Este texto é a propósito de Scolari. Mas não é sobre Scolari. Se fosse, não podia ser tão extenso.
Por causa deste e deste texto é talvez necessário arrumar algumas ideias. Uma coisa são considerações de carácter, outra coisa são considerações éticas profissionais ou, por assim dizer, de deontologia profissional.
Primeiro por razões práticas. Um caixa de banco pode ser um pulha, mas é bom que não seja ladrão. Um jornalista pode ser ladrão, mas é bom que não seja mitómano. Um político pode ser um verme, mas é bom que não seja corrupto. Um seleccionador pode ser mitómano, mas é bom que tenha sangue frio e aguente a pressão. Porque as funções de cada um, não exigindo que sejam modelos de virtude, exigem, cada uma delas, qualidades específicas para o bom desempenho profissional. Se um seleccionador não consegue deixar de dar um murro num jogador adversário como pode ele tomar as decisões acertadas quando as coisas correm mal?
Mas há outra razão que nos leva à questão do “exemplo” e da “autoridade”. Um caixa de banco ladrão, caso seja do domínio público que é ladrão, põe em causa a credibilidade do seu banco. Um jornalista mitómano põe em causa a credibilidade do seu jornal. Um político corrupto põe em causa a credibilidade do Estado. Um seleccionador violento põe em causa a disciplina da sua equipa e a serenidade dos adeptos, indispensáveis para que a equipe funcione e para que o espectáculo seja sustentável.
Mas continuo. Não vale a pena voarmos na abstracção. Paulo Pinto Mascarenhas tem, como eu, experiência profissional no trabalho com dirigentes políticos. Sabe com toda a certeza que há traços de personalidade e de carácter que pesam no desempenho e nas decisões de qualquer político. Para o bem e para o mal. Partir do princípio que só “as políticas” e os resultados (já vou aos resultados) contam é partir do princípio que os actores individuais são irrelevantes. E o que é extraordinário é que seja eu, uma pessoa de esquerda que naturalmente (e mal) desprezaria o papel do individuo nas decisões políticas, a explicar isto a pessoas de direita. Quer isto dizer que votamos em políticos avaliando o seu carácter? Não. Mas ele não é irrelevantes porque afecta o seu desempenho e assim afecta as suas políticas.
Estas são as considerações práticas. Há outras. Diz Paulo Pinto Mascarenhas: «O murro de Scolari é o menos. O único problema é que empatámos.» maradona diz o mesmo por outras palavras: «Mesmo o vocábulo ‘desportivismo’ só deveria ser utilizado para significar que a vitória e a derrota deve ser recebida por vencedores e perdedores com a noção de que ‘para o ano há mais’, e não como uma avaliação de conduta.» E aqui entramos mesmo no plano deontológico. Não há funções sociais sem uma teoria do dever.
Para PPM e para maradona, tudo o que conta no desporto é a vitória. Para mim não. E isto é uma posição ética. Minha e deles. Dirão eles que sou um moralista. Não vejo em que é que a ética do “desportivismo” seja mais insuportável que a ética da vitória. Acontece que não concebo a vida profissional (de anónimos ou famosos) sem uma dimensão deontológica. Sem uma noção de dever aplicada a cada função. É por isso que aceito a hipocrisia e as contradições entre a vida privada e a vida pública/profissional (nós não podemos, porque não conseguimos, ser um exemplo a cada momento da nossa vida), mas não aceito a ausência de imperativos éticos em nenhuma função social. E isto inclui, como não poderia deixar de ser, o desporto.
E chegamos à questão dos resultados. Diz o maradona: «Se uma pessoa se obrigasse a votar no mais honesto e não no que tem melhores politicas para o país, temos que reconhecer que Francisco Louçã mereceria 99 por cento dos votos. Mas eu prefiro José Sócrates ou Paulo Portas a Francisco Louçã, porque prefiro ser governado por boas politicas que por pessoas honestas.»
Não vou discutir os casos concretos. Até porque dos três políticos só posso falar com propriedade da honestidade do primeiro. Discuto outra coisa: preferir «ser governado por boas politicas do que por pessoas honestas». Isto é partir do princípio que existem «boas políticas» sem nenhuma consideração ética. E isso é a negação da política. “Boas políticas” para mim, para o maradona e para o Paulo Pinto Mascarenhas não será seguramente a mesma coisa. Por divergências ideológicas, seguramente, mas também por divergências éticas. Aliás, as duas coisas não são coisas assim tão diferentes.
