No programa Quadratura do Circulo, Pacheco Pereira (cito de cor) responde que se a ministra resolvesse adiar o encerramento das urgências em Anadia à espera de uma melhor alternativa isso seria errado. Porque é simbólico. Porque as pessoas perceberiam que podem conquistar as coisas na rua. E sublinhou: mesmo que tenham razão. Ou seja, a razão das pessoas e a sua saúde não interessam para nada. Porque na política, para Pacheco Pereira, tudo se resume a uma encenação de autoridade. Mesmo que se esteja errado.
Por Daniel Oliveira 31 Jan 08 em Democracia, Governo, Pacheco Pereira, Saúde


A política em Portugal (tal como em muitos outros sítios, quase todos sub-desenvolvidos curiosamente…) é encarada segundo essa perspectiva. “Encenaçao de autoridade” é uma expressao muito feliz, na medida em que implica necessariamente que ser político (em Portugal) é fingir, ou actuar num palco. É como um universo paralelo àquela realidade que pretensamente gere e representa. No fundo, grande parte da classe política portuguesa é composta por pessoas como o Pacheco Pereira, que diz as coisas que diz por ser “normal” no nosso contexto político. Quantas vezes no seu blog nao escreveu sobre o “drama” do português médio, sobre os que mal chegam ao fim do mês com os seus salários miseráveis, sobre o peso dos impostos, etc., etc., tentando dar-se ares de intelectual consciente da dureza da realidade das pessoas comuns? Nestes momentos revela-se.
Nao há pessoas, nao há doentes, nao há sofrimento, enfim, nao existe ligaçao entre política e gente. É tudo dialéctica e as nossas vidas sao simples fornecedoras de tópicos de discussao.
Bem observado!
Mas o pensamento de Pacheco Pereira é estruturalmente assim.
Não interessa a justeza das causas nem o valor das convicções. O que tem valor é o mérito da “jogada” política e não o objectivo a alcançar.
É o cinismo no seu máximo expoente!
en verdad, não há pessoas nem doenças, como não há pontes melhores que as outras ou outra coisa qualquer, se não precisão de debate político, como o recomendaria Sá Carneiro, p’ra tudo e para o PP arengar…
ai, e eu nunca vi sujeito mais sofista e presunçoso que esto que me valga diós!…
Há muito que deixei de ver esse programa. É como aquela comida que passa demasiado tempo no micro-ondas: não presta. Mas, segundo o Daniel, temos que nos resignar. É que os critérios editoriais são sagrados. E, quem os questionar é um tonto, que é o meu caso, diga-se de passagem.
O que vale por dizer: o povo que aprenda qual é o seu lugar e que não pense que manda alguma coisa.
Como não vi o programa, tenho esperança que o Daniel tenha percebido mal.
Caro Daniel,
Não o acompanho na sua observação pelo seguinte:
Obviamente que quem governa terá inevitavelmente de o fazer, não apenas tomando medidas de fundo tecnicamente correctas, como foi o caso de Correia de Campos, mas também pelo simbolismo da forma como estas se aplicam.
Todos sabemos que se a nova Ministra da Saúde recuar ou mesmo congelar o fecho da Urgência de Anadia será visto como um sinal de recuo e “fraqueza” na reforma ao SNS.
Ora, podemos ignorar a realidade e dizer que às vezes é melhor dialogar e procurar consenso na a população, sobre tudo quando na prática sabemos que tal nem sempre é possível quando as medidas que se aplicam são tudo menos simpáticas.
Populismo - 1 País - 0
Abraço,
O pior mal de todos é verificar que oposição, que tanto critica, quando se torna Governo mantém tudo aquilo que criticou e que permite uns números de défice mais simpáticos.
Planetas, em democracia o diálogo não é uma prerrogativa do poder. É uma obrigação. Claro que há um momento em que tomam as decisões e se aplicam. Mas a ideia instalada de que negociar e dialogar é sinal de fraqueza explica-se com os nossos 48 anos de ditadura. Ser um bom negociador é condição para ser um bom governante. A autoridade de um político mede-se pelos resultados e pelo acerto das suas opções, não se mede pela imposição de decisões erradas. Quando um governante contraria o protesto popular para impor uma decisão tecnicamente errada, apenas para mostrar a sua autoridade, retira autoridade ao Estado. Isto tudo parece-me uma evidência.
Outra evidência: é bom que as pessoas percebem que podem conquistar coisas na rua (pacificamente) e em todo o tipo de acções cívicas. Isso reforça a democracia, não a diminui.
E chama-se aisso um intelectual?Só se for no género’Nunca me engano e raramente tenho dúvidas’.De facto,os propagandistas levam muito a sério o seu papel de bajuladores e mentirosos por uma côdea…
Temo que tenhamos que ser realista.
Para um político, e mais ainda se ele for português, a meta é reeleger-se.
Para isso fará o que for preciso, na altura que lhe parecer correcta, para obter mais votos.
Nesta remodelação, e não sou eu que o digo, Sócrates que é esperto como uma raposa, tentou e vai conseguir atingir dois alvos.
