem 14 filhos fora do casamento. Em quanto fica a protecção da criançada? Isto para não falar das contradições: B faz na vida privada o contrário do que defende em público, etc. Onde encontrar uma medida?
    E por vida privada, a questão do piercing como vai?

  3. 3 3  moralismos

    Eu não sei é porque hão-de fazer segredo da sua vida privada se não têm nada de censurável ( ou que censuram) a esconder .Sobretudo hoje em dia , que quase ninguém liga a nada . E parece-me mesmo muito mal que clamem aos 4 ventos contra aquilo que eles também fazem , neste caso , ir de putas , que até é ilegal ( pessoalmente não tenho nada contra , só tenho contra falsos moralistas e acho muito bem que lhes descubram a careca). O presidente da camara de Paris é gay assumido ; Miterrand tinha duas familias. São casos públicos e ninguém levou a mal , nem um nem outro andaram à caça de bruxas.
    Aquela coisa de ” Bem prega frei Tomaz” comigo não cola.

  4. 4 4  Isabel Coutinho

    E depois os católicos é que são moralistas.

  5. 5 5  Daniel Oliveira

    «Eu não sei é porque hão-de fazer segredo da sua vida privada se não têm nada de censurável ( ou que censuram) a esconder .»

    Porque a vida privada (desde que não se comentam ilegalidades) só é censurável por quem a pessoa resolve envolver na sua vida. Aos outros não diz respeito.

  6. 6 6  Arquiduquesa de Grayskull

    O caso de Spitzer era contudo diferente: ou não fosse o caso do senhor ter passado boa parte da vida a perseguir as máfias económicas, e a bandidagem dos dinheiros sujos da prostituição e de outras patranhas. Portanto, não me venham com a historieta da vida privada. É o mesmo que achar que não é relevante saber que o hipotético coordenador da brigada anti-droga é viciado em heroína. “Ah, mas é a vida privada do senhor”. Não interessa: se conflitua com o cargo, interessa.

    Quanto a Patterson, que é um caso diferente do Spitzer, claro que tem todo o direito de fazer os encornings que quiser à mulher e vice-versa. E o público não tem que saber isso. Mas… o espírito do tempo anda muito confundido e quadrilheiro.

  7. 7 7  Fado Alexandrino

    O senhor (Daniel Oliveira) faz-me lembrar aqueles políticos que no fim da conferência de imprensa quando os jornalistas levantam os dedos escolhem, não o maior mas aquele que trás acoplado um jornalista da situação.
    E por isso volto a pôr o meu no ar, para lhe perguntar:

    Aceita ter como governante um fulano que se diz honesto e em privado leva um vida dupla enganando a amante e a mulher (o exemplo dado é masculino apenas porque são mais)?

    Aceitaria ter como, digamos, ministro dos estrangeiros um fulano como Max Mosley que em privado organiza um bacanal com seis prostitutas em que se mascaram à vez de nazis e prisioneiros judeus macaqueando um campo de concentração?

    Perguntas simples para um sim ou um não.

  8. 8 8  Daniel Oliveira

    «Aceita ter como governante um fulano que se diz honesto e em privado leva um vida dupla enganando a amante e a mulher (o exemplo dado é masculino apenas porque são mais)?»

    Aceito e preferia nem saber.

    «Aceitaria ter como, digamos, ministro dos estrangeiros um fulano como Max Mosley que em privado organiza um bacanal com seis prostitutas em que se mascaram à vez de nazis e prisioneiros judeus macaqueando um campo de concentração?»

    Aceito e preferia nem saber.

  9. 9 9  Fado Alexandrino

    Uma resposta extraordinária!
    No seguimento do vídeo cá temos o velho aforismo olhos que não vêm coração que não sente e, isto já sou eu a divagar, o senhor não se importava que o Ministro da Educação fosse pedófilo, desde que não se soubesse, ou que o Ministra Para a Igualdade Feminina levasse regularmente umas chapadas do marido, desde que não viesse a público.
    Deixe-me dizer-lhe com muita franqueza.
    Compreendo-o muito bem.
    Salazar, não vou pôr aqui Doutor pois ainda se abespinhavam, também não gostava nada que se soubesses coisas e quando foi o caso do Ballet Rosé ficou muito aborrecido por invadirem a privacidade.
    Como o Daniel Oliveira!

  10. 10 10  Daniel Oliveira

    «No seguimento do vídeo cá temos o velho aforismo olhos que não vêm coração que não sente e, isto já sou eu a divagar, o senhor não se importava que o Ministro da Educação fosse pedófilo, desde que não se soubesse, ou que o Ministra Para a Igualdade Feminina levasse regularmente umas chapadas do marido, desde que não viesse a público.»

    Errado. São crimes e crimes públicos. Os outros dois casos que referiu não. Faz toda a diferença. Ou não?

    Não é olhos não vêem, coração não sente. É que não tenho rigorosamente nada a ver com o assunto. Não me diz respeito. Não quero saber. A pedofilia (em que se inclui o caso Ballet Rose) e a violência doméstica diz-me respeito. É por isso mesmo que são crimes. A infidelidade e as taras sexuais de cada um, feitas com o consentimento dos envolvidos, maiores de idade e na posse das suas capacidades, não são crimes e não me dizem respeito. Nem a mim, nem a si, nem aos jornalistas.

  11. 11 11  Isabel Coutinho

    as taras sexuais de cada um, (…) não são crimes e não me dizem respeito

    Desculpe, Daniel, mas não me apetece nada ter governantes tarados.

  12. 12 12  Fado Alexandrino

    É totalmente impossível fazer-lhe entender a minha ideia.
    E isto por uma razão muito simples.
    Para mim há coisas imorais especialmente quando aos costumes dizem respeito.
    Claro que é natural que um homem ou uma mulher se apaixonem por outra pessoa quando casados.
    E devem assumi-lo e não manter uma relação falsa.
    Até há palavras muito claras em português para se colocar em todos os intervenientes destes processos.
    E se mantêm uma relação falsa então também podem ser falsos em tudo o que executam na vida e mais ainda quando detêm o poder.
    Ma eu compreendo que para si, e aliás para uma franja não muito pequena de pensadores de esquerda, isto sejam conceitos do tempo dos afonsinos.

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