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Vê-se entre a estupefacção, a gargalhada e a mais profunda depressão. “Jesus Camp”, de Heidi Ewing e Rachel Grady, acompanha uma colónia de férias infantil de fundamentalistas cristãos nos Estados Unidos. Uma pastora infantil faz uma autêntica lavagem cerebral (já começada pelos pais) às crianças, com muitas lágrimas, muito teatro e muita pressão psicológica. Não se fica por uma visão muito particular do cristianismo. Não se fica por explicar que não devem ver o Harry Potter porque é um feiticeiro. Não se fica mesmo pelo fanatismo contra as restantes religiões, criando um exército de gente intolerante.

A doutrinação vai até à política mais pura: da nomeação de um juiz do Supremo à santificação de George Bush. Resultado: crianças histéricas, fechadas para o Mundo, arrogantes nas suas crenças, intolerantes com tudo o que lhes seja estranho, mecanizadas e com um enorme sentimento de culpa por tudo o que fazem.

É o excesso que é novidade e ele faz toda a diferença. É fácil formatar crianças. As religiões e as ideologias totalitárias fazem isso. Todos os pais o fazem um pouco e, dentro dos limites do respeito pela autonomia dos seus filhos, é natural que o façam. Depois, ou elas seguem o que lhes ensinamos ou questionam ou revoltam-se. Mas há uma fronteira. O que vemos em “Jesus Camp” é outra coisa de outra natureza. É uma experiência assustadora que tenta matar todo o espírito critico e curiosidade da infância. E que expõe aqueles miúdos a absurdas doses de pressão psicológica e emocional.

Os evangelistas são hoje 25% da população dos EUA e representam um bloco político e eleitoral fundamental para o Partido Republicano. E é nessa força que se concentram. E é nas crianças que apostam. A pastora não tem qualquer receio de comparar as suas estratégias com as do islamismo mais fanático. E diz, com indisfarçável orgulho, no fim do documentário: «quando os liberais radicais virem isto vão pensar: meu Deus, não sabia que isto era possível? Imaginem como serão estas crianças quando crescerem.» Acerta em cheio. Só que não serão os liberais a pensa-lo. É qualquer pessoa normal.

Nada disto se passa nos territórios ocupados da Palestina, nas cidades israelitas com medo de bombas, no Afeganistão analfabeto e varrido por guerras sucessivas, nas atrasadas ilhas Filipinas. Passa-se no Ocidente, no Primeiro Mundo. No país que escolhe o presidente que decide da vida de quase todos nós. Assusta. Assusta muito.

Trago novidades deste filme depois de passar pela segunda vez no Doc.

No Doclisboa vale muito a pena ver os documentários escandinavos inseridos no ciclo “Vendo Norte”. Ontem vi dois: “O Mosteiro” e “Cool and Crazy”. Não sou critico cinematográfico e decidi deixar aqui sobretudo o registo sobre os filmes mais políticos (no sentido mais amplo do termo). Não quer dizer que sejam os melhores. “Cool and Crazy” foi, até agora, o meu preferido.


13 respostas ao post “Jesus Camp”  

  1. 1 1  rvn

    subscrevo, daniel.

    é de facto assustador o que aqui se vê, quase tanto como aquilo que não foi filmado desta vez só por acaso. mas que existe, no coração da américa profunda e fundamentalista. e que qual polen das flores que somos todos nós, se espalha pelo mundo na picada do insecto hollywood.

    baygon??

    rvn

  2. 2 2  marieta

    e a esta hora
    estará o JPP ocupado
    a abominar no Abrupto
    a lavagem das escolas
    das madrassas, enquanto,
    qual touro bravo, pelas
    venerandas ventas espuma…

  3. 3 3  Filipe Tourais

    As verdades oficiais absolutas e o acriticismo são cada vez mais um elemento fundamental em muitos regimes. Os media e os sistemas educativos são orientados para criar populações facilmente manietáveis e alérgicas a vozes dissonantes, ao limitar a sua autonomia na formulação de juízos de valor. Vejo este documentário mesmo depois de ter visto outro, do new york times, feito com depoimentos de resistentes iraquianos, que também tem o inconveniente de fazer pensar, que é uma chatice.

  4. 4 4  Justicialista

    De qualquer forma, ninguém diria que o Presidente Bush se comporta segundo os dogmas do Cristianismo.
    A Nação Americana: ao lado da completa ausência de valores morais na América “liberal”, temos o fundamentalismo mais selvagem na América “conservadora”, com algum espaço para o meio termo nestes dois pólos.

  5. 5 5  marieta

    Malta, ó Daniel, uhu, e que faz aí o dólar americano a 1,436 do Euro?… que faz? será da força do dólar US ou ao contrário?!

    E se vai ao 1,50, como há tempos alguém aventava?

    Pois que por este andar é baixar o Euro, que o dólar da suprassuma América ainda vai a metade do valor do Euro, 2$ por 1€…

    E toca a cambiar, maltosa, que se eu tivesse dinheiro, sabem o que fazia? Comprava Euros para trocar por dólars e logo reaver Euros com ganho!…

    Mas aonde é que isto vai parar, ó Daniel, ó liberais da economia e finanças e comércio, que não nos dizeis népia dos projectos do mercado?!

    Ai, ai, que se eu fosse americano emigrava…

    p’ra onde? P’ra Portugal, que, apesar do Sócrates, do Barroso e Menezes, além do PPortas, ainda é mais solarengo, mais liberal e barato!…

  6. 6 6  RJ

    O documentário apresentado mostra o que Richard Dawkins nomeia de “Child abuse”, mas neste caso uma versão muito problemática,já que, tal como indicado, se passa no “Ocidente”. Na prática isto é como que uma formatação geracional, tal como o Daniel Oliveira indica. A histeria é a palavra de Ordem!
    Destaque-se a presença de Ted Haggard no vídeo, um exemplo de “moral e bons costumes” para qualquer cristão evangélico…

  7. 7 7  The Studio

    Um pouco off topic: Acabei de assistir ao Eixo do Mal e o Daniel é claramente um dos participantes mais inteligentes. Mas já agora explique lá, uma dúvida que se suscitou nos espectadores: Porque é que a Palestina é uma bandeira da Esquerda e o Curdistão não o é. Não se trata em ambos os casos de povos sem direito ao seu próprio país?

  8. 8 8  Budapeste

    Com estes malucos de um lado e os outros malucos que a gente sabe do outro, coitados dos que ficam no meio e nem têm nada a ver com estas maluqueiras politicas e religiosas…

    Deus nos livre deles…

  9. 9 9  Daniel Oliveira

    The Studio, está enganado, a causa curda sempre foi uma causa da esquerda.

  10. 10 10  MigPT

    É curioso ler algumas passagens deste post e do post mais acima “My country, my country”. Neste post existem fanáticos, no outro existe um religioso profundo. Critérios.

  11. 11 11  Daniel Oliveira

    Ser religioso profundo e fanático não é a mesma coisa. Se chamei a este protagonista religioso profundo e não fanático é porque ele não é, ao contrário de muitos dos seus colegas de partido, um fundamentalista. Veja os dois filmes e no0tará a diferença.

  12. 12 12  FVS

    A religião é uma coisa complicada. Tanto pode estar na origem de algumas das mais admiráveis manifestações do espírito humano, como de profundas e inquietantes cretinices. O fanatismo histérico de cariz religioso é uma estupidez perigosa.
    Não sendo crente, fico apreensivo com estas erupções de demência colectiva, se tivesse uma fé, qualquer que ela fosse, ficaria verdadeiramente preocupado.

  13. 13 13  maiara

    Mais uma reportagem!

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