Domestica o poeta adormecendo a ala esquerdista do partido, incentiva outros poetas e correlativos com o aceno de subsídios.
Não está nada mal pensado.
As outras medidas, alturas e cumprimentos surgirão quando necessários.
A oposição que se ponha a pau, vai ser muito difícil derrotá-lo.
Nota final. Para mim desde que o BE ou o PCP não cheguem sequer perto do Governo, está tudo bem.
Desde o ataque que fez aos Verde Eufémias e da manifestada tolerância para com os nazis do PNR que passei a chama-lo de Pacheco “Nazi” Pereira.
Caro Daniel a ministra não deve recuar porque a medida é sensata.O que se deve fazer é dialogar com a população para que esta compreenda que tem alternativas. Ou que vai ter alternativas mais eficazes.
Claro que é importante as populações virem para a rua!
O medo atávico de parecer mal, enfim, está a desvanecer-se!
Os comentadores da ‘Quadratura…” revelaram-se quando, unanimemente, consideraram de populistas as acusações, vindas de vários quadrantes, de que os salários dos gestores eram afrontosos num país em dificuldades como Portugal. São parte de uma elite que bota discurso, mais ou menos social dependendo da maré, mas que não abdica dos seus privilégios, enquanto o resto do País vive em quase inanição. Quanto ao estado actual das coisas, os comportamentos cívicos de protesto (manifestações pacíficas, petições, etc.), parecem insuficientes para desincrustrar a oligarquia cleptocrata que engorda à sombra das políticas neo-liberais.
“Quando um governante contraria o protesto popular para impor uma decisão tecnicamente errada, apenas para mostrar a sua autoridade, retira autoridade ao Estado.”
Tecnicamente errada? Isso é a sua opinião DO; se os ministros acreditam que a decisão é tecnicamente correcta nao devem ceder ao populismo e demagogia apenas porque a sua execução não lhes traz simpatia nem votos nem boas manchetes.
O povo vota de 4 em 4 anos, depois de feita a cruz, deve calar e obdecer. É assim a democracia para Pacheco Pereira. Extraordinário.
Mas ele não disse nada disso! Vcs estao a discutir uma frase que o homem não disse!!!
DO,aconselho a ouvir a crónica de hoje do Fernando Alves na TSF-Sinais.É à cerca das bolachas de lama consumidas pelas pessoas do Haiti libertado pelo grande democrata do Clinton, que nada têm para comer por não terem dinheiro.Pela prosápia de certos comentadores até pensava que fosse em Cuba ou Venezuela…
É chocante ,ver as fotos daquelas Pessoas que podemos ver na internet procurando por galletas de lodo.Chocante!
Com tanto corte na saúde (e outros sectores), ainda há muita gente que acha que o défice abaixo dos 3% é devido à capacidade milagrosa do nosso Excelentíssmo Primeiro Ministro e dos lacaios dos seus Ministros. Quando ao Peixeiro Pereira, está cada vez mais arrogante e imbecil!
Nélio, estando a citar de cor, escrevi o post um minuto depois de ouvir. Diga lá então o que disse ele.
JGS, eu não estou a discutir a medida, mas o princípio de que independentemente do acerto de uma medida não se deve “ceder à rua”
“Ou seja, a razão das pessoas e a sua saúde não interessam para nada. Porque na política, para Pacheco Pereira, tudo se resume a uma encenação de autoridade. Mesmo que se esteja errado.”
Esta do Daniel é boa. Até parece que o Daniel se interessa da saúde das pessoas.
Voltemos à lei do fumo do tabaco e das posições adoptadas pelo Daniel sobre esta matéria, em que se está borrifando para a saúde das pessoas.
Mas há mais.
Acabo de ver à pouca na televisão o Louçã, algures no Algarve, junto de populações que não querem os cabos de muita alta tensão a passar por ali. Diz Louçã com o seu ar de sabedoria, que há estudos que provam que que isso faz mal à saúde das pessoas.
Ora se há estudos científicos que já provaram à saciedade que faz mal à saúde é o fumo do tabaco, nos fumadores activos e nos passivos.
Mas há mais. Ainda hoje, um mês após a entrada em vigor da lei, o Sindicato dos Trabalhadores de Hotelaria, congratulavam-se com a lei e chamavam a atenção para locais onde ainda não está a ser cumprida a lei, porque são os trabalhadores que mais estão a sofrer.
Onde anda a solidariedade do Daniel e do BE com os trabalhadores da indústria hoteleira e com a saúde dos portugueses?
A propósito da remodelação, escrevia JMFernandes no Público de ontem:
(…) José António Pinto Ribeiro, para além de andar em más companhias, tem um perfil bem à esquerda do de Sócrates e apoiantes naquela franja de eleitores que estão bem na vida mas costumam hesitar entre votar PS ou votar no Bloco. Com ele a “esquerda caviar” está, de certa forma, de regresso ao governo e à pasta da cultura (…)
ié:
* JMF só anda com ” boas companhias”
* O Bloco “regressou” ao governo e à cultura
conclusão:
o Fado Alexandrino está lixado!
a ASAE vai passar a controlar as companhias de cada um!