Quer isto dizer que eu tenho uma ética superior à de maradona e PPM? Nada disso. Não há nada mais irritante do que o sentimento de superioridade moral de determinadas correntes ideológicas. Mas é indiscutível que temos éticas diferentes. A do PPM e do maradona (e espero sinceramente não estar a ser injusto e se o estiver eles me corrigirão) leva-os a dizer, por exemplo, que no futebol o que interessa é que o seleccionador nos dê vitórias. É esse o dever do seleccionador. Sendo mais claro e talvez mais justo: a do PPM e do maradona leva-os a dizer que os bons resultados na economia é que garantem bem-estar. O crescimento económico é o dever dos políticos. A minha leva-me a dizer que que o desporto não faz qualquer sentido se não for jogado com auto-controlo e respeito pelo adversário. Que essa vitória é para mim uma derrota. Que o dever do seleccionador é antes de mais garantir um jogo em que determinadas regras são cumpridas. Só depois a vitória. E leva-me a dizer que os bons resultados na economia serão irrelevantes se a distribuição da riqueza não for o mais equitativa possível. Que é esse o dever dos políticos.
Claro que eu acho que eu é que tenho razão (seria de uma enorme falta de ética defender posições que considero erradas). Mas aceito que a posição de PPM não parte de uma inferioridade ética, mas de uma ética diferente da minha. É por isso que dizer que se escolhe “as políticas” e se quer “a vitória” sem fazer considerações éticas é uma contradição nos termos. A ética da vitória, se não temperada por outras considerações éticas, é, na minha opinião, um imperativo moral tão perigoso como outro qualquer.
Claro que se a ética pública vigiar a todo o momento todos os comportamentos em todos os domínios da vida torna-se totalitária. Mas a ausência de ética na avaliação de resultados não o é menos. Os fins não justificam os meios. E este é, parra mim, um postulado ético indispensável. Seja quais forem as políticas, as modalidades e as profissões. Vou mais longe: só os meios contam porque só eles determinam os fins e o seu valor moral. Será moralismo? Não. É a Civilização.
A comparação com o Dr. House, sugerida por João Miranda, é interessante. Voltarei a ela se a polémica continuar, porque o texto já vai longo. Recordando apenas isto: é ficção e só poderia ser ficção. E é por isso mesmo, pelo excesso de uma tese, que é excelente. Estando a tese absolutamente errada. Porque, se estivesse certa, a conclusão seria tenebrosa: os médicos são ditadores do nosso corpo e a sobrevivência ditadora da nossa vontade. Não há nenhuma personagem mais violadora das liberdades individuais do que a do dr. House. É a ética dos resultados. Isto, ficando-me pelo que estamos a debater. Que sobe a série há muitíssimo mais a dizer.
Sem comentários 14 Set 07 em Desporto



O meu filho de 10 anos pratica desporto (não é futebol) e participa em competições (até já foi ao estrangeiro!!)
Embora ele não tenha visto, soube pelos colegas na escola o que aconteceu.
Eu disse-lhe que o scolari já tinha ganho muita coisa, mas nessas situações não deu murros a ninguém. No entanto, nos dias em que ele ganhou alguém perdeu!
Se ele sabe ganhar, tem que saber perder. E se ele dá um murro quando perde, tem que ser despedido/expulso. Se o scolari não for despedido, o que devo dizer ao meu filho se um dia ele der um murro num adversário? O scolari é campeão também deu um murro e não aconteceu nada………..imagino eu que seja esta a resposta dele!
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Daniel, não generalizes porque eu só estava a falar de futebol. Não de política, jornalismo ou outro sector de actividade profissional. Desporto ou espírito desportivo são bonitos e eu também gosto, mas na alta competição – no futebol, sobretudo – o que conta é ganhar, nem que seja com uma mão no último minuto ou com um penálti mal assinalado. Qualquer adepto de um clube de futebol te dirá o mesmo, se não for hipócrita. Claro que é melhor ganhar limpo, mas à falta de melhor…
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Paulo, respondi aos dois e o paralelo foi feito pelo maradona. Ainda assim, não vejo porque, se deve haver ética no jornalismo e no futebol, ela não deva existir da mesmo forma no desporto.
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A nossa vida é uma conta corrente, com créditos e débitos.Scolari fez com a selecção o que mais ninguem conseguiu.Sem batotas!Ao mais alto nível e sem nenhuma vantagem em relação aos adversários.
Teve agora uma acção reprovável.Aplica-se a justiça desportiva.São essas as regras.O que não se pode é fazer do caso um exemplo de falta de deontologia ou das virtudes morais de Scolari.
Quanto ás faltas dentro do jogo fazem parte das regras.Se não fosse assim não estariam previstas as respectivas sanções.Não há futebol sem livres, sem penalties, sem cantos,sem cartões amarelos e vermelhos.
O pior de tudo é ver pessoas que têm exemplos nas suas vidas mil vezes mais condenáveis que Scolari, e vêm agora armar em virgens.
O Pinto da Costa vem pedir a “resignação”? de Scolari por achar que não tem perfil moral para ser seleccionador?Mas está a brincar?
