Google China
Imagem: Reuters

A Google, Inc. não é propriamente uma corporação de anjos. Passaram já os tempos juvenis e idealistas de Larry Paige e Sergey Brin, os dois ex-estudantes de doutoramento da Stanford University que em 1996 arrancaram com o inovador e eficaz serviço de pesquisa, e nos últimos anos, para crescer e se afirmar no universo empresarial, a companhia precisou estabelecer acordos com grupos económicos e com governos nem sempre interessados na livre circulação da informação. Mas paradoxalmente esta escolha acabou por aproximar um perigo que a pode aniquilar, e por isso há que agir com algum cuidado. Acontece que, dadas as suas características, os serviços da Google requerem uma relação de confiança, um compromisso, com a liberdade fruída pelo utilizador comum, sem a qual este deixará de confiar nos serviços que utiliza, acabando por trocá-los por outros. Não quero ser cínico – nem sou capaz, obviamente, de adivinhar aquilo que passa pela cabeça dos administradores da empresa sediada em Mountain View, Califórnia –, mas estou em crer que a constatação deste perigo terá pesado na atitude adoptada pelos seus responsáveis no conflito que mantêm agora com o governo chinês. A censura sofisticada e implacável da Internet em curso na China – cujo governo continua empenhado em combinar a face mais execrável do capitalismo selvagem, que inclui até a espionagem industrial por via informática, com a vertigem repressiva que traduz o lado mais negro do “socialismo de Estado” – preocupará os responsáveis da Google na medida em que, se estes fazem cedências excessivas ao limitar da liberdade de circulação da informação dentro do imenso território chinês, irão, muito provavelmente, perder a confiança dos utilizadores e clientes no resto do mundo. E não convém arriscar.


17 respostas ao post “Google China, Inc.”  

  1. 1 1  Antonio Cunha

    Embora fazendo um ligeira aproximação ao ocidente a China mantem todos os tiques totalitários que caracterizam a escumalha comunista que tem governado esse imenso pais ao longo dos anos. E a internet tornou-se num meio muito perigoso que poderia por em causa a manipulação e o controlo das populações. Assim a china tudo faz para impedir que se torne em algo muito perigoso. Alem disso o governo chines tem tentado usar a internet para tirar dividendo, nomeadamente na espionagem cibernetica.

    “Em nenhum momento o Google acusou o governo da China de promover os ataques cibernéticos, mas especialistas acreditam que eles não poderiam ser realizados na escala em que ocorreram sem a conivência oficial.”

    Ainda falta muito para que a China se torne em algo sequer parecido com uma democracia.

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  2. 2 2  Vítor Jesus

    Mercado a funcionar a favor dos direitos humanos?

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  3. 3 3  chapeleiro louco

    seja porque razão for, empresas como esta só mudam as suas acções quando se lhes pisam os calos. uma empresa não entende outra linguagem, e das duas uma ou pisamos-lhe os calos ou somos pisados e quando não somos “nós” são “outros”. “outros” que não são “eles” mas que são como nós.

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    Libertário Reply:

    Uh?! Quer dizer, o estado chinês faz uma tentativa de espionagem às contas de gmail de activista pró-democracia. A Google protege os dados e diz que não pactuará com este tipo de situação mesmo que isso lhe custe um lucrativo negócio na China e ainda por cima são eles que ficam mal vistos na sua opinião??

    O_o

    chapeleiro louco Reply:

    caro libertario,

    muito pelo contrário, eu refiro-me à conivencia desta empresa com a censura, alias a criação de produtos para esse fim ( http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/4645596.stm ).

    de resto, a google só está a repensar a estratégia porque muitas pessoas sabem disso e temem retaliações até porque eles nao tem tanto peso na china. isto é uma espécie de dois em um… sao herois aos olhos dos menos informados (grande publicidade) e perdem mercado no qual nunca tiveram grande sucesso.

  4. 4 4  Pedro Rocha

    Quase que consegui tornar uma acção MUITO positiva da google em algo que apenas visa o lado lucrativo…

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  5. 5 5  Hugo

    Uma perspectiva mais cínica:
    (a) na China, apenas 25% das pesquisas online são feitas no Google. O concorrente principal é um motor-de-busca chinês — Baidu — controlado pelo governo, pelo que, sabendo como funciona o “mercado” na China, há que questionar a sanidade de pretender competir com o Estado;
    (b) apesar de ser um mercado emergente, o poder de compra médio dos chineses é ainda extremamente baixo (e o Google é uma empresa de publicidade, conforme admitem os seus fundadores), pelo que os lucros do investimento numa presença in loco (de servidores, escritórios e pessoal) não compensam os custos;
    (c) uma empresa que escolheu como mote “don’t do evil” vinha sendo criticada\ridicularizada pela prática de censura. Este é o golpe de relações públicas perfeito: vai ganhar em imagem onde há dinheiro, perdendo onde, por enquanto, só existem miragens, despesas e problemas.