Quando os políticos têm que ceder à rua, cedem mesmo, e pouco importa se acham ou não que se deve ceder. Só há duas maneiras de o poder poilitico nunca ter que ceder à rua: ou se constitui numa ditadura férrea - e nesse caso,qunando finalmente ceder, cede tudo, incluindo em muitos casos as vidas, as fortunas e a integridade física dos membros da Nomenklatura - ou fortalece a sociedade civil, criando válvulas de escape para que a pressão nas ruas nunca atinja níveis que obriguem a cedências.
Ora é precisamente neste ponto que o governo de Sócrates tem um grave problema: incapaz de reconhecer, e muito menos de respeitar, outra sociedade civil que não seja a que gravita à roda dos meios financeiros, vai deixando a vontade das pessoas sem outro canal para se fazer sentir e respeitar que não seja - a rua.
Por isso é que depois das entradas de leão se começam a pressentir as saídas de sendeiro. Se a multidão já fareja sangue, como eu penso que fareja, o espectáculo não vai ser bonito de se ver.
De facto desta vez JPP tem toda a razão.
Pois é os direitos da populações à saúde têm de ser assegurados! Isso é tudo muito bonito e na génese eu concordo com isso. Mas quem vai pagar tudo isto que as populações irresponsavelmente exigem, com a cumplicidade dos media e o patrocinio da câmara? Os contribuintes claro! E como? Aumenta-se os impostos? Descobriram poços de petróleo e eu não sei? É q isto ninguém quer ouvir! E isto é que interessa discutir.
Andamos a discutir a árvore e não vemos a floresta onde estamos!
E nem me venham com demagogias acerca dos ordenados dos gestores e que se pode poupar aqui e acolá! A isso chama-se irresponsabilidade.
E políticos que afirmam isso não são sérios! O Presidente da CM Anadia é um irresponsável e devia ter vergonha na cara. O que estas populações dizem é basicamente isto: nós queremos que todos os contribuintes o paguem o nosso hospital aqui à porta de casa! Isto é inaceitável!
Mais inaceitável ainda são os tribunais que se acham com autoridade para anularem decisões de política de saúde! Querem governar. Esses que nem a eles se governam! Onde já chegámos?
Estas ideias gerais com as quais me identifico a 100% foram expressas por Silva Lopes na Sic Noticias ontem. Uma peça de informação séria, aulas de 1a realidade fingimos não ver! Recomendo vivamente.
Leio esta conversa toda e só me dá vontade de rir!
Claro que as pseudo urgências da Anadia têm de fechar!
Vocês têm paciência para ver a “Quadratura do Circulo”?!! Não percebo como é possível aturar esses marretas nos seus exercícios de dialéctica demagógica. Quanto ao Pacheco Pereira: sempre achei incrível aquele ar presunçoso de quem já tinha percebido (qualquer assunto que seja!) à muito o que está em causa, só que está rodeado de ceguinhos.
O homem é o “esteta” da direita; de uma direita parola e matarroana, onde os Pachecos Pereiras da nossa praça fazem um vistaço.
Quanto ao comentário do post inicial: só vem confirmar o que já sabia. É um perfeito imbecil.
Sim, essa canalha que não tenha ilusões.
A remodelação levada a cabo por Sócrates é referida em alguma imprensa como uma cedência do primeiro-ministro à ala esquerda do PS, nomeadamente a Manuel Alegre, de cuja lista de apoiantes constava a ministra Ana Jorge. Alguns jornais vão mais longe e mencionam o facto de Ana Jorge ter subscrito a Carta dos Direitos do Utente do SNS, proposta pelo BE, lembrando também que Pinto Ribeiro foi apoiante de Sá Fernandes e estará “entre o PS e o BE”.
Ler mais em Luta Socialista
é muito bem visto
Ele não precisa dos SAP.
Ele trata-se entre amigos e na privada, e no estrangeiro.
De facto ele apenas fala porque lhe pagam para dizer não importa o quê.
Caro arrastão,
O problema é que não se trata de uma “encenação de autoridade”, trata-se mesmo de autoridade outorgada por eleicões livres por voto secreto. Não engana ninguém a vossa origem anarquista. Contudo no vosso interior(Bloco) decidiram quem manda sem tibiezas. Pensar princípios como sendo uma lei moral é muito fácil deduzir maldades o difícil é agir sobre o sentir e querer e as circunstâncias de dez milhões de pessoas reais, ainda para mais analfabetas politicamente.
Na “quadratura do circulo” ainda é possível ouvir questões interessantes, o mesmo não se pode dizer do “eixo do mal” onde quer ser engraçado quem não tem graça e sobre assuntos já de si desgraçados.
José Neves,
O problema é que essa tal autoridade outorgada em eleições livres por voto secreto sente mesmo assim a necessidade de se encenar - e de desautorizar quaisquer contestações que lhe sejam feitas fora dos «locais próprios».
Ora a verdade é que não há democracia sem um pouco de abarquismo. A rua também manda, e sempre mandou e há-de mandar, por muito que isto custe ao Pacheco Pereira e a si.