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Como prometido, aqui vai o “relatório” do primeiro filme do Doclisboa 2007.

Abu Ghraib não foi, como tentou fazer crer a Administração Americana, resultado da acção de umas “maçãs estragadas”. Métodos semelhantes eram usados na prisão de Bagram, no Afeganistão. E, de uma forma mais “limpa” e profissional, foram usados em Guantanamo. A Administração garantiu que todos as regras tradicionais para interrogatórios desaparecessem, tornou tudo vago e depois libertou as feras. As feras, grande parte delas, eram arraia miúda. Sem treino na matéria. À solta. A cúpula militar aumentou a pressão para ter resultados.

Abu Ghraib não foi um excesso. Foi resultado de uma estratégia premeditada de conseguir resultados sem olhar a meios. Abu Ghraib nem é o mais grave, garante quem se viu envolvido nos casos. Foi apenas o que se soube. A humilhação de prisioneiros, os espancamentos e a morte aconteceram noutros pontos.

Num documentário documentário e factualmente inatacável, Alex Gibney, filho de interrogador da marina americana na II Grande Guerra e na Guerra da Coreia, parte da morte por maus tratos de um taxista afegão reconhecidamente inocente para o mundo da tortura imposto pela Administração de George Bush. Sem facilidades, com depoimentos de soldados envolvidos nas torturas e responsáveis legais e políticos desta Administração “Taxi to the Dark Side” é o melhor documento sobre o assunto que vi até hoje. Junta quase tudo o que se foi investigando sobre o assunto. Só no Iraque há centenas de mortos nas prisões americanas que descritas pelos médicos militares como homicídios.

A descrição do descontrolo instigando, da barbaridade e do sadismo da violência repetida contra gente sobre as quais nada se sabia (90% foram entregues pelos aliados no Paquistão e no Afeganistão a troco de recompensa) nas prisões militares americanas são o retrato de um poder que ultrapassou todas as fronteiras. E tudo começou quando se decidiu não aplicar a estes presos a Convenção de Genebra: o sinal de liberdade estava dado. Uma opção criminosa mas premeditada. E premeditada mas estúpida. Perante a tortura, poucas informações relevante foram recolhidas e muitas falsas pistas levaram a caminhos errados.

Diz um soldado que participou nas torturas (cito de cor): «é verdade que me podia podia ter guiado pelos meus padrões morais e não por o que ali era normal». E o que era normal era a bestialidade. E é a sua normalização que cria o Inferno. Mais do que um homem sozinho ou louco.

Recentemente a revista Atlântico pôs um bigodinho de Hitler em Che Guevara. Justificaram assim: «é claro que, a haver encarnação do mal absoluto na história (falemos assim para simplificar), Hitler é um dos melhores candidatos ao lugar, e o “Che” ocupa uma posição, no mínimo, secundaríssima, tão secundária que só nos lembramos dele pelo entusiasmo com que boa parte da esquerda adolescente e ritualmente o festeja. Mas a questão da capa (e do artigo de Rui Ramos) não era essa. Era, como o artigo de Rui Ramos explica bem, o desprezo pelos seres humanos que as ideologias totalitárias, de que o nazismo é paradigmático, permitem e legitimam. E aí, o “Che” é um exemplo tão bom como qualquer outro.»

Pois vejam o documentário. Não são os campos de concentração nazis, mas ali está tudo a que se referem: a bestialidade, a desumanização do outro, o absoluto desrespeito pela vida humana, o fim de todas as fronteiras em nome de uma causa. Por dizer defender a democracia é diferente? Até quando e até onde? Até não reconhecermos democracia nenhuma? Nada disto foi há quarenta anos. Foi agora. Têm, por isso, muitos bigodinhos para distribuir pelos homens que apoiaram até hoje. Eu não os punha, porque apesar de toda esta selvajaria, levo muito a sério aquele bigode pequeno. Mas se são tão generosos na distribuição, não podem deixar de ser coerentes. O crime está a ser no vosso tempo, com o vosso aplauso, em pleno século XXI.


Sem respostas ao post “Taxi to the Dark Side”  

  1. 1 1  Bang Bang

    Daniel não duvides que a rapaziada da Atlântico preza muito a coerência. Por isso não te admires – agora que é por demais evidente que Bush tem um profundo desprezo pelos seres humanos -, que a capa da próxima revista seja o dito cujo com um bigodinho.

    Os Atlânticos quando erram assumem o erro sem complexos. A verdade está acima de tudo.

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  2. 2 2  rui corrêa

    Daniel, por acaso sabe se este documentário já está em comercialização em Portugal? Ou se não, a partir de quando?

    Obrigado.

    [Responder]

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