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    Nelson Reply:

    (a) (b) São 30% e dão um lucro estimado de 600 milhões, com um potencial muito maior caso ficassem. A China tem a maior população online do mundo, o que ganham menos por pessoa ganham em quantidade, além de que eventualmente a moeda chinesa vai-se valorizar e aumentaria os lucros.

    (c) já estudou os motivos que levaram o Google a ir para lá? incluindo os do sergey brin que foi o principal opositor inicial à instalação na China? não são tão descabidos… Acha que uns dias de atenção na net valem 600 milhões só este ano? E arriscarem-se a tornar irrelevantes no longo prazo ao perderem o maior mercado do mundo?

    Hugo Reply:

    Tendo em conta que os mesmos analistas previram c.d. 900 milhões de lucro para o Baidu — que detém mais do dobro do mercado que o Google — é difícil atribuir qualquer credibilidade a esse valor de 600 milhões. Mas mesmo que fosse verdade — não é –, seriam 2% dos 26 biliões anuais gerados pelo Google ( http://paidcontent.org/article/419-googles-drummond-revenues-from-china-are-immaterial/ )

    “Uns dias de atenção na net”: http://arstechnica.com/tech-policy/news/2010/01/google-and-china-the-attacks-and-their-aftermath.ars

    Nelson Reply:

    Não é assim tão difícil de acreditar nesses valores.
    “Google’s audience generally has higher average incomes and education, plus more spending power” e consequentemente a publicidade rende muito mais.

    Citando a fonte desse mesmo artigo:

    “if Google is not allowed to operate in China, beyond the immediate revenue loss, this could potentially have a far-reaching impact on the company’s overall long-term growth rate”

    “A more cynical view would say that perhaps Google is cutting its loses and getting rid of a money-losing unit. I don’t think so — for once Google is sticking to its aspirational goal: do no evil. It is a shame that they were kowtowing to the Chinese government in the first place — but better late than never.”

  6. 6 6  Hugo SS

    Parece-me evidente que a solução que o google pretende tem mais a ver com liberdade do que a posição “defendida” pela china. Uma verdade não passa a ser mentira por ser avaliada numa outra perspectiva.

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  7. 7 7  joao

    Estou escandalizado! A Google faz censura de conteúdos para a China?! É um escândalo!

    De facto nunca a FOX o fez para a Casa Branca, ou o Público para as entidades patronais!

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  8. 8 8  Nelson

    Discordo com o que foi escrito no artigo. Os serviços da Google não são
    diferentes daqueles que são oferecidos por várias outras empresas na China, do
    tipo de “cloud computing”. Não estou a ver mais nenhuma empresa a fazer
    o mesmo.

    Além disso não é assim tão crucial no meio disto tudo estar a adivinhar
    os motivos que levaram a esta decisão, mas se o querem fazer… é um
    pouco inútil afirmar que uma quantidade desconhecida de motivos
    estratégicos/egoístas podem ter influenciado a decisão. Além de absurdo
    insinuar indirectamente sem grandes argumentos que é dos principais, pois qualquer analista
    diria que esta decisão é bastante má para a empresa, ainda que tenha
    alguns benefícios.

    Se vissem Cristo a fazer um milagre
    diriam que era promoção pessoal ou exibicionismo e ignoravam tudo o
    resto, como se o papel de um crítico fosse tornar qualquer coisa em algo
    negativo.

    Além disso parece que falta aqui muita pesquisa…

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  9. 9 9  Joana Lopes

    O Google poderá deixar de estar acessível em chinês mas continuará a sê-lo em inglês – isto até pode ser encarado pelo governo da China como um incentivo à aprendizagem de línguas estrangeiras :-)

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  10. 10 10  0ovo0

    Não é só a China que censura.

    http://www.snotr.com/video/1751

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  1. 1 Arrastão: A muralha da China 2.0
  2. 2 Muralha 2.0 | rmartins.org

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