O Paulo Pinto Magalhães vem dizer que só os resutados contam?Foi isso que fez comigo há dez anos nas páginas do Independente, sem se importar com a verdade?
Deixem-se disso!Scolari deve ser sancionado pela FIFA á luz dos regulamentos!E, para bem, da selecção e do bom senso terminar o seu contrato em 2008!
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Curiosamente, Daniel Oliveira tem uma opinião muito mais liberal que o PPM. A do PPM, neste aspecto, foi tudo menos liberal. Pretendeu impor a sua ética como a única válida. Afinal, eu posso querer votar num político incompetente. Estou pronto para arcar com as consequencias…
E se para mim o objectivo do futebol for ver “rodriguinhos”, em vez de ganhar? Não posso?
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Curiosamente, Daniel Oliveira tem uma opinião muito mais liberal que o PPM. A do PPM, neste aspecto, foi tudo menos liberal. Pretendeu impor a sua ética como a única válida. Afinal, eu posso querer votar num político incompetente. Estou pronto para arcar com as consequencias…
E se para mim o objectivo do futebol for ver “rodriguinhos”, em vez de ganhar? Não posso?
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E tens razão.
Abraço.
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“Não há nada mais irritante do que o sentimento de superioridade moral de determinadas correntes ideológicas.”
100% de acordo !!!
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Continuo a achar que o servio tem uma bela esquiva.
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Não é comparável o desporto q pratica um miúdo de 10 anos com futebol de alta competição. Isto não é desporto é ALTA COMPETIÇÂO! O objectivo não é competir mas GANHAR a qq o custo(como se vê pelo caso apito dourado)! O objectivo é ganhar e não dar exemplos às criancinhas!
PS: O árbitro expulsou o sérvio por agressão, mas pq é q nós só vimos a agressão do Scolari?
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De todas as declarações de Scolari, talvez a mais curiosa seja esta – que cito de memória:
«Mostrem lá as imagens o que mostrarem, o certo é que eu não fiz nada»
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Pretendem que a selecção só representa Portugal quanto obtem vitórias. Mas enganam-se! A selecção representa Portugal nos bons e maus momentos!
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É admirável a naturalidade com que tantas pessoas já se renderam ao lodaçal dos ditos desportos de “alta-competição” em que apenas interessam os resultados e a qualquer preço. Mas querem fazer-nos crer que não estão lentamente a tornar-se nesse tipo de gente também nas outras actividades da vida…
Claro que é possível. Tudo é possível!
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A selecção nacional representa o Pais assim como o seleccionador.
Os meus amigos europeus, referem Portugal frequentemente como a equipa que agride arbitros, adversários e que inclusive se agride a si própria ( o inesquecivel caso Sa Pinto).
Esta formula autodestrutiva, reles e indisciplinada é transmitida em horario nobre á volta do mundo nos telejornais em diversas linguas com mais frequencia do que qualquer campanha do ALLgarve que incomodou tanta gente e que apesar de infeliz pretende dizer o bem do nosso país.
Roubar cartoes vermelhos é uma vergonha mas sendo praticado por um garoto, pode se chamar uma garotice.
O miudo nçao pôe os pés na selecção no próximo ano e meio.
Um seleccionador que faz o que Scolari fez e que como forma de arrependimento vem para a televisão pública MENTIR descaradamente numa tentativa de falso arrependimento merece o quê?
Especialmente tendo em conta que ele é também o seleccionador ( superior hierarquico) do rapaz que brinca aos cartões?
Se o seleccionador fosse o Fernado Santos tinha sido cruxificado.
Como é brasileiro e ganah 150 mil euros por mes deitam água na fervura.
A hipocrisia é uma coisa muito feia.
Se este senhor me representa a mim e ao meu país, isso quer dizer para os outros que eu também sou assim, como ele.
Parece me que graças a este senhor continuaremos a ser vistos na Europa e no mundo como os emigrantes incultos pedreiros da Alemanha e as analfabetas mulheres-a-dias de França durante mais uma boa década.
Muito para além da aventurinha de Scolari na selecção que acaba em 2008.
Um dia Scolari vai embora. E o meu país vai ser o mesmo.
O que fica é a imagem do que se passou.
Tenham juizo. Não há vitorias que apaguem a desonra.
Não há campeonato que apague a vergonha que sinto de ser português nestes momentos. Nem o estigma que me acompanha quando viajo por esse mundo fora…
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Não sei por que o espanto… Cá no Brasil, ao menos dentre os que ainda têm caráter, não esperamos nada de Scolari. São famosas suas declarações estapafúrdias e acanalhadas à imprensa, como, por exemplo, aquela segundo a qual “Hitler não devia ser tão mau, já que tinha tantos adeptos”. É um exemplo, e não único, do modo Scolari de ver o mundo.
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