O Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL) é muitas vezes motivo de gozo por causa da suposta ingenuidade dos anos quentes pós-revolução. “As operações SAAL”, de João Dias, é um inteligente e raro trabalho de investigação sobre a generosidade e o esforço que muitos depositaram naqueles anos. Por decisão do secretário de Estado Nuno Portas avançou-se com um projecto: construir casas para as centenas de milhares de pessoas que viviam em barracas quando a ditadura chegou ao fim. Os arquitectos faziam os projectos com as a participação das populações, os moradores construíam e o Estado pagava os materiais.
Uma coisa aparentemente clara leva o debate para quase todo o lado. No Porto, em Lisboa, em Setúbal e no Algarve as coisas vão seguir caminhos um pouco diferentes, dependendo do meio, das populações, dos arquitectos e das suas convicções ideológicas. Os equívocos entre o que queriam os arquitectos e o que esperavam as populações, os limites da participação, o papel de intelectuais e técnicos num processo deste género.
“As operações SAAL” tem muitos momentos de humor (como um morador que nos mostra uma casa completamente alterada e diz: as janelas não eram de alumínio, o chão não era assim, isto não estava com alcatifa, mas o resto é como o original, tudo do arquitecto Siza Vieira»), momentos desconcertantes e de enorme clarividência (“já chega de participação, agora queríamos as casas”). O melhor é mesmo quando um morador se vira para um arquitecto que queria saber das aspirações populares e explica: «o senhor arquitecto faça como se fosse para si que de certeza que eu vou gostar». Mas as coisas não são tão simples e a prova é como os moradores transformaram o espaço que passou a ser seu. E as reacções à necessidade de auto-construção: foi o senhor arquitecto que construiu a sua casa? E o oposto: um enorme orgulho com que no Algarve mostram o que fizeram com as suas próprias mãos.
Por mal que se diga do SAAL, na maior parte dos casos os resultados foram bem melhores dos que os inenarráveis projectos de realojamento dos anos 80 e 90. E foi dos poucos momentos em que os arquitectos se confrontaram de forma mais directa com o seu trabalho. E dali poderia ter nascido muita coisa interessante se os ajustes de contas não tivessem pesado mais.
“As operações SAAL” permite discutir arquitectura, democracia participativa e cidade (no Porto o SAAL acabou por ir mais longe na discussão do próprio urbanismo). Mas para isso é preciso ver um mesmo o filme que tem a coragem de não ficar nem na propaganda nem no burlesco. Excelente.
4 comentários 29 Out 07 em doclisboa




estou neste exacto momento a redigir uma mera referencia ás SAAL num pequeno trabalho sobre arquitectura contemporanea em portugal, e de todo penso que são um motivo de gozo, seja por quem for. não vivi esses anos, não vi o que realmente se terá passado, mas o conceito de algo tão humano e realista ñ pode ser motivo de gozo! não quando existe um pequeno “guetto”, chamado Vila D’Este, totalmente construido para alojar os indesejaveis, pobres, incomodos, e todos os que tiveram a infelicidade de habitarem num local que foi apropriado para a construção de imoveis de luxo e ICs. nos tempos mais atuais, ñ foi considerado o “direito de lugar”, nem se pensou sequer que se estaria a fazer a mesma coisa que no estado novo, afastar para a periferia. tambem não se pensou nas consequencias graves que este segregacionismo pudesse ter nas comunidades…nem tão pouco se pensou nas arquitecturas tenebrosas desses bairros..
enfim, é mt facil falar mal, quando ñ s tem nada de bom para acrescentar, mas acho que deviamos mostrar mais respeito pela SAAL, e a cima de tudo, estudar mais sobre isso. e talvez se aprendesse alguma coisa de bom…
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Foi um projecto com algumas ingenuidades , e certo mas com muita vontade de mudar vidas e algumas apostas bem dirigidas e ao seria nada mau se pudesse ser reavivado sobretudo agora que o problema volta a estar na mesa dadas as enormes dificuldades .A verdade e que pouco ou nada se tem feito no que respeita a protecçao dos direitos dos que pouco ou nada tem e esta nossa realidade de barracas e programas de televisao a mostrar que os pobrezinhos sao afinal muito felizes lol esta a precisar de urgente remodelaçao.Os SAAL, por muita inexperiencia que houvesse tido deu frutos. Talvez nao de primeira qualidade mas foi uma experiencia que tentou alguma coisa.Porem dai para ca nada mais se fez e essa e a pior das realidades num pais onde existem cada vez mais pessoas que apesar de Abril , dos cravos e de de algumas boas intençoes ainda nao tem a casa a que todos tem direito.
Este tornou-se num pais cinzento e insosso.
Assim sendo mais SAAL por favor.
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Boas.
Preciso de alguma informação a respeito deste Projecto.
Nomeadamente ao facto das autarquias (em particular?) estarem a exigir diversos projectos relativos a estas habitações derivado de decretos-lei do ano de 1991.
Podem exigi-los actualemente ?
Apelo a quem estiver mais dentro do assunto e me possa facultar alguns esclarecimentos.
Melhores cumprimentos.
d_inis@hotmail.com
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